Convite a quem nos visita

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ganhei coragem...

Bela reflexão para começar a semana....

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"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente
tem coragem para aquilo que ele realmente conhece",
observou Nietzsche.
É o meu caso.
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe
acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos".
Tardiamente.
Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem.
..
Vou dizer aquilo sobre o que me calei:
"O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
...
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus
como fundamento da ordem política.
Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar:
a democracia é o governo do povo.
Não sei se foi bom negócio;
o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável,
é de uma imensa mediocridade.
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
....
A Teologia da Libertação sacralizou o povo
como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha
para que o povo, na planície,
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso
que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
.....
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras idéias.
Amava a prostituição.
Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias
pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário
pelo mercado de escravos.
E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas.
Comprou-a e disse:
"Agora você será minha para sempre."
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa
numa parábola do amor de Deus.
......
Deus era o amante apaixonado.
O povo era a prostituta.
Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros,
porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces;
a verdade é amarga.
.......
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola
com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos
sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões,
se transformaram em donos do circo.
........
O circo cristão era diferente:
judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa,
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro
"O Homem Moral e a Sociedade Imoral"
observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.
São seres morais.
Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo,
a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
.........
Indivíduos que, isoladamente,
são incapazes de fazer mal a uma borboleta,
se incorporados a um grupo tornam-se capazes
dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos,
são capazes de pôr fogo num índio adormecido
e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.
Indivíduos são seres morais.
Mas o povo não é moral.
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
..........
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional,
segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
...........
Mas uma das características do povo
é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagense não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista
que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa.
Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam
a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
............
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung,
o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
.............
O nazismo era um movimento popular.
O povo alemão amava o Führer.
.............
O povo, unido, jamais será vencido!
...............
Tenho vários gostos que não são populares.
Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.
Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio;
não gosto de churrasco, não gosto de rock,
não gosto de música sertaneja,
não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo,
eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos
e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno",
à semelhança do que aconteceu na China.
................
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça,
é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute:
"Caminhando e cantando e seguindo a canção.",
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.
Rubem Alves
colunista da Folha de S. Paulo

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Oração de Gandhi

Se me der o sucesso, não me tires a humildade.
Se me der humildade, não me tires a dignidade.
Ajuda-me a enxergar o outro lado, não me deixes julgar o outro apenas por não pensar igual a mim.
Ensina-me a amar os outros como a mim mesmo.
Não deixes que me torne orgulhoso se triunfo, nem cair em desespero se fracasso.
Recorda-me que o fracasso é a experiência que precede o triunfo.
Ensina-me que perdoar é sinal de grandeza e que vingança é sinal de fraqueza.
Se não me deres o êxito, dá-me forças e sabedoria para aprender com o fracasso.
Se eu ofender, dá-me forças para desculpar-me e se me ofenderem dá-me grandeza para perdoar.
Nota do autor do bogue: Esta oração com um desejo forte de bom fim de semana para todos....

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Pensamento surpreendente sobre a felicidade

«Todos os homens querem ser felizes; não há ninguém que não o queira, e com tanta intensidade que o deseja acima de tudo. Melhor ainda: tudo o que querem para além disso querem-no para isso. Os homens perseguem paixões diferentes, um esta, outro aquela; também existem muitas maneiras de ganhar a vida neste mundo: cada um escolhe a sua profissão e exerce-a. Mas quer adoptem este ou aquele género de vida, todos os homens agem nesta vida para serem felizes. [...] O que há então nesta vida capaz de nos fazer felizes, que todos desejam mas que nem todos alcançam? Procuremo-lo».
Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (África do Norte) e Doutor da Igreja Sermão 306.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Felizmente há luar

A não perder por estes dias a peça de teatro «Felizmente há luar», levada à cena pelo grupo cénico Contigo-Teatro no Teatro Baltazar Dias. Denuncia uma aliança terrível entre poder político e religioso para levar à morte o pretenso sublevador do povo, o general Gomes Freire. O autor da peça é Luís de Sttau Monteiro, que denuncia a opressão vivida na época do regime salazarista através desta época particular da história. Assim, o recurso à distanciação histórica e à discrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe, também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo, o abuso de poder do Estado Novo e as ameaças da PIDE, entre outras. Especialmente, a grande hipocrisia que o poder político e a Igreja Católica apresentavam face à imposição da trilogia Deus, Pátria e Família. O povo era mantido na maior pobreza, para ser objecto de todas as artimanhas e servido às migalhas para alívio das consciências da sociedade mais abastada.
JLR

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo VIII Tempo Comum
27 de Fevereiro de 2011
Os bens e a liberdade
São Paulo dá-nos uma grande lição sobre a função do «chefe» ou da «chefia» da comunidade que deve ser sempre assumido como um serviço à pessoa de Cristo e do Seu projecto. O «chefe» vai ajudando a comunidade a perceber a vontade de Deus no momento presente. E a sua fidelidade prende-se primeiramente ao Senhor da comunidade. Quando fazemos juízos a respeito das pessoas, nem sempre somos justos ou imparciais. O nosso julgamento é, quase sempre, fruto da nossa visão (ou deformação) do projecto de Deus. Paulo tem a certeza de que a sua consciência não o acusa, mas nem por isso se sente justificado, pois quem justifica é somente Deus: «Quem me julga é o Senhor».
O Evangelho ensina-nos a viver o desprendimento e a liberdade face aos bens deste mundo, particularmente, perante o dinheiro. Este deve ser sempre um bem ao serviço e nunca uma pressão que escravize o pensamento e a liberdade de acção. Quando faz parte da vida esse desprendimento, emerge a partilha e vontade de justiça como valores essenciais. O egoísmo e a ganância não têm lugar. O mundo seria menos injusto, isto é, mais fraterno, teria muito menos pobres, famintos e indigentes se estivesse organizado como uma casa comum, um lugar onde fosse possível a festa do amor partilhado. Neste banquete, os bens não seriam só e apenas para alguns, mas para todos, porque não faltaria lugar à mesa para ninguém. Todos estariam convidados e entrariam nessa grande festa da fraternidade universal.
Um sonho? Um desejo? - Sim, ambas as coisas, sonho e desejo, que devem fazer parte do coração de todos os povos, especialmente, nós cristãos, que lemos e celebramos as palavras de Jesus. E não serão o sonho e o desejo, condimentos essenciais da vida? - É preciso tomar a sério este ideal cristão e lutar para que o mundo seja estruturado, não apenas na simples caridade, mas na justiça e na partilha dos bens. De que serve o mundo estar a saque por uma minoria que nunca se farta de dinheiro e por isso suga quanto mais pode os recursos naturais, que pertencem a todos, e com eles monta negócios chorudos só e apenas em seu benefício e dos seus familiares? - Serve esta lógica para acentuar mais a pobreza, a fome e a indigência. A seguir a raiva e a revolta.
Urge uma outra lógica, mais de acordo com o bem comum, para que o mundo seja conduzido para o ideal da paz e da justiça que contempla toda a humanidade. É este o sonho de Deus, é este o nosso sonho.
JLR

