Convite a quem nos visita

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Morre o teólogo José María Díez-Alegría aos 98 anos

Muito crítico da hierarquia oficial da Igreja, Díez-Alegría trabalhou activamente com o Padre Llanos no Pozo del Tío Raimundo, um dos bairros mais pobres de Madrid. Santo e importante testemunho para gerações de católicos espanhóis, manteve até o fim o seu profundo senso de humor, que o levou a escrever livros como “Teologia en broma y en serio”. Foi um pioneiro e uma referência no pós-concílio na Espanha.
Teólogo, douto em Direito e em Filosofia, alguns dos seus livros, abertamente críticos da hierarquia oficial da Igreja, que censurava por sua aproximação com o capitalismo e o seu afastamento dos pobres, provocaram a sua saída da Companhia de Jesus, que abandonou em 1975. Mas não totalmente. Para escândalo de seus irmãos, um, chefe do Alto Estado-maior do Exército espanhol e, outro, director da Guarda Civil.
A sua obra mais polémica foi “Eu creio na esperança”, editada em 1972 e que vendeu mais de 200 mil exemplares.
Autor da frase “Deus não crê no Vaticano”, a sua denúncia da actuação da Igreja valeu-lhe acusações de pró-marxista. Nos anos 1970 e 1980 trabalhou activamente com o Padre Llanos e outros jesuítas na periferia de Madrid, especialmente em Pozo del Tío Raimundo.
Por elogiar Marx e criticar o Vaticano converteu-se “num jesuíta sem documentos”, como ele se auto proclamava. Um mito para alguns e um sacerdote maldito para outros.
Sempre manteve excelente senso de humor como bandeira: “É preciso confiar em Deus e rir-se de si mesmo”. Fé, humor e esperança foram sempre os fundamentos da sua vida.
in: amaivos.uol.com.br
Nota da redacção: Curiosamente um homem formado em direito e que faz esta opção radical pelos pobres. O crivo da lei, não é sinónimo de homens frios, cegos e automáticos. Pena que estas figuras desapareçam precisamente no contexto em que estamos a viver. Isto é, um tempo marcado pela frieza das leis dentro e fora das igrejas, o formalismo cómodo fala mais alto que a opção pelos pobres e o serviço do Bem Comum, a ostenção e a distância entre hierarquias e o povo é cada vez mais acentuada, o Evangelho está na gaveta e proclama-se o Direito Canónico como caminho único para o céu, as periferias e as margens da sociedade estão diabolizadas, a luta pelos poderes é a norma essencial de conduta para muita gente dentro e fora das igrejas... São estas figuras carismáticas que são o sinal, a última referência. Creio, porém, que Deus não nos desamparará e os pobres não podem ficar órfãos, porque são esses que Deus ama preferencialmente.

O ateísmo

O ateísmo é uma atitude adoptada por alguma gente, quer por ignorância, quer por falta de investigação séria. É que o ateísmo torna a vida mais fácil, sem contas a prestar pelo bem ou pelo mal, sobretudo para estes. Faz falta a todo o crente conhecer a fé de grandes cientistas que, depois de aturadas investigações, chegaram à fé na existência de um Deus Criador que explique a existência de todo o Universo. Hoje vou falar aos meus leitores de um grande cientista que deixou o ateísmo para passar a crer em Deus. É o biólogo americano Francis Collins, – um dos cientistas de maior renome na actualidade. Nomeado Director do Projecto Genoma, é um dos responsáveis pelo feito extraordinário da leitura do genoma humano em 2001. Foi o cientista que em todo o mundo mais estudou genomas com vista à cura de doenças. Não obstante a crítica de seus colegas ateus, Collins pertence a um grupo de cientistas que aceita que a investigação do mundo natural não entra em conflito com a fé religiosa: a ciência e a fé não são incompatíveis, mas complementares. Como médico, Collins surpreendia-se com “a segurança e a paz” que a fé transmitia a alguns dos seus doentes. Entretanto, visitou um pastor metodista que lhe emprestou um livro de Lewis intitulado “Mero Cristianismo”.
À medida que o lia, Collins sentia que as razões do autor eram as mesmas dele. Tinha sido ateu e convertera-se. O que muito o impressionou foi a presença da obrigação moral em toda a gente de qualquer raça, de crianças a adultos. Esta lei moral que está em todos os homens donde vem? Durante uma década a estudar células com o grupo em sua colaboração, descobriu o “rascunho inicial do genoma”. O Presidente dos Estados Unidos da América, Bill Clinton, anunciou, feliz, ao mundo este feito de Collins, com estas palavras: “Este é o mapa mais importante e maravilhoso nunca antes produzido pela humanidade. Hoje estamos a aprender a linguagem com que Deus criou a vida”. Collins escreveu então o seu livro “Linguagem de Deus” que tem por finalidade reflectir sobre a harmonia entre a ciência e a crença em Deus. “O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma. Podemos adorá-Lo na catedral ou no laboratório...” Diz Collins que “quase todos os físicos e cosmólogos aceitam que o Universo nasceu há catorze milhões de anos, no momento chamado Big Bang. Essa explosão implica uma pergunta: o quê ou quem a provocou? “O Big Bang exige uma explicação sobrenatural, obriga a concluir que o Universo teve um início definido. Só uma força divina, fora do espaço e do tempo. A ciência tem o seu campo de acção na explicação da natureza, mas é incapaz de nos dizer a razão por que existe o Universo, que sentido tem a nossa vida ou o que podemos esperar depois da morte.” - (Collins).
* Podemos desenvolver este tema através do livro “Dez ateus que mudaram de Autobus” de Ramón Ayllón. (na Livraria Voz -Portucalense)
Mário Salgueirinho

terça-feira, 29 de junho de 2010

São Pedro e São Paulo

Os dois grandes Apóstolos, senão os maiores do Cristianismo. Seguidores fervorosos do Mestre Jesus Cristo. Ambos falharam diante do Mestre. Pedro diz não O conhecer por três vezes, Paulo persegue os que O seguem desde o início por todo o lado. Porém, Nunca deixaram de assumir essa história de indignidade, esse pecado se quisermos. Esse passado manchou-os, mas Jesus não os marginalizou, e quem sabe senão por isso mesmo, os fez grandes Apóstolos e lhes confiou grandes tarefas.
Foram seguidores do Mestre Jesus até últimas consequências. Em Seu nome assumiram a paixão, pregaram, celebraram, escreveram e por fim morreram. Esta radicalidade é o maior sinal de fidelidade incondicional às razões da fé que Jesus revelou nos seus corações. Fizeram da sua vida uma entrega total a uma pessoa e ao seu projecto, que consistia em salvar toda a humanidade.
Mas, que fizeram destas duas figuras? - A Pedro, deram-lhe um trono, para que fosse um monarca absoluto, centralista e dominador de consciências. Nada a ver com o pescador da Galileia, o rude e indelicado Apóstolo que falava antes de pensar. A Paulo, não lhe deram tanto, mas fizeram dele e das suas cartas doutrina dominadora e poderosa que nada tem que ver com a sua vontade nem muito menos se adequa ao que pensa e anunciou o Mestre Jesus Cristo, que este Apóstolo magistralmente soube traduzir pelas suas belíssimas Cartas e concretizar nas suas comunidades.
Neste dia em que se celebra São Pedro e São Paulo, que todos nós a Igreja de Jesus Cristo (os baptizados), não nos deixemos contaminar com as investidas dominadoras de consciências, mas que a mensagem cristã, pela qual deram a vida estes dois Apóstolos, seja a nossa luz e nos oriente sempre no caminho da felicidade e do Bem-Comum.
Rogai por nós São Pedro e São Paulo, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amén.
José Luís Rodrigues

domingo, 27 de junho de 2010

Está na hora…

….
Está na hora...
...
- Daquele abraço que veio com o eco de uma voz distante
E nesta hora proclamou a paz do sentido da vida presente
Como naquela revelação do sonho
Quando a hora do dia viu o sublime
No rosto denso do tempo que diz a hora.
….
- Da misericórdia que se entranha no sangue da Palavra dita
Porque o amor jorra rios de verdade até à foz da luz
Desse mar imenso onde marulha toda a serenidade
Após o perdão no vai e vem da crista ondulante
Da água viva infinita a cada hora.
- Da vida nova que se espera dos gestos sinceros
Sem a robótica legal que cerceia a salvação
Antes a compaixão pela verdade
Que sempre diz toda a possibilidade do amor
Não só nesse instante mas para toda a hora.
- Da comunhão com a criação de todo o tempo
E não apenas com a que alguns anseiam para o seu agora
Desta outra comum união fala a voz de um Mestre
Neste tom forte de decisão e afecto a todos
Para a partilha do pão amassado naquela hora.
- De por fim sentir o serviço aberto a todos os rostos
Que ora alegres ora tristes nos pedem um sinal
Uma palavra que seja dizer sim
Porque não fazem festa os enjoos que verte o poder
Quando te pedem a oferta do mistério para toda a hora.
- Pois chegou a hora de sabermos que só se faz
O valor de uma fé para cada hora
Sem tempo que se perca
Porque para toda a hora serás grande
Pois te digo o que basta
Um nome
DEUS.
...
José Luís Rodrigues

Deitar a mão no arado e não olhar para trás

Meditação...

