Convite a quem nos visita

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os Desastres Económicos em que se Caiu

Os sonhos do “25 de Abril”: liberdade, democracia e progresso, empurraram Portugal para a União Europeia, a moeda única e o consumismo. E todos fomo-nos instalando numa vivência social cor-de-rosa, com hipers e supermercados por todo o lado, construções habitacionais que dão quase duas casas para cada família, um parque automóvel com mais de um carro para cada adulto, roupas a preço de feira, mobilidade de circulação e de conversação constantes, tudo num facilitismo impressionante de função. E o dinheiro circulava por todas as mãos.
O grupo humano mais cliente e dinâmico foi a juventude, gente nascida na década dos cinquenta e depois, fora da dureza da ditadura e sem experiência da rudeza do atraso e das carências do Estado Novo. Instalaram-se nas asas do facilitismo, convictos de que a vida era isso mesmo.
Agora aconteceu o desastre. O facilitismo aterrou paralítico. E todos estamos estatelados num tempo de desgraça, cinzento e sombrio.
Por que razão isto aconteceu? Simplesmente por falta de respeito pelos alicerces das comunidades humanas. Fomos e estamos sendo conduzidos por políticos fracos e oportunistas e por grupos financeiros, ciosos de lucros gordos e múltiplos. Estes arrasaram o trabalho e as empresas, obrigando-as a saltitar de uma nação para outra, numa habilidade para a sucção do seu âmago. O resultado foi: muitas e muitas empresas nas prateleiras da falência, os trabalhadores no desemprego e na miséria, mas eles muito mais gordinhos.
Estamos perante um ataque à vida. Vivemos numa sociedade esfaqueada.
O dinheiro é o sangue social das comunidades. O trabalho gera riqueza e a riqueza dá-lhes vida e mobilidade. Mas o dinheiro foi aprisionado, caiu nas mãos de usurários e agora quase só funciona como objecto de aluguer. Por assalto o dinheiro deixou de ser um bem social e passou a senhorio opressor. A que título? Descubram a justiça e a dignidade deste processo.
Concretizando a crise que nos sufoca: O dinheiro, o suor de tantas gerações sequentes desde há milénios, património vivo de todos, tornou-se propriedade privada. Ainda não todo. Os governantes reconhecem os roubos e desvios feitos como protegidos por um estatuto invisível e intocável e reconhecem também este grupo possuidor como parceiro no poder. O parque laboral das comunidades, desmantelado e falido, precisa de retoma. A funcionar dará mais uma nova remessa de lucros. Há que conseguir capital para cobrir as dívidas existentes e para recuperá-lo. Como proceder? Indo às vítimas e impor-lhes impostos pesadíssimos e redução dos seus direitos sociais.
As pessoas do povo sempre foram quem suportou as guerras, pagou as dívidas e cobriu as crises. Pelos vistos, segundo os governantes e seus apoiantes, terão que continuar como património de recurso.
E o povo aceita? De facto tem-se manifestado muito contra. Os movimentos de indignação multiplicam-se e as greves são anunciadas. Mas o povo tem algo contra si próprio. Anda vestido com o uniforme da democracia dos grandes. Por outras palavras: as pessoas têm sido educadas para dadores de votos. As eleições têm funcionado como as palmas nas celebrações e festas, em que só algumas são conscientes e verdadeiras.
Os que são eleitos, seguros pelos votos que receberam, podem funcionar como lhes convém. O povo não lhes pede contas, arca simplesmente com as consequências. Já muitas pessoas não votam, mais de 40%. Contudo o não votar não é protesto, nem iliba a pessoa dos desastres na cidadania.
Algo está a faltar.
Votar não é dar licença para ser explorado. As pessoas, todas as pessoas têm o direito de ver projetada a sua dignidade de cidadania nos resultados da governação.
Os pobres não podem viver restritos à sua vida pessoal e familiar e, nas horas muito duras, saírem à rua de mão estendida. Os pobres não são destituídos nem das faculdades mentais nem das capacidades de trabalho. O exercício das suas faculdades e capacidades fazem parte da vivência e do desenvolvimento comunitário. A desvalorização do valor trabalho e o desemprego significam pura e simplesmente exclusão social.
O povo terá que saber sair de vítima da desgraça política. A democracia participativa terá que funcionar, para que se vão destruindo os bezerrinhos de ouro, os privilégios e a exclusão social.
Mas exige de cada um muita participação activa e responsabilidade. Nada disto é frango assado que caia do céu.
Mário Tavares
Nota do autor do blogue: Publico com a devida vénia este texto do Padre Mário Tavares, porque merece ser lido. É um contributo importante para a reflexão e tudo o que se possa fazer pelo debate de ideias nestas circunstâncias em que estamos a viver será um grande bem que fazemos a todos nós. Pena que este texto tenha sido enviado para as Cartas do Leitor, mas não mereceu qualquer importância. Ou passou simplesmente despercebido ou não se encaixou nos critérios seguidos por quem tem a responsabilidade de selecionar as cartas do leitor a serem publicadas. Mas este texto ao pé das babuseiradas que muitas vezes ali aparecem não sei o que diga... É assim o mundo e a vida, digo-o com muita pena!

sábado, 29 de outubro de 2011

As pessoas sensíveis

Nota: Um texto que nos lembra das injustiças do mundo que nos rodeia. Uns, que açambarcam tudo sem nunca se fartarem, outros, que padecem de mão estendida a pedir compaixão para a sua miséria. Ambos pobres da vida que foi criada como maravilha, mas que tomada de assalto pela ganância e pela insensibilidade, votou a humanidade à irremediável desgraça da infelicidade. Escutemos Sophia de Mello Breyner Andresen, na sua inquietude e que tal pensar um pouco que é importante nos desinstalarmos do comodismo e da indiferença absurda perante tudo o que alguns (poucos, mas poderosos) teimam em impor como fardos pesados aos outros a preço muito alto... Eis a voz de uma grande mulher:
..
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
..
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
..
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."
..
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Pensamentos de Marco Aurélio

Os homens existem uns para os outros; logo, ou os ajudas a melhorar ou os suportas.
Penetra na razão de cada um e deixa também que cada um penetre na tua razão.
O melhor modo de nos vingarmos é não nos assemelharmos a quem nos faz mal.
O que não é bom para o enxame não é bom para a abelha.
Hoje saí de todas as dificuldades; ou melhor, expulsei todas as dificuldades, pois elas não estavam no exterior, mas no interior, nas minhas opiniões.
Apagar o que vem da imaginação; reprimir os impulsos; eliminar os apetites; ater-se por si mesmo à razão.
Quem ama a fama faz a sua felicidade depender dos outros; quem ama o prazer faz a sua felicidade depender das suas próprias sensações; quem é inteligente faz a sua felicidade depender dos seus próprios actos.
Que as coisas futuras não te preocupem. Chegarás a elas, se tiver de ser assim, levando a mesma razão que agora usas para as coisas presentes.
Não te juntes aos outros nas lamentações nem nas emoções violentas.
Explora-te por dentro. É dentro que está a fonte do bem e ela pode jorrar sempre, se a explorares sempre.
Homem nenhum te impedirá de viver segundo a razão de tua natureza; nada te acontecerá contra a razão da natureza universal.
Procuro a verdade, pela qual nenhum homem jamais foi ferido.
Mantém-te simples, bom, puro, sério, livre de afectação, amigo da justiça, temente aos deuses, gentil, apaixonado, vigoroso em todas as tuas atitudes.
Luta para viver como a filosofia gostaria que vivesses.
Reverencia os deuses e ajuda os homens.
A vida é curta.
(Marco Aurélio, Meditações)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Os fariseus de todos os tempos