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Pensar em Deus é desobedecer a Deus

Poema de Fernando Pessoa / Alberto Caeiro (in "O Guardador de Rebanhos") Recitado por Mário Viegas (in CD "O Guardador de Rebanhos I", 1983; reed. Público, 2006)
...
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que não o conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á flores na sua Primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
...
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que as nossas vistas nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver...
In Blog: Macroscopio

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Profecia Simples

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Não importam as sombras ou os desatinos dos percursos.
..
Basta a hora
Ou o som da palavra sonhada aqui e agora.
...
Não contam os percalços
Diante do silêncio de um dia
Naquele rio de luz
Aberto sobre a planície da esperança.
JLR

Avô explica ao neto o que é o jet-set

Sabes o que é o jet-set filho? "Não avô, o que é isso?"
"Olha rapaz em Portugal o jet-set são aqueles tesos que não têm dinheiro para comprar um pacote de sugos mas que parecem varejeiras em volta das festas do social. Desde que haja imprensa especializada em revistas de leitura de Wc eles estão lá. Tarólogas, bruxos, manequins tenrinhos, desconhecidos ou conhecidos porque apareceram 2 minutos na televisão a dizer bacoradas e depois um grupo de gente que o teu avô não sabe bem o que faz ou como ganha a vida, mas que tem sempre um diminutivo no nome: Vivis, caquis,mimis, cócos, pipis, xonés e assim." "Não estou a entender avô... Olha filho nem eu mas é assim querido.
Uma delícia recebida por mail. A propósito de haver um grupo a se mover para que seja dado o nome de Carlos Castro a uma rua da cidade de Lisboa...
Imagem de Nelson Santos...

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Pátio dos Gentios

Nota: Óptima reflexão. Muito oportuna face à exclusão. Facto preocupado, porque conduz a Igreja Católica para ser uma seita entre tantas outras seitas...
«Em Dezembro de 2009, o Papa Bento XVI expressara o desejo de que a Igreja abrisse uma espécie de “Pátio dos Gentios”, um lugar “no qual os homens possam, de alguma forma, entrar em contacto com Deus, sem o conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério”.
No tempo de Jesus e dos apóstolos, o recinto que circundava o Templo de Jerusalém estava dividido em vários pátios que refletiam, em parte, a própria organização social da Palestina. O maior era o dos gentios. Estava separado do Templo e dos outros pátios por uma balaustrada com inscrições, proibindo a passagem para o interior, sob pena de morte. Cinco degraus acima, havia o pátio das mulheres e, ainda mais acima, havia o pátio de Israel ou dos homens. Deste, passava-se para o dos sacerdotes.
A metáfora do Papa inspirou a criação, no âmbito do Conselho Pontifício para a Cultura, presidido pelo Cardeal Gianfranco Ravasi, de uma nova estrutura permanente destinada a incentivar o intercâmbio e o encontro entre crentes e não crentes. O lançamento oficial desta nova estrutura, designada, precisamente, Pátio dos Gentios, está prevista para os dias 24 e 25 de Março, em Paris. Sob o tema genérico "Religião, luz e razão", este evento vai desenvolver-se mediante um conjunto de debates, na sede da UNESCO, na Sorbonne, no Institut de France e no Collège des Bernardins. No segundo dia à noite, será organizada uma festa aberta a todos, sobretudo aos jovens, no átrio da Catedral de Notre Dame.
A expressão “Pátio dos Gentios” é ambígua. Pode dar a ideia de que o mundo está dividido entre os que já encontraram Deus e os que procuram esse encontro. Seria uma visão muito simplista. Alguma razão tinha Fernando Pessoa ao dizer: “Em qualquer espírito, que não seja disforme, existe crença em Deus. Em qualquer espírito, que não seja disforme, não existe crença em um Deus definido”. Vem no Livro do Desassossego. E o desassossego é o próprio estatuto de todos os seres humanos em relação ao sentido e ao fundamento da vida. A experiência do místico é a do Mistério inabarcável, não a posse de um ente circunscrito por uma definição. Quando o mestre Eckhart pede para que Deus o livre de deus, reza para não sossegar em nenhum ídolo, mesmo no ídolo da ideia de Deus, como se Deus coubesse numa ideia, num conceito.
Dir-se-á que a nota dominante do nosso mundo não é o desassossego, é a indiferença: como não podemos conhecer o sentido da vida de forma científica, evitemos a própria questão e tentemos viver em paz sem questões metafísicas ou espirituais, religiosas ou místicas. Vivamos ao rés da terra que nos há-de comer e as preocupações do dia-a-dia, minado pela crise, bastam e sobram.
Parecendo que não, essa conversa é abstracta. Vivemos no pátio de toda a gente, de crentes, de não crentes, de místicos, de ateus e de agnósticos, de religiosos e irreligiosos. É neste mundo concreto que os cristãos devem estar prontos a dar razão da sua esperança, da sua experiência mística e a escutar as experiências religiosas ou ateias dos outros. A vontade de criar “pátios de encontro”, onde as pessoas de diferentes correntes ideológicas, políticas, culturais ou religiosas procuram escutar-se e interpelar-se mutuamente, responde a uma necessidade urgente, à qual importa dar configurações imaginativas. Aliás, mesmo a nível da Igreja, a celebração dos ritos de passagem – baptismos, casamentos e funerais – deixaram de ser espaços e tempos reservados aos crentes. Por razões várias, são “pátios” de crentes e gentios. Em vez de pensarmos só em estruturas ou instituições sofisticadas de encontros solenes, não seria de estudar e praticar as imensas virtualidades destas ocasiões tão frequentes?»
Bento Domingues, Público 20 de Fevereiro de 2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O cordão humano à volta do aterro

