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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sexta feira 14 abril: o martírio cristão e a Páscoa

Semana Santa 2017
“O Cristo de São João da Cruz”
 (1951), Salvador Dalí.
1. A Páscoa consiste essencialmente nesta ideia de que não há ressurreição sem Cruz e sem morte. Para acontecer a Páscoa é necessário existir um martírio. Na celebração da Páscoa cristã o martírio tem um nome, Jesus Cristo. É disso que gostaria de pensar hoje convosco um pouco. 

2. Em todas as formas de martírio nós estamos perante uma ou mais vítimas. Porém, a ideia de martírio nem sempre foi e é igual em todas as expressões religiosas. No Cristianismo a ideia de martírio como gerador de vida para os outros sempre esteve presente, embora nalguns momentos da história os seguidores de Cristo tenham feito vítimas mártires porque eram considerados hereges ou inimigos da fé cristã. Obviamente, que oficialmente essas vítimas não são reconhecidas como mártires, mas em todo o caso até foram, se considerarmos que morreram sob o domínio do poder cego que não olha a meios para atingir os fins. Mas, devemos salientar que apesar das sombras e das nuvens negras, o Cristianismo sempre considerou que mártir era aquele ou aquela que dava a sua vida pela vida dos outros. Se repararmos no rol imenso do martirológio católico vamos encontrar exemplos de entrega à morte sempre com esse propósito, vítimas imoladas em nome do bem comum, da paz e da justiça que falta no mundo.

3. No entanto, os nossos tempos estão marcados pelo sangue de vítimas inocentes. Tenho a impressão que o Papa Francisco já referiu que os nossos tempos não têm precedentes na história do Cristianismo nesse campo do martírio, pois nem os primeiros séculos, que foram tão dramáticos para os cristãos sob o domínio persecutório do Império Romano, suplantam tanto sangue derramado nos tempos de hoje por causa de opções religiosas. 

Cristo_abrazado_a_la_cruz_
(El_Greco,_Museo_del_Prado)
4. É necessário salientarmos que o martírio cristão para ser considerado como tal, tem que necessariamente ser gerador de vida, «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem desprezar a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me servir, siga-me, e onde eu estou, estará aquele que me serve; se alguém me servir, o Pai o honrará». (Jo 12, 24-26). A morte de Cristo na Cruz é o exemplo dessa forma de martírio, um inocente, um pacífico lutador sem armas pelo amor, pela paz, pela verdade e libertador de todas as formas de opressão. É aquele que reclama que o mundo é de todos e para todos, por isso, todos são considerados na intenção do amor e da misericórdia de Deus Pai e Mãe. Assim, por causa desses ideias contrários à lógica dos poderosos deveria ser saneado, devia morrer porque as suas palavras ferem os ouvidos de quem pretende o status quo do poder que se alimenta da pobreza e da exclusão da maioria. É um martírio de morte imerecida para gerar vida nova, vida ressuscitado para todos, bons e maus. Todos os martírios realizados sob a luz e a inspiração daquele que levantaram na Cruz há mais de 2000 anos, estão tomados desta mesma doutrina acerca do martírio de Jesus Cristo. 

5. Nisto podemos rebuscar o que têm dito e feito os grupos fundamentalistas nos nossos tempos, sob a inspiração da religião Islâmica. É preciso dizer-se que o Islão, na sua concepção séria e verdadeira, é uma religião da paz e do amor. Prega o martírio como semente de vida nova igual como faz a religião cristã. Assim sendo, todos aqueles que se imolam com bombas amarradas à cintura ou com mochilas às costas e as fazem rebentar onde estão multidões, semeiam o martírio de vítimas inocentes. Os autores de tais actos não são mártires, são criminosos movidos por si mesmos, por ideias falsas mesmo que tomadas pelos mais belos aromas religiosos, ou por outros que os manipularam com ideias erradas e lhes incutiram uma desordem mental que prejudica a vida e o nosso mundo. Em nome do fundamentalismo e da idolatria não há martírio, há crimes que põem em causa a integridade, o progresso e a segurança da humanidade. 
Imagem Google

6. Nenhuma religião verdadeira defende a morte para os outros, porque não fazem parte do seu redil e, por conseguinte, são infiéis que devem ser mortos. Todas as formas de morte desvirtuadas dessa ideia de geradoras de vida e vida em abundância são crimes que devem ser combatidos e punidos sob o crivo da lei. 

7. Na festa da Páscoa somos chamados a celebrar o sofrimento e morte de Jesus Cristo, sem exageros desmedidos, mas, especialmente, somos convocados a celebrar a vida, a vida nova, vida ressuscitada, apesar do sofrimento e da morte, que a vida deste mundo implica. Pois, que sirva esta Páscoa para purificarmos todas as ideias erradas acerca do martírio e que nos entreguemos à luta sem violências, sem fundamentalismos, fanatismos e idolatrias pelo bem da vida para todos.

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