Convite a quem nos visita

domingo, 31 de julho de 2011

Uma breve visão sobre o povo

O povo simples compreende melhor a mensagem que os 'entendidos'
Tendo em conta a reflexão que faço a seguir começo este escrito com a frase do Teólogo e Biblista Carlos Mesters, Frade Carmelita brasileiro, que no próximo 20 de Setembro celebra 80 anos de vida e que perante as várias homenagens previstas afirmou: «Se alguém merece incenso, este alguém é o povo!». O povo merece incenso e merece todo o respeito. São muitas as mãos que constroem as mais perversas maquinações para manipular e instrumentalizar o povo.
O povo forma-se numa «massa» que, como tal, pensa pouco e quando se fala de «inteligência colectiva», nunca sabemos a que se refere e não é mais do que um singelo eufemismo para justificar opções e caminhos que pouco ou nada servem o colectivo, mas antes, as mais puras megalomanias de algumas cabeças pensantes. Melhor dizendo, interesses pessoais ou grupos dominantes na economia e na sociedade em geral. Se quisermos, partidos e toda a clientela que tais organizações permitem proliferar.
O povo, o nosso povo, é simples e corre pelo bem. É um povo festeiro, alegre e aproveita o mais que pode todos os momentos onde a festa, a borla e a música são ingredientes seguros para seduzir. O pão e o circo sempre foram um meio muito utilizado para cativar o povo ou dominá-lo pela embriaguez da alegria e do enfartamento de que tudo é fácil. Estas frivolidades sempre foram utilizadas pelos poderes que desejam perpetuar-se no tempo. Um povo alegre e farto não é sinónimo de que esteja bem. Antes pode ser que se deixa conduzir por ilusões até ao dia em que realidade lhe bate à porta.
Jesus não teve problemas com as pessoas simples. O povo simples que cultivava as terras para sustentar as suas famílias acolhia a Sua mensagem com alegria e facilmente compreendia que Jesus lhes falava de um Deus Pai, que se compadecia de todos, especialmente, os mais fracos, os pobres, os doentes e os sem lugar e vez na sociedade. Os esquecidos por todas as entidades da época. Será a esses que Jesus vai dar maior atenção. Não só porque são os mais necessitados de libertação, mas porque, sendo os mais humildes, são os que melhor acolhem e compreendem a Boa Nova que Jesus anuncia.Os sem amparo familiar e social acorriam a Jesus onde encontravam um Deus mais próximo e amigo. As mulheres encontravam em Jesus a palavra que as valorizava e dignificava, elas intuíam por aquilo que Jesus dizia que Deus ama os seus filhos com um fundo de mãe. Todos em Jesus podiam experimentar a proximidade salvadora de um Deus Mãe/Pai. A forma de ser e de falar de Jesus encantava os simples e os humildes («os pequeninos»), porque anunciava-lhes o Deus de que eles necessitavam.
A atitude dos simples contrasta com a dos «entendidos». A mensagem de um Deus que alegra e contagia o povo simples indigna solenemente os «entendidos». O Deus Pai/Mãe se é Boa Nova para uns, para os «mestres» é um perigo para a religião e para a doutrina humana mascarada de divina.Esta reacção não surpreende Jesus, até lhe parece o melhor. «Pai, Te dou graças, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as destes aos simples». Assim mesmo, o povo simples no entender de Jesus é sempre mais sábio que todos os que a nomenclatura social determina em parâmetros de sabedoria ou que se fecham em redomas de verdade absoluta. O resultado de tal predominância social é o terrorismo e a intolerância perante tudo o que mexa em sentido contrário. Também hoje o povo simples compreende melhor a mensagem da proximidade de Deus que os «entendidos» em religião. Facilmente entram em sintonia com Jesus, confiam Nele e compreendem a Sua mensagem. Enquanto que muitos «entendidos» na religião afogam-se na burocracia dos papéis e das regras patéticas que ao invés de aproximarem de Deus o afugentam para as calendas do esquecimento e da indiferença.
José Luís Rodrigues
Texto de opinião publicado hoje (31/07/2011) no Diário de Notícias do Funchal, na secção «Sinais dos Tempos».

sábado, 30 de julho de 2011

Não Creio nesse Deus

I
Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.
II
Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?
III
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.
IV
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
Com desejo de um bom domingo para todos os meus leitores...

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XVIII Tempo Comum
31 de Julho de 2011
O banquete - a fartura de Deus
A imagem do banquete aparece muito na Bíblia para demonstrar a intimidade de Deus com o seu povo. Isaías recorre muito a essa imagem. Nesta passagem o profeta reanima a esperança dos hebreus deportados na Babilónia com a promessa de que Deus oferecerá uma grande abundância de felicidade (o vinho representa abundância e é sinal da festa). Neste texto descobrimos a certeza também para nós de que nada está perdido, quando somos confrontados com dificuldades não devemos desanimar, mas confiar e acreditar que Deus nos chama para a fartura da alegria e da felicidade do sentido da vida que a Sua intimidade revela. Consideremos este texto um convite, um convite que é dirigido primariamente aos «pobres de Iahweh», os sedentos, os indigentes... Porque o amor preferencial de Deus está votado em primeiro lugar para esses.
O milagre da multiplicação dos pães é dos mais impressionantes. Assim é que o encontramos relatado nos 4 Evangelhos. A multidão segue Jesus até ao deserto, aí Jesus compadecido mata a fome ao povo. Eis uma imagem do banquete da fartura que Deus tem para oferecer. É interessante o diálogo de Jesus com os discípulos descrentes e a capacidade que Jesus manifesta para resolver um problema. Quanto mais impotente a vertente humana quanto mais se manifesta a maravilha da acção de Deus («Os discípulos, ainda só o consideram como homem» - S. João Crisóstomo). As sobras e o número dos comensais manifestam o quanto é abundante o dom de Deus. Os discípulos sãos os mediadores entre Jesus e o povo, esta acção continua hoje na Igreja e pela Igreja que convida os fiéis a saborearem a Eucaristia e a Palavra de Deus como alimento do céu para o seu interior. Nesse encontro encontro eucarístico, os comensais, tomam o ingrediente da coragem, o sentido para a vida e a esperança no futuro. Estes são os principais elementos do banquete de Deus que devem ser servidos a todos com a mesma solicitude de Jesus, muito bem expressa no texto do Evangelho. Muito mal andamos quando alguns na Eucaristia não podem saciar-se com os elementos visíveis, porque qualquer contingência da sua vida esbarra com regras pouco cristãs. Estes irmãos são como se nós convidássemos alguém para jantar e depois não permitíssemos que ele comesse junto connosco.
O Cristão que saboreia em Jesus a liberdade, também acolhe uma vida nova em que está presente o Espírito de Cristo Ressuscitado, que o liga ao Pai e ao Filho. Tudo isto envolto no grande amor de Deus por nós. Quem recebe esse amor não tem nada a temer. Pode vencer todas as dificuldades que encontra diante da relação com os outros. A enumeração impressionante de forças misteriosas, espirituais e cósmicas, que segundo a opinião corrente influenciavam a vida dos homens, serve para concluir uma vez mais de forma consistente, nada nos poderá separar do amor de Deus manifestado em Cristo. O amor de Cristo é, pois, o fundamento da nossa liberdade e da nossa esperança.
JLR

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Não é curioso...