Mais um grito de liberdade... Embora alguns não queiram que se grite. Mas há gestos e atitudes que são mais sonantes que qualquer grito própriamente dito.
Um sinal muito positivo. Estou cheio de alegria e de esperança pelo gesto de cidadania ali demonstrado e pelo futuro da nossa cidade. Um forte bem-haja a todas as pessoas que participaram. Participei, emocionei-me com as palmas e com o minuto de silêncio pelas vítimas do 20 de Fevereiro de 2010 (nesta ocasião rezei a oração do Pai-Nosso).
Alguma Comunicação Social perguntou-me o que fazia ali um padre, respondi que era mais habitual ver-se um padre nos enterros, num aterro não. Expliquei, estava ali porque sou cidadão como os outros e manifestava a minha total concordância com todos os que ali estavam. Não queremos ali o aterro nem muito menos uma construção que mascara a nossa linda cidade, que cerceia mais um acesso ao mar e à linda paisagem da extraordinária baía do Funchal.
Bom. Um momento interessante que guardarei para sempre. Sinto uma viragem imprevisível. Espero que traga bons auspícios para a nossa terra. O futuro promete. Ainda bem. Finalmente, começou um despertar surpreendente.
JLR
Foto: ASPRESS

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Baratas

Poema dedicado a todos os que acham que é possível construir um país, uma região, uma cidade melhores onde todos têm lugar a serem cidadãos de plenos deveres e direitos. E com o desejo forte que o cordão humano à volta do aterro seja um sucesso estrondoso e que seja muito, muito benéfico para a melhoria da nossa cidade. Vamos todos participar nesta causa de cidadania, porque amamos a cidade do Funchal.
Baratas.
Este é um país de baratas!
Um país de gente inculta
Um país de ideias curtas
Um país minúsculo
Um país sem músculos
Um país sem espinha dorsal.
Um país que do passado não tem memória
Um país que não conhece a história
Ou que da história não conhece,
Ou só reconhece!
Os nomes, não os feitos,
As figuras, não os factos,
As caras, não os actos.
Um país que esqueceu quem lutou pela liberdade,
É um país?
Um país que não respeita os que morreram pela liberdade,
É um país?
Um país que se admira e se revê na figura de um ditador,
É um país?
É!
É um país de baratas!
Um país que merece que lhe ponham em cima a pata.
Pois que da história admiram,
Não quem lutou pela liberdade!
Não quem se distinguiu pela verticalidade!
Não quem morreu pela igualdade!
Mas um reles ditador!
Salazar, o grande português?
Só pode ser anedota!
Ou então...
O país enlouqueceu de vez!
In Erotismo na Cidade
Tirado do blogue: Macroscopio

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Freira espanhola expulsa de convento por causa do Facebook

O que é uma notícia horrível sobre a Igreja Católica? - Eis um exemplo horripilante...
Viva num convento de Toledo há mais de 35 anos, mas o Facebook veio ditar a sua expulsão. María Jesús Galán recebeu ordem de saída por parte das outras freiras por causa do clima de tensão criado pelos hábitos online de Galán, que no ano passado lhe valeram um prémio da junta de Castilla-La Mancha.
Tudo começou quando, ao cabo de 24 anos frente ao arquivo, María Jesús Galán conseguiu vencer a resistência das suas companheiras e adquiriu um computador. Daí à Internet e às redes sociais foi um passo. Com recurso às novas tecnologias conseguiu catalogar e digitalizar quase todo o arquivo do convento, que conta 119 livros e mais de 3000 documentos, indica o ABC.
Graças a este seu labor, o governo regional tinha reconhecido em Maio no ano passado os méritos de Galán - conhecida por “soror Internet” -, pelo seu trabalho de catalogação de documentos e livros da biblioteca conventual, pela contribuição para a difusão destes documentos pela Internet e pela introdução de tecnologias num ambiente tradicional.
Numa das suas múltiplas entrevistas após ter recebido o prémio, María Jesús Galán dizia sentir-se “muito orgulhosa” de ser freira no convento Santo Domingo el Real e dizia ainda sentir-se “plenamente realizada” como religiosa. Acontece, porém, que onde outros viram interesse e diligência, as companheiras de mosteiro de María Jesús Galán viram uma tensão insuportável e um mal-estar crescente.
Na passada terça-feira, chegou a notícia, no próprio mural do Facebook de María Jesús Galán: “Expulsaram-me. Umas quenianas tornaram a minha vida impossível. A inveja pregou-me uma partida e elas ganharam. Hoje, o delegado da Vida Religiosa, junto com a madre prioresa e outras duas freiras, decidiram que eu teria que sair para que ficassem tranquilas as quenianas. Não têm vocação, mas vêm buscar dinheiro para as famílias. Não vale a pena meter o dedo na ferida (essencial da notícia). Estou em paz e sem nenhum tipo de rancor”.
Sabe-se que no mosteiro vivem 14 freiras estrangeiras, algumas oriundas de África e da Ásia.
O arcebispado de Toledo recusou-se a comentar o caso, considerando-o um assunto da “vida interna” da comunidade religiosa.
A notícia da expulsão da freira provocou protestos nas redes sociais e muitos internautas, de diferentes partes do mundo, deixaram no mural de María Jesús Galán mensagens de apoio.
Sabe-se que, depois da expulsão, María Jesús Galán, que cumpriu 54 anos no passado dia 1 de Janeiro - segundo o ABC - já foi inscrever-se no instituto de emprego.A freira diz agora que poderá finalmente conhecer Londres e Nova Iorque, viagens que não poderia cumprir se tivesse continuado a viver no convento de Santo Domingo el Real, fundado no século XIV.
Notícia do Público, 18 de Fevereiro de 2011

