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sexta-feira, 7 de maio de 2010

O mundo virtual - só nas nossas cabeças

Nota: Este episódio, é muito interessante. Porque no nosso mundo actual, erroneamente apelidado de virtual, nada tem de virtual. Não sei quem é o autor deste texto. Obrigado a quem partilhou comigo esta mensagem, partilho-a agora com todos os meus leitores. É importante transmitir esta mensagem aos nossos jovens. Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são.
Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é?
Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim: - Senhor, não tem umas moedinhas? - Não tenho, menino. - Só uma moedinha para comprar um pão. - Está bem, eu compro um.
Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail. Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas. Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos.
- Senhor, peça para colocar margarina e queijo. Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali. - Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem? Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora. O peso na consciência, impedem-me de o dizer. Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma refeição decente para ele.
Então sentou-se à minha frente e perguntou: - Senhor o que está fazer? - Estou a ler uns e-mail. - O que são e-mail? - São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet (sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses): - É como se fosse uma carta, só que via Internet. - Senhor você tem Internet? - Tenho sim, essencial no mundo de hoje. - O que é Internet ? - É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual. - E o que é virtual? Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas. - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse. - Que bom isso. Gostei! - Menino, entendeste o significado da palavra virtual? - Sim, também vivo neste mundo virtual. - Tens computador?! - Exclamo eu!!! - Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual.
A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo, o meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual não é senhor???
Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas caíssem sobre o teclado. Esperei que o menino acabasse de literalmente 'devorar' o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um 'Brigado senhor, você é muito simpático!'.
Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeia de verdade e fazemos de conta que não percebemos!

2 comentários:

angelopaulos46 disse...

Padre José Luís, fiquei deveras chocado com este texto manifestamente existencialista e agónico na sua prosa. Até parecem livros de André Malraux, Raul Brandão ou até de Virgílio Ferreira. Nisto tenho que prestar homenagem aos Padres conciliares e aos Papas desde João XXIII até a Bento XVI pelos magníficos documentos que nos deixaram e que chamam a atenção para os problemas do mundo actual no que concerne às vertentes políticas, económicas e sociais. "A Igreja é perita em Humanidade". Os poderosos, os capitalistas e economia dos mercados desenfreados são condenados pelos Santos Padres.O Papa Leão XIII e, outros posteriores a ele, chamaram tb atenção para esses crimes que são a fome, as vidas infra-humanas. Tudo fruto de uma incongruência de 20% da humanidade que é dona de 80%.E esta percentagem mantém-se. Cada vez mais cria um fosso enorme entre ricos e pobres. O nosso destino colectivo estão nas mãos desses gajos que inescrupulosamente nos exploram sem medida. Hoje a vítima é tb a Natureza. A nossa Madre Terra está a ficar doente e a terapia tarda em vir.

José Ângelo Gonçalves de Paulos

tukakubana disse...

Este texto já corre na net há anos.
Ele retrata o egoísmo global, a indiferença global, a pobreza global e a realidade global.
É uma chamada de atenção a cada um de nós, que não reparamos nas coisas simples, que achamos que pobreza é só nas longínquas Áfricas, nas Índias...
É a possibilidade de, ao ler o texto, deixarmos de lado o coração virtual e regressar ao coração de carne!