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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Podemos ser todos criminosos à solta

Todo o crime começa inocentemente ou com atitudes manifestamente ingénuas.

Os alemães que escreviam sinais nas casas comerciais dos judeus, começaram a participar num processo que levou à tragédia criminosa da eliminação dos judeus. O mesmo se pode dizer de outros tantos milhões de alemães que se deixaram ficar indiferentes ao que se estava a passar.

Também hoje assistimos a algo semelhante, com outros contornos e em contextos diferentes, mas estamos a passar pela mesma indiferença e pelo mesmo encolher de ombros.

A violência contra as mulheres que grassa pelo mundo fora não pode ser resolvida com a ideia de que é um problema delas e de cada povo onde tal violência está a ser legitimada com regras estapafúrdias impostas pela loucura patética do machismo.

Os Direitos Humanos e a luta pela sua aplicação universal, não podem ser um ornamento de retórica para encher a boca com discursos hipócritas em determinadas ocasiões solenes. O mundo é um só, a humanidade é uma só, por isso, é exigido aos responsáveis pelos povos que não façam dos Direitos Humanos Universais tábua rasa e que tenham diante deles a pior das atitudes, dois pesos e duas medidas.

Também faço parte do meio mundo que se escandaliza com a leitura de São Paulo tirada da Carta aos efésios, que me custa a crer que seja mesmo do punho do Apóstolo dos Gentios, este que se bateu com São Pedro para que o Cristianismo não se reduzisse a meia dúzia de iluminados judeus, porque a preciosidade que ele representava em termos de liberdade e dignidade universal, não podia ser apenas uma simples seita para meia dúzia de judeus que se tinha rebelado contra a religião judaica.

A leitura em causa é um manifesto absurdo de vocabulário. É urgente serem retirados estes termos desta passagem paulina, mesmo que digam que logo a seguir o texto é direto quanto ao amor que os maridos devem nutrir pelas mulheres. Digam o que disserem, expliquem o que quiserem explicar, mas estas palavras ferem os ouvidos: «Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos» (Ef 5, 21-23).

Quando se ouve esta linguagem em qualquer circunstância, a consequência imediata é que se deixe de ouvir mais nada do que vai ser dito. Neste sentido, por um lado, mantendo-se este texto para uso nas missas, resulta no descrédito de São Paulo e a sua riquíssima doutrina sai seriamente beliscada. Por outro, é a própria Igreja Católica, mais uma vez a demonstrar como é adepta do machismo parolo, mas, pelo que se vê, terrorista e violento que cresce por esse mundo fora.

Este texto deve ser banido das missas ou traduzido em linguagem decente, que não ofenda ninguém, mas que promova a responsabilidade de todos para com todos, sem quaisquer resquícios de maldade contra ninguém. Pois, Deus não é macho nem fêmea. É Deus, que não embarca em poderes loucos deste mundo que não olham a meios para se sentarem em tronos edificados com a carne e o sangue das vítimas.

sábado, 14 de agosto de 2021

Dia da Assunção de Nossa Senhora

Liturgia 15 de Agosto

Primeira leitura: Ap 11,19a;12,1-6a.10ab)

Salmo 44 (45)
Segunda leitura: 1 Cor 15,20-27
Evangelho: Lc 1,39-56

O dia da Assunção de Maria, entre nós é vulgarmente denominado de Nossa Senhora do Monte, padroeira da Madeira. Pela Madeira dentro vamos encontrar também para este dia várias invocações para o mesmo evento mariano e para a mesma entidade, Maria de Nazaré, a Mãe de Deus. Algumas pessoas ficam intrigadas com os vários nomes atribuídos a Maria. Não tem nada de estranho, visto que na tradição bíblica e depois na tradição judaico-cristã, vamos encontrar várias designações para os acontecimentos e para as figuras principais da religião. Por exemplo, Deus, o Espírito Santo, Jesus Cristo e Nossa Senhora.

Quanto às leituras que hoje nos são propostas, destacamos três palavras, uma de cada leitura: luta, ressurreição e esperança. A luta da visão do Apocalipse entre a mulher e o dragão, é a luta para quando estamos fracos; nas dificuldades; nas tentações nas perseguições… O exemplo de Maria para esses momentos ajuda-nos.

Detenhamo-nos no momento em que Maria junto da Cruz está sofrendo e padecendo. Esta maternidade sofrida continua no tempo. Maria no céu acompanha todos os padecimentos do tempo onde a maternidade é sofrida. Se neste mundo nos é dada uma mãe para nascermos, para a vida terrena, no céu, Deus deu-nos a Sua Mãe para sermos gerados na ordem do sobrenatural, da vida eterna, a vida divina. Por isso, não devemos descurar a intimidade com ela, falando-lhe do nosso carinho, da nossa gratidão, das nossas lutas, dos nossos êxitos, dos nossos sucessos e insucessos, das nossas tristezas e alegrias, felicidades e infelicidades… Devemos falar-lhe do que somos e do que temos.

A segunda leitura fala da ressurreição. Jesus entrou de uma vez por todas na vida eterna com toda a sua humanidade, a qual ele recebera de Maria. Nós com Ele e por Ele, também entraremos nessa dimensão da vida plena e eterna.

No Evangelho descobrimos a esperança. A esperança é a virtude daqueles que, experimentando o conflito, a luta diária entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, creem na Ressurreição de Cristo, na vitória do Amor. Escutamos o canto de Maria, o Magnificat: é o cântico da esperança, é o cântico do Povo de Deus no seu caminhar através da história.

Sobre a esperança, o Papa Francisco diz: «Se não há esperança, nós não somos cristãos. Por isso gosto de dizer: não deixeis que vos roubem a esperança. Que não vos roubeis a esperança, porque esta força é uma graça, um dom de Deus que nos leva para frente, olhando para o Céu. E Maria está sempre lá, próxima dessas comunidades, desses nossos irmãos, caminhando com eles, sofrendo com eles, e cantando com eles o Magnificat da esperança».