A sexualidade e a Igreja Católica *

«É interessante ver que Jesus, perante a sexualidade, mesmo confrontado com desvios, é tolerante e perdoa. A Igreja parece ter posto o acento no sexo e nos seus desvios, mas Jesus o que condenou de forma veemente foi fundamentalmente a ganância, a avareza, a opressão: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." É necessário distinguir entre a Bíblia, onde se encontra um dos livros mais exaltantes do amor erótico, que é o Cântico dos Cânticos, e, depois, o mal-estar do cristianismo histórico em relação à sexualidade, que provém fundamentalmente dos gnósticos e de Santo Agostinho. Santo Agostinho é herdeiro de uma escola gnóstica, que é o maniqueísmo, que leva a gnose à radicalidade.
Então, Santo Agostinho trouxe também problemas...
Ele é um génio, mas trouxe ao Ocidente e ao cristianismo histórico verdadeiras tragédias do ponto de vista sexual. Ele era maniqueu e, a partir do maniqueísmo, tinha resolvido o problema do mal: há dois princípios, um do bem e outro do mal. Há uma questão que se coloca sobretudo aos crentes: se Deus é infinitamente bom e omnipotente, como se explica o mal? Através do maniqueísmo, ele tinha resolvido o problema. Mas, uma vez convertido, precisa de encontrar uma solução, pois o cristianismo diz que Deus, quando olhou para o mundo, viu que tudo era bom. Donde vem então o mal? Quando se converte ao cristianismo, Santo Agostinho tem de encontrar a origem do mal. Vai à Carta aos Romanos, de São Paulo, e lê: "Adão, no qual todos pecaram." Mas o grego (ele só conhecia o latim) diz: "Porque todos pecaram." Uma coisa é Adão ser o primeiro que peca, outra é dizer que, nele, todos pecaram. E de tal modo pecaram, que todos transportam esse pecado, que tem uma origem sexual e se transmite sexualmente. Este é o mal que vem ao Ocidente através da gnose, do maniqueísmo, de Santo Agostinho. Todos são concebidos em pecado e desse pecado original só o baptismo liberta. Assim, não hesitou em "enviar" para o Inferno as crianças não baptizadas, porque vinham com o pecado original»...
Num dos seus textos, diz que a Igreja perdeu a credibilidade em termos de doutrina sexual. É assim?
A sexualidade também tem a ver com o prazer e este confronta-se com o poder. Na medida em que a Igreja se tornou numa instituição de poder, tem muita dificuldade em lidar com o prazer e a autonomia. Não sabe, por isso, como lidar com a sexualidade, com as pessoas que estão no mundo de modo autónomo. Essa é uma das questões fundamentais da Igreja.
Por isso surgem as questões relativas ao planeamento familiar, aborto, eutanásia...
A Igreja lutou contra a modernidade, embora, por outro lado, os grandes valores da modernidade venham, fundamentalmente, da Bíblia. Não é por acaso que é no Ocidente que se dá a modernidade, a secularização, a separação da Igreja e do Estado, que tem a ver com a autonomia, os direitos humanos... São valores que vêm da Bíblia, mas que os iluministas tiveram de impor contra a Igreja oficial.
Há um Papa que proibiu a leitura da Bíblia, outro refere-se à "detestável doutrina" dos direitos humanos. No entanto, são valores que vêm fundamentalmente da Bíblia. Afirmam-se a partir da ideia de um Deus transcendente, que cria por amor, livremente. Se Deus cria livremente, só pode criar criaturas autónomas, homens e mulheres livres, e as realidades terrestres seguem as suas leis, sem precisarem da tutela da Igreja. Por outro lado, o cristianismo trouxe ao mundo a ideia da dignidade divina de todos os seres humanos, independentemente da cor, etnia, sexo, posição social, nacionalidade ou religião.
Anselmo Borges em entrevista à Pública (06.02.2011)
* Título do autor do blogue

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo VII Tempo Comum
20 de Fevereiro de 2011
Ser como Deus
Segundo S. Tomás «Deus é simples e uno». Perante tais atributos essenciais de Deus, descobrimos a perfeição divina e nisso consiste a indefinição de Deus, porque Deus não é isto ou aquilo, Deus é.
Na medida em que descobrimos a criação de Deus, começamos a considerar que Deus é demonstrável, como ensina S. João Damasceno. Toda a obra de Deus manifesta os sinais da Sua presença. Por esta via compreende-se o apelo de Jesus: «sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». Mais, se somos criação de Deus, qual o porquê deste apelo? - Porque se, por um lado, participamos na vida divina, por outro, pela natureza, carregamos ainda a limitação essencial de sermos realidade física, material. Nesta contingência da vida deste mundo, Jesus deseja que os seus discípulos sejam capazes do amor, do perdão, da amizade e da fraternidade com todos (e como grande desafio, viver esses sentimentos até com os piores inimigos - esta é a grande novidade da religião cristã).
Em nenhum momento do Evangelho Jesus nos pede que sejamos uns "coitadinhos" que se sujeitam a todas as maldades. Jesus ensina-nos, em particular, que a intolerância e a repugnância pelos nossos irmãos são atitudes contra o Reino de Deus. Os cristãos são chamados a viver mediante uma abertura constante para o perdão e para o acolhimento dos outros tal como eles são. Não é legítimo que sejamos muito exigentes com os outros e que não sejamos capazes de viver isso que se exige. Ninguém tem autoridade para pedir aos irmãos aquilo que não é capaz de fazer. De que nos serve se manifestamos muitos escrúpulos e intolerância desnecessária diante das atitudes dos outros se depois realizamos os mesmos actos despreocupadamente e sem pudor absolutamente nenhum?
- O cristianismo que nós professamos não é uma religião de simples seguidores de um plano ou projecto político ou social. É antes uma forma de vida que nos toca por dentro, porque nos convoca para o seguimento de uma pessoa concreta que nos fala e nos desafia para atitudes de amor, isto é, os outros deixam de ser só semelhantes, para serem irmãos que devemos acolher e amar desmedidamente.
JLR

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

«Não vedes? Ainda não compreendeis?»

Reflexão sobre o que é a fé... Muito interessante.
São João da Cruz (1542-1591), carmelita, Doutor da Igreja A Subida ao Monte Carmelo, II, 3 (a partir da trad. OC, Cerf 1990, p. 637 rev.)
Dizem os teólogos que a fé é um hábito da alma ao mesmo tempo seguro e obscuro. E é obscuro porque nos propõe verdades reveladas sobre o próprio Deus que ultrapassam qualquer luz natural e excedem toda a compreensão humana, seja ela qual for. Daí decorre que a luz excessiva dada pela fé se transforma para a alma em profundas trevas. Como sabemos, qualquer força superior supera e enfraquece uma que lhe seja inferior; desse modo, o sol eclipsa todas as luzes restantes, ao ponto de, quando ele resplandece, todas as outras não parecerem propriamente luzes. Para além do mais, quando está no zénite, o seu brilho ultrapassa por completo a nossa capacidade visual até nos ofuscar em vez de nos fazer ver, devido a tornar-se excessivo e desproporcionado à nossa visão. O mesmo se passa com a luz da fé, que pelo seu prodigioso excesso abate e enfraquece a luz do intelecto.
Tomemos outro exemplo: suponhamos uma pessoa cega de nascença que, por isso mesmo, não conhece as cores. Ao esforçarmo-nos por fazer-lhe compreender o branco ou o amarelo, bem podemos dar explicação atrás de explicação que ela não retirará delas qualquer conhecimento directo, porque nunca viu as cores, cujo nome será a única coisa que ela reterá no espírito, através do ouvido. O mesmo se passa com a fé em relação à alma: a fé diz-nos coisas que nunca vimos nem conhecemos e a respeito das quais não possuímos a mais pequena réstia de conhecimento natural, mas retemo-las através do ouvido, crendo no que nos é ensinado e ofuscando em nós a luz natural. Com efeito, como nos diz São Paulo, «a fé surge da pregação» (Rom 10, 17). É como se ele nos dissesse: a fé não é uma ciência que reconhecemos pelos sentidos, mas um consentimento da alma que entra em nós pelo ouvido. Torna-se então evidente que a fé é para a alma uma noite escuríssima, mas é precisamente com a sua escuridão que ela ilumina: quanto mais a mergulha nas trevas, mais lhe faz brilhar a sua luz. Assim sendo, é ofuscando que ela alumia, segundo as palavras de Isaías: «se não acreditardes, não compreendereis» (7, 9).