Comentário à Missa do próximo domingo
Domingo XXXI Tempo Comum
30 de Outubro de 2011
Os textos da missa do domingo 31º do Tempo Comum, fazem uma interpelação séria a todas as autoridades sobre a coerência dos valores e princípios do Reino. Na primeira leitura um “mensageiro de Jahwéh” desafia os sacerdotes de Israel. Eles deixaram de seguir a Lei de Deus e não conduzem o povo para Deus. Os interesses pessoais estão sempre em primeiro lugar, os seus deveres foram esquecidos, a Lei nada tem a ver com o querer de Deus, foi adaptada ao seu egoísmo e à perversão que intentam realizar contra o povo. Eles são os principais responsáveis do afastamento do povo em relação a Deus. Neste contexto, o anúncio de Deus é bem claro, não pode tolerar tal comportamento e vai tirar-lhes a máscara e o poder, que virou instrumento maquinal contra o povo.
O testemunho do Apóstolo Paulo é deveras desconcertante e está num contraste claro em relação ao primeiro texto. O esforço missionário, gerou uma comunidade cristã em Tessalónica viva na esperança e fervorosa na fé em Jesus Cristo. O anúncio do Evangelho feito com amor, humildade, simplicidade, gratuidade… Gerou uma comunidade exemplar na prática quotidiana do Reino de Deus.
O Evangelho fala-nos do grupo dos fariseus. Faz-lhes uma crítica severa quanto à pretensão de quererem ser donos da verdade, as suas incoerências, o seu aparecer espampanante, a sua frieza ao amor e à misericórdia. Tudo isto serve para que as comunidades cristãs e humanas não se tornem insensíveis à prática da fraternidade, não se deixarem levar por atitudes semelhantes às dos fariseus.
A dureza do Evangelho contra este grupo reveste-se de uma importância muito grande para os nossos dias. Estamos em tempo de crise, o seu combate torna-se cada vez mais premente, a necessidade de sacrifícios parece inevitável. Mas, o que é que se vê? – Medidas que cortam a torto e a direito, totalmente, insensíveis em relação às circunstâncias de cada pessoa e família. A realidade dura do quotidiano parece nada dizer a quem aplica as medidas, quais fardos pesados para os mais fracos carregarem, mas «eles» tudo fazem para fugir ao rigor dos sacrifícios e salvaguardam antes os seus interesses pessoais.
A actual classe dominante, quer religiosa quer política, pouco se importa com os mais fracos e os pequenos da sociedade. As Igrejas nada fazem para criarem comunidades de irmãos. É pena que nela às vezes sejam tão determinantes os títulos, os lugares de honra, os privilégios, a importância hierárquica… Na comunidade cristã, a única coisa que devia ser determinante é o serviço simples e humilde que se presta aos outros. É isto que temos visto? – Não, não é isto que vemos. Têm sempre muito valor, na Igreja, os títulos, as posições hierárquicas, a visibilidade, os cargos, os privilégios, os lugares de honra. Facto que contribuir imenso para criar divisões que mancham a fraternidade e que negam os princípios sobre os quais se constrói o Reino. Este modo de vida das nossas comunidades cristãs fica assim marcada por lutas pelo poder, conflitos, ciúmes… A fraternidade e o amor, são enviados às calendas e apenas preenchem os belos discurso que se vai fazendo dentro de portas das igrejas sem que fora das suas portas se permita transparecer uma réstia de prática que dê autoridade a tais discursos.
Mateus faz esta incursão contra os fariseus para que toda a autoridade, política ou religiosa, esteja centrada no serviço ao bem comum. Mais ainda diz que, quando alguém se arroga ao direito divino de se instalar na cadeira do poder e se assume como único e decisivo dono da verdade, pode cair na tentação de se substituir ao Evangelho pelas normas pessoais, pelas leis, esquemas, visão de Deus e do mundo. Perigoso este caminho, que se converte em ninho de fundamentalismo terríveis contra o bem dos outros.
O problema da imagem nas comunidades é sempre um drama muito grande e facilmente se inventam esquemas para vender uma imagem construída no interesse pessoal, para que os aplausos e a admiração dos outros se faça sentir. As aparências são muitas vezes o pão-nosso de cada dia de muitas pessoas ligadas aos poderes nas comunidades. Este farisaísmo atravessa toda a vida humana. Jesus pretende ensinar que a mentira como regra de vida e a cultura da imagem sem consistência real, rouba a paz do coração, a alegria e a serenidade, põe em causa o testemunho do Reino, mina as pessoas em geral e põe em causa a fidelidade ao Evangelho.
As exigências e obrigações que muitas vezes andamos para aí a impor aos outros, são meios que criam escravidão, oprimem as consciências das pessoas até ao dia em que descobrem a pouca seriedade e incoerências que daí advêm. Por isso, chega de medidas absurdas, anacrónicas em todos os domínios, especialmente nas igrejas, que metem medo, que impedem os filhos de Deus de serem livres e felizes. Face a esta investida de Mateus, urge uma Igreja que viva a radicalidade do Evangelho e que deixe de viver das aparências, que suje as mãos com o trabalho do Reino em favor de todas as pessoas, particularmente, os mais fracos, os sem vez e sem voz na sociedade.
JLR

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A Justiça Brasileira!!! Será só esta justiça?

Nota: texto que se aplica a toda a justiça deste mundo. Então, da nossa nem se fala...
Eis o porquê da expressão: «deixar o cachorro passar e implicar com a pulga»
Isto foi exibido em todos os telejornais noturnos na quinta feira.
Paulo, 28 anos, casado com Sônia, grávida de 04 meses, desempregado há dois meses, sem ter o que comer em casa foi ao rio Piratuaba-SP a 5km de sua casa pescar para ter uma 'misturinha' com o arroz e feijão, pegou 900gr de lambari, e sem saber que era proibido a pesca, foi detido por dois dias, levou umas porradas. Um amigo pagou a fiança de R$ 280,00 para liberá-lo e terá que pagar ainda uma multa ao IBAMA de R$ 724,00. A sua mulher Sônia grávida de 04 meses, sem saber o que aconteceu com o marido que supostamente sumiu, ficou nervosa e passou mal, foi para o hospital e teve aborto espontâneo. Ao sair da detenção, Ailton recebe a noticia de que sua esposa estava no hospital e perdeu seu filho, pelos míseros peixes que ficaram apodrecendo no lixo da delegacia.
Quem poderá devolver o filho de Sónia e Paulo?
Henri Philippe Reichstul, de origem estrangeira, Presidente da PETROBRAS.
Responsável pelo derramamento de 1 milhão e 300 mil litros de óleo na Baía da Guanabara. Matando milhares de peixes e pássaros marinhos. Responsável, também, pelo derramamento de cerca de 4 milhões de litros de óleo no Rio Iguaçu, destruindo a flora e fauna e comprometendo o abastecimento de água em várias cidades da região. Crime contra a natureza, inafiançável.
Encontra-se em liberdade. Pode ser visto jantando nos melhores restaurantes do Rio e de Brasília.
Esta é uma campanha em favor da VERGONHA NA CARA.
Eu já divulguei, e você? Faça a sua parte, não demora nada.
Nada mesmo.
Recebido por mail...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cultura, arte e cinema podem ajudar Igreja a transmitir evangelho

Nota: Um sinal de esperança. Esperemos que não lhe cortem as pernas e o pensamento. Que a mitra não lhe apague o bom senso...
D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda:
O novo bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, considera que a cultura, a arte e o cinema podem dar à Igreja «elementos para uma maior inculturação do evangelho», além de a ajudar a perceber que «outras leituras e perspetivas» podem chegar «à mesma verdade».
Em entrevista publicada esta segunda-feira no jornal “Público”, o mais recente membro do episcopado português falou da «estima especial» que tem por Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner e Miguel Torga, bem como pelo não crente italiano Erri De Luca e por Etty Hillesum, judia holandesa que morreu no campo de concentração de Auschwitz.
«Estes saem naturalmente, são fruto da leitura. Sempre aprendi que a nossa fonte é a leitura. Ler e aprender, venha de onde vier a verdade, porque as sementes do verbo estão para além da Igreja. Deus não é prisioneiro da Igreja nem dos sacramentos», refere D. José Cordeiro, que com 44 anos é o mais novo dos bispos de Portugal também em idade.
Miguel Torga escreveu «Andei toda a vida a negar Deus mas nunca o pude esquecer», frase que o bispo comenta assim: «Trata-se de ver quais são as sementes do evangelho que estão nos nossos autores, que são buscadores da verdade».
Em Roma, onde dirigiu o Colégio Pontifício Português, D. José Cordeiro ia ao cinema e tornou-se apreciador da cinematografia italiana: «Fui ver ‘Habemus Papam’, filme sobre a eleição papal realizado por Nanni Moretti, que preza.
«Gostei, ri-me. Ridicularizava a parte do conclave em si mas traz muitas interrogações», assinala, sublinhando que aprecia o «cinema de mais reflexão»: «Pasolini, Felini, são autores que provocam. Alguns pegaram mesmo em temáticas bíblicas e teológicas».
Na música elege os compositores Bach e Palestrina e os contemporâneos Marco Frisina e Arvo Pärt, e em relação a intérpretes portugueses fala de Kátia Guerreiro, Mafalda Arnauth e Teresa Salgueiro.
Rui Jorge Martins

