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segunda-feira, 24 de maio de 2010

DE TARDE

Naquele «pic-nic» de burgueses,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter histórias nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzonal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!
Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, Editora Orfeu, 1985, p. 75

1 comentário:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luís, tal como dizia Fernando Pessoa: Cesário, oh Grande Cesário. Verde tinha o seu Apelido, porque ele realmente defendia o Verde dos campos, das cidades. Tudo era fresco , primaveril. No entanto, morreu tuberculoso e abandonado. Ninguém admirava os seus poemas . Só Pessoa é que o defendia e o admirava muito. No entanto, tinha uma poesia bonita, pueril, mas doida pelo campestre, pela fescura das árvores, dos frutos, flores. Era tenazmente bucólico Enfim era verdadeiramente o Poeta da Ecologia. Filomena Mónica tem um livro só sobre Cesário Verde que merece ser lido.