Convite a quem nos visita

sábado, 29 de agosto de 2015

Parece que a vida humana não vale nada

Para esta manhã tinha pensado escrever sobre a crueldade dos refugiados. Tinha muito para dizer inspirado no tanto que já foi dito. Porém, começo a pensar que vivemos sob uma «ditadura» de palavras e mais palavras que não conduzem a consequências que resolvam minimamente o drama de tantos irmãos nossos que fogem da guerra, da pobreza, da violência, do saque e do desrespeito da dignidade humana.
Tendo em conta que as autoridades da velha Europa não fazem nada, simplesmente encolhem os ombros e debitam também palavras de uma pretensa indignação, tem que ser nós cidadãos a alertar e a fazer uma corrente de denúncia constante desta crueldade desumana em que mergulhou a humanidade.
Não se entende que a humanidade avance imenso na tecnologia, na sofisticação a todos níveis da mobilidade e da comunicação, mas regrida tanto nos valores, especialmente, no valor da vida humana.
É preciso acolher e combater todas as formas de violência que conduzem a esta tragédia. Há grupos criminosos armados em tudo isto, é preciso travá-los. Há políticas erradas, é preciso reconhecê-lo e encetar outras políticas que olhem pelas pessoas e não tanto em nome do vil metal. Há religião distorcida que mata em nome de um deus que alguns engendraram, é preciso assumir que isso é crime e que não fiquem imunes de responsabilidades os seus autores mesmo que se agarrarem à religião ou a um deus menor sem alma. Há ditadores nos países de origem dos refugiados, é preciso arredá-los do poder. Há exploração do norte rico em relação ao sul pobre, é preciso pensar nisso. Há perda de valores, é preciso retomá-los. Há violação dos Direitos Humanos, é preciso lembrá-los. Há uma Europa que deixou de ser cristã, cujo valor do acolhimento dos estrangeiros é muito importante, é preciso não esquecer as origens da Europa e todos os valores cristãos que educou os povos. Há de tudo um pouco, por isso, é preciso que os povos europeus se empenhem mais na construção da humanidade sem que para isso tenham que encerrar portas e levantar muros.
A imagem caricatural aqui ao lado muito tem a dizer-nos sobre as causas da crueldade das imagens que nos chegam deste drama horripilante dos refugiados que chegam às portas da Europa. Não pode ser assim e o procedimentos dos interesses materiais não podem prevalecer perante o valor da vida humana, a dignidade e o direito de ser gente. Nós cidadãos devemos indignar-nos sobremaneira e procurar todas as formas de denúncia, pressão e sensibilização das autoridades europeias para que tomem medidas corajosas para minorar este drama. Não vejo diferença nenhuma quando contemplo hoje os barcos apinhados de gente em relação aos vagões dos nazis que na segunda guerra mundial transportavam os judeus em condições miseráveis para os campos da concentração da morte. Parece que a vida humana, apesar dos avanços tão solenes e sofisticados, pouco ou nada vale para a humanidade hoje. E isso é triste, muito triste.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Madeirense novo bispo de Sétubal

Grande notícia...
Parabéns amigo Padre Ornelas Carvalho e parabéns à Diocese de Setúbal. Esperemos que seja tão bom pastor como foi brilhante professor e missionário.
Mais informação AQUI

sábado, 15 de agosto de 2015

Dá muito que pensar a oração do Pai-Nosso

Meus amigos e caros leitores do Banquete da Palavra: Vamos encerrar por algum tempo este comensal. Uns dias de férias não nos farão mal. Por isso, fiquem bem que nós também vamos fazer por isso. Regressamos a 15 de setembro, se Deus assim o permitir. Deixamos aqui a desmontagem do que representa o Pai-Nosso. Boas férias.  
Não digas «pai», se a cada dia não te comportas como um filho.
Não digas «nosso», se vives isolado no teu egoísmo.
Não digas «que estais nos céus», se só pensas nas coisas terrenas.
Não digas «santificado seja o vosso nome», se não o honras.
Não digas «venha a nós o vosso Reino», se o confundes com coisas materiais.
Não digas «seja feita a vossa vontade», se não a aceitas quando é dolorosa.
Não digas «o pão-nosso de cada dia», se não te preocupas com quem passa fome.
Não digas «perdoai-nos as nossas ofensas», se manténs rancor contra o teu irmão.
Não digas «livrai-nos do mal», se não tomas posição contra o mal.
Não digas «ámen», se não compreendeste nem levaste a sério a palavra do Pai-nosso.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Conclusão: vamos à procura da luz