Nascer de novo

Nascer: fincou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.
..
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?
..
Eis que um segundo nascimento,
não advinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.
..
A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou Eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduza ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
..
Carlos Drummond de Andrade
Nota: Poema belíssimo, onde se vislumbra o mesmo desafio do Evangelho de São João. Jesus anunciou a Nicodemos, um respeitado líder e mestre judeu: "Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3,1-21). São muitas as vezes na vida que precisamos mesmo de assumir este desafio. Nascer de novo dos escombros do egoísmo, este veneno terrível que inferioriza a humanidade. Nascer de novo da ganância que rouba o pão-nosso de cada dia de tanta gente, votada a morrer de fome e de sede, porque lhes roubaram o necessário para a vida. Nascer de novo da tragédia da injustiça que torna este mundo tão desigual, luxuoso em demasia para alguns e lixeira para uma grande parte. Nascer de novo da irresponsabilidade perante os outros e perante os bens destinados à salvação de todos. Nascer de novo das desigualdades dentro das comunidades, onde alguns são idolatrados e o resto é ralé que deve andar calada e submissa às regras e manias de meia dúzia. Nascer de novo do fariseísmo que degrada as nossas sociedades. Afinal, cada um nascer de novo de tudo o que sinta e saiba que faz mal para si e para os outros.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Que ideia fazes de Deus?

Alguns pensam que ter fé é acreditar em coisas que não se entendem. Então, a fé seria uma espécie de castração mental, um decapitar-se, intelectualmente. A Fé é confiar numa Pessoa. Mas tentar "dizer" Deus ou "provar" a nossa fé seria um esforço inútil; pois, o Deus que "se diz" não é, certamente, DEUS. Só Ele Se pode dizer. Podemos ter sentimentos religiosos ou desfilar dentro de nós todos os deuses do Panteão, adornar de "estatuetas" todo o nosso interior. Apenas serão altares erguidos às projecções de nós mesmos. A nossa fé é um Dom de Deus que nos permite acolhê-LO, em Jesus Cristo. Um Deus vivo, pessoal, que nos ama, nos apela e interpela. Que ideia fazes de Deus, perguntaram ao nosso poeta António Correia de Oliveira. E ele respondeu, em verso, a impossibilidade de dizer o que a sua alma continha.
...
E perguntais-me que ideia faço
De Deus na Criação? Sei lá que ideia!
(Invocai-O… que sombra se incendeia
em vosso olhar de dúvida e de cansaço!)
Talvez ao Seu poder, no infinito espaço,
O mundo seja um pó que revolteia;
Talvez esteja neste grão de areia
Que em meu caminho piso e despedaço
Que ideia de Deus? Sei lá… nenhuma!
Perguntai vós ao hálito da espuma
O que entende do mar: se O sente e O vê…
Amo-O, pressinto-O, e mais não sei. Quem ama
Responde, não pergunta. É como a chama:
Sobe, alumia, sem saber porquê!

domingo, 23 de outubro de 2011

Por Onde ir??..

Nota: Poema da jovem poeta Ana Ferreira... Com um muito obrigado.
Aqui estou eu,
Sentada nas escadas frias e turbulentas da vida
Pensando e sentido
Cada sentimento presente em meu coração
Fechando meus olhos,
A luz da paz me completa
Uma brisa de vento misterioso
Passando entre meus cabelos
Cada suspiro, Cada expressão no meu rosto,
Cada olhar descreve o meu estado de espírito
Num ambiente sereno e vazio me entrego
Entrego-me aos meus pensamentos
Vividos, e futuros,
Entrego-me às frases inacabadas
E às palavras escondidas em mim
Sei que um horizonte me chama
E uma porta me espera
Só não sei qual o caminho
Só não sei qual a direcção e muito menos o sentido
Onde está minha alegria?
Onde está as duas palavras que necessito:
Força, Coragem.
Será que estão dentro de mim?

sábado, 22 de outubro de 2011

Solidariedade precisa-se

Esta manhã participei num Seminário sobre sustentabilidade das instituições de solidariedade social, no auditório da Escola da Apel. Permitiu ouvir duas palestras muito interessantes. Uma do Porf. Dr. Américo Mendes (Docente da UCP do Porto) e outra do antigo Ministro da Segurança Social Dr. Silva Peneda. Destaco alguns aspectos que considero fundamentais de cada um dos conferêncistas.
Primeiro, «A crise financeira que atravessamos resulta da falta de solidariedade, que se concretiza e bem na fuga aos impostos. Se todos os pagassem a tempo e horas e se fossem cobrados com justiça não tinha o estado chegado onde chegou, numa crise grave que não sabemos ainda o que vai gerar nem ninguém é capaz de prever as consequências».
Do segundo conferencista destaco: «Ninguém pode garantir que as medidas da troika, vão ter os resultados pretendidos; os problemas que se vão colocar são de tal magnitude que devemos estar sempre em estado de alerta e em campanha; o sector solidário reveste-se de uma importância muito grande neste tempo de emergência, compete a ele alimentar a esperança no futuro». Face a estas reflexões, pede-se à sociedade em geral, criatividade e união de forças para que todos juntos sejamos capazes de vencer esta batalha da solidariedade, a fim de que a ninguém falte as condições elementares para a sua sobrevivência.
JLR

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

QUE DEUS?

Nota: Belo texto para meditar...
..
Quem quer que sejas, onde quer que estejas
Diz-me se é este o mundo que desejas
Homens rezam, acreditam, morrem por ti
Dizem que estás em todo o lado mas não sei se já te vi
Vejo tanta dor no mundo pergunto-me se existes
Onde está a tua alegria neste mundo de homens tristes
Se ensinas o bem porque é que somos maus por natureza?
Se tudo podes porque é que não vejo comida à minha mesa?
Perdoa-me as dúvidas, tenho que perguntar
Se sou teu filho e tu amas porque é que me fazes chorar?
Ninguém tem a verdade o que sabemos são palpites
Se sangue é derramado em teu nome é porque o permites?
Se me destes olhos porque é que não vejo nada?
Se sou feito à tua imagem porque é que durmo na calçada?
Será que pedir a paz entre os homens é pedir demais?
Porque é que sou discriminado se somos todos iguais?
..
Porquê que os Homens se comportam como irracionais?
Porquê que guerras, doenças matam cada vez mais?
Porquê que a Paz não passa de ilusão?
Como pode o Homem amar com armas na mão? Porquê?
Peço perdão pelas perguntas que tem que ser feitas
E se eu escolher o meu caminho, será que me aceitas?
Quem és tu? Onde estás? O que fazes?
Não sei Eu acredito é na Paz e no Amor…
..
Por favor não deixes o mal entrar no meu coração
Dou por mim a chamar o teu nome em horas de aflição
Mas tens tantos nomes, és Rei de tantos tronos
E se o Homem nasce livre porque é que é alguns são donos?
Quem inventou o ódio, quem foi que inventou a guerra?
Às vezes acho que o inferno é um lugar aqui na Terra
Não deixes crianças sofrer pelos adultos
Os pecados são os mesmos o que muda são os cultos
Dizem que ensinaste o Homem a fazer o bem
Mas no livro que escreveste cada um só leu o que lhe convém
Passo noites em branco quase sem dormir a pensar
Tantas perguntas, tanta coisa por explicar
Interrogo-me, penso no destino que me deste
E tudo que acontece é porque tu assim quiseste
Porque é que me pões de luto e me levas quem eu amo?
Será que essa é a justiça pela qual eu tanto reclamo?
Será que só percebemos quando chegar a nossa altura?
Se calhar desse lado está a felicidade mais pura
Mas se nada fiz, nada tenho a temer
A morte não me assusta o que assusta é a forma de morrer
..
Quanto mais tento aprender, mais sei que nada sei
Quanto mais chamo o teu nome menos entendo o que te chamei
Por mais respostas que tenha a dúvida é maior
Quero aprender com os meus defeitos, acordar um homem melhor
Respeito o meu próximo para que ele me respeite a mim
Penso na origem de tudo e penso como será o fim
A morte é o fim ou é um novo amanhecer?
Se é começar outra vez então já posso morrer.
in "Ritmo, Amor e Palavras"