A propósito da frase do Evangelho de S. Lucas, lido nas missas de hoje. De facto, é uma frase que provoca um arrepio pela espinha abaixo... «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus.» (Lucas 9, 61-62, excerto da leitura do Evangelho de 27.6.2010)
Um poderoso executivo aguardava para embarcar num avião quando repentinamente e sem aviso a viagem foi cancelada. Furioso, dirigiu-se ao balcão das passagens ultrapassando quem estava à espera de ser atendido e exigiu um lugar em primeira classe para o voo seguinte.
O funcionário explicou amavelmente que a transportadora estava pronta a ajudá-lo mas que teria de ir para a fila e esperar pela sua vez.
“Jovem, tem alguma ideia de quem é que eu sou?”, vociferou o homem.
O funcionário olhou-o cuidadosamente de alto a baixo. Depois, ligou o microfone do aeroporto e disse: “Atenção: Há um passageiro no balcão dos bilhetes que não sabe quem é. Se alguém o conseguir identificar, por favor informe-nos”. É muito fácil esquecer quem somos e para onde vamos. Em determinadas alturas das nossas vidas, é tudo muito claro. O casal jovem no altar, o padre acabado de ordenar, o jovem sagaz que se dirige à primeira aula na Faculdade de Direito: todos sabem para onde vão; sabem que haverá um preço a pagar e estão prontos a pagá-lo. É tudo muito claro e muito simples.
É então que o tempo passa e o preço começa a ser pago – e pago, e pago! E o que recebem em troca não é tão perfeito e sólido como haviam esperado. O lindo bebé torna-se num adolescente difícil; o jovem atraente perde o cabelo e a linha; e depois de 10 mil homilias, o enérgico sacerdote avalia as delícias do voto de silêncio!
Dúvidas e questões dolorosas vêm à superfície: Não sabia que iria ser assim. Será que tomei a opção errada? Isto vai continuar para sempre assim? Como é que eu saio desta?
Jesus compreendeu muito bem esta dimensão da nossa experiência humana, este cansaço a meio do caminho que nos tenta a olhar para trás em vez de olhar para a frente, que nos impede de ver as novas e mais profundas alegrias e possibilidades que estão ao nosso alcance aqui e agora, este abatimento a meio do trajecto que nos tenta a desistir, a abandonar o nosso “arado” e ir embora. Suster esta inclinação e avançar sem olhar para trás exige abandonar muitas coisas – algumas muito boas, outras de que já não precisamos. Essa renúncia pode ser dolorosa mas pode dar espaço a algo mais, a algo melhor. Pode permitir-nos crescer em formas completamente novas de viver e amar, aqui e agora, e dentro das nossas vocações de esposos, pais, amigos e pastores com as quais há muito nos comprometemos.
Como qualquer bom pai, Deus quer ver-nos a crescer grandes e fortes, em especial interiormente. E quer-nos ver felizes. O que acontecerá se nos lembrarmos para onde nos dirigirmos e quais os motivos que nos levaram a optar pelas nossas prioridades centrais. O que acontecerá se deixarmos que Deus tome a nossa mão enquanto caminhamos com Ele.
Não olhe para trás. Isso só o deixará imóvel no mesmo lugar e tornará o seu interior mais amargurado. Decida-se antes por olhar para a frente e mais profundamente. Ficará surpreendido com o que espera por si!
P. Dennis Clark
In Catholic Exhange; Trad.: rm © SNPC (trad.) 26.06.10
Imagem: Tissot

sábado, 26 de junho de 2010

Seremos cegos?

Meditação...
A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado. Se, porém, os teus olhos estiverem doentes, todo o teu corpo andará em trevas. (Mateus 6, 22-23)
Alguns de nós não conseguem ver o suficiente para conduzir, ler ou distinguir o que passa na televisão. Nesses casos podemos ter de usar óculos ou até lupas para tarefas de precisão, e com estes instrumentos a maior parte das pessoas consegue ver o suficiente para desempenhar as funções do dia-a-dia.
Este é o nível físico. Mas a maior incapacidade de visão reside num aspecto mais profundo - quando não se sabe como ver o que é preciso ver nas situações realmente importantes. Não vemos o impacto que as nossas acções e escolhas mais pequenas têm em quem nos rodeia. Não vemos a maioria das consequências do que fazemos. Não vemos as coisas simples que os nossos semelhantes precisam que façamos por eles. Não vemos a totalidade da realidade que Deus vê.
Jesus diz que “se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado”. Andaremos cegos até lhe darmos os nossos olhos. Então Ele encher-nos-á de luz e saberemos com confiança onde dar o nosso próximo passo.
P. Dennis Clark (EUA) (adapt.)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XIII Tempo Comum
27 de Junho de 2010
Os discípulos - nunca olhar para trás
Para haver discípulos terá que haver um mestre. Pois bem, do Mestre Jesus falou-se no domingo passado, mediante a pergunta,«Quem dizem que Eu sou?». Neste domingo, salta à vista nos textos da Missa a figura do discípulo. Até podemos adiantar: «Quem é o discípulo de Jesus?».
Há uma história japonesa que conta assim, um dos discípulos de Yu estava conversando com um discípulo de Rinzai: - O meu mestre é um homem capaz de fazer milagres, e por causa disso é respeitado por todos os seus alunos. Eu já o vi fazer coisas que estão muito alem da nossa capacidade. E o seu mestre? Que grandes milagres é capaz de realizar? - O maior milagre do meu mestre é não precisar mostrar nenhum prodígio para convencer aos seus alunos que é um sábio. - Foi a resposta.
Jesus é este mestre que convoca os seus discípulos para a missão, sem que lhes garanta fortunas em dinheiro ou qualquer regalia futura. Mas, como seguir este mestre que oferece sofrimento e fidelidade incondicional? - Não sei a resposta, está centrada no interior do coração de cada um, que aí descobre o fascínio por uma pessoa, Jesus Cristo, um sábio que não precisa de fazer-nos milagres para se crer Nele e fazer da nossa vida uma alegre missão em Seu nome. A compreensão disto não é óbvia, mas que importa isso face à felicidade de ser discípulo deste mestre que nos chama a ser livres e pela liberdade de fazer tudo para o bem de todos. São Paulo confirma este pensamento na Carta aos Gálatas.
O ser discípulo de Jesus, é ser voz do reino novo do amor com toda a coragem, sem que nada deste mundo faça voltar atrás. Com Jesus o medo não tem lugar na vida do Seu discípulo e o caminho é para diante sem desânimos com olhar fixo na utopia consciente ou militante da fraternidade universal.