Não é curioso como 10 €uros parece tanto quando o levamos à igreja e tão pouco quando vamos ao shopping.
Não é curioso como uma hora é tão longa quando servimos a Deus,mas tão curta quando assistimos a um jogo de futebol?
Não é curioso como não achamos as palavras quando oramos, mas elas estão sempre na ponta da língua para conversarmos com um amigo?
Não é curioso sentirmos tanto sono ao ler um capítulo da Bíblia mas é fácil ler 100 páginas do último romance de sucesso?
Não é curioso como queremos sempre as cadeiras da frente no teatro ou num show, mas sempre sentamos no fundo da igreja?
Não é curioso como precisamos de 2 ou 3 semanas de antecedência para agendar um compromisso na igreja, mas para outros programas estamos sempre disponíveis?
Não é curioso como temos dificuldade de aprender a evangelizar e como é fácil aprender e contar a última bilhardice?
Não curioso como acreditamos nos jornais, mas questionamos a Bíblia e as coisas de Deus?
Não é curioso como todo mundo quer ser salvo desde que não tenha que acreditar, dizer ou fazer nada ?
Não é curioso como mandamos milhares de piadas pelo e-mail que se espalham como um incêndio, mas quando recebemos mensagens sobre DEUS não reenviamos para ninguém?
Não é engraçado?
Não, não é engraçado, é triste precisamos ter mais intimidade com DEUS!!!!
Ele é a fonte de minha existência, é meu Salvador.
Ele me sustenta a cada dia.
Sem Ele eu não sou nada, mas com Ele eu posso todas as coisas através de Jesus Cristo, que me fortalece.
Desconheço o autor

terça-feira, 26 de julho de 2011

O MUNDO ESTÁ CHEIO DE PESSOAS

Há pessoas caladas que precisam de alguém para conversar.
Há pessoas tristes que precisam de alguém que as conforte.
Há pessoas tímidas que precisam de alguém que as ajude a vencer a timidez.
Há pessoas sozinhas que precisam de alguém para se divertir.
Há pessoas com medo que precisam de alguém para lhes dar a mão.
Há pessoas fortes que precisam de alguém que as faça pensar na melhor maneira de usarem a sua força.
Há pessoas habilidosas que precisam de alguém para ajudar a descobrir a melhor maneira de usarem a sua habilidade.
Há pessoas que julgam que não sabem fazer nada e precisam de alguém que as ajude a descobrir o quanto sabem fazer.
Há pessoas apressadas que precisam de alguém para lhes mostrar tudo o que não têm tempo para ver.
Há pessoas impulsivas que precisam de alguém que as ajude a não magoar os outros.
Há pessoas que se sentem fora e precisam de alguém que lhes mostre o caminho de entrada.
Há pessoas que dizem que não servem para nada e precisam de alguém que as ajude a descobrir como são importantes.
Precisam de alguém, talvez, como tu...
Autor Anónimo

domingo, 24 de julho de 2011

Não somos os EUA

Temos quase nove séculos de história; os EUA ainda não têm três séculos.
Fomos pioneiros da globalização e misturámo-nos com os povos que fomos descobrindo; os EUA servem-se da globalização para explorar (e não só…) os povos com quem vão tendo contacto.
Respeitamos todos os povos e honramos os nossos compromissos; os EUA honram (nem sempre) alguns dos seus compromissos e servem-se dos povos cujos governantes desrespeitam o seu próprio povo.
De facto:
O bama tem razão. Por uma vez – como escreve Manuel Ferrer:
“Os EUA não são a Grécia nem Portugal, diz ele! Realmente.
Nos EUA 1/5 dos negros estão na cadeia.
Nos EUA 50% da população não tem assistência médica e 25% nem consegue tratar-se em qualquer hospital.
Nos EUA a dívida pública atingiu um valor impossível de ser pago em várias gerações e já ultrapassou as centenas de milhares de US$ por família.
Nos EUA condenam-se a prisão perpétua crianças de 12 anos, por roubo de uma bicicleta. Nos EUA 6% da população sobrevive com uma refeição diária de comida enlatada ...para animais...
A Escola Pública é completamente inútil e caminha para a extinção.
Nos EUA há mais de 450 organizações policiais e o sistema judicial não é independente do poder executivo: É nomeado por ele!
Nos EUA as duas maiores indústrias são o armamento e a pornografia.
Nos EUA vende-se mais produtos para animais do que para bebés...
Nos EUA 1% da população controla e recebe cerca de 90% do PIB nacional
Nos EUA a produção de carne e de ovos utiliza legalmente promotores químicos de crescimento.
Nos EUA não há ordenado mínimo e o trabalho indiferenciado é pago a 4 euros/hora...
Os EUA estão envolvidos em dezenas de conflitos militares de carácter sujo e para levar a cabo golpes de estado favoráveis aos seus interesses e aos de Israel.
Os EUA angariam em todo o mundo os melhores cérebros para a sua indústria de armamento e obrigam os seus "aliados" a comprá-las...
Os EUA são o maior mercado mundial de drogas pesadas e um dos maiores produtores de anfetaminas e de outros químicos dopantes...
Os EUA imprimem papel-moeda e através de tratados com as suas colónias árabes transformaram o US$ no meio de pagamento internacional em substituição do ouro...
Obama tem toda a razão: Nada disto de passa em Portugal. Estamos muito atrasados e não sei se algum dia lá chegaremos...
Só um detalhe: os EUA estão completamente falidos e mais de 10% da população já vive em acampamentos sem saneamento ou serviços públicos básicos...
Nós não somos os EUA! Thanks God!”
In blogue: Zurzir...

sábado, 23 de julho de 2011

Uma estranha forma de vida... Sempre!

Amália Rodrigues, a Senhora FADO! (23 de Julho de 1920 a 6 de Outubro de 1999)
Foi uma estranha forma de vida porque eu não fiz nada por ela, foi por vontade de Deus, não é? "Que eu vivo nesta ansiedade, que todos os ais são meus que é tudo minha a saudade, foi por vontade de Deus". Já isto fiz com trinta anos! Quer dizer já eu pressentía que tinha sido Deus que me tinha feito o destino, que me tinha marcado o destino, que me deu uma natureza para a qual eu nasci, ... nasci com esta obrigação de cantar fado! Ou foi o fado que fez isto! O fado é destino, portanto deu-me este destino a mim!
Quando eu morrer vão inventar muitas histórias sobre mim, se inventaram sobre a severa e não se sabe se ela existiu, e de mim sabem concerteza que eu existi.
Nota: Com votos de bom fim de semana para todos! Pode rever e ouvir o vídeo a seguir de 1965...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Santa Maria Madalena