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Comentário à Missa do próximo domingo

Domingo XXX Tempo Comum
23 de Outubro de 2011
Deus na boca e o diabo no coração
O Apóstolo São Paulo dá conta à comunidade de Tessalónica da grande alegria que sente, pelo facto de a comunidade se ter tornado exemplar, pois abdicou dos ídolos e converteu-se, sob a acção do Espírito Santo, a Deus.
Esta mensagem encontra um eco muito grande no mundo de hoje, são muitos os ídolos que se fabricam por todo o lado. Por isso, este regozijo de São Paulo em relação à comunidade dos Tessalonicenses, para nós converte-se em apelo. O mundo de hoje precisa de descobrir que os ídolos que se fabricam por todo o lado, são efémeros, não salvam e muito menos conduzem à felicidade verdadeira e douradora. Só o amor nos liberta da opressão.
As frequentes modas que a lógica mercantilista que o nosso tempo fabrica, facilmente manipulam as pessoas, especialmente, as camadas juvenis. Não trazem felicidade nenhuma e convertem-se em manias flácidas e tão efémeras que na próxima moda já fazem parte de um passado longínquo.
Não censuramos o facto de algumas coisas serem importantes num determinado momento, por exemplo, a música, o desporto, os modos de vestir e outras expressões que não deixam de ser culturais e importantes para fazer a história de uma época. Mas, quando as coisas se convertem em idolatria, em seguimentos cegos e em manipulações inconscientes, estamos então perante realidades que não libertam, mas antes alienam como se fossem ópio ou droga que conduz à destruição da dignidade da pessoa humana.
A correria que se faz atrás de determinados jogadores, músicos e todas as figuras da moda, ostentando posters e imitando o que eles fazem, o que são e o modo como se apresentam, parece uma adoração distorcida e um gosto duvidoso. Esta forma de viver pode trazer alguma felicidade, mas não verdadeira nem muito menos perene.
A felicidade autêntica descobre-se no modo como cada um e cada qual é. O seu modo de ser, pensar e agir são únicos e cada pessoa deve procurar essa idiossincrasia que está em si mesmo e nunca fora de si. Deus criou cada pessoa única e insubstituível no modo de ser e de agir. Por isso, com esta palavra de São Paulo, nós aprendemos a procurar sermos nós próprios com a ajuda de Deus e nisso consiste já à partida o início do caminho da felicidade.
Nesta procura poderá ajudar-nos imenso a mensagem do Evangelho que nos diz, de forma clara, que toda a acção de Deus radica no amor – o amor a Deus e aos outros, os nossos próximos, como alude a mensagem cristã. O mandamento do amor não pode separar-se, «amar a Deus» é cumprir a sua vontade e estabelecer com os irmãos relações de amor, de solidariedade, de partilha, de serviço, até ao dom total da vida. Tudo o resto é conversa que não constrói o mundo ou antes o destrói porque teima em se levantar com pressuposto errados: o egoísmo, a ganância, o roubo e todo género de malvadez que preenche o coração e a mente da humanidade.
No fundo, pretende Jesus fazer-nos ver que não basta caminhar com Deus na boca desfilando rezas e mais rezas se o diabo está no coração. Porque não basta a religiosidade bem cumprida. Qualquer atitude a este nível implica sempre uma prática consequente que justifique acção religiosa. Só assim será útil escutar e comungar de um projecto que salva cada pessoa e, esse que se salvou, tudo faz para que os outros também participem da mesma salvação.
JLR

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Quando alguém lhe disser:

"Vá pra Puta que o Pariu!"
não vai ter mais problema, pois o lugar existe... e dá até para ir de "ônibus!"
Apanha o 307!
Fica na cidade de Bela Vista de Minas, em Minas Gerais.Bela Vista, uma pequena cidade cercada de mato no interior de Minas Gerais, (no Brasil é claro).Uma grande surpresa, um dos bairros tem o nome de Puta que Pariu!
O município de Bela Vista de Minas foi criado pela Lei nº 2764, de 30 de Dezembro de 1962, desmembrando do município de Nova Era, declarando naquele momento, às margens do Córrego do Onça a Independência de Bela Vista de Minas.A cidade é divida em 7 bairros: Bela Vista de Cima, Lages, Serrinha, Córrego Fundo, Favela, Boca das Cobras e... Puta que Pariu.
Podem pesquisar!É só digitar "Puta que pariu" no Google e confirmar, só no Brasil mesmo.
Imaginem o padre da paróquia dizer que vai celebrar uma missa na Puta que Pariu! Ou o Jornal nacional informar que o debate entre os candidatos ao governo de Minas será realizado na Puta que pariu.
Agora você já sabe...
Quando quiser mandar alguém para aquele lugar, é só dizer:
Apanha o 307!
Recebido por mail... Muito engraçado.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

50 anos do Concílio Vaticano II

No dia 11 do mês de Outubro do próximo ano passarão 50 anos da abertura solene do Concílio Vaticano II (1962-1965). Um acontecimento que não devia ser esquecido. O Concílio Vaticano II representa, segundo o meu (pobre) ponto de vista, um dos acontecimentos mais importante e mais determinante para o mundo no século transacto e, especialmente, para os cristãos católicos. Por isso merecia que durante um tempo razoável se realizassem uma série de actividades para fazer memória reflexia de tudo o que implicou e ainda implica esta reunião solene.
Sem qualquer pretensão, antecipo brevemente algumas das expectativas que tal momento suscitou dentro e fora da Igreja. Os diversos textos emanados do Concílio apresentam um vasto conteúdo de ideais, sonhos e vontades em relação à vida da Igreja.
Muito se transformou dentro da Igreja após esta lufada de ar fresco, mas muito falta concretizar na vida da Igreja no que diz respeito ao «aggiornamento», proclamado pelo saudoso Papa João XXIII.
Com base nestes aspectos e noutros ainda, ensaiaremos alguma reflexão convosco e para vós. Mais desejo que esta curta caminhada nos conduza ao centro do pulsar do Espírito Santo, que sempre nos convoca para a conversão e para a busca da constante mudança que deve estar sempre presente no coração da Igreja.
Antes de mais vamos procurar definir o que significa a palavra Concílio. Segundo o Grande Dicionário Enciclopédico da editorial Verbo, o Concílio é uma série de reuniões regulares de bispos e outros dignatários eclesiásticos para, de modo solene, deliberar, decidir e legislar sobre problemas de interesse para a Igreja. Os concílios podem ser particulares (reúnem só uma parte da Igreja) a nível de nação ou província eclesiástica – se é a nível de diocese não se chama concílio mas Sínodo – ou universais, também chamados «ecuménicos»: só estes têm poder sobre toda a Igreja. Não pode haver concílio ecuménico que não seja aprovado ou pelo menos aceite como tal pelo Papa. A palavra Concílio significa, afinal, reunião; conselho; assembleia...
JLR

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

NO DIA MUNDIAL DA ERRADICAÇÃO DA POBREZA...