Voz que clama no deserto

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo, Sermão 293, 1-3: PL 38, 1327-1328 (Séc. V).
A Igreja celebra o nascimento de João como acontecimento sagrado: não há nenhum, entre os nossos antepassados, cujo nascimento seja celebrado solenemente. Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: isto tem sem dúvida uma explicação. E se não a damos tão perfeita como exige a importância desta solenidade, meditemos ao menos nela, mais frutuosa e profundamente.
João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem. O futuro pai de João não acredita que este possa nascer e é castigado com a mudez; Maria acredita, e Cristo é concebido pela fé. Eis o assunto, que quisemos investigar e prometemos tratar. E se não formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de capacidade ou de tempo, melhor vo-lo ensinará Aquele que fala dentro de vós, mesmo estando nós ausentes, Aquele em quem pensais com amor filial, que recebestes no vosso coração e de quem vos tornastes templos.
João apareceu como o ponto de encontro entre os dois testamentos, o Antigo e o Novo. O próprio Senhor o testemunha quando diz: A Lei e os Profetas até João Batista. João representa o Antigo e anuncia o Novo. Porque representa o Antigo, nasce de pais velhos; porque anuncia o Novo, é declarado profeta quando está ainda nas entranhas de sua mãe. Na verdade, ainda antes de nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Santa Maria. Já então ficava assinalada a sua missão, ainda antes de nascer; revelava-se de quem era o precursor, ainda antes de O ver. São realidades divinas que excedem a limitação humana. Por fim, nasce; é-lhe dado o nome e solta-se a língua do pai. Reparemos no simbolismo que estes factos representam.
Zacarias cala-se e perde a fala até ao nascimento de João, o precursor do Senhor; e então recupera a fala. Que significa o silêncio de Zacarias senão que antes da pregação de Cristo o sentido das profecias estava, em certo modo, latente, oculto e fechado? Mas tudo se abre e faz claro com a vinda d’Aquele a quem elas se referiam. O facto de Zacarias recuperar a fala ao nascer João tem o mesmo significado que o rasgar-se do véu no templo, ao morrer Cristo na cruz. Se João se anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua porque nasce aquele que é a voz. Com efeito, quando João já anunciava o Senhor, perguntaram-lhe: Quem és tu? E ele respondeu: Eu sou a voz de quem clama no deserto. João é a voz; mas o Senhor, no princípio era a Palavra. João é a voz passageira; Cristo é, no princípio, a Palavra eterna.
In Ecclesia Una

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Porque somos tão pequeninos...

Um certo dia corria pela rua abaixo um velho, um rapaz e um burro. As pessoas nas bermas da rua escarneciam do velho e do rapaz porque não montavam o burro, preferiam andar a pé e não aproveitavam o meio de transporte que tinham à mão. Perante o escárnio do povo o velho resolveu montar o burro, as críticas foram certeiras contra o velho que não tinha dó de um rapaz tão novo que obrigava a andar a pé. Aos olhos do povo este velho era mesmo bárbaro porque não se compadecia do pobre rapaz.
As impiedosas críticas fizeram o velho descer da montada e colocar em cima do burro o rapaz. As críticas das pessoas não se fizeram esperar. Um pobre velho, que vergado ao peso da idade vê-se obrigado a caminhar a pé e o miúdo com perna nova monta o burro sem educação nenhuma com gozo sarcástico contra um pobre velho. Um absurdo nunca visto.
Diante dos comentários o velho e o rapaz resolveram montar os dois o burro. As pessoas agora comentavam, coitado do pobre animal que carrega dois malandrecos que não querem andar a pé. Isto é um abuso sobre um pobre animal que merece também alguma consideração, pois, nunca deviam colocar-se os dois ao mesmo tempo sobre animal indefeso.
Nada a fazer, o melhor seria descer do burro e andarem os dois a pé. Mas parece que não terminaram os comentários e de seguida diziam. Burros são estes dois que têm diante si um meio de transporte e andam a pé. Como será possível que não percebam que o burro que caminha com eles é um animal jovem e robusto com corpo suficiente para transportar bastante carga. Há gente mesmo muito burra que não sabe aproveitar as coisas boas da vida.
Cada um que tire a devida lição da parábola.
O mal de tudo sermos deveras muito pequenos. Um dia conversei com um amigo do Brasil, padre e pároco de uma paróquia com duzentas mil pessoas. Um tanto ou quanto compenetrado (ou abalado) contei-lhe alguns episódios da minha terra. A sua reacção foi mais que rápida, expressou um simples sorriso e desatou o seguinte: coisa de «mundo rico» que não tem mais com que se preocupar. Não tive alternativa, fiz silêncio, porque fiquei sem palavras.
A nossa pequenez é deveras surpreendente e mais manifesta que vivemos envoltos num ambiente onde só conta o caso corriqueiro de aldeia medíocre que se diverte com a mesquinhez da vida dos outros esquecendo que a sua noutro canto está a ser vasculhada e badalada aos quatro ventos.
Não somos «mundo rico», mas os mais pobres dos pobres porque gradualmente perdemos a dignidade e o sentido do que é essencial para vida. Não basta estar farto de dinheiro e de outros bens materiais para ser rico, é preciso antes conciliar essa riqueza com racionalidade e cultura elevada. Que Deus nos valha a todos!
José Luís Rodrigues

terça-feira, 22 de junho de 2010

APELO A SANTO ANTÓNIO

Ó meu rico Santo António
Meu santinho Milagreiro
Vê se levas o Zé Sócrates
P'ra junto do Sá Carneiro
...
Se puderes faz um esforço
Porque o caminho é penoso
Aproveita a viagem
E leva o Durão Barroso
...
Para que tudo corra bem
E porque a viagem entristece
Faz uma limpeza geral
E leva também o PS
...
Para que não fiquem a rir-se
Os senhores do PSD
Mete-os no mesmo carro
Juntamente com os do PCP
...
Porque a viagem é cara
E é preciso cultivar as hortas
Para rentabilizar o percurso
Não deixes cá o Paulo Portas
...
Para ficar tudo limpo
E purificar bem a cousa
Arranja um cantinho
E leva o Jerónimo de Sousa
...
Como estamos em democracia
Embora não pareça às vezes
Aproveita o transporte
E leva também o Menezes
...
Se puderes faz esse jeito
Em Maio, mês da maçã
A temperatura está a preceito
Não te esqueças do Louçã
...
Todos eles são matreiros
E vivem à base de golpes
Faz lá mais um favorzinho
E leva o Santana Lopes
...
Vou acrescentar mais duas quadras
...
Na ilha que vivemos isso então é que é
Porque estamos em dias de São João
Nos perdoe santo António pedimos com fé
Arranje um cantinho para o Alberto João
...
Na ilha também estamos fartos
São muitos os malabaristas da vida airada
Quem nos dera que a multidão dos Santos
Levasse para bem longe toda esta cambada
...
Isto chegou a tal ponto
E vão as coisas tão mal
Que só varrendo esta gente
Se salvará Portugal

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Eis um verdadeiro milagre

Um dia o filho pergunta ao pai: "Papa, vens correr comigo a maratona?" O pai responde que sim, e ambos correm a primeira maratona juntos. Um outro dia, volta a perguntar ao pai se quer voltar a correr a maratona com ele, ao que o pai responde novamente que sim. Correm novamente os dois. Certo dia, o filho pergunta ao pai: "papa, queres correr comigo o Ironman? (O Ironman é o mais difícil...exige nadar 4 km, andar de bicicleta 180 km e correr 42 ) E o pai diz que sim. Isto é tudo muito simples...até que se vejam estas imagens...fantástico!

A falta de amor

Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997), fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade «No Greater Joy» (a partir da trad. «Il n'y a pas de plus grand amour», Lattès 1997, p. 55)
«Com a medida com que medirdes, assim sereis medidos»
Para cada doença existem vários medicamentos e tratamentos. Mas enquanto não se oferecer uma mão doce pronta a servir e um coração generoso pronto a acarinhar, não creio que se possa alguma vez curar esta terrível doença que é a falta de amor.
Nenhum de nós tem o direito de condenar quem quer que seja. Nem quando vemos pessoas soçobrar sem compreender porquê. Não nos convida Jesus a não julgar? Talvez tenhamos contribuído para tornar as pessoas como elas são. Devemos compreender que são nossos irmãos e nossas irmãs. Este leproso, este bêbedo, este doente são nossos irmãos, também eles foram criados para um amor maior. Nunca deveríamos esquecê-lo. O próprio Jesus Cristo Se identifica com eles quando diz: «Aquilo que fizestes aos Meus irmãos mais humildes foi a Mim que fizestes» (Mt 25, 40). E pode acontecer que essas pessoas vivam na rua, desprovidas de qualquer amor e quaisquer cuidados, porque lhes recusámos a nossa solicitude, a nossa afeição. Sede doces, infinitamente doces para com o pobre que sofre. Compreendemos tão mal aquilo por que ele passa! O mais difícil é não ser aceite.

