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terça-feira, 11 de abril de 2017

Quarta feira 12 abril: Deus e eu

Semana Santa 2017 
- Esta semana com a minha querida amiga Teresa Góis. Um texto muito seu, íntimo, mas forte e vivido no que diz respeito à sua interioridade, esse lugar sem lugar onde Deus está... Obrigado cara amiga pelo seu testemunho e pela sua disponibilidade para esta partilha tão rica.

     Tocaste-me sem eu saber.

     Um colo quente, acolhedor me levou a Ti com 53 dias de vida e eu não me lembro de nada. Do Jordão para os rituais criados pelo homem, ungiram-me, deram-me sal e deitaram água sobre a cabeça. Se chorei não sei; já não tenho a quem fazer a pergunta pois as minhas irmãs eram demasiado pequenas para se lembrarem e, à volta, outras coisas as entretinham.

     Se chorei foi o meu primeiro grito público de reclamação.

     Depois fui pela vida sempre orientada, sem grandes questões porque era a idade de tudo aceitar e ser feliz.

     Cresci. Escolhi e esqueci porque outras responsabilidades e novidades me abordavam.

     Puseste sempre no meu caminho quem muito bem Te apeteceu sem primeiro me consultares. Agradeço a quantidade de pessoas e, as que conservei e conservo, são de qualidade.

     Estou junto ao mar. Na minha frente a linha recta do horizonte onde não escreves pois só usas as linhas tortas na tua grafia. Também por isso me sinto escolhida.

     Junto ao mar vejo-Te no enrolar da onda azul que morre em salpicos brancos, vejo-Te no planar da gaivota como se fosses um drone do Pai. Vejo-Te ainda na face de desespero da multidão que clama num idioma que não conheço, adultos e crianças, enlameados, famintos, sem dignidade e sem esperança... Onde andas?

     Quantas vezes Te ignoro e quantas vezes Te agradeço no sol pintado de fresco na manhã luminosa, no quadro da minha janela!

     Quantas vezes grito que ignoras sofrimentos, angústias, ausências … Contudo sei que estás presente, na Tua face materna feita de Amor e em que a tolerância é matéria-prima.

     Sabes o barro que sou, cheio de mazelas, descascado, incolor, mas se o sabes, sabes também o que resta.

     Penso que és um Deus justo e divertido que olha para a criatividade humana que usa o Teu nome para acontecimentos milagreiros com indulgência quase plenária.

     Aceita-me como sou!

     És um Deus invasivo sim, mas não um Deus invasor.

Maria Teresa Santos Tavares Góis

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