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terça-feira, 30 de março de 2010

Os dias contados nesta semana (II)

A Espada e o Hissope
O passado da Igreja no que diz respeito a alguma evangelização não é nada famoso nem muito menos exemplo de caridade cristã para ninguém. Porém, não devem ser essas manchas negras que devem aprisionar a Igreja ou remetê-la a uma inércia doentia perante os desafios e as novas realidades que o mundo apresenta. Nada pode condicionar a Igreja, mas antes tudo deve relançá-la nas coisas da vida com paixão e dedicação total.
Mas, o passado. Sempre o passado... Penso que em nenhuma discussão sobre os sacerdotes ou sobre qualquer aspecto da Igreja, o passado é sempre uma arma poderosa para argumentar. Por isso, para uns, é preciso reconhecer e assumir sem medo nem vergonha o passado, mas, para outros, é preciso alargar o entendimento e não apresentar-se sempre com os mesmos argumentos no diálogo, no debate. A sabedoria da vida ensina que é preciso alargar os horizontes e é preciso saber enquadrar os acontecimentos num determinado ambiente e dentro de um padrão de mentalidade que não é nem pode ser a nossa própria mentalidade. Não posso de modo nenhum ajuizar sobre as mulheres e os homens do século XII à luz do pensar e viver dos séculos XVI, XVII até ao XXI. A proceder deste modo seremos profundamente injustos e desonestos.
Mas avancemos na nossa reflexão. A espada e o hissope ou a cruz, estiveram lado a lado a fazer a história das mulheres e dos homens que nos precederam. A Igreja em muitos momentos da sua acção dita evangelizadora promoveu a espada e o hissope. A violência, o sofrimento e a morte foram o fruto da benção que o hissope simbolizava.
É este passado que persegue a Igreja e que frequentemente muitos irmãos nossos se servem para a julgar e pura e simplesmente justificar o seu afastamento ou recusa em fazer parte da Igreja. Hoje, a Igreja não nega este passado. Pelo contrário, penitencia-se dele e procura purificar essa memória negra e procura novos caminhos para se apresentar aos homens e ao mundo. A acção dos últimos Papas tem sido irrepreensível nesse sentido. Por isso, sucedem-se os sucessivos pedidos de perdão e a necessidade cada vez mais forte para purificar a memória.
Estas formas ditas de evangelização aconteceram em muitos momentos da história da Igreja, porque a Igreja perdeu a fidelidade ao Evangelho e imiscuiu-se na política. A Igreja não tem jeito para fazer política, isto é, deve ser a Igreja profundamente política, na verdadeira acepção da palavra, mas não deve ser partidária. Não deve tomar partido por nenhum sistema político nem muitos menos deve estar ao lado de nenhuma força partidária. Sempre que tal aconteceu o mundo perdeu e a Igreja ainda perdeu muito mais.
Por fim, nos nossos dias, como já o foi também noutros tempos, não deixa de ser curioso e divertido ver o Papa e os textos fundamentais da Igreja a defenderem a democracia, a separação da Igreja e o Estado, e alguns representantes políticos, leigos e laicos do Estado e da vida pública, a deferem a hierarquia.
A mistura da Igreja com as políticas vigentes são fatais para a Igreja, porque entra mesmo sem o desejar num descrédito muito grande. Se, por um lado, não lhe falta bens materiais para erguer igrejas, fazer beatificações, realizar manifestações populistas entre tantas outras acções. Por outro, falta-lhe presença nas coisas da sociedade, presença séria nas instâncias da educação, da política e dos meios de comunicação social. A Igreja precisa de reacender a esperança no mundo, perder o medo e encontrar depois lucidez para pensar em respostas pastorais que a relancem numa pastoral séria e ousada.
A espada e o hissope não servem para evangelizar. Hoje espera o mundo que a Igreja carregue a cruz da vida das mulheres e dos homens concretos e que caminhe com todos até ao Calvário da vitória.

4 comentários:

tukakubana disse...

P. José Luís.
Quer queiramos quer não o nosso passado pessoal tempera a nossa vida.Como tempero, não devemos exagerar.
O passado da Igreja não se apaga, mesmo à luz dos séculos X ou XII, XIX, XX ou XXI.Não, porque a Igreja o evoca permanentemente desde os tempos de Jesus; porém só evoca o que lhe convém. Tanto nesses séculos passados como hoje em dia, a mentalidade do Vaticano não mudou, é a mesma para todos os crimes.O pior é que não se responsabiliza pela Ordem, apenas indemniza, oculta.
É preciso calçar "as sandálias do pescador", usar o cajado de Cristo e a espada que Ele trouxe e usou com mestria.
Muito havia e há a dizer; é um tempo de tristeza para a Igreja mas tem de ser, também, um tempo de justiça.

Autor do blog disse...

Tuka, também concordo consigo, o tempo tem que ser de justiça, a humana e a de Deus, não se espera outra coisa. Perante os escândalos que assolam o mundo, surgidos do interior da Igreja, exige-se atitudes de arrependimento, de transparência face à justiça dos tribunais, para que os culpados sejam chamados à responsabilidade e as vítimas vejam o seu sofrimento de alguma forma minorado. É isto que se deve esperar, para que a memória se purifique de uma vez por todas.

José ÂngeloGonçalves de Paulos disse...

PADRE José Luís a Igreja como todas as instituições é constituída por homens e mulheres, por conseguinte tem altos e baixos próprios da nossa natureza humana. Mas o que a Igreja tem convencer-se que muitas vezes é mais humana, portanto sujeita ao pecado do que divina, isto é, mais próxima da Graça. Mas como diz o Apóstolo Paulo onde impera o pecado superabunda a Graça. Eu não estou escandalizado com a existência de padres pedófilos nem isso bole minimamente a minha fé em Jesus Cristo, Senhor Nosso. Todos lhe traíram quando Ele fugiu do poder não o queria para nada. Queria, sim, um Reino de Justiça e Paz e Amor. Foi essa demonstração de Amor que Ele diz "Eu sou quem SOU". O DEUS de Jesus é Esse. Está no SER e não no ter. A história encarregar-se-à de limpar a Igreja e todas as instituições mentirosas. Olhe o próprio Mundo com essa avalanche de terramotos, tsumanis, secas e grandes pluviosidades, fruto do espírito avarento do humano, está a dar a lição do medo e de fazermos todos alguma coisa para salvar o Mundo e a sua Natureza. Agora é preciso é que a Hierarquia oiça e aprenda os novos sinais...e acabe com o celibato como força do direito canónico e viva o Evangelho que sopra onde quer e com quem quiser. Normalmente com os simples de coração. E não com a sabedoria dos teólogos redis do papa.

tukakubana disse...

Sobre a Mulher.

Maria foi, para a mim, a primeira ... Sobre a Mulher.
Maria foi, para a mim, a primeira no movimento de libertação das Mulheres.Foi com ela e com Jesus que sempre se acompanhou de mulheres e as prezava, que a dignidade feminina tomou realce.
Não foi esse o procedimento do Vaticano, mesmo nos tempos de hoje.
E convidam agora padres anglicanos casados, para o cristianismo...
Enquanto a Igreja de Roma não conceder Dignidade à Mulher, nem o Sacerdócio do homem é completo, livre e a própria Igreja ganha respeito próprio.
Por certas e determinadas atitudes contra a Mulher que nunca defenderam,( e veja-se as atrocidades cometidas em todos os continentes) até parece que não nasceram de uma Mulher!