Comentário ao Evangelho do dia feito por São Gregório Palamas (1296-1359), monge, bispo e teólogo, Homilia 20: PG 151, 266.271.
«Vai ter com os meus irmãos»
Entre as que trouxeram perfumes ao túmulo de Cristo, Maria Madalena é a única cuja memória celebramos. Cristo tinha expulsado dela sete espíritos (Lc 8,2), para dar lugar às sete operações da graça do Espírito. A sua perseverança em ficar perto do túmulo valeu-lhe a visão dos anjos e a conversa com eles; depois, após ter visto o Senhor, tornou-se Sua apóstola junto dos apóstolos. Instruída e plenamente assegurada pela boca de Deus, vai anunciar-lhes que viu o Senhor e repetir-lhes o que Ele lhe disse.
Consideremos, meus irmãos, quanto Maria Madalena cedia em dignidade a Pedro, o chefe dos Apóstolos, a João, o teólogo bem-amado por Cristo, e quanto ela foi, no entanto, mais favorecida que eles. Eles, quando acorreram ao sepulcro, apenas viram as ligaduras e o sudário; mas ela, que permanecera com firme perseverança até ao fim à porta do túmulo, viu, antes dos apóstolos, não só os anjos, mas o próprio Senhor dos Anjos, ressuscitado na carne. Ela ouviu a Sua voz e assim Deus, pela Sua própria palavra, a pôs ao Seu serviço.
Nota: Hoje é o dia de Santa Maria Madalena. Se São Gregório Palamas (1296-1359), monge, bispo e teólogo, que diz estas palavras sobre Santa Maria Madalena, andasse na terra dos vivos, não passava sem levar uma valente repremenda, seria punido e demitido das suas funções pela hierarquia da Igreja Católica. Que estas palavras nos animem na esperança de uma Igreja mais fraterna e mais igual na distribuição dos sacramentos. Que Santa Maria Madalena, inspire o coração da Igreja Católica a se guiar mais pela força do Espírito de Jesus Ressuscitado e menos pela soberba do poder musculado contra a dimensão feminina da humanidade.
As referências litúrgica a Santa Maria Madalena, acrescentam-lhe ao nome «Discípula» eu não tenho qualquer reserva em acrescentar também a «Apóstola». Mesmo que muitos não gostem do acrescento aqui vai com toda a convicção e esperança na mudança...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XVII Tempo Comum
24 de Julho de 2011
Um tesouro chamado Reino de Deus
A 1.ª leitura vem no início da história de Salomão, o filho de David que a memória do povo de Deus consagrou como paradigma de sabedoria, a ponto de lhe atribuir a autoria de boa parte da literatura bíblica sapiencial. Salomão em sonho - forma de comunicação muito utilizada por Deus com os homens na tradição bíblica - implora a adesão interior à vontade de Deus numa total sintonia com o seu desígnio de salvação. Nisto consistia a sabedoria que o rei Salomão ansiava para governar o povo de Deus. Se este sentimento estivesse presente no coração dos governantes, nós teríamos uma sociedade mais justa e mais dentro dos parâmetros do bem-estar que se deseja para todos os povos.
No texto de São Paulo aos Romanos descobre-se qual é o desígnio eterno de Deus, que toda a humanidade venha a ser “sempre nova”, conformando-se à mais perfeita imagem de Deus que é Cristo, Ele que é o primeiro dessa realidade nova que Deus fez surgir a partir da Sua condição divina e da condição humana assumida em Jesus Cristo. Assim, quem acolhe pela fé o mergulho do baptismo, encontra a glória pascal de Cristo e é glorificado com Ele. Por isso, o cristão recebe a semente da glória de Deus e ao longo da sua vida neste mundo deve fazer crescer essa semente até à plenitude do Reino. O que se deseja para a vida concreta deste mundo é que o cristão acolha com fé e amor a Cristo. Esta é a grande sabedoria dos cristãos que, assim, encontram o «tesouro escondido», a «pérola única» de inestimável valor.
No texto do Evangelho temos mais parábolas sobre o Reino de Deus, a do tesouro e a da pérola, a da rede lançada ao mar e recolhida e conclusão do discurso com um elogio aos escribas que se tornaram discípulos. Estes serão os mais instruídos do grupo dos discípulos, que são capazes de recolher do tesouro da Palavra de Deus coisas velhas (alusão ao Ant. Testamento) e coisas novas (Novo Testamento), isto é, serão eles que farão a conciliação entre a literatura antiga e a novidade do Evangelho (São Mateus está neste grupo e recebe com agrado este elogio). De resto, Jesus pretende ensinar que o Reino de Deus é algo muito precioso e para o viver não pode ser de forma marginal e episódica, é algo vital e precioso que requer uma entrega radical como modo de ser e de estar na vida. O desafio que nos é feito é que sejamos capazes de descobrir todo valor do Reino de Deus e na vida concreta do mundo sejamos capazes de levar à prática, com coragem e firmeza, o sentido da vida que «o tesouro do Reino» nos fez descobrir. Quer dizer, se somos felizes, façamos os outros felizes, se a verdade nos liberta lutemos contra toda a mentira, se a justiça nos realiza lutemos contra toda a injustiça, se a desesperança deprime lutemos contra toda a esperança, se o amor edifica então edifiquemos com amor... Só assim o Reino de Deus é presença aqui e agora, não um horizonte utópico que embriaga a vida terrena. Um ópio, como defendeu Karl Marx.
JLR

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Os Mártires do Brasil

Trata-se de 40 jovens, quase todos entre os 20 e os 30 anos de idade, que se dirigiam de barco para o Brasil, a fim de ajudar na sua evangelização, mas que, nas Ilhas Canárias, foram interceptados por navios de calvinistas que, sabendo que eles eram missionários católicos, os deitaram ao mar. Era o dia 15 de Julho de 1570.
Chefiados pelo Padre Inácio de Azevedo, 32 eram portugueses e oito espanhóis. Mesmo depois de ferido na cabeça, o chefe da expedição missionária exclamava: “Filhos, não temais, esforçai-vos! Ó meus filhos! Que grande mercê é esta de Deus! Ninguém tenha medo, nem fraqueza”.
Foram beatificados por Pio IX em 11 de Maio de 1854 e a sua festa litúrgica celebra-se a 17 de Julho. Já passou o seu dia, mas, o seu exemplo é sempre actual. Aqui fica esta lembrança com 5 séculos, mas que se reveste de uma actualidade impressionante.
Imagem: O quadro em cima é da autoria de Giuseppe Baguasco (1855) e retrata a visão de Santa Teresa de Ávila no próprio dia do martírio. Muito curioso...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Os medos que nos perseguem