sábado, 19 de junho de 2010

A adversidade

Há um ditado popular que diz: “há males que vêm por bem”.
Se estivermos atentos ao que acontece na nossa vida e ao que acontece à nossa volta, verificamos que aquilo que surge de doloroso nem sempre deixa de produzir, mais tarde ou mais cedo, um efeito positivo e até agradável. É bem verdade esta palavra de Cheney: “As almas não teriam arco-íris, se os olhos não tivessem lágrimas”.
As adversidades que encontramos nos caminhos da vida nunca nos deixam iguais: ou nos engrandecem ou nos diminuem.
Há adversidades que são aproveitadas para repensar, para corrigir, para aperfeiçoar, para aproximar de Deus, para nos tornarem mais compreensivos e mais pacientes com os outros.
Há sofrimentos, físicos ou morais que nos transformam, deixando-nos melhores ou piores. Alguém escreveu que a “adversidade é abrasivo que aguça a coragem”. Um desgosto, uma desilusão, uma doença podem ter o efeito de um clarim que desperta os valores latentes em cada homem.
Quando a dor nos “esquece” durante bastante tempo, nós vivemos cegos sem ver de frente a realidade dos nossos defeitos, sem coragem para reconhecê-los e corrigi-los, egoístas, sem solidariedade para quem sofre.
Mas quando qualquer espécie de sofrimento surge, esse sofrimento humaniza-nos, torna-nos mais compassivos e indulgentes com os que sofrem, na nossa casa, no nosso mundo de trabalho, no nosso círculo de conhecidos e até do mundo inteiro.
Certo escritor, perante uma crítica contundente aos seus livros, deixou de escrever. Lamentando-se a um colega recusou qualquer conselho, tão desesperado estava.- Não vou dar-lhe conselhos. Vou dar-lhe uma definição de poesia que li há tempos: “Poesia é o que Milton viu quando ficou cego”.
O escritor voltou a escrever e tornou-se afamado. Vale a pena pôr em prática esta palavra de Susana Fouché: “a minha dor tomei-a na mão como um instrumento de trabalho”.
Mário Salgueirinho
Imagem tirada do blog: roinesxxi.blogs.sapo.pt

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A permanência da morte de José Saramago

Morreu hoje (18 de Junho) na sua casa em Lanzarote o escritor português José Saramago. Um descanso para alguma Igreja Católica, que se alimenta de extravagâncias e de uma religiosidade baseado no ódio aos outros, aos que considera descrentes ou que estão fora. Não foram macios os seus escritos contra uma certa visão de Deus, contra Igreja Católica (foram duras as críticas contra o Papa, Bento XVI). E noutro âmbito também atacou Israel e a sua política contra os palestinianos.
Este homem foi incómodo e provocador para o pensamento católico. Só com o último livro, Caim, algumas mentes mais esclarecidas da Igreja Católica, lidaram muito bem com o livro e com o autor, destaco D. Manuel Clemente, bispo do Porto; o Padre Carreira das Neves, ilustre professor de Sagrada Escritura e o Padre Tolentino Mendonça. Estes dois padres até estiveram em debates e diálogos com o autor sobejamente divulgados pela comunicação social.
Não era autor predilecto das minhas leituras, porém, reconheço-lhe mestria e muito importante para a literatura portuguesa, basta pensar no seu reconhecimento mundial. Foi prémio nobel. Apesar dos contornos políticos do prémio, penso que tal deve ser significativo e levado em linha de conta.
Por fim resta a memória e a obra do homem que será lembrado pela inteligência literária, que a meu ver se manifesta claramente nas metáforas muito interessantes, embora às vezes provocadoras e polémicas, mas isso faz bem para o pensamento e para o progresso das ideias. Lembro, «Jangada de Pedra»; «Memorial do Convento»; «O Evangelho Segundo Jesus Cristo»; «Ensaio sobre a Cegueira»; «A Caverna»; «O homem duplicado» e «Caim»... Estes apenas entre a sua vasta obra literária.
Gostaria ainda de salientar, que apesar de tudo ficará agora aberta a porta para que o estudo sério da dimensão religiosa da obra de José Saramago seja feita, livre de toda a sombra de preconceito e ódio que os seus escritos provocaram nalguns meios religiosos e não só.
E porque a morte deixou de ser «intermitente» (do livro «Intermitências da morte») para ele, desejo, paz à sua alma e ainda, porque creio, feliz eternidade.

A verdadeira fortuna

São Basílio (c. 330-379), monge e bispo de Cesareia da Capadócia, Doutor da Igreja Homilia sobre a caridade: PG 31, 266-267; 275
«Não acumuleis tesouros na terra»
Por que te atormentas e fazes tantos esforços para colocar a tua riqueza em segurança atrás de cimento e de tijolos? «Vale mais o bom nome que grandes riquezas» (Pr 22,1). Gostas do dinheiro por causa da consideração que te granjeia. Imagina só quanto maior será a tua fama se te puderem chamar pai e protector de milhares de crianças, em vez de guardares milhares de moedas de ouro em sacos. Quer queiras, quer não, um dia terás mesmo de deixar cá o teu dinheiro; pelo contrário, a glória de todo o bem que tiveres feito, levá-la-ás contigo à presença do supremo Mestre, enquanto todo um povo, defendendo-te insistentemente diante do juiz comum, te atribuirá nomes que dirão que o alimentaste, o assististe, que foste bom para ele.
Como deverias estar reconhecido, feliz e orgulhoso da honra que te é dada: não és tu que tens de ir importunar os outros à sua porta, são os outros que correm para a tua. Mas nesse momento ficas sombrio, tornas-te inacessível, evitas os encontros, com medo de teres de deixar um pouco daquilo que tão ciosamente guardas. E só dizes uma coisa: «Não tenho nada, não vos vou dar nada porque sou pobre.» És na realidade pobre, e pobre de todo o bem: pobre de amor, pobre de bondade, pobre de confiança em Deus, pobre de esperança eterna.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XII Tempo Comum
20 de Junho de 2010
Quem é Jesus?

Boa esta pergunta! Serve para reflectir e pensar o essencial da nossa fé cristã. Todos sabem muito de Jesus e ao mesmo tempo ninguém sabe nada. Tudo o que se possa dizer acerca Dele, fica sempre muito aquém daquilo que Ele é verdadeiramente. Porque, São João da Cruz dá-nos o mote: «A razão disso é que Ele está escondido, e tu não te escondes para O encontrar e sentir.
Quem quiser encontrar uma coisa escondida há-de penetrar escondido no lugar onde ela está escondida; ao encontrá-la, fica tão escondido como ela». Assim sendo, são muito poucos os que conseguem tal proeza. Será que terá razão o poeta António Ramos Rosa quando diz que «a graça da salvação é para poucos»? Pois bem, o conhecimento de Jesus, é sempre muito pouco face à realidade que Ele é e provavelmente não nos foram dados sentidos suficientes para abarcar tal conhecimento. Jesus é sempre um desafio. Uma meta que se vê ao longe para a qual se corre, na esperança que um dia se chegue ao seu terminus e aí sim, revelar-se-á em plenitude essa realidade escondida. O próprio Jesus não nos desampara e revela já o que Ele pode ser em cada um de nós: «Eu sou a luz do mundo, aquele que Me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12). Esse desafio que nos é dado para «tomar a cruz todos os dias», mostra que no empenho da vida revelamos o amor por Jesus e como estamos conscientes dos Seus ensinamentos.
A vida por Jesus Cristo, mostra-se no zelo do dever, na partilha fraterna, no coração aberto à compaixão pelos outros, especialmente, os sem lugar e vez na sociedade. A vida iluminada por Jesus Cristo está no sorriso da criança que se mostra disponível para amar desinteressadamente, está nos braços imensos de homens e mulheres que limpam e alimentam os incapacitados, está naquele que diz não ao roubo e à infidelidade dos princípios e compromissos pessoais e sociais. Está na vida que se transmite de todas as formas.
Afinal, «Quem Eu sou...» pode estar em todas as facetas do mundo e da vida toda. Ora bem, para dar o salto de cristãos amorfos e atrofiados pelo costumeiro ritualismo fica o seguinte ensinamento: «Muitos seguem a Jesus até a distribuição do pão, mas poucos até beberem o cálice da paixão» (Tomás de Kempis). Falta gente que tome, corajosamente, ao modo de Jesus, o cálice da entrega na construção do mundo para todos. E mais ainda nos ensina Pascal: «Cristo morreu de braços abertos, para que nós não vivamos de braços cruzados». Pois bem, quem é Jesus para ti?

