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terça-feira, 16 de agosto de 2016

O que terá de especial o Imperador Carlos de Áustria?

Estou fulo com o que tem provocado na nossa o Imperador Carlos de Áustria, beatificado há alguns anos em altas parangonas por alguns responsáveis da nossa terra. Ele que residiu numa Quinta no Monte, agora reduzida também a cinzas, e que jaz luxuosamente na Igreja de Nossa Senhora do Monte. A abundante geração de filhos, netos e outros juntamente com mais alguns loucos religiosos e políticos da Madeira Nova, promoveram a beatificação do privilegiado Imperador Carlos de Áustria que os ventos da sorte e dos privilégios mundanos fizeram desembarcar na Madeira a 19 de Novembro de 1921.
O beato em causa fez render uma pipa de massa para que o Vaticano o reconhecesse como beato, que a única coisa que fez pela Madeira foi ter-se exilado luxuosamente neste lugar. As grandes qualidades do homem passam pela fertilidade, tinha uma família numerosa, que os vilões do monte se encarregaram de limpar e dar de comer. Participava diariamente na missa paroquial e no período de convalescença comungava devotamente e morreu como um anjo rodeado de mordomias numa quinta esplendorosa no Monte.
Apenas com isto fez-se um beato, quando exemplos destes havia e há paletes pela Madeira inteira. Só que este era imperador, os outros são vilões anónimos que só Deus se importava com eles e que a sua oração os altos dignatários não reconhecem como válida.
Nunca vi romarias, peregrinações ou uma movimentação da Madeira inteira e de fora dela à volta do Imperador Carlos de Áustria. Pensei que após a sua beatificação a Madeira e a Igreja da Madeira dessem uma volta de cento e oitenta graus, fazendo deste lugar um exemplo de verdadeira devoção, solidariedade e ajuda aos pobres. O que se viu foi um calendário cumprido, voltou ao descanso eterno as cinzas do Imperador debaixo do olhar admirado de Nossa Senhora do Monte, aquela mulher de Nazaré que cantou o seguinte no Magnificat: «Derrubou os poderosos de seus tronos * E exaltaram os humildes. Aos famintos encheu de bens * E aos ricos despediu de mãos vazias». Será que o este imperador foi um desses poderosos, despachado pelo sonho de Deus?
Mas agora volta o Imperador em força. Ouvi na televisão o Presidente do Governo que a Quinta do Imperador seria recuperada e que vamos ter na Madeira o Museu do Romantismo. A quinta em causa ardeu misteriosamente, mas a prioridade agora, dada a ansiedade dos madeirenses por um Museu do Romantismo, vai ser recuperada e lá vamos ter o que mais ansiamos neste momento.
Não pode ser a prioridade um museu, quando ainda á pessoas jogadas de um lado para outro, voltaram em força as histórias dramáticas de situações vividas pelos idosos e outros nos nossos hospitais que os incêndios agravaram. Há famílias que perderam tudo. Ainda se chora os mortos e se trata os feridos. Há uma anarquia quanto às ajudas. As autoridades não se entendem. A paisagem está negra como breu. A desordem é geral. As campanhas e disputas da politiquice rasca continuam por todo o lado, a ver quem chega primeiro e quem dá mais. Uma série de coisas que agravam a crise hoje e que nos colocam em sobressalto quanto ao futuro.
Por isso, sr. Presidente do Governo da Madeira deixe-se de romantismos e vamos ao que é prioritário, os habitantes da Madeira e todos os meios necessários para terem qualidade vida com a dignidade que têm direito.
Mais um museu do romantismo ou outra coisa qualquer que aí venha fora do âmbito das prioridades, é um péssimo sinal e revela o quanto anda a viver esta terra de romantismo que encegueira e esconde a verdadeira realidade de pobreza e miséria em que estamos mergulhados.  

3 comentários:

Luís Rocha disse...

Ah,ah,ah! Padre José Luís, sempre que leio os seus escritos admiro-me de ainda pertencer à Igreja Católica. Só com este papa a dirigi-la é que ainda não foi excomungado ou corrido a pontapé desta Diocese. Ainda têm alguma vergonha... enquanto jornalista, ainda recordo a repugnância relativamente recente ao assistir, por dever profissional, que não sou cristão (se calhar, sendo ateu, até sou mais cristão que muitos) a uma homilia do actual bispo na Sé, na qual o prelado dedicou 25 minutos do seu tempo (sim, não exagero) a exaltar as grandes qualidades do beato e sua esposa, quw rezavam tanto, coitadinhos... e uns 5 minutos, talvez, a lembrar a necessidade de sermos caridosos e acudir aos pobres e necessitados.
Um Museu do Romantismo há de acalmar o coração de muitos madeirenses, nesta hora de dor. Sem dúvida. Sabe, pensava que era só eu a não simpatizar com sua excelencia o beato imperador... quase nunca ouvi aqui na Madeira uma palavra a perguntar o que ele tinha de especial...

José Luís Rodrigues disse...

Obrigado Luís pelo teu comentário.
Não é a primeira vez que questiono a beatificação do Imperador. Na altura disse o que digo hoje. Não é um madeirense, não diz quase bada aos madeirenses, por isso, encheu o ego de alguns e serviu para alguns passeios a Roma e para umas cerimónias para a notícia. É pena que se gaste dinheiro assim de forma tão inútil e com tão pouca visão de futuro. Um abraço.

Unknown disse...

É fantastico ver o realismo, clareza e objectividade com que este padre aborda os temas, sem falsos argumentos ou hipocrisias gratuitas
, mesmo aqueles que á partida são mais delicados.Encara o poder instituído de frente, sem medos ou receio de represálias, e nunca se inibe em circunstancia alguma de defender os mais desfavorecidos.
Este padre pela forma que aborda as questões sociais e não só , merece toda a minha consideração e respeito.
Grande padre grande homem, continue assim e nunca perca essa frontalidade e coragem que o caracterizam que fazem de si um homem nobre e diferente e corajoso.

Bem Haja.