
Se nos dizem que o ano novo será pior que 2010, aplicamos, sem olhar à moral da história, a prática da cigarra: gastem-se os últimos cêntimos naquela carteira fantástica que andávamos a namorar desde Agosto.
Os portugueses continuam a surpreender. Quando não se fala de outra coisa senão da crise e na necessidade de apertar o cinto, eis que os dados relativos a dinheiro levantado nas caixas multibanco e pagamentos em terminais automáticos deixa todos de boca aberta. Só na semana do Natal, gastaram-se cem milhões de euros acima do ano passado.
Números impressionantes. Entre 20 e 26 de Dezembro, foram gastos 4,6 milhões de euros por dia ou, se quisermos olhar com mais detalhe, 77,8 mil euros por minuto. Afinal, onde está a crise?
A crise, a crise anda por aqui. Impossível já iludi-la. Como se explica então esta corrida infrene dos portugueses às compras, como se tudo estivesse em saldo? Talvez só psicólogo o possa explicar. Ninguém, talvez, acredita nas mensagens aterradoras, de todo o género de especialistas, que entram portas adentro. Ou será outro o motivo: aproveita-se enquanto há, depois logo se vê.
Bem vistas as coisas, sempre foi assim que fizemos. Se nos dizem que o ano novo será pior que 2010, aplicamos, sem olhar à moral da história, a prática da cigarra: gastem-se os últimos cêntimos naquela carteira fantástica que andávamos a namorar desde o final de Agosto... E foi uma sorte apanhá-la ainda! A crise não impede que os produtos desapareçam das prateleiras - e mais vazias se encontram desde ontem, com a abertura oficial da época dos saldos.
A crise está aí, disso não tenhamos dúvidas. Mas também podemos ter a certeza que atinge quase sempre os mesmos: os que eram pobres e agora estão muito, muito mais pobres, mesmo seguindo à risca as boas práticas da formiga.
Não foram estes, os pobres do Portugal democrático, que correram aos multibancos na semana do Natal e, por certo, não acotovelaram ninguém nas enormes e demoradas filas para pagar - a crédito ou não - nas lojas dos centros comerciais. Este país foi feito para as cigarras.
in Jornal de Notícias
3 comentários:
Pois, somos um país de "fadistas" e de cigarras....formigas, ainda vai havendo! Mas, na verdade, com tanta contestação de juízes, médicos, professores, funcionários públicos, e ao analisar estes números, dá mesmo para perguntar:Onde está a crise? E mais, os destinos de pequenas férias de Natal não tiveram baixa, a Páscoa já está "muito bem composta"... É cada vez maior o fosso entre os pobres e os que sabem viver gastando na crise. Os pobres não se manifestam, não têm tempo de antena reivindicativo, deve ser essa a questão.
E não vejo mudanças no horizonte...Só para pior...
M.
Este artigo da Paula Ferreira, até dói por ser tão verdadeiro. Mas, vamos ter esperança, teimo em não fazer parte dos pessimistas/realistas, a vida também se fez com desejos, sonhos...
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