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples. A nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão boa, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projecções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque o nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livresque deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque a nossa mãe é impaciente connosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela as nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque o nosso club perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso: «Se iludindo menos e vivendo mais!!!»
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca quando, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
Carlos Drummond de Andrade
Imagem do blog: «Imagens de uma vida»

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

É urgente o amor

.
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
..
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
...
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
....
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade

All You Need Is Love (tradução)

Singela homenagem ao Amor, com o desejo forte que ele nunca se apague dos coração dos homens e mulheres verdadeiramente apaixonados...
Amor, amor, amor
Amor, amor, amor
Amor, amor, amor
Não há nada que você possa fazer que não possa ser feito
Nada que você possa cantar que não possa ser cantado
Nada que você possa dizer, mas você pode aprender como jogar o jogo
É fácil
Nada que você possa fazer que não se possa fazer
Ninguém a quem você possa salvar que não possa ser salvo
Nada que você pode fazer, mas você pode aprender como ser com o tempo
É fácil
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor, amor
Amor é tudo o que você precisa
Amor, amor, amor
Amor, amor, amor
Amor, amor, amor
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor, amor
Amor é tudo o que você precisa
Não há nada que você possa saber que não possa ser conhecido
Nada que você possa ver que não possa ser visto
Nenhum lugar onde você possa estar que não seja onde você quer estar
É fácil
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor, amor
Amor é tudo o que você precisa
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor
Tudo o que você precisa é de amor, amor
Amor é tudo o que você precisa
Amor é tudo o que você precisa
Amor é tudo o que você precisa
Amor é tudo o que você precisa
Amor é tudo o que você precisa
Amor é tudo o que você precisa
The Beatles

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pensar com as pernas

O estado de inveja acontece nas coisas mais corriqueiras da vida. As relações profissionais estão cheias desta realidade. As famílias alimen-tam-se deste sentimento como do pão para a boca. As religiões ou as igrejas também vivem esta miséria com a mesma frequência que pronunciam orações. E dos invejosos digo o mesmo que disse Ambrose Bierce, são uns cobardes. E cobarde para este autor era alguém que, numa situação perigosa, pensa com as pernas.
Os rancores que muitas vezes as pessoas expressam umas contra as outras estão associados à inveja. Se quisermos, os invejosos, são os nossos inimigos. Mas sobre os inimigos Oscar Wilde ensinou que a melhor resposta consiste em perdoar-lhes sempre, porque nada os aborrece tanto. A inveja não pode ter qualquer base de inteligência porque a inteligência é um dado essencial do ser pessoa e do ser Homem. Porque é muito mais fácil a uma sociedade ou às autoridades lidarem com a inteligência, por mais perversa que ela seja, do que com a estupidez, que é muito mais difícil, pois tudo o que se diga aos estúpidos entra-lhes por um ouvido e sai pelo outro.
Não é fácil de modo nenhum conviver com as diversas situações onde a inveja comande as atitudes das pessoas, porque facilmente tudo se reduz a estupidez e a pior coisa do mundo é ter que aturar estúpidos invejosos.
Na nossa terra existem dois modos de ser gente que se acha no direito de dizer e fazer tudo o que lhes apetece, com o prejuízo que isso implica para os seus semelhantes, que eles não consideram adversários ou os outros que merecem apreço, mas inimigos só porque discordam e são diferentes na idiossincrasia que natureza lhes deu ou não comungam dos mesmos ideais partidários/sociais/religiosos/doutrinários... Trata-se estes dois modos de ser, da cambada de anónimos e alguns eleitos pelo povo, que assumem cargos de relevância ao serviço da causa pública.
Os primeiros sob a capa do anonimato, cobardemente, entendem, que perante esse poder, o boato, a calúnia e tudo o que seja inverdade sobre outrem e sobre as instituições, pode ser dito ou levado à prática, porque a capa negra do anonimato os protege. Esta imunidade advém do ser pusilânime e da falta de coragem. E com isto diz-se tudo o que der na real gana, sob a arma do anonimato, até que o respeito se torna palavra vã e com isso pouco importa que o bom-nome dos adversários se enterre na lama. Tudo o resto são favas contadas. É pena que muita gente faça desta conduta uma forma de vida em sociedade. Nenhuma trela se deve dar a esta gente.
Os segundos são ainda mais preocupantes. Ora do alto dos palanques ora ao discorrer da pena (hoje será melhor dizer do teclado), aclamam o que entendem poder dizer sobre todos, são eleitos, têm o voto do povo assegurado, para lhes garantir tal imunidade. Têm poder. Coisa que a maioria não sabe o que é… Essa condição «divina» dá-lhes autoridade para ofender, chamar nomes ascorosos e classificar indignamente.
Este grupo é o mais repugnante de todos por duas razões: primeiro, porque, simplesmente, deviam honrar o cargo que a eleição lhes conferiu, que deve ser tomado sempre como um serviço para todos, mesmo até para os que se considerou adversários num determinado momento. Segunda razão, tal mandato deve ser exercido com um sentido de missão pelo bem comum, com atenção muito especial por todos os que nessa pessoa tenham votado e também pelos outros que eventualmente tenham votado em sentido contrário. É assim a Democracia.
Então é vê-los diante das coisas da vida qual sabichões de tudo, acusando, analisando e propalando tiradas ao vento mesmo que não tenha base na verdade que viram, sentiram e pensaram… Bastou que alguns lhe «dissessem», «mostrassem» ou «entregassem». Mas, se reclamamos, que vem num contexto, num tempo e com uma razão concreta, isso nada importa, porque se deseja ficar bem, agradar e conseguir intentos pessoais.
Basta aos que nos «dizem» a mesma comunhão de ideias e a mesma cor partidária. Assim, mostram que são os únicos e que, por isso, podem com a sua divina autoridade proclamar as regras morais para os outros.
Estes senhores do sistema instalado, consideram os outros uns mentecaptos, mesmo que pensem, não têm direito a opinar, pensam diferente, por isso, não se faça tarde para chamar-lhes nomes, classificá-los de arrogantes, «donos da verdade», sabichões de coisa nenhuma, etc.Por fim, fica-nos o que ensinou Erasmo, que os parvos sempre acham admirável aquilo que menos entendem. Também sabemos que de parvos nada reza a história do mundo.
Publicado a 13 de Fevereiro de 2011, Diário de Notícias do Funchal, na secção dominical «Sinais dos Tempos».

