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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Voz que clama no deserto

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo, Sermão 293, 1-3: PL 38, 1327-1328 (Séc. V).
A Igreja celebra o nascimento de João como acontecimento sagrado: não há nenhum, entre os nossos antepassados, cujo nascimento seja celebrado solenemente. Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: isto tem sem dúvida uma explicação. E se não a damos tão perfeita como exige a importância desta solenidade, meditemos ao menos nela, mais frutuosa e profundamente.
João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem. O futuro pai de João não acredita que este possa nascer e é castigado com a mudez; Maria acredita, e Cristo é concebido pela fé. Eis o assunto, que quisemos investigar e prometemos tratar. E se não formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de capacidade ou de tempo, melhor vo-lo ensinará Aquele que fala dentro de vós, mesmo estando nós ausentes, Aquele em quem pensais com amor filial, que recebestes no vosso coração e de quem vos tornastes templos.
João apareceu como o ponto de encontro entre os dois testamentos, o Antigo e o Novo. O próprio Senhor o testemunha quando diz: A Lei e os Profetas até João Batista. João representa o Antigo e anuncia o Novo. Porque representa o Antigo, nasce de pais velhos; porque anuncia o Novo, é declarado profeta quando está ainda nas entranhas de sua mãe. Na verdade, ainda antes de nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Santa Maria. Já então ficava assinalada a sua missão, ainda antes de nascer; revelava-se de quem era o precursor, ainda antes de O ver. São realidades divinas que excedem a limitação humana. Por fim, nasce; é-lhe dado o nome e solta-se a língua do pai. Reparemos no simbolismo que estes factos representam.
Zacarias cala-se e perde a fala até ao nascimento de João, o precursor do Senhor; e então recupera a fala. Que significa o silêncio de Zacarias senão que antes da pregação de Cristo o sentido das profecias estava, em certo modo, latente, oculto e fechado? Mas tudo se abre e faz claro com a vinda d’Aquele a quem elas se referiam. O facto de Zacarias recuperar a fala ao nascer João tem o mesmo significado que o rasgar-se do véu no templo, ao morrer Cristo na cruz. Se João se anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua porque nasce aquele que é a voz. Com efeito, quando João já anunciava o Senhor, perguntaram-lhe: Quem és tu? E ele respondeu: Eu sou a voz de quem clama no deserto. João é a voz; mas o Senhor, no princípio era a Palavra. João é a voz passageira; Cristo é, no princípio, a Palavra eterna.
In Ecclesia Una

1 comentário:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luís, não me meto neste labirinto teológico ou hermeneutico do S.João. Do seu Pai e da sua Mãe. São mistérios que se crê ou não. Agora o que eu sei é S.João foi uma figura bíblica de grande personalidade. Um asceta por natureza. E Jesus disse que Ele (João) era o menor do Reino de Deus.Muito austero. Mas de grande coragem ao ponto de desafiar Herodes e denunciar corajosamente a sua situação amorosa com a cunhada, Herodíade e a prostituta da filha, Salomé. É um exemplo para os cobardolas actuais que têm medo de denunciar a mediocridade dos poderosos.Por isso mesmo, foi decapitado. Morreu de pé. Inaugurou os caminhos ásperos do Senhor. Quem quiser seguir o Evangelho tem uma vida muito difícil e não pode olhar para trás. Seguir Jesus é percorrer atalhos e veredas para chegar à grande Estrada da Vida que é DEUS. Trindade Santíssima. Embriagar-se nessa inefável Beleza.João Baptista foi exemplo disso .Comprometeu-se a anunciar o Reino de Deus. Essa cana frágil que brada no Deserto, mas que fez frente ao poderoso autocrata.