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quinta-feira, 6 de julho de 2017

«Descobrimento» e «agachamento»

Também ando de alguma forma implicado na exposição, que a Madeira organizará no Museu Nacional de Arte Antiga, sob o título «As ilhas do ouro branco – arquipélago da Madeira: do século XV ao século XVI». Será inaugurada no próximo dia 15 de Novembro e, de acordo com fonte oficial, marcará o arranque das comemorações dos 600 anos do «descobrimento» deste arquipélago. A Igreja de São Roque possui um precioso cálice do séc. XVI e por isso fui contactado pelas entidades organizadoras deste evento, para que a Igreja de São Roque emprestasse por algum tempo o referido cálice. Obviamente, que remeti o assunto para a Diocese. Pelos sinais, tudo indica que as coisas estão salvaguardadas dentro da normalidade esperada.
Acolhi com entusiasmo a ideia e achei inicialmente que seria uma iniciativa interessante e que podia servir para dar publicidade à nossa terra e chamar visitantes à Madeira. Todas as iniciativas neste âmbito são bem vindas. Porém, depois de ler a opinião amais que aturada do professor Nelson Veríssimo e dando-me conta de que seria esta evento a abertura das comemorações dos 600 anos da «descoberta» do Arquipélago da Madeira, fez-se luz e começo a sentir que não havia necessidade deste «agachamento» custoso a todos os níveis. O texto do Professor pode ser lido AQUI.
Destaco o seguinte: «Pensando assim, custa-me aceitar que as comemorações arranquem fora do nosso território, longe dos madeirenses e porto-santenses.
Planeia-se uma embaixada cultural em Lisboa. Pretendem alardear as jóias madeirenses na capital. Que deslumbramento! Mas por que razão não hão-de ser mostradas primeiro ao nosso povo? Ou acham que os madeirenses e porto-santenses conhecem o seu património cultural? Neste domínio, há tanto por fazer, e essa planeada exposição, exibida em primeiro lugar no Funchal, num sítio acessível e devidamente publicitada, poderia ser uma excelente forma de dar a conhecer o património artístico, arqueológico e arquivístico da RAM».

Na mesma linha de pensamento descubro hoje o texto de Hélder Melim, que nos sacode a alma, chamando os bois pelos nomes e alertando para o estado das coisas em que vivemos na Madeira, sob um teimoso regime de «agachamento», eufemisticamente denominado «leitor devidamente identificado». Ninguém deve perder este texto e juntos levantarmos um debate sobre esta maneira de sermos que nos tem consumido o pensamento e a liberdade de o expressar com coragem. Podem abrir o texto AQUI.
Destaco o seguinte: «Depois de 500 anos de inquisição, 50 de fascismo, com o 25 de abril, em vez de uma efetiva liberdade, nasceu um regime cozinhado pela igreja mais retrógrada e pelos restos dos poderosos do regime fascista. Este regime, o jardinismo, aproveitando o caldo de cultura resultante da inquisição e do salazarismo, manteve e aprofundou nas pessoas o medo atávico de assumir posições, de defender direitos, de lutar contra as injustiças. Não ser afeto e sobretudo, manifestar discordância com o regime de Jardim, pagava-se caro». 
Obrigado a ambos pelas magníficas reflexões. São alertas que vão ficar...  

terça-feira, 4 de julho de 2017

“Deus e eu”

Esta semana «Deus e eu» com o professor Rui Caetano. Muito obrigado caro amigo Rui. Retive tudo o que dizes tão bem, mas mais ainda o seguinte: «Deus está num aqui e num ali, à beira de tudo, a responder a cada uma das minhas inquietações».  É isto... Que Ele nos ajude sempre.
Deus é metáfora. É vida. Cresci num ambiente familiar onde era hábito questionar tudo, inclusive, a existência do divino afastado do susto da realidade e fora do alcance das mãos. À volta de um ar de esperança, Jesus, além de se encontrar preso a um prego, nas paredes de cal branca dos quartos, ao lado de Nossa Senhora, com o coração à vista, ambos a contemplarem o Menino estendido em cima de um tampo de mogno brilhante, estava presente em algumas das nossas conversas que surgiam a propósito de um acontecimento ou quando estávamos  a divagar, sentados no chão da soleira da porta. Tentávamos perceber, por um lado, o sentido da Sua ausência nos momentos de enorme sofrimento e, por outro, alimentar a nossa desilusão perante a lógica da Sua vontade que não corrigia as situações de profunda injustiça na Terra.
Longe das certezas, cheios de nadas, acreditávamos no mundo de seres humanos que nasceram do Verbo em berços de inocência, embora não nos espantássemos com as vozes gastas daqueles que, sem exemplo nem espelhos de água, falavam do amor de Deus ao mesmo tempo que nos benziam com a cruz do medo. Duvidávamos dos paradoxos dos milagres e do excesso de santos de pedra dura que enchiam o espírito da sociedade.
Por vezes, ainda ando perdido entre os escombros das palavras, com falta de tempo para ler os silêncios que cobrem o mistério dos meus caminhos, mas nunca perco a razão do amanhã, porque não me contento em viver à tona de uma qualquer luz. Deus está num aqui e num ali, à beira de tudo, a responder a cada uma das minhas inquietações. A vida, apesar de crescer sobre os acasos dos instantes, surgiu com a convicção de que um dia conhecerá o que existe no lado de dentro do barro que nos moldou. 
 Rui Caetano