"A Igreja precisa de vir para a rua"

Entrevista a Henrique Raposo from Pastoral da Cultura on Vimeo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Não havia necessidade

É raro o que se faça em Portugal que não dê barulho, polémica. Se correm bem as coisas, temos heróis até à saciedade, se algo corre mal, temos bodes expiatórios, barulho e mais barulho. É esta a imagem, para não falhar a regra, que fica do jogo de Portugal com a Costa do Marfim. Um empate 0-0, resultado final. Provavelmente, queriam que a Costa do Marfim não defendesse a sua baliza, o que esperavam? - Patéticos os comentários do nosso selecionador, o professor Carlos Queiroz.
O ketchup não foi espremido o suficiente, por isso, não saiu tudo de uma vez e como tal não vieram os golos do Cristiano Rolnado. Alguns até já dizem que não houve o abençoado ketchup porque não há tomates e, de facto, parece, que temos que estar de acordo.
Mas este barulho todo, o que revela? - Mau perder e falta de humildade para reconhecer as nossas limitações e lacunas. Penso, que se ganharia muito mais jogos se essa humildade estivesse mais presente nos nossos jogadores e com isso dariam um excelente exemplo ao nosso povo e particularmente os nossos jovens. Menos videtismo seria um antídoto muito importante. Mas o que vemos na comunicação social sobre os nossos «santos» jogadores e o que eles trabalharam para esse barulho fora do campo... Este povo precisa de exemplos de simplicidade e humildade, porque não raras vezes se consume a gastar o que não tem e a mostrar a força que lhe falta.
Este barulho à volta do futebol é uma alienação e faz parte do «pão e do circo» com que os poderosos deste país teimam em manter sossegado o povo. Tanta estupidez brada aos céus. Porém, voltamos a pedir à nossa selecção de futebol, mais empenho em jogar futebol e que ninguém ligado a ela ande fora do campo a atirar areia aos nossos olhos, porque se somos tontos alguma vez, não seremos sempre. Não havia necessidade de mostar lá fora o que somos cá dentro, ingovernáveis, desordeiros, polémicos, cimbalos que retinem, bronze que soa, barulhentos... por tudo e por nada. Haja tino e que Deus nos valha até no entretenimento, que não somos capazes de fazer sem barulho e desinteressadamente.

Os nossos amigos

Mário Salgueirinho, in Voz-Portucalense
Todos nós temos amigos que não conhecemos: que nunca vimos, com quem nunca falamos, de quem nem sabemos o nome.... São amigos ligados a nós porque leram algum escrito nosso ou nos ouviram em qualquer igreja ou alguém lhes fez referência agradável de nós.
Amigos que vivem longe, amigos que vivem perto de nós, mas que não conhecemos.
Há alguns anos, procuraram os documentos da vida de uma bondosa freira, que eu conheci, para introduzir o processo de beatificação. Curioso e surpreendente foi encontrar no seu livro de orações um papelinho com o meu nome. No silêncio do seu convento, orava por mim, nessa altura jovem sacerdote.
Mas todos nós temos alguém que segura o nosso caminho existencial com a força da sua impetração em mosteiros sombrios e templos de todo o mundo.
Alguém comparou os amigos às estrelas. Durante o dia não se vêem, mas são bem visíveis durante a noite. Nas horas de trevas e dor aparecem junto de nós.
Há amigos que mergulham no silêncio, sem uma palavra, sem um postal, sem um telefonema. Alguns esquecem até atenções e favores, que escreveram na areia...
Muitas vezes perdemos amigos, por nossa culpa. Deixamos de falar-lhes, deixamos de vê-los. Podem ser comparados a um conjunto de balões de toda as cores, que seguramos por um fio. Largando o fio, sobem, sobem, desaparecem e não voltam mais.Para fazer amigos, para conservar amigos é preciso ser amigo.
Imagem tirada do seguinte blog: magnogomes.flogme.com.br

O rei está a morrer

O rei está a morrer

"Uma das experiências teatrais mais impressionantes"
A peça, do escritor romeno Eugene Ionesco (1909-1994), fala da essência da existência humana diante do golpe do destino que todo o ser humano tem de enfrentar, mesmo com os temores do que pode acontecer ao dar o último suspiro.
Uma comédia que mostra até que ponto o ser humano se pode tornar ridículo quando é confrontado com a efemeridade da vida e o inútil apego que temos às coisas materiais.
"Julgava erroneamente, que se tratava de uma peça sobre o poder do mundo confrontado com a transitoriedade humana, da qual a morte é etapa definitiva", escreve Pedro Mexia no texto de apresentação da peça.
"É também isso, claro, mas é sobre a nossa morte, de nós todos, sobre o mundo que acaba quando nós acabamos", explica o subdirector da Cinemateca Portuguesa.
"No princípio da peça - prossegue o poeta - somos logo informados de que o rei vai morrer dali a uma hora e meia (a duração do espectáculo) e durante esses noventa minutos assistimos à agonia do rei Bérenger, que perde o reino, perde a sua «entourage», perde o sentido da realidade, delira, desespera, e desfalece ainda rodeado dos últimos, e já ridículos, cerimoniais régios."
"Ionesco escreveu a peça depois de ter estado internado num hospital, e este corajoso confronto com a mortalidade é uma das experiências teatrais mais impressionantes que conheco", refere Pedro Mexia.
"Vivemos na 'solidão' e na 'incomunicabilidade' mas sobretudo na angústia de haver ou não metafísica, de tudo acabar ou não quando acabamos, Talvez seja um tema absurdo, talvez seja o tema mais verdadeiro", conclui.
"O Rei está a morrer", encenado por João Mota, pode ser visto no Teatro da Comuna, em Lisboa, até 27 de Junho. (O vídeo está no post anterior)
In Pastoral da Cultura

segunda-feira, 14 de junho de 2010

As manias do Cristiano Ronaldo

O S. Cristiano Ronaldo, como alguém lhe chama, ironicamente, promete golos como chuva no mundial – não, engano-me - ele disse o seguinte: «os golos são como o Ketchup, quando aparece é tudo de uma vez». Também disse que quer ser o melhor do mundial. A meu ver já é, o melhor nas manias, na arrogância e na pobreza de ideias.
Sobre o Cristiano Ronaldo, sempre me sobressai um misto de admiração, orgulho, mas também um sentimento de pobreza e de pena em relação a ele e à sua família que se alimenta da sua fama.
Por fim, às vezes sinto uma certa vergonha pelas tiradas que pronuncia da douta sabedoria que o comanda a partir dos pés.
Não fales tanto Cristiano Ronaldo e joga à bola e, já agora, vê se marcas nem que seja um golo em cada jogo. Ficaremos muito agradecidos e até esquecemos o dinheirão que ganhas à conta de muita pobreza do nosso povo. Vamos, joga a bola e fala menos, porque se assim for veremos, quem sabe, mais golos e menos disparates.
José Luís Rodrigues

«Dá-lhe também a capa»

Viver do Amor é dar sem olhar
Sem neste mundo exigir um salário.
Ah! Eu dou sem contar, pois sei que quem ama é perdulário!
Ao Coração Divino, que transborda ternura,
Dei tudo. [...] Corro os meus dias ligeira, sem dor nem fraqueza
Nada mais tendo que esta minha riqueza:
Viver do Amor.
...
Viver do Amor é banir o temor,
Riscando a lembrança dos erros passados.
De meus pecados não vejo nem cor,
Com amor inflamante foram perdoados!
Ó doce fornalha, ó divina chama,
Morada que elejo com todo o fulgor,
Canto em teu fogo, e sou eu quem clama (cf Dn 3, 51):
«Vivo de Amor!» [...]
...
«Viver do Amor, que estranha loucura!»
O mundo me diz «Cessai de cantar!»
«Que os perfumes e a vida futura
«Com utilidade os deveis empregar!»
Amar-Te, Jesus, se é perda, é ganho fecundo!
Para sempre são Teus meus perfumes, Senhor,
Quero cantar ao deixar este mundo:
«Morro de Amor !»
...
Amar é dar tudo e dar-se a si mesmo.
Santa Teresa do Menino Jesus (1873-1897), carmelita, Doutora da Igreja Poemas «Viver de amor» e «Por que te amo, Maria» (trad. a partir de OC, Cerf DDB 1996, p. 668). Publicado por Grão de Mostarda.
...
Imagem tirada do blog: waltinhorabelo.blogspot.com