Os 3 desejos de Alexandre O GRANDE

Por isso é que ele era chamado de 'O GRANDE'
Os 3 últimos desejos de ALEXANDRE O GRANDE:
1, Que o seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época;
2, Que fosse espalhado no caminho até ao seu túmulo os seus tesouros conquistado como prata, ouro e pedras preciosas ;
3, Que as suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.
Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a ALEXANDRE quais as razões desses pedidos e ele explicou:
1, Quero que os mais iminentes médicos carreguem o meu caixão para mostrar que eles NÃO têm poder de cura perante a morte;
2, Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
3, Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.
Pensemos nisto....
Recebido por mail.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Prece para o fim de semana

Com votos de bom fim de semana para todos....
Nós Te bendizemos, Senhor, porque ainda há homens e mulheres que escolhem a pobreza, segundo o Evangelho, para serem felizes. Não queremos as pobrezas que humilham, que levam à fome e à marginalidade. Queremos a pobreza que liberta do consumismo, da pobreza provocadora, do sexo e da moda.
Nós Te bendizemos, Senhor, porque há homens e mulheres que não se envergonham das suas lágrimas; que são grito de denúncia de estruturas e sistemas geradores de dor e de opressão. São felizes porque o seu choro e o seu grito são consolo para os que sofrem em silêncio.
Nós Te bendizemos, Senhor, porque há pessoas insatisfeitas com as quotas de justiça já atingidas. Querem menos distância entre ricos e pobres, melhor repartição do dinheiro, de cultura, de saúde, de riqueza disponível. São felizes porque é grande a sua fome e sede de justiça.
Nós Te bendizemos, Senhor, porque ainda restam pessoas de coração sensível, que sentem a dor, a miséria e a fome dos outros; que passam do lamento inútil à busca tenaz de soluções. São felizes curando as feridas de homens e mulheres destroçados pela vida.
Nós Te bendizemos, Senhor, porque há homens e mulheres com alma de criança, com coração de criança, com candura de criança, rectos, simples, transparentes como um lago de inocência, num mundo de mentira, onde impera a cilada e o engano. São ditosos porque a verdade querida e desejada é fonte inesgotável de felicidade.
Nós Te bendizemos, Senhor, porque há homens e mulheres que acreditam na paz, que trabalham pela paz, que estão profundamente comprometidos com a paz. Sentem-se felizes desde que ninguém empunhe as armas, desde que parem de fabricar armas para matar.
Nós Te bendizemos, Senhor, porque existem pessoas resistentes, capazes de fazer frente à perseguição e à calúnia. Homens e mulheres que continuam a apostar na justiça, comprometidos com o sentido do Evangelho, quando muitos voltam as costas e coram de vergonha. Continuarão a ser felizes apesar da perseguição, da impertinência e da mentira.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Deus sempre tem uma resposta

Você diz: "Isso é impossível."
Deus diz: "Tudo é possível."
Mas ele respondeu: As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus. (Lc 18;27)
Você diz: "Eu já estou cansado."
Deus diz: "Eu te darei repouso."
O Evangelho diz: - Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. - Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. - Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11;28-30)
Você diz: "Ninguém me ama de verdade."
Deus diz: "Eu te amo."
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. ( Jo 3:16)Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. (Jo 13;34)
Você diz: "Não tenho condições."
Deus diz: "Minha graça é suficiente."
E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.(2CO 12;9)
Você diz: "Não vejo saída."
Deus diz: "Eu guiarei teus passos."
A Palavra de Deus diz: - Confia no SENHOR de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. - Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. ( Prov 3;5-6)
Você diz: "Estou angustiado."
Deus diz: "Eu te aliviarei da angústia.
Reparemos no versículo do Salmo 90: «Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, e pelos anos em que vimos o mal.» (Sl 90;15)
Você diz: "Eu não mereço perdão."
Deus diz: "Eu te perdôo sempre."
A Palavra de Deus ensina: «Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. (1Jo 1;9) PORTANTO, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito». (Rm 8;1)
Você diz: "Eu me sinto só e desamparado."
Deus diz: "Eu nunca te deixarei, nem te desampararei."
Palavra de Deus: «Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei». (Hb 13;5)
In Maturidade na Fé

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo VI Tempo Comum
13 de Fevereiro de 2011
A Sabedoria de Deus
O cristianismo que nós professamos não é uma religião de simples seguidores de um plano ou projecto político ou social. É antes uma forma de vida que nos toca por dentro, porque nos convoca para o seguimento de uma pessoa concreta que nos fala e nos desafia para atitudes de amor, isto é, os outros, os homens e as mulheres, deixam de ser apenas semelhantes, para serem irmãos que devemos acolher e amar desmedidamente.
Os mandamentos que Jesus nomeia no Evangelho deste domingo servem para nos despertar para a dimensão essencial do Reino de Jesus, que assenta numa irmandade, porque todos são filhos do mesmo Pai e abraçados pela mesma força espiritual que imana do coração de Deus, que se define pelo amor desmedido pelos outros, onde o respeito e a fidelidade à vida são valores essenciais que se destacam.
Quer Jesus ensinar-nos, que diante de Deus mais vale não condenar e não julgar ninguém, porque no mundo não existe pessoa nenhuma que seja perfeita ou que não tenha defeitos. Devemos sim estar atentos às atitudes dos nossos irmãos e sempre que seja necessário procurar fazer o bem mesmo que a troca recebida seja desagradável.
Nisso consiste a Sabedoria de Deus, embora «misteriosa e oculta», como refere São Paulo, mas sempre do lado da humanidade para a salvar e a levar à felicidade. Os Mandamentos, a Lei de Deus, têm em vista essa meta.
Face a essa Sabedoria divina, perguntemos: porque permite Deus acontecimentos trágicos, como atropelamentos, doenças incuráveis, acidentes terríveis com pessoas maravilhosas, guerras intermináveis em muitos cantos do mundo e desordens de todo o género? - Porque a criação, para fazer-se jus à sua definição, fez-se limitada, frágil e sempre instável. Daí a sua beleza e riqueza. Mais ainda, muitas das desgraças acontecem, porque, quem as devia evitar, não se deixou penetrar pelo «que há de mais profundo em Deus» (São Paulo). A Lei de Deus, que se resume no princpio basilar que é o Amor.
O desafio é este, pede-nos Jesus que sejamos misericordiosos e que não nos deixemos levar pelos instintos primários das emoções. Face à instabilidade do mundo e da vida, sejamos seguros na confiança, na esperança. E que a alegria da Sabedoria de Deus esteja no nosso coração, porque soubemos escolher a «glória» que Ele nos destinou. Assim, viveremos na Sabedoria de Deus. Ser Santo ou feliz ou salvo, é isso mesmo.
JLR