A nossa terra está enferma, não por causa de uma dívida astronómica, mas por causa dos medos. O medo tomou conta de toda a gente. Este estado de coisas resultou de anos e anos de um trabalho muito bem pensado para dominar e tomar conta de toda a realidade. As circunstâncias materiais permitiam que assim fosse, mas chegados à escassez de dinheiro (as condições para fazer empréstimos apertaram), a educação cívica anda pelas ruas da amargura, a perda do poder hegemónico parece ser uma hipótese plausível, então, entra-se pelo caminho do descontrolo da linguagem e os valores da Democracia que até permitiram alimentar os medos e todos os vícios são enviados às urtigas. O medo tomou conta da razão.
Autor Ralph Waldo Elerson, filósofo e poeta, disse: «faz aquilo que receias e a morte do medo será certa». A sociedade madeirense precisa de enveredar por este caminho, enfrentar o medo passa por aqui, permitir que aquilo que receia avance e venha, mesmo que nos façam crer que seremos dominados pelos piores diabos. Não nos libertaremos do medo da perda das pensões, o medo da perda do emprego, o medo de ser marginalizado, o medo de passar fome, o medo de ser perseguido no trabalho, o medo de ser enxovalhado na rua, o medo de qualquer género de perseguição sem força interior para enfrentar as forças que se alimentam desses medos. E o sorriso e indiferença perante estes medos devem ser logo o caminho a seguir.
Porém, salvaguarde-se que o medo normal é bom, o medo anormal, isto é, o medo criado pelos outros e pela «louca da nossa imaginação» (Santa Teresa de Jesus), é mau e destrutivo. Deixar-se dominar pelos pensamentos do medo acarreta sempre o medo anormal e a embriaguez das obsessões e complexos será sempre uma realidade na vida de qualquer pessoa vergada ao medo. Dizem os pensadores da pessoa que nascemos com dois medos, o medo de cair e o medo do barulho. Todos os outros medos são tomados pelas circunstâncias, por isso, livremo-nos deles. Não precisamos de outros medos para levar a vida para diante.
Entre nós, os medos adquiridos são muitos, individualmente e colectivamente. Ambos precisam de uma luta dura para que sejam vencidos. Neste sentido, é preciso que a nossa sociedade cresça e toda junta comece a libertar-se e a não ter medo de ser marginalizada, insultada e eventualmente sofrer as piores represálias. Por esta via, basta que se considere que quem se alimenta do medo dos outros, tem mais medo do que todos nós juntos e que a dignidade perante todos os interesses é o bem maior que a vida nos deu. Assim, amemos a dignidade com todas as nossas forças e não permitamos que nos verguem ao medo.
E dado que entramos pelo caminho do calão e da ofensa brejeira para continuar com o medo, seria importante que consideremos tais palavreados, vindos de quem vem, como pérolas preciosas. O medo não merece outra coisa senão que cada um tenha a coragem de enfrentar os medos com firmeza ou então com a maior das desconsiderações ou indiferença absoluta.
A sociedade madeirense precisa desta libertação. Mas, cada um individualmente deve fazê-lo. O colectivo faz-se com o contributo de cada um. Assim, deixe que a razão fale mais alto e deixe-se conduzir pelo amor-próprio, concentre-se no desejo de libertação, aquilo que é o oposto dos nossos medos. Este é o amor que há-de expulsar todo o medo. Vamos acender a luz da razão e aprender a sorrir dos temores. Este é o melhor remédio para a mudança de vida na nossa terra e da vida pessoal de cada um individualmente. O melhor remédio está aí, não temerei o que virá e venha o que vier, não virá por mal. E se eventualmente vier o mal, logo encontraremos forças para o vencer, porque o medo deixou de nos ensombrar a razão.
JLR
Imagem: "O grito", obra expressionista do pintor Edvard Munch...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O lixo que nos «lixou»

Esta palavra está na moda por causa das agências de rating, que são instituições americanas que avaliam a fiabilidade dos Estados e das principais empresas que o constituem. O nosso país, como os bancos e as empresas a ele ligados foram considerados em categoria de lixo. Segundo estas agências não somos de confiança, não acreditam em nós e aconselham outros a também não acreditarem. Daí que se advinham muitas mais dificuldades para todos.
Mas, à parte estes considerandos vamos intentar descobrir as várias coisas da vida que são lixo e que devem ser tomadas como tal. Essas coisas da vida devem acabar sempre no lixo e não devemos necessitar que ninguém exterior a nós nos venha ainda inferiorizar mais e com isso dizer em altas parangonas que somos lixo. Nada é mais humilhante.
Já sei que no nosso coração se acumula muito lixo. O lixo do egoísmo, que nos conduz ao desconcerto da vida e do mundo. E quem sabe se não é este o principal lixo que nos «lixou» a todos e caímos nesta crise terrível? – Segundo o meu simples pensamento faço desta razão o principal motivo do desconcerto das economias mundiais e do mundo as todos os níveis.
A par deste lixo nomeio a ganância, a vontade de ter dinheiro o quanto mais que puder não importando os meios e as formas para saciar essa fome doentia. Este lixo terrível, põem em causa imensas coisas, a principal delas é a inconsciência que os bens do mundo são destinados a todos. Daqui emerge a crise do bem comum.
Mas, o lixo mais profundo que fez parte de uma lógica dominadora dos povos e das pessoas individualmente foi o lixo do TER MUITO em detrimento do SER MAIS. A publicidade e todo o género de propagandas canalizavam só e unicamente para aí, ter, ter, ter… O verbo ter era o único que sabíamos conjugar. Assim, este lixo que nos embriagou durante vários anos alimentou uma humanidade fria pouco solidária, não se importando com os pobres, com a fome que ainda cerceia a vida a muitos povos. A humanidade do ter pouco pensava, o que importa é o momento, este momento que se vive com o gozo de possuir absolutamente. Deste feitio, tínhamos uma humanidade do culto do corpo, que adora aquilo que vê, nada interessada em outras dimensões da vida. Por exemplo, a vida espiritual… Mas o que é isso? – Simplesmente, não existe e porque não se vê, não se toca, não se possui, não enche barriga… Não entra no domínio do ter, por isso, recusa-se.
Deste modo, chegou o momento de deitar ao lixo toda esta lógica de pensamento e toda esta forma de vida que nos levou à maior das incertezas em relação ao futuro. Todos somos chamados a repensar a vida e os seus modos com verdadeira sabedoria.
A educação, às gerações que têm essa responsabilidade, deve pensar e organizar-se de forma que contemple todas as componentes do ser pessoa, que no meu ver radicam em três aspectos: intelectual, social e espiritual. A educação deve ter em conta as vertentes do ser em todos os seus domínios. À cabeça pensamos ser essencial, o ser pessoa no respeito consigo mesmo, no respeito com os outros e no respeito pelo bem-comum…
Se a sensação de termos ido bater ao lixo nos ajudar a arrepiar caminho e a pensar em novas formas de vida para toda a sociedade valeu a pena que nos tivessem «lixado» e no fim ainda ficará tempo para lhes agradecermos.
JLR

sábado, 16 de julho de 2011

A Minha Religião é o Novo

A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água.
A Rapariga mais bonita que ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto. Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.
Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O povo simples na Igreja e não só

«Hoje, praticamente, tudo o que é importante se pensa e se decide na Igreja, sem o povo simples e longe dele. No entanto, dificilmente, se poderá fazer algo de novo e bom para o cristianismo do futuro sem contar com ele. É o povo simples que nos arrastará para uma Igreja mais evangélica, não os teólogos nem os dirigentes religiosos.
Temos de redescobrir o potencial evangélico que se encerra no povo crente. Muitos cristãos simples intuem, desejam e pedem para viver a sua adesão a Cristo de forma mais evangélica, dentro de uma Igreja renovada pelo Espírito de Jesus. Reclamam mais evangelho e menos doutrina. Pedem o essencial, não frivolidades».
Nota: Pensamento do Teólogo Basco José Antonio Pagola, a quem a Congregação para a Doutrina da Fé, originalmente chamada Sagrada Congregação da Romana e Universal Inquisição, abriu um processo contra o livro «Jesus. Aproximação Histórica». Se este pensamento se aplica à Igreja, também se aplica todas as estruturas sociais e políticas cuja razão de ser radica no povo...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Comentário à Missa do próximo Domingo