PERMITE-ME, SENHOR…
..
Permite-me, Senhor,
uma intenção especial para o meu povo,
o mundo dos sem voz.
Há milhares e milhares de criaturas humanas
sem direito a erguerem a voz,
sem possibilidade de reclamarem, de protestarem:
os sem casa, os sem alimento, os nus…
..
Se nós, que cremos em Ti,
tivéssemos ajudado os nossos irmãos ricos,
os privilegiados, abrindo-lhes os olhos,
despertando a sua consciência,
os injustos não teriam avançado,
a distância entre ricos e pobres não seria tão gritante,
não só entre indivíduos
mas também entre continentes.
..
Faz, ó Senhor, aquilo que não soubemos fazer
e aquilo que não sabemos fazer.
Como é difícil superar o obstáculo
das ajudas, dos dons, da assistência,
e atingir o domínio da justiça!
Os privilegiados irritam-se,
julgando-se incompreendidos;
vêem a revolta e comunismo
nos gestos mais democráticos,
mais humanos, mais cristãos.
..
O erro, pelo menos em parte, é nosso.
Se as Igrejas conseguissem dar
um testemunho da vontade
de se libertarem da engrenagem do dinheiro!
..
Pai, envia o teu Espírito
porque só Ele pode renovar a face da terra!
Só Ele pode cancelar os egoísmos,
condição indispensável
para que sejam superadas as estruturas injustas
que mantêm milhões de seres na escravidão.
Só Ele poderá ajudar-nos
a construir um mundo mais humano e mais cristão.
D. Helder Câmara
A Voz do Mundo dos Sem Voz
in "Lucas.. e paz na terra!" de Lopes Morgado
..
Nota: Dia mundial da erradicação da pobreza, 17 de Outubro. Por isso, partilho este magnífico texto da grande voz dos sem voz e grande lutador contra a pobreza, D. Hélder da Câmara. A pobreza, é a pior das indignidades humanas. Os tempos que vivemos não auguram sinais de que estejamos no fim desta armada, até mesmo podemos ver que as políticas seguidas conduzem não ao fim deste mal, mas agravam ainda mais a situação de quem é pobre e que irão conduzir outros mais a esta terrível condição. Todos os alertas são benvindos para que a luta contra a pobreza ganhe cada vez mais adeptos.

sábado, 15 de outubro de 2011

A noite do mundo

..
Na noite do mundo os olhos disseram
Um segredo partilhado no arrefecimento.
..
A baía engalanou-se para o momento
Do encontro do amor que a brisa oferece.
..
As luzes salpicadas nas casas denunciam
As janelas abertas ao nosso mundo futuro.
..
Nada nos escapa nessa hora da festa
Porque as mãos dizem as melhores palavras.
..
Nesse altar descansam os copos de um sinal
Que abraça a noite para que se desvele uma ternura.
..
Outras vozes se achegam à liturgia do diálogo
Ai! Como todos riem na presença do afecto.
..
Nesta paisagem de cá e de lá vimos um som
Que as mãos e os pés fizeram ecoar no silêncio.
..
No fim restou uma vontade e tanto no rasgo da luz
De que as casas dissessem do calor de um abraço.
..
A noite do mundo verteu uma paz e um sono
Que a vida reclama ciclicamente a toda a hora.
JLR
Nota: Breves palavras para dizer um pensamento, um afecto, uma amizade por todos os que se abeiram deste Banquete. Boas leituras e um bom fim de semana para todos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

- Cortar na despesa do Estado. Já fostes!

Um país inteiro de dieta. Extraordinário. As medidas austeras sobre o consumo, especialmente, sobre os géneros alimentares, provam que estamos perante uma imposição de dieta forçada sobre toda a população de Portugal. Vamos ser o país mais esbelto e fino do mundo.
Umas perguntas: que futuro terá um país e um povo que é enganado e que se deixa enganar em todas as campanhas eleitorais? Não eram estes partidos que governam o país neste momento que diziam que não havia crise internacional, que a haver sacrifícios deviam ser única e exclusivamente sobre a despesa do Estado? Não foi nessa base que estes algozes crucificaram o anterior governo? Não foram estes actuais governantes que prometeram não sobrecarregar mais os portugueses e que aplicariam medidas austeras sobre a despesa terrível do Estado? (…) A estas perguntas podemos juntar outras tantas.
Este ultraliberalismo vai ano a ano enterrar a massa trabalhadora deste país e por arrasto as nossas famílias. A receita que o Estado pretende arrecadar não vem grosso modo do lado da despesa, mas quase em exclusivo do lado dos impostos sobre os salários e os bens essenciais.
Estas medidas que nos impõem como necessárias fazem de quem trabalha uma simples «coisa». É disso que se trata, as pessoas tornam-se coisas, números ou máquinas. A cena do filme de «Tempos Modernos» - Modern Times, de 1936 - de Charles Chaplim (um trabalhador de uma fábrica, tem um colapso nervoso por trabalhar de forma quase escrava e mecanizada…), neste contexto, esta cena ganha uma actualidade impressionante e toca-nos profundamente no nosso hoje e no nosso amanhã. O povo trabalhador mecanizou-se, é um aglomerado de pessoas, uma máquina produção que renda ou não, terá que contribuir excessivamente para encher os cofres do Estado ou tirar do seu sustento para cobrir os gastos irresponsáveis de gente insensível e desmesurada no exercício da coisa pública. É disto que se trata e isto merece toda a nossa revolta e indignação. E como alguns têm afirma uma desobediência civil militante, empenhada, activa... Para pormos cobro a este descalabro social que nos leva ao inferno da tristeza e da infelicidade. Chega! Digamos todos.
O Frei Fernando Ventura tem afirmado insistentemente «o rei não pode comer faisão, quando o povo tem que comer broa de milho». Esta verdade-alerta, vem colocar o dedo na ferida. Daí que muitos têm sido os pronunciamentos que manifestam indignação como este que ilustra a ideia que os sacrifícios são só para alguns e não chegam a todos. Repare-se neste da facebookiana Raquel Estreito: «Pois, a maioria das medidas é para "o trabalho dependente". Onde estão as medidas para, por exemplo, diminuição de despesas "de representação" (telefones, viagens, refeições, viaturas e motoristas...) dos "altos" funcionários públicos»? – Eis o que se esperava também no domínio dos sacrifícios, para que fosse feita justiça às promessas apresentadas ao povo em campanha eleitoral.
Última palavra. Os ricos e as suas mais valias pouco ou nada sofrem. Uma injustiça. Uma afronta terrível para quem vive do seu parco rendimento mensal. Ora, assim de engano em engano, lá vamos nós gemendo e chorando até ao abismo da cada vez mais acentuada miséria e pobreza em que vão caindo as famílias portuguesas.
JLR

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Comentário à Missa do próximo Domingo

Domingo XXIX Tempo Comum
16 de Outubro de 2011
César e Deus
A tensão entre religioso e político, entre Deus e César, é uma constante de ontem como de hoje. O então primeiro-ministro da França Eduard Balladur, viu-se em apuros, para responder à interpelação sobre as implicações da encíclica Evangelium Vitae. Pior ainda para Balladur, foi conciliar a sua admiração por João Paulo II sem deixar de insistir no respeito pelo princípio de que “as leis da República se aplicam a todos e por todos devem ser respeitadas”. “A cada um a sua função” - respondeu o primeiro-ministro. “O papa tem razão em recordar os grandes princípios morais e o meu governo tem razão em elaborar as leis mais equitativas. Votámos uma boa lei sobre a bioética e temos o dever de proteger as pessoas da SIDA, promovendo o uso de preservativos. ‘Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
São estas reacções excessivas que sempre manifestaram o teor da tensão e a incompreensão geral sobre esta temática. A maior parte das vezes os pronunciamentos do Magistério da Igreja colidem com as perspectivas políticas manifestamente interessadas noutros domínios e caminhos puramente mundanos. Quanto à Igreja cabe-lhe manter-se fiel ao seu Mestre e ao seu ensinamento. De outra forma, o dinamismo redentor de Jesus Cristo perder-se-á irremediavelmente na poeira dos séculos.
Desafiado, um dia, a pronunciar-se sobre a legitimidade de pagar o tributo a César, Jesus pediu que lhe mostrassem um denário. Sabia claramente que tanto a moeda, cunhada com a efígie de (Tibério) César, como a inscrição, Tiberius Caesar divi Augusti filius Augustus, ofendiam a sensibilidade judaica de quem o interpelava. À humilhação de ter em circulação uma moeda duma potência estrangeira e de com ela ter de pagar imposto a um imperador gentio, havia a acrescentar a indignação religiosa provocada pelo epíteto de “divino” atribuído a outro que não ao Deus de Israel. Jesus parece jogar todos estes elementos à cara de quem lhe colocou a questão. Jesus pronuncia a frase que ficará célebre em todos os tempos com um rigor teológico exemplar: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
O desejo de poder e de domínio nada são perante a sublimidade de Deus. A escolha não tem meio-termo na frase de Jesus: ou César ou Deus. Por isso, os «casamentos» entre poderes produzem amigalhaças e subjugam a verdade a favores mútuos que cerceiam a liberdade e a dignidade. Estão fora de Deus o poder temporal que manda rezar face ao poder religioso que manda votar tendenciosamente. A afirmação de Jesus é clara e não deixa margem para dúvidas. Dar a César o que é de César, é devolver-lhe uma moeda com a sua efígie, para que o poder imperial possa manter a administração e os laços de comércio que a moeda representa. Mas, dar a Deus o que é de Deus, é recusar a César o poder absoluto que de si mesmo se atribui.
A moeda representa tudo o que de bom se pode construir, mas também representa tudo o que de mau se implementa nas relações sociais. Com a moeda constrói-se o bem, edifica-se tudo o que o homem precisa para se promover como tal, mas também com ela nasce o que não presta: os negócios comerciais com drogas e com toda a espécie de crime. Quanta morte indiscriminada e injusta por causa do dinheiro?; Quanta desordem nas famílias e nas comunidades por causa da moeda?; Quanta luta feroz nas empresas, na política e em todas as instituições sociais por causa do vil metal?; Etc. - (Continuem com a lista!).
A religião, é desafiada a centrar o seu pensar e actuar na fidelidade a Deus e a tudo o que representa a palavra: “Deus”. A Igreja, aprende a situar-se no seu lugar e é desafiada a assumir a sua única e ulterior razão de ser: Mãe e Mestra. Sem nunca se subjugar a nada e a ninguém. Deve procurar viver no desprendimento dos bens, como se isso fosse, o sustento único do seu amor pela humanidade toda.
JLR
Imagem Google