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os seus olhos que são doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que no meu gesto existe o teu gesto...
E na minha voz, a tua voz...
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...
Que ficou na minha carne como uma nódoa do passado...
Eu deixarei...
Tu irás e encostarás a tua face na outra face...
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
porque eu fui o grande íntimo da noite...
Porque eu encostei a minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Morais)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

FALECEU O PADRE ALBERTO DE SOUSA

O Padre ANTÓNIO ALBERTO DE SOUSA, sacerdote diocesano da Diocese do Funchal, faleceu hoje, dia 08 de Fevereiro, no Hospital Dr. Nélio Mendonça. Tinha 87 anos de idade, e era natural da freguesia de Machico, concelho de Machico. Nasceu no dia 13 de Dezembro de 1923, era filho de António Venâncio de Sousa e de Maria da Purificação Luis de Sousa.
Foi ordenado Sacerdote, no dia 20 de Dezembro de 1947.
Dentro dos serviços eclesiásticos que desempenhou, na Diocese do Funchal, destacamos os seguintes:
- Cura da Paróquia da Piedade (Porto Santo), a 08 de Julho de 1948.
- Cura da Paróquia de Santo António, a 20 de Maio de 1951.
- Cura da Paróquia de Santa Maria Maior, a 31 de Março de 1954.
- Pároco da Paróquia da Madalena do Mar, a 3 de Outubro de 1958.
- Pároco da Paróquia do Carmo (Câmara de Lobos), a 31 de Dezembro de 1960.
- Pároco da Paróquia de São Gonçalo, a 4 de Novembro de 1970 até 28 de Setembro de 2002.
- Assistente da Obra de Santa Zita, a 30 de Outubro de 1982.
A sua vida dedicada ao serviço do Evangelho deixou um testemunho de pastor e de fidelidade à Igreja. Que o Senhor o receba na Sua Paz!
O seu funeral será dia 09 de Fevereiro, quarta-feira, com missa presidida pelo Senhor Bispo do Funchal, D. António Carrilho, às 15h00 horas, na Igreja Paroquial de São Martinho, seguida de funeral para o Cemitério de São Martinho.
Secretaria Episcopal
08 de Fevereiro 2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Cisne Negro

Um filme que pode ser visto por estes dias nas salas de cinema. Um filme interessante e coloca-nos diante de uma interpretação de Natalie Portman fenomenal, no papel de Nina, uma bailarina. Mas, antes da sinopse dou-vos conta de dois aspectos que me saltaram ao pensamento no fim do filme. Uma palavra e uma expressão. A palavra é, visceral e a expressão, jogo de espelhos.
Agora vejamos o resumo do filme. Beth MacIntyre (Winona Ryder), a primeira bailarina de uma companhia, está prestes a se aposentar. O posto fica com Nina (Natalie Portman), mas ela possui sérios problemas interiores, especialmente com a sua mãe (Barbara Hershey). Pressionada por Thomas Leroy (Vincent Cassel), um exigente director artístico, ela passa a sentir uma concorrência desleal vindo das suas colegas, em especial Lilly (Mila Kunis). O filme anda à volta dessa luta interior e com todos os duplos terríveis que tal guerra suscita.
Visceral no sentido em que o filme é profundo, e desenrola-se à volta de uma duplicidade de pernalidades, que pressiona o verdadeiro eu da pessoa em causa (Nina). Essa pressão ora se manifesta em tranquilidade outras vezes numa perseguição interior que se desvela em visões mostruosas, violentas e sanguinárias. Neste intercalar de imagens, surge-nos os jogos de espelhos e o seu uso é magistral. Nesse jogo constante manifest-se a duplicidade de personalidade de Nina, que trava consigo mesma uma guerra terrível que desemboca em tragédia. O cisne branco que devia morrer fantasiosamente no bailado, morre verdadeiramente, após ter enfiado no seu estômago um pedaço de espelho que se partiu numa das suas lutas que trava com o «monstro» da colega (Lilly) que ela entende ser sua concorrente e perseguidora.
Nessa obsessão pela perfeição, entramos no jogo de espelhos, que nos desvela o suspense até aos sustos, a paranóia ou a serenidade/doçura, a paixão com misto de verdade ou delírio, realidade ou ficção.
Um filme imperdível. Com uma direcção interessante de Darren Aronofsky e uma actuação marcante de Natalie Portman.
JLR

A árvore

A profundidade térrea esconde
Raízes
Do segredo emerge
O tronco. Os ramos. Os frutos.
Nessa densidade vejo a vida.
- E não preciso de mais nada.
JLR

A pobreza e a riqueza

O pão que sobra à riqueza
Destribuído pela razão
Matava a fome à pobreza
E ainda sobrava pão.
António Aleixo.
Vejam como ele tinha razão. Mas, melhor será se o pão for distribuído pela prática da justiça e não apenas por caridade.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A dúvida

Não me perturbes com a doce inquietação
Deixa fruir a minha incerteza
Porque antes do teu querer hermético
Já vi o sinal da liberdade
Nesse gosto assumi uma dúvida
Digo.
- Sem uma verdade recuso morrer.
JLR