Domingo XVI Tempo Comum
17 de Julho de 2011
O Reino de Deus em parábolas
O livro da sabedoria, escrito em Alexandria na 1.ª metade do séc. I a. C..
A 1.ª leitura de hoje é tirada da parte final do livro. Nesta passagem descobrimos que Deus, sendo todo-poderoso, podia manifestar-Se com poder, castigar e sanear todos os malvados que não o acolhessem e amassem. Deus não se entrega como os pequenos tiranos a manifestações de fúria. Mas, descobre-se um Deus «justo» misericordioso e compassivo. No entanto, o autor afirma que Deus condena todo o mal, não o faz com tirania, mas com toda a indulgência de modo que todos se possam arrepender. Assim, devemos nós os crentes ser tolerantes e sempre esperar pacientemente a conversão e a mudança dos outros. Esta esperança deve fazer parte das nossas vidas para que os males dos outros não nos vençam e nos conduzam para a violência e à inquietação incontrolável perante as limitações que a vida dos outros muitas vezes apresenta e que tanto prejudica a nossa vida. Devemos seguir o exemplo de Deus e isso nos salvará. A aprender a relativizar e a relevar parece-me um bom princípio para ter paz interior.
Depois dos gemidos que passamos nesta vida material, na expectativa do bem maior que vamos depois alcançar, São Paulo, aponta os gemidos do Espírito para que o destino do cristão à vida nova e à glória são seja frustrado perante as misérias e limitações da vida deste mundo. O Espírito estabelece uma feliz comunhão entre a aspiração do cristão e a vontade de Deus. Na nossa intimidade, pela oração, descobrimos a acção do Espírito, que nos revela Deus como Pai, para depois sentirmos o abraço do Seu amor como Mãe.
O Evangelho, propõe mais três parábolas sobre o Reino, seguidas de uma explicação sobre o trigo e o joio. As parábolas são transmitidas às multidões e as explicações em casa aos discípulos. Muito curiosa esta nuance do Evangelho. A parábola do trigo e do joio, põe em confronto duas atitudes: a do dono do campo (paciência) e a dos servos (impaciência). Só a atitude de Deus – o «dono do campo» – é salvadora. Eis um convite de Jesus aos discípulos para conterem a sua impaciência e dominarem o seu «puritanismo» até ao tempo da «ceifa» (imagem do juízo definitivo de Deus). Neste mundo, o Reino de Deus deve crescer lado a lado com o mal. Agora é o tempo da espera, não o do juízo nem cabe a nós fazermos a colheita. A terra, a semente, o semeador são do domínio de Deus, nós, somos apenas instrumentos que procuram descortinar a Sua vontade. Só Ele sendo o «dono» do Reino pode julgar com justiça quem a Ele pertence ou não.
As parábolas do grão de mostarda e do fermento querem realçar as atitudes singelas e anónimas, que no meio da massa podem fazer brilhar muita coisa e sem elas o mundo não avança. Era a Beata Madre Teresa de Calcutá que dizia que o nosso trabalho pode ser uma gota num oceano imenso, mas faltando essa gotinha, o oceano será menor. Por isso, adiante com a nossa vida sempre para o bem para que a felicidade esteja nos nossos corações e outros com ela possam alegrar-se e experimentar a beleza da vida.
JLR

quarta-feira, 13 de julho de 2011

100 anos da vírgula - Excelente!!

Muito interessante....
Sobre a Vírgula
Muito bonita a campanha dos 100 anos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa).
Vírgula pode ser uma pausa... ou não...
Não, espere.
Não espere...
Ela pode acabar com o seu dinheiro...
23,4o Euros
2,34 Euros
Pode criar heróis...
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução...
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião...
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.
Detalhes Adicionais:
COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:
SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.
(não vejas o resultado mais abaixo sem colocar a vírgula)
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM...
Recebido por mail...

terça-feira, 12 de julho de 2011

É simples: funciona assim

A crise desenvolve o engenho e a arte. Se pensarmos bem, é tudo muito simples.
As crises do mundo, da Europa, Portugal, e a de cada família e pessoa, são todas muito parecidas. Só que aparecem esses mal intencionados das agências de rating e complicam tudo.
A crise está aí porque se gasta mais que se tem? Ou porque eles andam sempre a medir e pesar o que cada um gasta sem o ter? Todos os dias nos explicam que é pela primeira razão; e todos os dias nos dizem que é pela segunda. Os obesos, afinal, chegaram a isso por comerem ou por culpa da balança que os pesa? Se é por consumos a mais a solução está em consumir menos. Mas vêm logo outros sábios dizer que é devido à balança avariada, e que não é assim tão importante consumir menos. Para quê então consumir menos? Mude-se de balança. A do vizinho deve estar mais afinada, e se ela diz que é por se consumir mais que se deveria, procure-se outra. Também se pode procurar o parecer doutro sábio, mais sábio, doutro médico, que seja mais compreensivo, que diga que consumir ajuda a sair da crise, digo, da obesidade e da crise. Bem, se isso leva a continuar a dever e a aumentar as dívidas, se vai continuar a engordar os gastos do estado, digo, do individuo, procurem-se outras soluções. Por exemplo, reduzam-se e substituam-se os boys, digo os alimentos, por outros. E logo outros gritam que assim o consumo não diminui. Outros sábios são de parecer que só pondo o país, o obeso, a produzir mais e consumir menos, em maior actividade, para exportar mais que consome.
A gritaria, porém, continua: se não consomem a recessão e desemprego aumenta; consuma mais isto, compre mais aquilo, seja feliz com um pouco mais de gastronomia, não se esqueça do festival este e aquele, não fique à margem, tire mais uns dias de folga. Compre mais este artigo bonito e aquela casa, ou carro. Tudo como que a dizer: a crise precisa de si, do dinheiro que ainda tem, e se não têm nós damos um jeito e emprestamos. Não se esqueça que amanhã pode já não ter, porque a crise nem sequer começou. Maldita da balança dos ratings a clamar que assim as dívidas da família e do país aumentam. Mas traquilize-se. Se a crise aumenta, feche os olhos e os ouvidos aos alarmes, é por culpa das “ratings”; se as dívidas da família crescem é pelas revisões em baixa dos bancos; se a gordura à volta dos rins forma um pneu mais inchado é por culpa da balança.
Funchal, 12 de Julho de 2011
Aires Gameiro

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A crise ou outro conto curto!

Um homem vivia à beira de uma estrada e vendia cachorros-quentes.
Não tinha rádio, não tinha televisão e nem lia jornais, mas produzia e vendia os melhores cachorros-quentes da região.
Preocupava-se com a divulgação do seu negócio e colocava cartazes pela estrada, oferecia o seu produto em voz alta e o povo comprava e gostava. As vendas foram aumentando e, cada vez mais ele comprava o melhor pão e as melhores salsichas. Foi necessário também adquirir um fogão maior para atender a grande quantidade de fregueses. O negócio prosperava... Os seus cachorros-quentes eram os melhores!
Com o dinheiro que ganhou conseguiu pagar uma boa escola ao filho. O miúdo cresceu e foi estudar Economia numa das melhores Faculdades do país. Finalmente, o filho já formado, voltou para casa, notou que o pai continuava com a vida de sempre, vendendo cachorros-quentes feitos com os melhores ingredientes e gastando dinheiro em cartazes, e teve uma séria conversa com o pai: - Pai, não ouve rádio? Não vê televisão? Não lê os jornais? Há uma grande crise no mundo. A situação do nosso País é crítica. Há que economizar!
Depois de ouvir as considerações do filho Doutor, o pai pensou: bem, se o meu filho que estudou Economia na melhor Faculdade, lê jornais,vê televisão e internet, e acha isto, então só pode ter razão! Com medo da crise, o pai procurou um fornecedor de pão mais barato (e, é claro, pior). Começou a comprar salsichas mais baratas (que eram, também, piores). Para economizar, deixou de mandar fazer cartazes para colocar na estrada.Abatido pela notícia da crise já não oferecia o seu produto em voz alta. Tomadas essas 'providências', as vendas começaram a cair e foram caindo, caindo até chegarem a níveis insuportáveis.
O negócio de cachorros-quentes do homem, que antes gerava recursos... faliu. O pai, triste, disse ao filho: - Estavas certo filho, nós estamos no meio de uma grande crise. E comentou com os amigos, orgulhoso: - 'Bendita a hora em que pus o meu filho a estudar economia, ele é que me avisou da crise...'
VIVEMOS NUM MUNDO CONTAMINADO DE MÁS NOTíCIAS E SE NÃO TOMARMOS O DEVIDO CUIDADO, ESSAS MÁS NOTICIAS INFLUENCIAR-NOS-ÃO AO PONTO DE NOS ROUBAREM A PROSPERIDADE.
O texto original foi publicado em 24 de Fevereiro de 1958 num anúncio da Quaker State Metals Co
Nota da redação: recebi por mail. Agradeço imenso esta mensagem, ilustra perfeitamente a realidade das nossas sociedades actualmente. As pessoas em geral tomam decisões não pela sua própria cabeça, mas guiados pelas circunstância e sobretudo pelo que a comunicação social vai transmitindo. É pena que se vá mandando às urtigas a inteligência e se deixar levar pelo medo daquilo que os poderosos deste mundo querem impôr para dominarem ainda mais e tudo sugarem sem escrúpulos.