domingo, 13 de junho de 2010

Carta a Santo António

Meu Padre Santo António, meu Padrinho:
Faz que floresçam no papel
Versos meus em louvor do ninho de carinho
Com que me abriga o teu burel.
Sabes bem quem eu sou: nasci no Minho,
Chamo-me António Manuel.
...
Há setenta e três anos que abençoa
O corpo e alma frágeis do afilhado
A tua mão tão generosa e boa.
E tenho-te traído! E amado
Menos do que mereces! Meu Padrinho, perdoa.
Posso ser perdoado?
...
Meu coração repeso escreve agora
Os versos em que lembro o coração amigo
Que me tem protegido vida fora,
Que me tem salvo das ciladas e do perigo.
Para dizer-tos (sei que nem sequer demora),
Quero estar lá, contigo.
...
Quero estar lá, frente a frente,
De olhos baixos. Mas tu a vigiar-me o voo.
E ao escutares-me o verbo, arrependido e crente,
Na tua língua, a língua em que me sou.
Afastando uma nuvem, dizes-me sorridente:
- Vem!
E eu vou.
António Manuel Couto Viana (1923-2010)
Imagem tirada do blog: timorlorosaenacao.blogspot.com

sábado, 12 de junho de 2010

Catequese do Papa: Santo António, o grande pregador

Nota da redacção: Em tempos de Santos Populares e diante do primeiro, Santo António, escutemos o que diz o Papa sobre o Grande Pregador de Lisboa e de Pádua. A reflexão é muito interessante e vem repor-nos o caminho da verdadeira adoração, porque os tempos que correm estão cheios de idolatria e o culto centra-se em imagens, em pessoas e objectos puramente mundanos. É urgente retomar o caminho da pregação que nos centra na contemplação do Mistério de Deus e na relação pessoal, íntima com esse Mistério insondável. É mandamento antigo, mas sempre actual: «Adorar a Deus sobre todas as coisas», aliás, princípio retificado várias vezes por Jesus Cristo nos Evangelhos. Esta verdadeira adoração parte do Homem vivo (como nos ensinam vários Padres da Igreja), onde está Deus presente na História. Mas, sobre tudo isto, escutemos a reflexão do Papa…
Algumas passagens da Intervenção na audiência geral

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.
Nos “Sermões”, ele fala da oração como uma relação de amor, que conduz o homem a conversar docemente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que envolve suavemente a alma em oração. António nos recorda que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio, que não coincide com o afastamento do barulho externo, mas é experiência interior, que procura evitar as distrações provocadas pelas preocupações da alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração se compõe de quatro atitudes indispensáveis que, no latim de António, definem-se como: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las assim: abrir com confiança o próprio coração a Deus, conversar afetuosamente com Ele, apresentar-lhe as próprias necessidades, louvá-lo e agradecer-lhe.
António escreve: “A caridade é a alma da fé, é o que a torna viva; sem o amor, a fé morre” (Sermões Dominicais e Festivos II).
No começo do século XIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescimento do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, António convidou os fiéis muitas vezes a pensar na verdadeira riqueza, a do coração, que, tornando-os bons e misericordiosos, leva-os a acumular tesouros para o céu. “Ó ricos – exorta – tornai-vos amigos (...); os pobres, acolhei-os em vossas casas: serão depois eles que os acolherão nos eternos tabernáculos, onde está a beleza da paz, a confiança da segurança e a opulenta quietude da saciedade eterna” (Ibid.).
Não seria este, queridos amigos, um ensinamento muito importante também hoje, quando a crise financeira e os graves desequilíbrios económicos empobrecem muitas pessoas e criam condições de miséria? Em minha encíclica Caritas in veritate, recordo: “A economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa” (n. 45). Que estas sejam uma apresentação eficaz da eterna beleza de Cristo, precisamente como recomendava Santo António: “Se pregas Jesus, Ele amolece os corações duros; se o invocas, Ele adoça as amargas tentações; se pensas nele, ilumina-te o coração; se o lês, sacia-te a mente” (Sermões Dominicais e Festivos III).
Imagem tirada de: cpsantaluzia.blogspot.com

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Termina o hoje o Ano Sacerdotal

Hoje, o Papa terminou, em Roma, o Ano sacerdotal. Uma alegria triste. Se por um lado foi tempo de valorizar o papel dos padres na vida da Igreja e das pessoas, porque o padre se não está para as pessoas não tem razão de existir, pois a sua vida é estar ao serviço, por outro lado este ano foi manchado com o problema da pedofilia dos padres da Igreja Católica. Houve quem dissesse que este desmascarar partiu de dentro da própria Igreja, de movimentos que reivindicam o casamento dos padres e a ordenação das mulheres. Não quero acreditar que possa ter sido assim, como também não achei bonito aproveitar estes acontecimentos para servirem de bandeira para outras guerras dos mesmos movimentos.
Mas, quer queiramos quer não, o mal existiu e existe, infelizmente, apesar dos pedidos de perdão que o Papa possa fazer, como aliás fez esta manhã, em Roma. A questão dos afectos na vida de um padre ou está muito bem resolvida ou acaba em desequilíbrios. E, hoje em dia, estas questões podem ser detectadas antes da ordenação. Não é depois de ser ordenado padre que as coisas dão no que dão nem será a imposição das mãos que irá sanar os comportamentos desviantes.
Mas a pedofilia foi uma nuvem, espessa, negra, num céu que brilha. Também serviu este ano para pensar e agradecer a pessoas que nos ajudaram na fé. Tantos padres que morreram martirizados, que nos ouviram quando precisámos, que rezaram connosco e por nós....
In retalhos da vida de um padre
Nota da redcção: E fica o que já se esperava da «teimosia» da hierarquia da nossa Igreja, o celibato é o «melhor antídoto contra outros escândalos causados pelas nossas insuficiências de mortais», disse Bento XVI. Será que as sociedades actuais entendem esta linguagem? - Penso que não, face à mentalidade e à forma como vivem os nossos jovens, eles estão completamente noutra órbita, que por sinal, é muito estranha à alguma Igreja Católica. Bom, adiante fazendo o bem, porque é isso que Deus nos pede.

Faleceu Maria Aurora

Faleceu esta noite Maria Aurora Homem.
Escritora, poetisa, jornalista, Maria Aurora destacou-se na área da cultura e ficou conhecida pelos programas televisivos que apresentou na RTP/M.
As comunidades emigrantes tinham por Maria Aurora um carinho especial, notei isso pessoalmente, na África do Sul, cujos programas eram apreciados e comentados por todos.
Tive com Maria Aurora uma troca de ideias opostas sobre a polémica Lei do Aborto. Isso não afectou a minha admiração pela escritora e pela grande comunicadora que era. No fim da linha, a morte, fica a esperança no além que outro futuro nos dá, embora cheio de mistério. Pois que fale mais alto a memória que fica e neste caso aferida nas letras que os seus livros atestam.
Paz à sua alma.
Cumprimentos a toda a família.
José Luís Rodrigues

