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segunda-feira, 26 de março de 2012

Da importância de um padre falar com uma mulher

Por Ana Vicente*
Recentemente nomeado para um grupo poderoso de homens celibatários, o colégio dos cardeais, cuja origem ou justificação não se vislumbram na mensagem evangélica, Manuel Monteiro de Barros veio ao pátio dos gentios tecer considerações sobre "a mulher" e sobre "a família". Usando do seu pleno direito de liberdade de expressão, propõe que seja dada mais apoio à "família" pois a "mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos". Também afirmou que: "Mas se a mãe tem de trabalhar pela manhã e pela noite e depois chega a casa e o marido quer falar com ela e não tem com quem falar..." Tais afirmações devem preocupar-nos pelo seu simplismo, revelador de uma profunda desconexão com a vida quotidiana de milhões de famílias, em Portugal, na Europa e no mundo.
A realidade social das famílias é muito variável e complexa, haja ou não filhos (10% dos casais têm problemas de infertilidade). O modelo económico em que vivemos neste país exige, sem hipótese de qualquer escolha por parte de umas ou outros, que a maior parte das pessoas, mulheres ou homens, exerça um trabalho remunerado. E atira para o desemprego um número assustadoramente elevado de pessoas, mulheres ou homens. Por outro lado, temos uma grande percentagem de pessoas com mais de 65 anos, (entre as quais eu me incluo e o referido cardeal também), vivendo ou não "em família", que reflectem um aumento muito positivo da esperança de vida. Estes e estas continuam a trabalhar de forma remunerada sempre que podem, quer sejam mulheres ou homens, quando as suas pensões são diminutas ou quando nisso têm gosto. As mulheres, tal como os homens, não "trabalham" para se divertir, mas porque precisam dos rendimentos para custear o dia-a-dia, de si próprias e da sua família, nuclear, alargada, reconstituída, ou o que seja. E também porque o trabalho remunerado nos dignifica e, tantas vezes, nos gratifica. É essa uma mensagem importante da Doutrina Social da Igreja - o trabalho é um valor e deve ser realizado em condições dignas, de forma a satisfazer a dimensão humana e espiritual da trabalhadora ou do trabalhador. A experiência do trabalho remunerado, semelhante às condições vividas por qualquer cidadã ou cidadão, é uma que muito poucos sacerdotes jamais enfrentaram, até porque escolheram não "constituir família" (e estão inseridos numa instituição que lhes garante o suficiente para viver).
Torna-se quase fastidioso ter de repetir, mais uma vez, que todos os estudos demonstram que metade do trabalho remunerado e a esmagadora parte do não remunerado, realizado no mundo e também no nosso país, são realizados por mulheres - por razões culturais, por razões sociais, mas sobretudo porque as mulheres continuam a ser consideradas (mais uma vez demonstrado pelas palavras do sr. cardeal), e a considerarem-se, como grandes responsáveis do sustento e do bem-estar das suas famílias e, nomeadamente, dos seus filhos. Ou seja, este desequilíbrio tem as suas raízes na assimetria de poder, persistente, anticristã e desumana, que impera entre mulheres e homens. Contribui para e/ou explica, a título de exemplo, entre muitos outros possíveis, a violência doméstica, a prostituição, a pobreza (a maioria dos pobres é do sexo feminino), a diferença salarial existente entre mulheres e homens por trabalho de valor igual, a ausência ou diminuta presença das mulheres nos lugares de decisão política, económica, militar e, sobretudo, religiosa.
Parece-me, antes, sobejamente necessário chamar a atenção para a necessidade de os homens assumirem, de forma responsável, a sua função paterna, tão importante, obviamente, no desenvolvimento harmonioso da criança como é a função materna. É pena que o novo cardeal, empossado das suas novas funções, não tenha aproveitado a ocasião para fazer esta tão cristã chamada de atenção. Optou antes, pela sua linguagem, por perpetuar a nociva cultura de assimetria entre mulheres e homens.
* Membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, in Público, 25 de Março de 2012.

2 comentários:

Phạm Minh Tâm disse...

( Thank blog for you great - http://www.vatinam.net )

José Luís Rodrigues disse...

Many thanks and all the best for you.