sábado, 9 de julho de 2011

A Casa do Amigo

.
A casa do Amigo não era grande
A casa era pequena
Na casa do Amigo havia alegria
E flores na porta
A todos ajudava nos trabalhos
..
Seus actos eram justos
O Amigo nunca quis mal a ninguém
Partilhava nossas dores
Partilhava nossas dores
...
O Amigo nunca teve nada seu
Suas coisas eram nossas
A “terra” do Amigo era a vida
Amor era a sua “terra”
Alguns não quiseram o Amigo
Expulsaram-no da terra
Sua ausência foi chorada p’los humildes
Penosa foi Sua ausência
Penosa foi Sua ausência
....
A casa do Amigo tornou-se grande
E nela entrou muita gente
Na casa do Amigo entraram leis
E normas e condenações
A casa encheu-se de hipócritas
De negociantes
A casa encheu-se de negociantes
Correram as moedas
Correram as moedas
.....
A casa do Amigo está mui limpa
Mas... faz frio nela...
Já não canta o canário p’la manhã
Nem há flores na porta
......
Fizeram da casa do Amigo uma obscura caverna
Onde ninguém se ama nem se ajuda
Onde não há Primavera
.......
Onde não há Primavera...
........
Saímos de casa do Amigo
Em busca dos Seus passos
E já estamos vivendo noutra casa
Uma casa pequena
Onde se come o Pão e bebe o Vinho
Sem leis nem condenações
E já encontrámos nosso Amigo
E seguimos Seus passos
E seguimos Seus passos
...........................
Ricardo Cantalapiedra

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XV Tempo Comum
10 de Julho de 2011
A Palavra de Deus
A Liturgia deste Domingo, apresenta-nos uma mensagem sobre a Palavra de Deus.
Somos convidados a pensar sobre a Palavra de Deus. Que importância lhe damos? Que estudo fazemos dela e quais as formas que escolhemos para a estudar? A Palavra de Deus, é o centro da minha religiosidade? Procuro esclarecer a fé na Palavra que me é anunciada? Ponho em prática a Palavra de Deus, como se fosse uma luz que inspira todo o meu viver? - Estas são apenas algumas das questões que podemos colocar diante da mensagem Bíblica sobre a Palavra que as leituras deste Domingo nos apresentam.
São abundantes as metáforas sobre a Palavra de Deus, lembremos Jeremias que compara a Palavra ao fogo e ao martelo. O autor de Heb recorre à ideia da «espada de dois gumes». Isaías inspira-se no mundo rural, um camponês que se inquieta perante a terra árida, nada mais deseja e ama do que a chuva, início e condição para o ciclo da vida. À Palavra de Deus, o profeta dá-lhe tal importância que nos faz pensar Naquele que é a Palavra plena, definitiva, criadora de Deus, Jesus Cristo.
A nossa vida está cheia de exemplos de práticas de instrumentalização da Palavra de Deus. São muitas as pessoas, ditas de muito crentes, que não seguem a Palavra de Deus, mas antes a palavra dos homens. São muitos os que não se guiam pela luz da Palavra Divina, mas pela doçura das palavras de alguns, os idolatrados pelos interesses deste mundo.
São Paulo ensina que a Palavra de Deus não se deixa encadear, mas pela força do Espírito Santo, corre veloz como uma gazela e é penetrante como uma espada de dois gumes. Por isso, não deixemos que nenhuma lógica deste mundo, nem nenhuma divisão da vida, nem nenhum interesse material, nem nenhuma palavra, por mais doce que seja, nos desviar o coração da verdade que a Palavra de Deus nos transmite. Quando nos guiamos pela Palavra de Deus, nada nos desvia do caminho que Jesus traçou para nós. Aconteça o que acontecer, estamos seguros na rocha firme que é a Palavra Divina inspirada por Deus.
Nesta passagem belíssima da carta aos Romanos, São Paulo contempla o processo cósmico da redenção e divinização da humanidade. Se por um lado, a miséria do pecado votou a humanidade à corrupção e à morte, por outro, surgiu a humanidade nova, que em Jesus Cristo recebeu pela acção do Espírito Santo uma nova esperança na glória de Deus e a certeza que se encontra agora divinizada, embora ainda não totalmente, daí as contingências e limitações que sofremos neste mundo («…toda a criatura geme ainda agora…», diz São Paulo), porém, estamos já expectantes até ao dia em que alcançaremos definitivamente a glória e a divinização em plenitude.
No entanto, a Palavra de Deus, deve ser bem interpretada, e melhor do que a interpretar é preciso reza-La, porque a Palavra de Deus se serve para nos guiar para a vida plena, também quando mal digerida serve para cometer as piores atrocidades. O nosso tempo está cheio de exemplos de más condutas baseadas na Palavra de Deus. O fundamentalismo é um sinal muito negativo disso mesmo. A Palavra de Deus se for acolhida com verdade e honestidade todos os dias recria-nos sempre para o amor, para a felicidade e para o bem de todos. O coração humano é a boa terra onde Deus semeia a mensagem da felicidade, sejamos bons «agricultores» dessa terra que nos foi dado com todo amor.
JLR

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Que ideia fazes de Deus?

Alguns pensam que ter fé é acreditar em coisas que não se entendem. Então, a fé seria uma espécie de castração mental, um decapitar-se, intelectualmente. A Fé é confiar numa Pessoa. Mas tentar"dizer" Deus ou "provar" a nossa fé seria um esforço inútil; pois, o Deus que "se diz" não é, certamente, DEUS. Só Ele Se pode dizer a Si mesmo. Podemos ter sentimentos religiosos ou desfilar dentro de nós todos os deuses do Panteão, adornar de "estatuetas" todo o nosso interior. Apenas serão altares erguidos às projecções de nós mesmos. A nossa fé é um Dom de Deus que nos permite acolhê-LO, em Jesus Cristo. Um Deus vivo, pessoal, que nos ama, nos apela e interpela. Que ideia fazes de Deus, perguntaram ao nosso poeta António Correia de Oliveira. E ele respondeu, em verso, a impossibilidade de dizer o que a sua alma continha.
E perguntais-me que ideia faço
De Deus na Criação?
Sei lá que ideia!
(Invocai-O… que sombra se incendeia
em vosso olhar de dúvida e de cansaço!)
Talvez ao Seu poder, no infinito espaço,
O mundo seja um pó que revolteia;
Talvez esteja neste grão de areia
Que em meu caminho piso e despedaço
Que ideia de Deus?
Sei lá… nenhuma!
Perguntai vós ao hálito da espuma
O que entende do mar: se O sente e O vê…
Amo-O, pressinto-O, e mais não sei. Quem ama
Responde, não pergunta.
É como a chama:
Sobe, alumia, sem saber porquê!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A "geração Morangos" e a morte do artista

