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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Linguagem de amor

Maravilhosa reflexão...
Há muita gente que olha para um deficiente e não vê mais que a sua limitação cerebral ou motora. Mas o olhar do nosso coração, esse ultrapassa essa barreira e descobre as excelentes qualidades que aí jazem escondidas, tantas vezes menosprezadas pelos próprios familiares.
Page era um rapaz com grave deficiência cerebral desde nascença. Não falava, não ouvia e via apenas e mal por um dos olhos. Vivia para um mundo estranho, apenas seu.
Após alguns anos de exercícios de recuperação, conseguiu ler rudimentarmente. Seus irmãos nem sempre o apoiaram com a compreensão necessária.
Certo dia, Page e os irmãos foram visitar a avó, de oitenta e tal anos, internada num lar de idosos. Era sem dúvida a última visita, a visita de adeus, tal o estado debilitado da anciã. À volta da cama, o grupo familiar disfarçava a emoção e o motivo da visita, dizendo palavras evasivas.
Inesperadamente, o deficiente abriu caminho por entre os familiares e aproximou-se da cama da avó, chorando. Tomou o rosto magrinho da avó entre as mãos e ali ficou longo tempo afagando-o e molhando-lhe a camisa com as lágrimas, enquanto uma comunicação terna de gemidos se estabelecia entre a avó e o neto.
Ficaram todos tão emocionados como surpreendidos. Afinal aquele deficiente compreendera com o coração o motivo daquela visita. Embora muito limitado, tinha um dom precioso e desconhecido da família: não tinha capacidade para enganar. Não conseguiu disfarçar. Exprimiu à sua maneira o que sentia.
O irmão mais velho desejou naquele momento ser mais parecido com Page.
Saíram do quarto. A avó esboçou com os lábios um gesto ténue de beijar, dizendo adeus.
O deficiente tinha falado em sua linguagem intuitiva de amor: tinha dito o que os outros não tinham tido a coragem nem a capacidade de dizer...  
Mário Salgueirinho

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