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Turbo-capitalismo

Em declarações aos jornalistas, no início da Peregrinação Internacional Aniversária de 12 e 13 de Outubro, no Santuário de Fátima, D. António Marto criticou o “turbo-capitalismo financeiro, que muda tudo do dia para a noite e não dá possibilidade ao Governo de actualizar medidas contra a crise”. Facto que, pode abrir também as portas a um clima de maior “solidariedade”, já que “estamos todos no mesmo barco, com medo de ir ao fundo”, recordou. Esperemos, então, que nenhuma instituição ligada à Igreja Católica não atrapalhe as iniciativas que venham a surgir no domínio da solidariedade com argumentos futéis e imbecis. Acho que é o mínimo que se pode esperar da Igreja Católica para que seja consequente com as reflexões e declarações que sempre faz neste aspecto da solidariedade, se ao contrário for, então estaremos perante uma "turbo-inconsequência" preocupante.

JLR

O padre que se tornou cientista e foi pioneiro

«Aceitou ser cientista a pedido do superior. Bateu a uma porta errada nos EUA, foi posto na rua. Tornou-se pioneiro da genética em Portugal. Morreu sábado.
A história do cientista Luís Archer começa com um despedimento de uma universidade, na véspera de completar 38 anos. Chegado aos EUA para frequentar o National Institutes of Health (NIH), onde tinha sido aceite, percebeu que, afinal, o instituto era um laboratório e não uma universidade.Archer, que já era padre jesuíta, morreu sábado, em Lisboa, com 85 anos. No livro Da Genética à Bioética, conta que o NIH leu o "Dr." que precedia o seu nome nas cartas de recomendação como se já fosse doutorado. "E não foi capaz de imaginar que, num país com mais de oito séculos de história, nunca tivesse havido tempo para extrair DNA e utilizá-lo em transformação ou transdução bacterianas." Por isso, ao fim de uma semana, foi convidado a sair e viu-se no meio da rua, sem saber o que fazer...
Publicou 250 trabalhos de investigação e uma dezena de livros. Em 2008, recebeu o Prémio Nacional de Bioética.Na homilia do funeral, domingo, o actual superior dos jesuítas, padre Alberto Brito, dizia do colega que tinha "alma de músico, de humanista e de artista". Não perdeu nunca o gosto pelo cultivo da música, da literatura, das artes. Era, dizia Brito, um homem de ciência que conseguia ser entendido por todos, um padre que levava "uma vida pobre" e que, como os grandes homens, "não fazia sombra"».
António Marujo
Nota: um curto registo para que conste na História do ser padre, que se pode conjugar com sabedoria, arte, ciência e tudo o que a expressão humana é capaz...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

E Sara riu-se

No riso estava o esplendor da festa quando brotou o canto
E o conto entrecruzado do silêncio que verte das pedras.
Os muros enformam o encanto das buganvílias sorridentes
Nas encruzilhadas que os antigos nomearam de caminhos.
Lá nessa certeza arterial fazem andantes os vivos
Na busca da verdade que a palavra revela e o riso que seduz
Até nós que tomamos a brisa do horizonte.
O cheiro do marulhar das ondas faz-te rir
Os carros e os barcos não sabem de nós
Que andamos no embalo do sol quente naquele dia
Quando as horas se esqueceram de serem vistas.
No final restou o sorriso mais o gargalhar de um mistério
Que nasce do chão até ao brilho maior que os olhos disseram
Sem receio da outra desconstrução que Sara ousou fazer
Na presença do dogma absurdo que os deuses criaram.
Neste passeio vejo-te e revejo-te na inquietude do momento
Que ambos fizemos em embalo doce na paz verde do tempo.
Não vimos o rir de Sara hoje na Palavra da Bíblia
Mas sentimos que tudo valeu sem pena e inaugurou
Para nós todos o desejo da verdade sincera em cada sinal
Mesmo que seja o forte riso em cada boca do mundo.
E Sara riu-se e nós também nos rimos quando
A sombra cobriu a visão que incandesceu no fundo da alma.
Nela e por Ela o dom em vida brotou numa tarde velha
Quando o impossível embala um filho nos braços duma mãe rugosa.
E no ponto paramos o olhar de ambos no prazer não do riso
Mas no leve sorriso da amizade.
Só isto bastou para saber do melhor do mundo e da vida.
Nota: Sara, mulher de Abraão, eram já velhos, e adiantados em idade. Assim, sabendo Sara que daria à luz um filho, pois, riu-se consigo «Terei ainda deleite depois de haver envelhecido, sendo também o meu senhor já velho?» (Cf. Gén. 18, 10-13) … Sara, uma das mulheres da desconstrução na Bíblia.
JLR
Imagem: Google

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Haverá choro e ranger de dentes?

Tomo do Evangelho uma das expressões mais desconcertantes e inquietantes que Jesus Cristo frequentemente usa nos seus discursos, particularmente, quando os discursos são de cariz escatológico ou apocalíptico.
Assim, feitas as eleições regionais na Madeira, ganhou quem os votantes na sua maioria quiseram. Muito bem. Parabéns a quem ganha. A democracia é assim mesmo. Nisto não servem para nada os amuos, os amargos de boca ou outros estados de alma que nada têm a ver com princípios da democracia.
Porém, se dou os parabéns ao partido vencedor, permitam-me que dê também ao povo eleitor que o fez ganhador. As coisas são assim mesmo. Todo o povo sabia que temos uma conta elevadíssima para pagar e vamos pagá-la com trabalho suor e lágrimas. Esta é a realidade que nos espera. Fica para confirmar depois se haverá sabedoria e discernimento dos responsáveis para levarem adiante as medidas de forma equitativa, para que ninguém fique de fora dos sacrifícios, para que sejamos todos, digo, todos, sem excepção, chamados a colaborar para pagar a conta.
A vida será muito difícil para todos, preparemo-nos para tal. Mas será ainda muito mais difícil para quem já está na condição de desempregado ou a ela será conduzido com as medidas de austeridade. As nossas famílias, que já estão numa situação de fragilidade financeira muito grande, sentirão graves dificuldades face aos custos dos bens essenciais para a sua sobrevivência. Este deve é o quadro que traço de forma singela para os próximos anos e, também penso, que a vida folgada que já tivemos nunca mais voltará.
Porém, todas as crises podem ser oportunidades interessantes para encetar novos caminhos, novas metas, novas etapas e novas formas de vida que podem ser mais saudáveis e até mais interessantes para o convívio entre as pessoas.
Justiça a todos os níveis é o que se deseja e se pede nesta hora. Se o descalabro a que fomos conduzidos revelou graves injustiças, embora maquilhadas de que estão à vista de todos os resultados e a todos beneficiam, na realidade, parece que prejudicam mais e na hora de pagar todos são chamados a tal. Pois então, que se procure todas as formas para que todos sejam chamados aos sacrifícios de acordo com a sua condição ou os seus rendimentos. O sacrifício não pode ser igual para quem leva para casa um salário abaixo de 1.000 euros um vez no mês e outro que leva todos os meses à conta bancária uma pensão de vários milhares e outros tantos milhares que aufere do tacho que lhe foi concertado numa qualquer empresa… É preciso atenção às disparidades de rendimentos que o sistema pariu. A justiça deve ser um valor que todos devem tomar muito a sério nesta hora.
Há uma série de valores que desde logo nos ajudam a sair da crise. A todos é pedido: humildade, sensibilidade em relação aos fracos, os mais pobres, espírito aberto à solidariedade e sentido de responsabilidade face aos desafios. Nesta base, se o que vier, no que diz respeito a sacrifícios, for distribuído em tudo e por todos, o «choro e o ranger de dentes» não será tão duro e consolamo-nos todos no sofrimento mútuo.
Vamos continuar com a vida o mais militantemente possível…
JLR