Jornal PUBLICO 03.07.2011 - Por Paulo Moura
Na parede junto ao balcão do bar Porão de Santos está afixada a lista dos shots: Bacanal, Orgia, Orgasmo, Broche, Chupa no Grelo. Todos à base de vodca, rum e gim. São duas da manhã e, dentro e fora do bar, nas mesas da esplanada ou de pé à porta, há dezenas de jovens de 15, 16 anos. Alguns notoriamente mais novos. Os rapazes de cabelos compridos e penteados complicados, as raparigas de saltos altos e roupas exíguas.
O empregado sai com uma bandeja cheia de shots para uma mesa. Ele, a decoração do bar, a zona onde está situado - o Largo de Santos, junto ao teatro A Barraca e ao bar Estado Líquido - não se parecem nada com os cenários da série Morangos com Açúcar. Os jovens, sim. Os cabelos, as roupas, os gestos, os tiques de linguagem, tudo parece copiado da série da TVI.
"São péssimos, mas eu adoro", diz Mafalda, 19 anos, a respeito dos "Morangos". É estudante, tal como as três amigas que a acompanham, todas entre os 18 e os 19 anos - Francisca, Inês e Teresa. "Não representam a nossa geração." Quer dizer, talvez representem, mas "representam mal", corrige. "O povo real, a juventude, não são assim. Aquilo são maus actores, e as histórias não dão bons exemplos.
"As quatro amigas enumeram as críticas, embora conheçam de cor todas as personagens e episódios. "É sexo atrás de sexo", diz uma. "A minha mãe proibia-me de ver. É mau exemplo." Outra tem a comentar que as histórias são pobres e sempre iguais, o que se deve à escassez de actores e personagens. "Devia haver mais", sugere.
"Dantes era melhor", diz outra. Todas admitem que adoravam quando eram mais novas. Aos 12, 13 anos, não perdiam um episódio. Identificavam-se. Agora já não. "As personagens só pensam em sexo. Miúdas de 16 anos a fazer sexo." Acham mal, não gostam, não se sentem identificadas. Mas vêem. "São momentos de estupidez nos intervalos do estudo", explica uma. "Talvez no Seixal as pessoas se identifiquem mais.
"Encontram outro grupo que desce a rua que vem do Largo do Conde-Barão, onde várias lojas de conveniência decidiram vender bebidas alcoólicas e se transformaram em bares de rua. Aqui, na Avenida D. Carlos I e na subida da Rua das Janelas Verdes, há milhares de jovens na rua, dentro ou à porta dos bares, em grupos barulhentos, circulando de um lado para o outro, muitos visivelmente embriagados, à medida que nos aproximamos das 3, 4 da manhã.
No interior de alguns carros, estacionados em locais estrategicamente pouco visíveis mas de onde se pode ver bem a zona, alguns homens de meia-idade esperam pacientemente. Pelo ar aborrecido vê-se que não são pedófilos, nem polícias à paisana tentando identificar os bares que vendem álcool a menores. São pais que esperam que os filhos terminem a noitada, enquanto os vigiam mais ou menos discretamente.
"Aquilo é ridículo. Os alunos da escola todos a dançar. Ninguém faz isso. Nas escolas da vida real as pessoas não passam a vida a dançar." Sofia e Madalena têm 16 anos. Dizem que viam e gostavam dos "Morangos" quando tinham 11, 12 anos. "Agora é só gays, maricas, ordinarices." Juntam-se três rapazes, José, Diogo e David, de 19 anos, estudantes do 1.º ano de Direito. Concordam com as amigas quanto à parte dos "gays e ordinarices". Viam a série quando eram mais novos. "Foi importante para todos nós. Eles era como se fossem nossos amigos. Além dos nossos amigos reais havia também aqueles, não fazíamos distinção.
"Não gostavam dos D"zrt, a banda criada pelos produtores dos "Morangos" que depois saltou para a vida real e de que fazia parte Angélico. Mas ouviam, e foram a concertos. "A música não era má. Eu reconheço que era boa música", diz José, dividido entre uma certa obrigação de denegrir a "cultura Morangos" e a necessidade pessoal de defender a série e a música com as quais cresceu. "Eles levavam muita gente atrás, não há dúvida. "Ao contrário dos amigos, que ambicionam apenas ser advogados, José pertence à Juventude Popular e não descarta a possibilidade de vir a "servir o país", se necessário.
No bar Refúgio das Freiras está tudo a dançar, incluindo as empregadas atrás do balcão, tão jovens como os clientes. As bebidas aqui têm um nome que não engana: balde. Balde de Cerveja, Balde de Vodca, Balde de Caipirinha. A porta está guardada por dois seguranças que não perguntam a idade a ninguém.
Carolina e Filipa, de 15 anos, Rita e João, de 16, também andam de bar em bar. "Quando éramos mais novos, não perdíamos um episódio" dos "Morangos". Identificavam-se com as personagens, aprendiam com elas a forma de vestir, as expressões. "Aquilo era viciante." Falavam como eles, pensavam como eles. "À hora a que passava o episódio não se via nenhum jovem na rua."Admitem que foram influenciados. Que não seriam o que são hoje se não tivesse havido os "Morangos". "Eu passei pelos mesmos problemas que as personagens passavam", diz João. "Eles ajudaram os jovens." Carolina e Filipa admitem que eram fãs de Angélico - mas quando tinham 9 anos. "Aprendemos muito. Todos usávamos as mesmas expressões. Sofremos a influência deles. Foi uma boa influência." Apontam para um par de namorados que se beijam: "Aquilo também é influência dos "Morangos". As histórias são sempre à volta disto. Um que gosta de outro e depois ficam juntos." Na vida real também é assim. Muito por influência dos "Morangos", acha este grupo. "Os Morangos com Açúcar ensinaram-nos a namorar."
Aplausos no funeral
Quando começa a sair fumo pela chaminé do crematório do cemitério de Vale Flores, no Feijó, há uma salva de palmas. Tudo o que Angélico fazia na vida era digno de aplauso. Por que razão seria agora diferente? Milhares de pessoas acompanharam o corpo do jovem actor e músico da Igreja do Laranjeiro ao cemitério do Feijó. No edifício do crematório só entram familiares e VIPs. Cantores, actores, modelos, figuras conhecidas da televisão são, por natureza, amigos de Angélico. Os outros são admiradores.
"Aposto que mais de 80 por cento das pessoas que estão aqui só vieram para aparecerem na televisão", diz um jovem negro de t-shirt sem mangas. O sol está insuportável. Há pessoas a desmaiar. "Ele era um rapaz muito alegre", diz Daiena, 19 anos, que diz ser vizinha dos tios de Angélico. "Estava sempre a rir. Era uma pessoa boa, que gostava de ajudar", diz Filomena, 47 anos, angolana, residente em Almada. Todos exaltam as características humanas de Angélico. Ninguém refere as artísticas. Mas ninguém lamenta a morte do ser humano. Antes celebram mais um episódio espectacular da vida de um "artista".
Angélico nunca quis ser músico ou actor. Foi "descoberto" por uma agência de modelos por ter um corpo escultural, e aos 21 anos foi seleccionado para integrar o elenco dos Morangos com Açúcar, uma série que inventou padrões estéticos, expressões de linguagem e modelos de comportamento para os adolescentes consumirem e imitarem. A banda D"Zrt também foi criada artificialmente, como elemento ficcional, e os seus membros foram escolhidos por casting.
"Ele era humilde. Um rapaz simples e bom", diz José, 42 anos, angolano a viver no Feijó, a respeito de Angélico, o músico "fabricado" que cobrava 15 mil euros por concerto e mil a dois mil euros por uma simples presença numa festa.
"Há pessoas que vêm a este mundo e cativam toda a gente. Outras não", explica Alberta, 61 anos. "Esse moço era assim. Arrastava todo o mundo atrás dele. Sabe-se lá porquê.
"Enquanto decorre a cremação, circulam cá fora informações contraditórias, conspirativas, fantásticas. Angélico levava cinto de segurança, não levava, o carro tinha seguro, não tinha, quadrilhas de criminosos estavam presentes no funeral, etc. "O meu pai é mecânico e diz que é impossível que uma roda salte num carro daqueles. Aquilo foi alguém que desaparafusou... há muitas invejas.
"Quando a mãe de Angélico sai do crematório, há palmas de novo. Quando sai Rita Pereira, actriz e ex-namorada de Angélico, a multidão aplaude e grita sincopadamente, como se puxasse pela sua equipa de futebol: "Rita! Rita! Rita!
"Uma menina negra de cabeleira enorme e uns 6 ou 7 anos de idade pergunta à mãe: "Cremado quer dizer que ele está a ser queimado?"
"Sim, filha."
"Queimado, mesmo todo a arder?"
"Sim", responde a mãe, sem prestar muita atenção.
"Mãe, eu quando morrer também quero ser cremada."