Hoje é dia do Sagrado Coração de Jesus

Os Santos Padres muitas vezes falaram do Coração de Cristo como símbolo do seu amor, tomando-o da Escritura: "Beberemos da água que brotaria do seu Coração.... quando saiu sangue e água" (Jo 7,37; 19,35).
Na Idade Média começaram a considera-lo como modelo do nosso amor, paciente pelos nossos pecados, a quem devemos reparar entregando-lhe o nosso coração (santas Lutgarda, Matilde, Gertrudes a Grande, Margarita de Cortona, Angela de Foligno, São Boaventura, etc.).
No século XVII estava muito expandida esta devoção. São João Eudes, já em 1670, introduziu a primeira festa pública do Sagrado Coração.
Em 1673, Santa Margarida Maria de Alocoque começou a ter uma série de revelações que a levaram à santidade e ao impulso de formar uma equipa de apóstolos desta devoção. Com o seu zelo conseguiram um enorme impacto na Igreja.
Foram divulgados inúmeros livros e imagens. As associações do Sagrado Coração subiram durante um século, desde meados do XVIII, de 1000 a 100.000. umas vinte congregações religiosas e vários institutos seculares foram fundados para estender o seu culto de mil formas.
O apostolado da Oração, que pretende conseguir a nossa santificação pessoal e a salvação do mundo mediante esta devoção, contava já em 1917 com 20 milhões de associados. E em 1960 chegava ao dobro em todo o mundo, passando de um milhão na Espanha; as suas 200 revistas tinham 15 milhões de inscrições. A maior instituição de todo o mundo.
A Oposição a este culto sempre foi grande, sobretudo no século XVIII por parte dos jansenistas, e recebeu um forte golpe com a supressão da Companhia de Jesus (1773). Na Espanha foram proibidos os livros sobre o Sagrado Coração. O imperador da Áustria deu ordem que desaparecessem as suas imagens de todas as Igrejas e capelas. Nos seminários era ensinado: "a festa do Sagrado Coração provocou uma grave mancha sobre a religião".
A Europa oficial rejeitou o Coração de Cristo e em seguida foi assolada pelo ideais da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas. Mas depois da purificação, ressurgiu de novo com mais força que nunca.
Em 1856 Pio IX estendeu a sua festa a toda a Igreja. Em 1899 Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus (o Equador tinha-se consagrado em 1874).
E a Espanha em 1919, a 30 de Maio, também se consagrou publicamente ao Sagrado Coração no Monte dos Anjos. Onde foi gravado, sob a estátua de Cristo, aquela promessa que fez ao pai Bernardo de Hoyos, S. J., a 14 de Maio de 1733, mostrando-lhe o seu Coração, em Valladolid (Santuário da Grande Promessa), e dizendo-lhe: "Reinarei na Espanha com mais Veneração que em muitas outras partes" (Até então a América também era Espanha).
Texto: In Acidigital
Gravura: Blog «Apenas Oração»
Nota da redacção: O Coração de Jesus brotou «Sangue e Água», dois elementos da vida e do amor. Por isso, deixemos o nosso coração adaptar-se a essa realidade para que o nosso mundo se torne mais sorridente para todos. Vivamos esta verdade do Coração de Jesus (o Grande Amor pelo mundo) para que toda a realidade má à nossa volta seja vencida pela bondade que cada coração é capaz de gerar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XI Tempo Comum
13 de Junho de 2010
O dom das lágrimas
O padre Tolentino Mendonça explica o sentido das lágrimas neste episódio do Evangelho de Lucas do seguinte modo: «as suas lágrimas substituem a água da hospitalidade que faltou. «Pelas minhas lágrimas, eu conto uma história», explica Roland Barthes. Segundo aquele ensaísta as lágrimas são uma realidade tudo menos insignificante. Porque temos muitas formas de chorar e essas revelam não só a intensidade do nosso desgosto, mas também a natureza da nossa sensibilidade. Porque ao chorar, mesmo na mais estrita solidão, nos dirigimos a alguém: esforçamo-nos para o outro não ver que nós choramos, mas a verdade é que nós choramos sempre para um outro ver. Porque as lágrimas emprestam um realismo particular, dramático à expressão de nós próprios. Na tradição bíblica é muito comum que o pranto acorde no homem a consciência da dependência divina. Ele reconhece a sua insuficiência, a debilidade das suas seguranças e reclama a intervenção favorável e protectora de Deus (1 Samuel 1, 10; Lamentações 1, 16)».
Sobre o quadro em si diz o seguinte: «A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem plástica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solitária, no palco da casa do fariseu, o seu monólogo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo chão do hóspede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ninguém ali teve a preocupação de ofertar a Jesus. A qualidade penitencial do personagem é testemunhada pelo território simbólico em que ela opera, os pés de Jesus, sete vezes referidos, e pela convulsão da sua figura (pois ‘desatar o seu cabelo em presença do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra’)».
Toda a liturgia deste domingo pretende revelar-nos um Deus de infinita bondade e de uma imensa misericórdia, que sempre detesta o pecado, mas ama o pecador, por isso, Ele multiplica sem condições a oferta da salvação. A descoberta de um Deus com estas qualidades, nasce o amor e a vontade de vivermos uma vida nova, integrada na Sua família.
Deste modo, a primeira leitura apresenta-nos, através da história do pecador David, um Deus que não aceita o pecado, mas que também não abandona o pecador que reconheça a sua falta e aceite o dom da misericórdia e do perdão.
Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo garante-nos que a salvação é um dom gratuito que Deus oferece, não uma conquista humana. Para ter acesso a esse dom, não é fundamental cumprir ritos, leis humanas observadas escrupulosamente, mas, é preciso aderir a Jesus e identificar-se com o Cristo do amor e da entrega, é isso que conduz à vida plena.
Foi realmente essa grandeza manifestada à mulher pecadora que lavou os pés de Jesus com as suas lágrimas. O dom das lágrimas, após o arrependimento sincero, conduz à salvação.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Está a ser demais a idolatria

Repare-se em dois aspectos.
Primeiro. O culto das imagens está a exceder os parâmetros normais. Penso que já chega de correr atrás de imagens e de modo especial no que diz respeito às imagens de Nossa Senhora. No tempo histórico dos Apóstolos (os que tiveram convivência histórica com Jesus), existiam determinações bem claras quanto ao culto mariano. O perigo do endeusamento de Maria era muito evidente, segundo alguns dados históricos (escassos por sinal), porque não interessa muito falar-se neles, para que as actuais devoções marianas não sejam desautorizadas.
O que se sabe é que o nome de Maria nos primeiros tempos do Cristianismo não era muito falado e até existiam proibições para que tal não acontecesse. O mais importante seria adorar Jesus Cristo e anunciar este nome, como figura central da religião cristã. Esta era a principal preocupação dos Apóstolos. Será que todos os Apóstolos de hoje têm a mesma preocupação?
Actualmente, vê-se tudo ao contrário disto, há um endeusamento do nome e da imagem de Maria. Seria preciso estabelecer princípios claros para que o perigo da idolatria não esteja semeado no coração dos cristãos. É preciso apontar Maria como Mãe de Deus e da humanidade, mas nunca como deusa. Nossa Senhora, Maria de Nazaré, teve e tem um papel crucial no processo da Incarnação, mas chega de endeusá-la e falar mais Dela do que de Jesus Cristo. Esta anomalia, provavelmente é mais cómoda, mais fácil e mais animadora, porque mobiliza gente, reúne multidões. Porém, não radica no principal da fé cristã, que é viver o Evangelho que Jesus Cristo anunciou e pelo qual entregou a Sua vida. Uma prova muito evidente desta anomalia perigosa, é a fraca adesão à adoração do Santíssimo Sacramento. É mais fácil adorar imagens com rosto, mesmo que inanimados, do que contemplar e adorar o invisível e o Mistério da Santíssima Eucaristia. Esta é a situação actual da nossa Igreja Católica. A maioria não corre pelo mistério de Deus, mas pelo espectáculo das celebrações e das procissões. É pena que não se tome consciência deste cancro e não se tomem as devidas medidas para curá-lo e que antes disso se alimente o caminho que o desenvolve ainda mais.
A meu ver falta-nos uma concentração maior na Mulher, Maria de Nazaré, a prima de Isabel, que canta o Magnificat, o canto de Maria e menos importância na mulher endeusada e nada histórica que a tradição criou e alimentou com devoções, que muitas vezes roçam o ridículo e o desumano. Daí estarmos muitas vezes perante pura idolatria e nada perante a mulher libertadora que o Evangelho nos apresenta.
Segundo aspecto. Outro dado triste e deprimente, prende-se com as visitas pascais nalgumas das nossas paróquias. Eles são grupos que se organizam à volta das insígnias (bandeiras) do Espírito, com muita animação popular, que vão de porta em porta, pretensamente, anunciando que Cristo Ressuscitou. Mas parece que é mais forte a animação do brinquinho do que todos os sinais da fé. Terminada esta corrida, as ofertas recolhidas nas respectivas casas são esbanjadas ao desbarato entre tocadores e no arraial que chamam eufemisticamente de festa do Espírito Santo. Toda a gente gosta disto, até alguns se organizam em grupos para irem ver estes folguedos.
Sei de uma Paróquia da nossa terra que este ano recolheu 20 mil euros, que foi tudo esbanjado no arraial e em comezainas para alguns apenas. Estamos perante um escândalo e uma injustiça que brada aos céus, realizada em nome da Igreja e do Evangelho de Cristo. Não creio neste cristianismo e abomino estas manifestações tradicionais empacotadas apenas com o nome de fé, para justificar o entretenimento e o negócio.
É preciso determinar claramente um fim a isto. Porque não se pode à volta das coisas da Igreja reduzir a religiosidade a folclore e folguedo. Apela-se aos responsáveis da Igreja Católica que com coragem determinem o fim desta idolatria perigosa que nada tem de Evangelho nem com o verdadeiro espírito das Visitas Pascais, que deveriam recolher donativos para os pobres e não sendo para tal devem reverter esses bens para a comunidade, a Paróquia, que o deve aplicar em algo que beneficie o bem de todos. Às pessoas que admiram e riem com o folclore à volta desta actividade pretensamente religiosa, que se eduquem e tomem consciência que estão a alimentar um negócio que nada tem que ver com fé, mas com entretenimento injusto, porque enche os bolsos de alguns e nada sobra para o bem comum.
Sabe-se de bispos que no passado tiveram a coragem de proibir as Visitas Pascais e as Missas do Parto, porque tinham caído na mais pura idolatria e no folguedo apenas.
José Luís Rodrigues