domingo, 9 de outubro de 2011

Meus sentimentos…

Poema que me foi enviado por uma jovenzinha de 14 anos, Ana Ferreira. Tem uma sensiblidade muito interessante. Penso que vai longe, com esta idade, cheia de sensibilidade e com este conteúdo, só pode ir longe. E nda mais lhe desejo senão isso mesmo que cresça e que aperfeiçoe a sua sensibildade poética. Vá lá deliciem-se e pensem numa bela menina com apenas 14 anos a escrever esta preciosidade. Obrigado Ana e continua, pecisamos de ti para nos transmitires o que te vai na alma, pois, só nos engrandece e nos eleva para os sentimentos maiores da vida. Parabéns por seres o que és e continua...
....................................................
As ondas quebram na areia
E as palavras escritas
São levadas para as profundidades do Oceano
Como um tesouro enterrado na terra Oceânica
A brisa do mar,
Fria, leve, transparece na minha alma
Meus sentimentos arrastados pela areia fina e dourada
Os meu olhos fixos na linha que separa a realidade,
Do sonho
E assim de braços abertos
Respiro todo o mistério do vento
Mistério esse, que me trás força, e esperança.
No alto dos rochedos
Ouvem-se suspiros
Que levam pedidos de ajuda,
Ajuda para reencontrar-me
Olho para o céu
Onde está demonstrado
Tudo que a alma sente
Imagens tão confusas
Sentimentos tão perdidos,
Entre a alegria, e dor.
Meu rosto iluminado
Pelo pôr do sol
E no reflexo dos meus olhos
A coragem arde
E assim caminho
À procura de respostas para
Meus sentimentos
Sem limites
Sem leis
Apenas eu e o meu mundo…
...........................
Ana Ferreira

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A principal responsabilidade está nos eleitores

A crise que o nosso país atravessa, e agora, especialmente, a nossa terra parece ser o resultado de políticas irresponsáveis profundamente populistas e eleitoralistas. Não negamos que muitas das coisas foram benéfica para todos, mas podiam ser mais bem pensadas, mas comedidas e mais sóbrias quanto aos gastos. Nestes aspectos os vários partidos que têm governado o país não estão isentos de responsabilidade. Entre nós, obviamente, um só partido, por isso, muito do nosso povo votante tem também muita culpa deste estado de coisas. E isto tanto lá como cá.
Agora sim, somos todos, sublinho todos, chamados a fazer sacrifícios para que o país e a nossa região restabeleçam o equilíbrio financeiro e as contas públicas entrem na ordem desejada. Assim, não podem senão ser louvados os políticos que tomaram a sério esta armada e que conduzam a bom porto este barco, que requer de todos esforços redobrados. Embora, se note que muita da autoridade não chega a todos, mas sempre aos mesmo, os mais fracos, os pobres e o indefesos da sociedade.
No entanto, é neste contexto que alguns membros do governo, incluindo o Primeiro-ministro, se pavonearam em carros de alta cilindrada e modelos topo de gama, nas comemorações do 5 de Outubro, os 101 anos da República, estes são sacrifícios que estes senhores fazem, traduzidos em discursos sobre sacrifício e austeridade. Fenomenal. Mas, em que ficam os insistentes pedidos de sacrifícios que nos têm dirigido os políticos que governam o país, quando recebem salários altíssimos e alimentam uma corte enorme de gente à sua volta que consomem milhares e milhares de euros mensais dos contribuintes? – A autoridade desta gente para pedir sacrifícios é muito pouca… E temo que a partir de 10 de Outubro seja o mesmo na nossa querida Madeira. Enquanto os exemplos de austeridade e de comedimento nos gastos não começar pelas altas estruturas governativas, o país e a região nunca mais se endireitam.
Vamos votar na Madeira neste domingo, 9 de Outubro, o que se pede é que a população votante seja responsável e que procure fazer opções em consciência, pensando no futuro, não apenas no futuro dos que aqui já estão, mas no futuro das gerações vindouras. Só espero que no dia 10 de Outubro não comecem as queixas patéticas e as sacudidelas habituais do capote daqueles que na hora do voto sempre se manifestaram em sentido único, mas depois no dia a dia são os que mais se alimentam da lamúria e da demissão das responsabilidades.
JLR

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Morreu Steve Jobs

«A morte é muito provavelmente a melhor invenção da vida», afirmou Steve Jobs, fundador da Apple, em 2005, frente a uma plateia de estudantes da Universidade de Stanford, nos EUA. «Lembrar-me de que todos estaremos mortos em breve é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a fazer as grandes escolhas na vida».
Nota: De facto, desconcerta e surpreende esta frase vindo de quem vem. Mais a mais ficamos a saber que a morte, provavelmente, é o acontecimento mais importante da vida que temos para realizar, o nascimento é também importante, mas não soubemos dele, agora da morte sabemos desde a hora que nos acolhemos como pensantes e conscientes do que é a vida. Este facto, faz a humanidade vibrar, inventar e procurar ao máximo viver procurando o melhor para si, para os outros e para o mundo. Foi o que fez este génio dos nossos tempos, Steve Jobs. Alguém chamou-lhe, com razão, o Leonardo Da Vinci destes tempos. Pois bem, que fique na história o exemplo da inteligência vibrante, inquieta e criativa para produzir sempre o melhor para todos. Agora que experimentou «a melhor invenção da vida», que saboreie o que estará para além dessa fronteira, que acreditamos ser também muito melhor e muito maior do que aquilo que experimentamos nesta vida material. Por isso, também não será por acaso que Victor Hugo, autor de os Miseráveis, terá dito sobre a morte: «Morrer não é acaba, é a suprema manhã». É o que vivem os que morrem primeiro do que nós e será com toda a certeza o que nos reserva experimentar quando chegar essa ora derradeira. Face a tais palavras e exemplos sobre o que é morrer, o que lucramos com o medo terrível sobre a morte?
JLR

