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terça-feira, 27 de março de 2012

Conversa de grãos... De gente

- Dizia um dos grãos de trigo para os outros em pleno inverno debaixo de uns centímetros de terra: vamos acabar podres aqui sob esta terra húmida e fria.
- Outro grão retorquia: tenho impressão que não. Se nos puseram aqui não é para acabar.
- Que ideia, foi mesmo para acabar. Não sentes a tua casca a desfazer-se e o miolo a inchar? E aqueles ali já estão apodrecidos, desfeitos, nem já dão por nós.
- Deixa lá, vais ver que não vai ser o nosso fim. Sinto cá por dentro uma vibraçãozinha como alguém a chamar-me baixinho!
- Estás mesmo a sonhar, ilusão; estás a delirar. Eu não sinto nada, só o frio e a terra húmida a esmagar-me. É uma tristeza acabar assim. Era tão boa a nossa vida, antes!
- Não estás a ver este grelinho a sair do meu interior por dentro da minha pele desfeita? Espera, espera…Já…
- O quê?
- Estou a subir de dentro do que estava podre. Vejo…
- Se não estou louco, parece que também está a acontecer comigo. Estou a mexer… Qualquer coisa a subir… Será que é mesmo agora o nosso fim?
- Eu vejo uma luzinha por cima, sinto algo a roçar quentinho pela minha folhinha… Sinto-me mais vivo… A renascer. Está a ser mais bonito que antes e que há pouco. Olha, ali, outros grelinhos a aparecer, a subir… Já não estamos a apodrecer debaixo da terra. E aquela luz grande a olhar para nós!
Ena, tanta luz! E tantos a acenar-nos para a festa. Hi! O que estamos a ver! Que bonito!
Funchal, Páscoa («Se o grão de trigo não morrer...») 2012
Aires Gameiro

3 comentários:

Graça Pereira disse...

Foi este o tema da minha penúltima catequese e as crianças entenderam que o grão tinha de ir para a terra, apodrecer...para que tivessemos pão!
Linda esta história que a vou levar para quando regressarmos, explicar-lhes a Ressurreição do Senhor.
Um Santa e Feliz Páscoa, amigo padre Luís.
Abraços
Graça

José Luís Rodrigues disse...

Muito obrigado e igualmente para si uma Santa e Feliz Páscoa na alegria de Cristo Ressuscitado e de nós todos ressuscitados com Ele - o que importa verdadeiramente na celebração da Páscoa... Tudo de bom.

ivo.vieira_11 disse...

CRUCIFICAÇÃO
As Sextas-Feiras Santas nos relembram
aquela madrugada sombria em Jerusalém
quando um Jovem Imaculado foi vítima
da traição humana.
O vento brando, a lua inibida,
o murmúrio das palmeira,
o gemidos das almas…
A sentença se aproximava.
Ela vinha sobre o dorso áspero
da fera – o homem!
A multidão que há poucos dias
o saudava delirantemente
com ramos e cânticos
agora implorava por sua morte.
Ali, sob seus castos pés,
centuriões imperiais
disputavam suas vestes em meio
a estrondantes gargalhadas.
Ele bradava: “Eli, Eli, lame sabactani?”:
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonastes?”
As púmbleas nuvens abalaram-se,
as rochas estremeceram…
Jesus deu o último suspiro relembrando
da água transformada em vinho,
do Lázaro ressuscitado,
da fé de Nicodemus,
da ira dos fariseus porque o Mestre
sentou-se à mesa com pecadores, réprobos
e cobradores de impostos.
Ele relembrou das conversações
que teve com os apóstolos,
da Madalena livre do apedrejamento
e perdoada…
Jesus já não se encontra na Cruz.
Ele está defronte da portas do teu empedernido coração,
suplicando para entrar,
sentar à tua mesa e cear contigo
por toda a eternidade.

Poeta Ivo Júnior (Salgueiro – PE)