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Depois da morte, sempre emerge a vida

Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em crateras concisas
E seiva
E derramam o perfume como lava
...
E se quiséssemos queimar animais de grande porte
Eles não regressariam. Mas a morte
Das plantas é a sua infância
Nova. Os caules levantam-se
Cheios de crias recentes
...
Também os corações dos homens ardem
Bebem vinho, leite e água e não apagam
O amor
Daniel Faria, Explicação das Árvores e de Outros Animais, Fundação Manuel Leão, 2ª ed., 2002, p.7
Nota: o título é do autor do blog.

As Bem-Aventuranças

Mateus 5,1-12.
«Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.
Felizes os que choram, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.
Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.»
//////////////////////////////////////////////////////
Nota da redcção: Que discurso sempre surpreendente! Jesus, é um Grande Mestre. As suas palavras encaixam como luvas na realidade concreta do nosso dia a dia. Obrigado Jesus pela Tua sabedoria e mais te agradeço porque a ofereces a todos nós, que ensaiamos timidamente viver a vida de acordo com os Teus ensinamentos. E perante estas palavras, recarregamos baterias para enfrentar as perseguições que de uma forma ou de outra sempre aparecem à nossa volta.

domingo, 6 de junho de 2010

Ao mesmo tempo religioso e ateu?

por ANSELMO BORGES
Como aqui me refiro por vezes a quem se considera ao mesmo tempo religioso e ateu, gostaria de tentar explicar.
Podemos apresentar exemplos. É sabido que Einstein tinha profunda veneração pela natureza - uma veneração de tipo religioso -, mas não aceitava Deus como pessoal e criador. Ernst Bloch afirmava que onde há esperança há religião. Segundo a sua concepção da matéria, força divina geradora de tudo, pode esperar-se um salto "sobrenaturante" da natureza, de tal modo que se dê a reconciliação entre a natureza e o homem, que, no limite, se poderia tornar imortal. Mas afirmava-se ateu, porque não aceitava o Deus bíblico, transcendente, pessoal e criador.
Nesta ligação à natureza, força geradora divina impessoal, há traços de religiosidade quase mística, mas, ao mesmo tempo, porque se não acredita no Deus transcendente, pessoal, criador, com quem se tem uma relação pessoal, não se presta culto, não se reza, e, sobretudo, não se espera dele a salvação. Aí está uma religiosidade ateia.
Actualmente, um exemplo desta vivência como ateu e religioso é o filósofo A. Comte-Sponville, que se define como "ateu fiel": "ateu, porque não acredito em nenhum Deus nem em nenhum poder sobrenatural; mas fiel, pois me reconheço numa certa história, numa certa tradição, numa certa comunidade, e especialmente nos valores judeo-cristãos (ou greco-judeo-cristãos) que são os nossos", e que, neste sentido, escreveu a obra L'Esprit de l'athéisme.
Quando se pergunta: "Acredita em Deus?", deve-se perguntar previamente o que é que se entende por Deus. Assim, Comte-Sponville propõe a seguinte definição: "Entendo por 'Deus' um ser eterno, espiritual e transcendente (ao mesmo tempo exterior e superior à natureza), que teria consciente e voluntariamente criado o universo. Supõe-se que é perfeito e plenamente feliz, omnisciente e omnipotente. É o Ser supremo, criador e incriado (é causa de si), infinitamente bom e justo, de quem tudo depende e que não depende de nada. É o absoluto em acto e em pessoa."
É precisamente em relação a este Deus pessoal que A. Comte- -Sponville se confessa ateu. Não podemos saber se Deus existe ou não. Deus não é objecto de saber, se entendermos saber como "o resultado comunicável e controlável de uma demonstração ou de uma experiência". Assim, há quem acredite que há Deus e quem acredite que não há. Comte-Sponville é ateu, não crê, mas sublinhando que não pretende saber que Deus não existe: "Creio que não existe." Se alguém disser que sabe que Deus não existe, "não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil", do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, "é um imbecil que toma a sua fé por um saber".
Há razões para crer e razões para não crer. A. Comte-Sponville faz o elenco das razões que o levam a não crer em Deus, sendo uma das principais a existência do mal no mundo. Mas afirma-se espiritual - prefere a expressão espiritualidade a religiosidade, porque a religião está vinculada em princípio a religiões institucionalizadas -, no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade... Quando falta Deus, há "a plenitude do que é, que não é um Deus, nem um sujeito". Há o Todo, pouco importando os nomes: o ilimitado (Anaximandro), o devir (Heraclito), o ser (Parménides), o Tao (Lao-tsé), a natureza (Lucrécio, Espinosa), o mundo ("o conjunto de tudo o que acontece": Wittgenstein), o real "sem sujeito nem fim" (Althusser), o presente ou o silêncio (Krishnamurti) - "o absoluto em acto e sem pessoa".
Quando não há Deus que nos salva, que é a espiritualidade? "É a nossa relação finita com o infinito ou a imensidade, a nossa experiência temporal da eternidade, o nosso acesso relativo ao absoluto." O que faz viver não é a esperança, mas o amor; o que liberta não é a fé, mas a verdade. "Já estamos no Reino: a eternidade é agora."
Aqui, a pergunta radical é: um Deus não invocável pelo homem salvaria alguém enquanto pessoa? O núcleo da questão é a pessoa.
In Diário de Notícias de Lisboa, Sábado 5 de Junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

O amor em acção

Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997), fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade A Simple Path (a partir da trad. francesa, Plon Mame, 1995, p. 95), disse a partir desta frase do Evangelho:
«Todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía»
«Tendes de dar aquilo que vos custa um pouco. Não basta dar apenas aquilo de que podeis prescindir, tendes de dar aquilo de que não podeis nem quereis prescindir, as coisas às quais estais presos. Nessa altura, o que dais passa a ser um sacrifício, que tem mérito aos olhos de Deus. [...] É aquilo a que eu chamo o amor em acção. Todos os dias vejo crescer este amor nas crianças, nos homens e nas mulheres.
Certo dia em que ia a descer a rua, aproximou-se de mim um mendigo que me disse: «Madre Teresa, toda a gente lhe oferece presentes e eu também quero dar-lhe um presente. Hoje deram-me apenas vinte e nove cêntimos durante todo o dia e eu quero dar-lhos.» Fiquei a pensar um momento: se eu aceitar estes vinte e nove cêntimos (que não valem quase nada), ele corre o risco de não ter que comer esta noite; mas, se não os aceitar, ofendo-o. Então, estendi a mão e aceitei o dinheiro. E nunca vi, em rosto algum, tanta alegria como a que vi no rosto deste homem, que ficou felicíssimo por ter podido oferecer qualquer coisa à Madre Teresa! Para ele, que tinha mendigado o dia todo ao calor, aquela soma irrisória, que não serviria para quase nada, era um sacrifício enorme. Mas era uma coisa maravilhosa: aquelas moeditas a que ele estava a renunciar valiam uma fortuna, por serem dadas com tanto amor».
Nota da redacção: Que extraordinário pensamento! E se levado à prática o nosso mundo seria um paraíso para todos os povos... Fiz deste texto a minha oração da manhã.