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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Senhora do Monte, estamos órfãos

É uma orfandade que vem não da tua proteção misteriosa no céu, mas das lacunas que a terra reduzida a cinzas oferece desolação, negritude e tristeza.
Os que deviam inspirar-nos confiança no futuro, semeando sobre a cinza, adubo que ajudasse a fertilidade, continuam debitando o vazio, o silêncio ensurdecedor e as ideias loucas, porque desnecessárias perante o estado de coisas que se vive neste momento. O presente é negro, mas o futuro também não parece vir a encontrar outra tonalidade.
Temos tanto povo triste. Outro tanto indiferente. E outro tanto mal educado que recusa qualquer mudança no que diz respeito aos comportamentos. Mas pior que isso é nos vermos entregues a autoridades que não dizem o que devem dizer e se o dizem, tragicamente, não dizem coisa com coisa. Esta orfandade dói o corpo e a alma.
Mas que raio de sorte foi esta que nos coube, que não apareça nem sequer um simples rasgo de pensamento, uma palavra que se diga certeira, uma opção que nos inspire confiança, que nos faça acreditar também nas coisas e nas pessoas deste mundo… Fico deveras inerte perante as cinzas, mas mais pasmado me vejo perante a tão confrangedora escassez de massa cinzenta nas autoridades que nos coube a má sorte de nos dar nestes tempos diferentes (porque preocupantes) que vivemos.
Bastava, para nos tranquilizar um pouco, que alguém dissesse seguramente, alto e bom som, tempos diferentes requerem comportamentos diferentes, para que tenhamos as consequências adequadas a esses comportamentos. Mas olha que nada aparece de novo, de diferente e audaz convicção que nos reanimasse na esperança com os pés bem seguros sobre o chão, mesmo que ele ainda se nos depare pintado de negro pela cinza.
Por isso, olho para o alto do pedestal da Senhora do Monte, a Nossa Nobre Padroeira, e rezo confiante, apesar do estado de alma meio zonzo e tomado de indiscritível desamparo, mas sabendo que Tu, Senhora do Monte estás aqui neste «círculo imenso», que digo como o diz o grande Padre António Vieira: «O círculo criado, que cerca o mundo, é o Céu; o círculo incriado e imenso, que cerca o Céu, é Deus; e o círculo imensíssimo que cercou a esse Deus imenso, é Maria». (Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640), Pe. António Vieira).
Ou seja, O amparo nesta terra de orfandade, especialmente, vejo-o em Maria que cercou Deus, que é o círculo que cerca o mundo, e por isso o seu ventre é tão e ainda mais imenso. Além disso, como Deus não era circunferência, não podia ser cercado, mas a imensidão do ventre de Maria é tão grande que conseguiu cercar Deus e com Ele também nos cercou. Então sempre bastará que encontre forças para viver seguinte: «Comparai-me o mar com o dilúvio. O mar tem praias, porque tem limite; o dilúvio, porque era mar sem limite, não tinha praias: (...) Assim a imensidade de Deus — quanto a comparação o sofre. — Está a imensidade de Deus no mundo e fora do mundo; está em todo lugar e onde não há lugar; está dentro, sem se encerrar, e está fora, sem sair, porque sempre está em si mesmo» (Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640), Pe. António Vieira).
Ó Senhora do Monte, rogai por nós… És o que nos resta de seguro.

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