domingo, 3 de julho de 2011

500 anos da Diocese do Funchal

Por José Luís Rodrigues
A Igreja da Madeira, apresenta-se hoje à sociedade celebrando os seus 500 anos de existência. Uma longa data. Durante os próximos três anos até ao dia 12 de Junho de 2014 iremos ouvir falar muito desta realidade. Mau será que se intente cantar apenas os momentos gloriosos, exaltando as figuras mais proeminentes (bispos e padres), esquecendo as mulheres e homens concretos que fizeram a Igreja e quiçá os verdadeiros agentes da evangelização. Também se espera que a Igreja se volte para dentro, se penitencie pelo mal feito, pense nos desafios actuais, enfrente a teia em que está mergulhada a sociedade madeirense que a enrodilhou numa «santa aliança», que se purifique das nuvens negras que a ensombram, o caso Ribeira Seca e o Jornal da Madeira à cabeça da lista.
Mau será se ficar para além desta etapa dos 500 anos a ideia triste que as celebrações se reduziram a belos discursos, a muitas palmas, tapetes de flores para se passearem as figuras dos diversos poderes. Os tapetes de flores que foram o ex-líbris das nossas festas ao Santíssimo Sacramento, agora servem para promover espectáculos profanos e para receber bispos e novos padres nas paróquias. Um sacrilégio, uma idolatria sem precedentes na nossa história de 500 anos.
Mau será que as celebrações dos 500 anos se reduzam a festanças e comezainas só para alguns de modo especial os que não são nem muito menos fazem a Igreja da Madeira, mas que em determinados momentos se aproveitam dela para servir os seus intentos puramente mundanos. A celebração dos 500 anos devia servir para que a Igreja se tornasse menos clericalista, menos açambarcada por alguns como se fossem donos de tudo, onde a transparência das contas seria uma rotina e o seu património estava bem claro perante os baptizados. Uma organização transparente a este nível seria muito benéfica para a nossa Igreja. Uma reorganização dos serviços da caridade, com menos burocracias, menos acessão de pessoas e de famílias. Afinal, uma caridade totalmente desinteressada em relação aos mais necessitados, os verdadeiros pobres da nossa terra.
A meu ver chega de levar adiante formas e fórmulas ditas de evangelização que aconteceram em muitos momentos da história da Igreja da Madeira. Tal acontece porque a Igreja perdeu a fidelidade ao Evangelho e imiscuiu-se na política. A Igreja não tem jeito para fazer política, isto é, deve ser a Igreja profundamente política, na verdadeira acepção da palavra, mas não deve ser partidária. Não deve tomar partido por nenhum sistema político nem muitos menos estar ao lado de nenhuma força partidária. Sempre que tal aconteceu o mundo perdeu e a Igreja ainda muito mais perdeu.
Por fim, nos nossos dias, como já o foi também noutros tempos, não deixa de ser curioso e divertido ver o Papa e os bispos a defenderem a democracia, a separação da Igreja e o Estado, e alguns representantes políticos, leigos e laicos do Estado e da vida pública, a defenderem a hierarquia e a apelarem à prática da espiritualidade.
A mistura da Igreja com as políticas vigentes é fatal para a Igreja, porque entra mesmo sem o desejar num descrédito muito grande. Se, por um lado, não lhe falta bens materiais para erguer igrejas, fazer beatificações, realizar manifestações populistas entre tantas outras acções. Por outro, falta-lhe presença nas coisas da sociedade, presença séria nas instâncias da educação, da política e dos meios de comunicação social. A nossa Igreja precisa de reacender a esperança no mundo, perder o medo e encontrar lucidez para pensar em respostas pastorais que a relancem numa pastoral séria e ousada.
A espada e o hissope não servem para evangelizar. Hoje espera o mundo que a Igreja carregue a cruz da vida das mulheres e dos homens concretos e que caminhe com todos até ao Calvário da vitória.
Nota da redação: publicado neste domingo 3 de Julho de 2011 no Diário de Notícias do Funchal, na Secção Sinais dos Tempos....

sábado, 2 de julho de 2011

A fraternidade

O elogio da Fraternidade por D. Manuel Clemente:
«A fraternidade exclui dois despistes, que foram muito frequentes do séc. XIX para a atualidade: a massificação e o individualismo».
«Quando eu massifico e penso em termos de abstração em relação aos meus contemporâneos, não estou a reconhecer nenhum deles. Da mesma maneira, se eu me olho atomisticamente, apenas como um desejo individual, e aos outros da mesma maneira, então só posso ter sentimentos de concorrência ou, quando muito, armistícios sucessivos para não nos incomodarmos tanto.»
«Na Doutrina Social da Igreja, a fraternidade conjuga subsidiariedade e solidariedade. Ser subsidiário é ter em relação ao outro um olhar que o promova, que o incite, que o faça ser o que pode ser, e tanto quanto possível, por si. Demora. A fraternidade não é apressada. E a prova é que ainda estamos muito no princípio quanto a este capítulo.»
Excertos da intervenção do presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais na mesa-redonda “O elogio da Fraternidade”, durante a 7.ª Jornada da Pastoral da Cultura.

Nota da redação: com um braço fraterno para todos os meus leitores e votos de bom fim de semana...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A melhor parte da vida - ser feliz

«Quem pode estar 84 anos num convento de clausura sem ser feliz? – Claro que sou feliz».
Irmã Teresita, está num convento de clausura desde os 19 anos. Entrou para o convento a 16 de Abril de 1927 – o mesmo dia em que nasceu o Papa, Bento XVI – Irmã Teresita – Valéria de nome civil – é a monja que tem na Espanha mais tempo na clausura e fará 104 anos em Setembro, a sua cela e a sua vida estão no convento de Buenafuente del Sistel (Guadalajara), uma povoação de 200 habitantes.
Ainda faz tortilhas de batatas, famosas no convento, com duas ajudas muito especiais: «a virgem dá-lhes o sabor e São José dá-lhes a volta». Amén.