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A minha ausência de ti

Foi tal e qual o inverno a minha ausência
de ti, prazer dum ano fugitivo:
dias nocturnos, gelos, inclemência;
que nudez de dezembro o frio vivo.
E esse tempo de exílio era o do verão;
era a excessiva gravidez do outono
com a volúpia de maio em cada grão:
um seio viúvo, sem senhor nem dono.
Essa posteridade em seu esplendor
uma esperança de órfãos me parecia:
contigo ausente, o verão teu servidor
emudeceu as aves todo o dia.
Ou tanto as deprimiu, que a folha arfava
e no temor do inverno desmaiava.
William Shakespeare, in "Sonetos"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo V Tempo Comum
6 de Fevereiro de 2011
Ser o sal e a luz do mundo
A metáfora do sal e da luz, aplicada à vida cristã, é muito interessante e faz-nos reflectir sobre a nossa missão no mundo. Já sabemos que a religião de Jesus não é uma religião de meias medidas e meios-termos, ou é tudo ou é nada. Ora, mas nem sempre o nosso coração está predisposto para acolher essa radicalidade e nem sempre o nosso entendimento é capaz de enquadrar na vida esta frontalidade de valores que Jesus nos propõe, para sermos a luz que brilha na escuridão do mundo e o sal que dá sabor a toda a vida.
Segundo a mensagem que Jesus nos quer transmitir somos desafiados a viver profundamente a radicalidade do serviço aos outros, não importando nada as manias, os pensamentos, as vivências e as opções que cada um acolhe na vida nem muito menos a condição social de cada pessoa. Nunca foi fácil conseguir as coisas boas da vida. E todos sabemos que aquelas coisas que são mais difíceis de conseguir são as mais saborosas.
Os estudantes sabem que as notas melhores foram as que deram mais trabalho e mais empenho no estudo; as mães sabem que a criança que carregam nos braços causou muito sofrimento, mas não deixam de mostrar essa dádiva com um sorriso nos lábios; a cura de uma doença ao fim de muito dinheiro gasto e de tratamentos dolorosos é algo que se partilha com prazer; o atleta que depois de chegar à meta ostenta com alegria o troféu que ganhou, sabe que isto não é resultado da preguiça, mas de muito trabalho e de muito cansaço.
Estes exemplos são modelares e podem levar-nos a deduzir que tudo o que é difícil, é sempre muito saboroso no fim quando tudo está terminado. As condicionantes não podem ser regra para viver o reino de Deus. Cada um é chamado a viver profundamente esta proximidade com desprendimento e desinteresse.
A causa do reino de Deus é a regra principal da vida cristã e diante dessa regra não podem subsistir meias palavras e meias medidas. Jesus ensina-nos que este caminho é o mais seguro para a vida. Esta verdade é muito certa, porque uma pessoa quando não sabe viver senão no ódio e no rancor contra os outros é uma pessoa profundamente triste e sem sabor. Por isso, aqueles lugares onde a injustiça, a competição desmedida entre colegas são o pão de cada dia, tudo desmorona e vive-se um ambiente pouco saudável e aí paira uma atmosfera de revolta inevitável.
JLR

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Amo como o amor ama

— Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
*
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse todo com o coração.
*
Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas [...]... Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas.
*
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.
Fernando Pessoa, (in "Obra Poética")
......................................
Nota da redacção: Porque não celebrar o amor cantado pelos grandes mestres... Em vez de se recorrer a velhos moralismo, infantis e às vezes patéticos, porque não declamar textos daqueles que sabiamente cantaram o amor e o exaltaram como o único caminho de felicidade. Quem não sabe disto, o melhor que faz é estar quieto e calado. Deixemos os grandes dizerem o que o segredo do amor lhes desvelou na profundidade da sua sabedoria. Lembro apenas alguns: Jesus de Nazaré, São João da Cruz, Santa Teresa do Menino Jesus, Santa Teresa de Ávila, Camões, Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Eugénio de Andrade, Al Berto, Flor Bela Espanca, Sophia de Melo Breyner Andresen... Entre tantos outros que souberam cantar o amor como ninguém. Deixemos que eles nos falem dessa realidade que sempre nos escapa face ao ruído ensurdecedor dos moralismos anacrónicos e sem sentido nos tempos que correm...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A justiça e a caridade

Citação:
«Como diz o escritor Víctor Hugo: "Faz-se caridade, quando não podemos impor a justiça". Porque não é caridade o que se precisa. A justiça vai às causas. A caridade aos efeitos. Eu não digo que não se deve ajudar com um prato de sopa ou um abrigo, as pessoas que estão nas ruas. Há urgências. Eu faço isso, mas a minha consciência não fica tranquila, porque penso que devemos lutar contra as causas estruturais que mantêm essas pessoas na injustiça. O mais triste é que as pessoas já se começam a habituar à injustiça. E eu digo-lhes: Acordem! Tenham vergonha! Indignemo-nos todos contra a injustiça!»

Bispo francês Jacques Gaillot
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A luta dos povos árabes, com a qual nos solidarizamos totalmente, tem a ver com esta frase de J. Gaillot, bispo francês, demitido da Diocese de Evreux a 13 de Janeiro de 1995, por causa da sua acção em favor dos pobres e por assumir posições corajosas de acordo com aquilo que a ortodoxia católica defende, mas que a real-política não permite que se vá adiante com tais mudanças. Daí os castigos.
Mas, o que interessa para o caso desta refelxão... Quem sabe se estas revoltadas dos povos, não é o resultado de anos e anos de caridade? – A injustiça estruturada é fruto do açambarcamento que alguns fazem dos bens que são destinados a todos. Este roubo legal, mais tarde ou mais cedo, resulta na ira da maioria que se cansou de ser espezinhada pelo aguilhão da ganância que nunca se farta… Porém, os povos fartaram-se de serem injustiçados e, por isso, estão nas ruas a lutar pela sua dignidade. Um aviso, para todos os países, incluindo o nosso e a nossa região, onde impera a injustiça estruturada e a caridade muitas vezes é mais um elemento para apaziguar consciências. Serve muitas vezes como instrumento para não atacar o que deve ser atacado. Serve para calar os que gritam por justiça e alimentar ainda mais a pobreza.
Até quando este estado de coisas? – Esperemos que os nossos governantes se inquietem profundamente com esta revolta dos povos árabes e que vejam nisso um reflexo do que poderá cair-lhes em cima se não tiverem coragem de encetar novos rumos, que levem à prática da justiça. É esta a lição que devemos tirar daquilo que está acontecer às portas da Europa. No fundo, que chegue o dia em que todas as acções estão em conjugação absoluta com a justiça que ataca as raízes dos desequilíbrios sociais e não com a caridade que alimenta as consequências. É isto que está realmente em causa. Como proclamou o poeta António Aleixo: «Vós que lá do vosso Império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / qu'rer um Mundo novo a sério». E não é que às vezes quer mesmo!...
JLR

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Soneto sobre a vida dos portugueses

Os poetas cantam a natureza, a alma e a vida. Por isso, e para não ser excepção, e porque era um homem do seu tempo, .... José Régio também fez umas rimas sobre a vida dos portugueses... em 1969! E a propósito dos apertos financeiros que o governo aplica aos portugueses, vem sempre oportunamente a reflexão ao nosso encontro para tomarmos alento face ao que outros pensaram já no seu tempo.
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Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
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Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.
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E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,
...
Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos - só! - por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.
JOSÉ RÉGIO, Soneto escrito em 1969, no dia de uma reunião de antigos alunos.(Fonte desconhecida)