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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Se morrem crianças morre uma boa parte da humanidade

Todas as mortes quando não acontecem com a naturalidade que se espera ao fim de uma temporada mais ou menos longa nesta vida, é sempre de lamentarmos profundamente. Por isso, quando estamos perante a morte de bebés e crianças ficamos profundamente consternados e chocados se essa morte resulta da guerra, da violência doméstica, da irresponsabilidade dos adultos, do crime organizado que trafica crianças para fazer comércio sexual ou para extração de órgãos... Mais ainda choca se os crimes resultam de pedofilia e da loucura dos seu próprios pais.
Nos últimos dias fomos tomados de assalto por dois crimes graves que resultaram na morte de três crianças. Uma mãe que atira à correnteza do rio Tejo um bebé de 20 meses e uma criança de 4 anos, que resultou na morte de ambas, tudo indica, por afogamento. Outra situação está relacionada com uma criança de 5 anos que caiu de um 21º andar no Parque das Nações enquanto os pais estavam a divertir-se nos jogos do casino.
Tudo isto acontece porque a sociedade tornou-se violenta, desumana e nenhuma pretexto aparente pode apenas servir para justificar comportamentos que conduzem à morte dos outros, ainda mais se são bebés e crianças.
O nosso querido poeta Fernando Pessoa dizia que «o melhor do mundo são as crianças». A Bíblia Sagrada está cheia de passagens onde se percebe que as crianças de fato são o melhor que este mundo tem. Quem as desrespeita está condenado a pena máxima.
Ora vejamos alguns exemplos bíblicos:
1. «Mas, com quem compararei esta geração? É semelhante a meninos que se assentam nas praças e gritam aos seus companheiros: Tocamos-vos flauta, e não dançastes; cantamos lamentações, e não chorastes» (Mt 11, 16-17)
2. «Traziam-lhe também as crianças, para que Ele as tocasse. Os discípulos, vendo isto, repreendiam-nos. Mas Jesus, chamando-as para si, disse: Deixar vir a mim os pequeninos, e não os impeçais, pois deles é o reino de Deus. Em verdade vos digo que, qualquer um que não receba o reino de Deus como uma criança, não entrará nele» (Mt 19, 14 e Mc 10, 13-15).
3. «Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos no divertimento, e adultos no entendimento» (1Cor 14, 20).
4. «Deixando, pois, toda a malícia, todo o engano, e fingimentos, e invejas, e toda a sorte de maledicências, desejai ardentemente, como meninos recém-nascidos, o puro leite espiritual, para por ele crescerdes para a salvação, agora que já provastes que o Senhor é bom» (1Pe 2, 1-3).
5. «Ora, os que comeram foram quatro mil homens, além de mulheres e crianças (Mt 15, 38).
7. «Esse, usando de astúcia contra a nossa linhagem, maltratou a nossos pais, ao ponto de força-los a enjeitar as suas crianças, para que não se multiplicassem» At 7, 19).
8. «Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que fosse lançado no mar com uma grande pedra amarrada no pescoço» (Mc 9, 42) Podemos ainda ver que as crianças são consideradas e muitas vezes servem de exemplo para anunciar a mensagem da salvação. Muitos mais exemplos podíamos citar, tirados da Bíblia. Porque são imensos os ensinamentos que nos devem educar no sentido de fazermos das crianças realmente o melhor do mundo e que devemos para elas oferecer o melhor que há no mundo.
Nos casos em concreto, que resultaram na morte de três crianças, vítimas de ambientes péssimos, parece-nos que a irresponsabilidade é o pão nosso de cada dia. As autoridades também falharam redondamente e devem ser postas de parte as suas falhas. A sociedade em geral falha. Sim falhamos todos, porque ninguém se apercebeu de sinais, de indícios, mas porque o raio da mania que ninguém tem nada a ver com ninguém, preferimos calar perante os indícios e o sinais, para falar à boca cheia depois da desgraça como exímios «mestres». A solidariedade com os indefesos não deve ter requisitos nem muito menos condições de nenhuma ordem.
Uma mãe que chega a entregar à morte tão facilmente dois filhos, é o fim da linha, é manifesto que esta pessoa não anda bem e há muito que devia ter apresentado sinais que induziam à tragédia. Como é que ninguém à volta não se apercebeu disto? Como é que ninguém se apercebe de um sinal, de um choro fora do normal, uma agressividade ou outra coisa qualquer que leve a uma conclusão acertada sobre o que se está a passar ou que a tragédia está iminente? - É pois, a mania que não nos metemos na vida de ninguém... É um bom princípio, para muita coisa da nossa vida, mas quando se trata de libertar e salvar vidas humanas este principio não pode prevalecer.
Outro dado está relacionado com a perda de valores que a nossa sociedade apresenta. A vida reduzida à dimensão física, ao prazer deste mundo e à irresponsabilidade sexual está a conduzir muita gente para o niilismo da vida em todas as suas dimensões. A perda de valores rebaixa os outros e tira-lhes a dignidade. Não podemos continuar como se fosse normal educar sem espiritualidade, sem normas de conduta, sem educação cívica e sem aqueles costumes tradicionais na educação das sociedades. Não podemos ter vergonha de defender valores humanos e religiosos que nos apontam para a dimensão da vida não apenas para a vertente física, mas também para a dimensão transcendente, a vida eterna após saborearmos as belezas da vida terrena e cumprimos a missão para que estamos neste mundo. 
Precisamos de sentir que a vida tem uma dimensão espiritual, transcendente e que por isso não é apenas nossa, pertence a um mistério e a uma dimensão que não dominamos, não é nossa. Muitos pais, não gostam de ouvir que não são donos dos filhos, uma pessoa não é uma propriedade, não é um objeto, não tem dono. Ser pai e mãe é o maior «trabalho» voluntário, o mais importante e mais nobre deste mundo e que não é renumerado. Uma opção voluntária, livre e grandiosa para dar ao mundo, à vida a sua continuidade. Este «trabalho» não é só desta ou daquela pessoa, pertence ao mistério que a todos envolve e que de todos faz parte.  
A mania que uma criança pode ser um bibelô ou um brinquedo como outro qualquer não pode continuar a marcar o pensamento de tanta gente, especialmente, na cabeça de alguns jovens e adolescentes.  
Que estas mortes trágicas destas crianças não sirvam apenas para andarmos para aí a condenar este e aquele, encontrar bodes expiatórios para justificar o injustificável, aplicar leis e mais leis como se as pessoas cumprindo uma lei e um castigo se tornassem as melhores pessoas do mundo. Antes é preciso um debate muito mais denso e mais profundo, holístico sobre os contextos, as causas e toda a envolvência humana que conduz a este desprezo pela vida, particularmente, a vida das crianças. 

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