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XXVIII Tempo Comum
09 de Outubro de 2011
O Banquete está pronto
O banquete é o Reino de Deus. Ao homem basta-lhe aceitar o convite de Deus para ter acesso a essa festa de vida eterna. Porém, não chega entrar na sala do banquete, é preciso, além disso, vestir um traje de vida que ponha em prática os ensinamentos de Jesus. Quem foi baptizado e aderiu ao banquete, mas recusou o traje do amor, da partilha, do serviço, da misericórdia, do dom da vida e continua vestido de egoísmo, de arrogância, de orgulho, de injustiça, não pode participar na festa do encontro e da comunhão com Deus. Deus chamou todos os homens e mulheres para participarem no «Seu» banquete, mas só serão admitidos aqueles que responderem ao convite e mudarem completamente a sua vida.
Na mensagem sobre o banquete muito bem expressa em Isaías e no Evangelho de Mateus, descobrimos, um Deus que quer oferecer a toda a humanidade uma esperança e um sentido para o futuro. Não somos «filhos de um deus menor», pobre humanidade abandonada à sua sorte, perdida num universo hostil e condenada ao nada, somos pessoas a quem Deus ama, a quem Ele convida para integrar a sua família e a quem Ele oferece a vida plena e definitiva. Neste sentido, todos os que nesta vida açambarcaram tudo o que puderam em detrimento da festa da vida para todos, enganam-se redondamente e podem até algum tempo gozarem o prazer do ter muito, mas logo virá em seguida as consequências nefastas da injustiça, que na primeira vez prejudicam todos, especialmente, os mais fracos e indefesos, mas visto da perspectiva de Deus, a justiça triunfará. A mensagem do banquete é óbvia quanto à acção de Deus.
O Apóstolo Paulo está preso e recebe uma ajuda monetária razoável, recolhida na comunidade de Filipos. Porém, embora a ajuda seja bem vinda, porque alivia a "aflição" de Paulo, mas não é o mais importante para ele, porque se sente preparado para viver na fartura e para passar fome, e assim, acontece, porque, "Tudo posso por Cristo, que me dá força".
Neste contexto, São Paulo apela aos filipenses que é muito importante partilhar e interessar-se pelas aflições dos outros e viver a solidariedade com os mais necessitados. Quem abre o coração à partilha, Deus provém a todas as suas necessidades. Deus não falta com tudo o que seja necessário em relação a todos os que abrem o seu coração à solidariedade e partilha. Já vem de longe o ensinamento, "quem dá aos pobres empresta a Deus".
Este texto dá-nos uma grande lição em duas vertentes. Primeira, devemos ser solidário e sempre que as necessidades à nossa volta apareçam devemos procurar ajudar na medida do possível. Segunda, devemos aprender a viver em cada circunstância com aquilo que a vida nos oferece. Quantas pessoas encontramos revoltadas, porque não têm abundância de dinheiro e de bens materiais? Quantos vivem amargurados porque a vida não lhes acena com a sorte de ter muito? Quantos vivem a contra-gosto porque a vida não lhes sorri com tudo aquilo que a publicidade seduz? - O desespero é grande, porque se desaprendeu a viver com pouco e com aquilo que é absolutamente necessário para a vida.
Por um lado, para nós cristãos, o Apóstolo São Paulo é apelativo quanto à necessidade que temos em estar atentos às aflições dos outros. Muitas vezes encontramos muitas razões para não ajudar ninguém, porque ora a miséria e a aflição é o resultado de más opções e de atitudes desregradas. Mas, não é esse o princípio cristão. Ser cristão é ser solidário, amigo e fraterno mesmo que se receba todo o mal do mundo e todas as incompreensões possíveis. A partilha e a caridade (solidariedade) devem fazer parte da vida de todo o cristão. É na vida cristã que radica a visibilidade de outro ditado popular: "Fazer o bem sem olhar a quem".
Por outro, aprender a viver com aquilo que a vida nos dá é muito importante. Não digo satisfazer-se e acomodar-se absolutamente, mas antes lutar sempre mais sem desesperos nem atropelos. Esta aprendizagem é importante, porque nos ajuda nos momentos menos bons, os da crise. Muita da pobreza não resulta por falta de bens, mas falta de sabedoria e equilíbrio para governar-se. O cristão, deve saber viver em qualquer circunstância, tenha muito ou tenha pouco. O mais extraordinário, é que a maior generosidade não vem de quem tem muito, mas de quem do pouco sabe fazer muito.
JLR

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia !
(Poema «Magnificat», Álvaro de Campos)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

«Cântico das Criaturas», de S. Francisco de Assis

Porque a ele pertence o «irmão» dia 4 de Outubro. Uma curta homenagem ao mais ecológico dos santos...
Altíssimo, Omnipotente, Bom Senhor
Teus são o Louvor, a Glória,
a Honra e toda a Bênção.
Louvado sejas, meu Senhor,
com todas as Tuas criaturas,
especialmente o senhor irmão Sol,
que clareia o dia e que,
com a sua luz, nos ilumina.
Ele é belo e radiante,
com grande esplendor;
de Ti, Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Lua e pelas estrelas,
que no céu formaste, claras.
preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor.
pelo irmão vento,
pelo ar e pelas nuvens,
pelo sereno e por todo o tempo
em que dás sustento às
Tuas criaturas.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã água, útil e humilde,
preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor,
pelo irmão fogo,
com o qual iluminas a noite.
Ele é belo e alegre,
vigoroso e forte.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a mãe terra,
que nos sustenta e governa,
produz frutos diversos,
flores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor,
pelos que perdoam pelo Teu amor
e suportam as enfermidades e tribulações.
Louvado sejas, meu Senhor,
pela nossa irmã, a morte corporal,
da qual homem algum pode escapar.
Louvai todos e bendizei o meu Senhor!
Dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!
S. Franciscio de Assis

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Uma história que não queremos que volte...

Triste história de um país que deve dar graças pela feliz viragem que deu socialmente. Mau será que os ventos actuais nos façam pensar que podem voltar estes absurdos sinais de pobreza. E não é curioso que a estes tempos se denominavam de «época moderna»(sécs. XV – XVIII)...
«A generalidade das crianças não era objecto de instrução literária: a principal aprendizagem era ainda a de saber viver de acordo com a sua condição social. Para tanto, os nobres entregavam os filhos na corte ou a fidalgos de condição superior. […] Para as crianças das camadas populares, o trabalho era uma realidade mal se achavam capazes de desempenhar uma actividade social e economicamente útil. A maior parte começava mesmo antes dos sete anos a efectuar tarefas que contribuíam de algum modo para a economia doméstica (olhar por irmãos mais novos, limpeza da casa, ajuda na criação de animais, etc.). A entrada no mundo do trabalho era precoce, e podia implicar a ida do campo para a cidade por volta do início da adolescência ou mesmo antes. Rapazes e raparigas podiam ir servir quer como criados de lavoura quer como servidores domésticos; os rapazes podiam aprender um ofício artesanal. Outras formas de deslocação se abriam aos rapazes no início da adolescência: o embarque num navio para a Índia ou a emigração para o Brasil; mesmo a vida de missionário nas terras do Império podia começar muito cedo».
(Isabel dos Guimarães Sá - As crianças e as idades da vida. In História da vida privada em Portugal. A Idade Moderna [= HVPP], coord. Nuno Gonçalo Monteiro, Círculo de Leitores, 2011, p. p. 83-85).

Imagem in blogue: Microscopio

sábado, 1 de outubro de 2011

O Conceito de Homem Público para Antonio Vieira

A frase: «Preocupem-se com a vida de vocês, que vão ter um futuro mais negro do que o meu». A frase foi proferida ontem por Alberto João Jardim, o presidente do Governo Regional, o líder e candidato do PSD, o conselheiro de Estado.
Outra frase: «Quem poupa o lobo condena as ovelhas» São Thomás de Aquino.
E mais outras frases: Padre António Vieira do Sermão do Bom Ladrão:
- Nem os reis podem ir ao Paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar: Ave Maria. [...] Mas o que vemos praticarem todos os reinos do mundo, é tanto pelo contrário, que vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao Inferno (VIEIRA, 1945, tomo V: 60 e 61).
- Mas se os reis tão fora estão de tomar o alheio, que antes eles são os roubados, e os mais roubados de todos, como levam ao Inferno consigo maus ladrões a estes bons reis? Não por um só, senão por muitos modos, os quais parecem insensíveis e ocultos, e são muito claro e manifestos. O primeiro, porque os reis lhes dão os ofícios e poderes, com que roubam: o segundo, porque os reis os conservam neles: o terceiro, porque os reis os adiantam e promovem a outros maiores: e finalmente porque sendo os reis obrigados, sob pena de salvação, a restituir todos estes danos, nem na vida, nem na morte os restituem. E quem diz isto? Já se sabe, que há-de ser S. Tomás (...) Aquele que tem a obrigação de impedir que se não furte, se não o impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição; porquanto as rendas com que os povos servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles para que os príncipes o guardem e mantenham em justiça (VIEIRA, 1945 – tomo V: 70).
- Porque quero dar este exemplo e documento aos príncipes; e porque não convém que fique no mundo uma tão má e perniciosa conseqüência, como seria, se os príncipes se persuadissem em algum caso, que não eram obrigados a pagar e satisfazer o que seus ministros roubassem (VIEIRA, 1945 – tomo V: 72).
- A porta por onde legitimamente se entra ao ofício, é só o merecimento; e todo o que não entra pela porta, não só diz Cristo que é ladrão: Fur est, et latro. E porque é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o ofício, e outra vez pelo que há-de furtar com ele. O que entra pela porta, poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação. E quem negocia não há mister outra prova; já se sabe que não vai a perder. Agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto, que essa é, como diz S. Jerônimo, a diferença de fur a latro (VIEIRA, 1945 – tomo V: 73).
.....
Mais frases para quê, se em pouco se diz tudo sobre o tudo miserável em que estamos mergulhados...