Enfim... Hoje é o último momento celebrativo da novena de São Roque, às 20 horas na Igreja de São Roque do Funchal... Todos estão convidados.
Nona Novena
Novena dos Aliados
 Hoje terminamos esta caminhada reflexiva e celebrativa sobre a procura da luz. Não sei se vos serviu de alguma coisa? A mim serviu para momento de oração e também serviu para perceber quanto pode ser rica a reflexão sobre a luz. O nosso mundo precisa de luz e precisa, sobretudo, que se faça luz sobre tudo o que ele contém de trevas.
Mas, deixemo-nos de rodeios e passemos à escuta de mais alguns textos de mais alguns autores sobre a temática da luz. António Mega Ferreira, termina o seu belíssimo texto, depois de passear a sua pena por vários poetas, escultores e pintores, por exemplo, Sophia, João Cabral de Melo, Rubens, El Greco, Don DeLillo entre outros. O seu texto termina com esta pergunta, tirada de Don DeLillo: «Há estrelas mortas que ainda brilham porque a sua luz ficou aprisionada no tempo. Como situar-se em face desta luz, que, em bom rigor, não existe?» E continua: «Um homem quando vem da morte, diz, ao rosto amado: minha luz». Provavelmente foi esta expressão que Cristo também utilizou quando depois da morte, ao terceiro dia, aparece às mulheres e aos Apóstolos cheio de luz. Não terá o mesmo sentido a expressão que Cristo utiliza: «Dou-vos a minha paz...»? – Ao rosto que Cristo ama, que são todos os seus discípulos, revela-lhes a luz e deseja-lhes paz. Esta é a expressão máxima do amor divino feito história concreta.
Por outro lado, dado que «só o poema contém a luz que nos faz ver», apresento o poema de Octavio Paz, «Este Lado»: «Há luz. Não lhe tocamos nem vemos. / Nas suas vazias claridades / repousa tudo o que vemos e tocamos. / Eu vejo com as pontas dos meus dedos / o que os meus olhos apalpam: / Sombras, mundo. / Com as sombras traço mundos, / dissipo mundos com as sombras. / Ouço palpitar a luz do outro lado». O poema apresenta-se como é a festa da luz. O poeta ora perturbado com as sombras do mundo, ora angustiado porque a vida perde-se na azáfama do agora, mas, ao mesmo tempo, sente que do outro lado a luz está e é essa certeza que o anima. Esta mensagem é fabulosa. Para nós serve, para entender que a vida faz-se nas sombras, «com as sombras faço mundos», mas não me quero esquecer que do outro lado a luz palpita, para me encher de alegria e felicidade.
As imagens de Noronha da Costa, pintura construída à luz da vela e com a luz da vela, são quadros fantásticos, que nos remetem para o eterno das coisas. A penumbra construída pela luz da vela são sombras, mas o centro revelado pela luz que brilha é o palpitar da eternidade. Na penumbra dos dias devemos perceber que o futuro está já aqui nesse brilho da luz, mesmo que seja uma singela e humilde vela.
Perante esta embalagem descobrimos um texto muito belo de Hugo Gonçalves, que diz assim: «Toda a Matéria é Combustível». Repare-se, então, na beleza das suas palavras: «Sentamo-nos no passeio, esperando o final das chamas. Estaremos assim, próximos, no mesmo lugar, cada vez menos. Quando amanhecer, trocaremos apertos de mão em vez de beijos, como fazem os adultos. Mas por enquanto, continuaremos aqui, esperando a luz do sol que elimina a tristeza, sorrindo sempre que acertamos com pedras nas janelas que resistem ao fogo». Muito interessante. Sempre pensei que a tristeza nada é perante a luz do sol. Por isso, não gosto dos dias sombrios, tristes e muito menos gosto da noite. Pois, venha o sol para iluminar os dias e acabar sempre com o terror da noite. Já o ilustre amante da pobreza radical, São Francisco de Assis, ensinou na sua oração: «a noite é irmã gémea da manhã».
Então face a esta realidade da vida e ao medo que possa provocar qualquer elemento do universo, da natureza e da vida, «Venha mais Luz» como pedia João Lima Pinharanda, porque é o que cada um pode pedir quando o escuro da vida o persegue.
Mas, também vamos ao encontro de um texto extraordinário de José Augusto Mourão. No início do seu texto descobre-se uma citação muito sugestiva de Mestre Echkart, que diz assim: «Não poderia ver bem a luz que brilha sobre o muro se não voltasse os olhos para onde ela jorra. E mesmo aí, se a capto onde ela jorra, preciso de ser libertado desse jorrar; devo captá-la tal como ela plana em si mesma. E mesmo assim direi que não deve ser assim. Não a posso captar nem no seu contacto nem no seu jorrar nem mesmo quando plana em si mesma, porque tudo isso é ainda um modo. É preciso captar Deus como um modo sem modo, como um ser sem ser, porque não há modo». Agora parece estarmos perante uma procura da luz que se identifica mais com a presença de Deus. Pois, esse é o caminho, procurarmos a luz para vermos Deus, mesmo que seja na penumbra dos dias e na escuridão da noite que a vida também ás vezes oferece.
José Augusto Mourão, estrutura o seu texto da seguinte forma, primeiro que tudo, lá está um título muito enriquecedor, repare-se: «Diante do sal que nos olhos luz». Desde logo somos levados à Palavra do Evangelho, quando Jesus proclama: «Vós sois o sal da terra»; «vós sois a luz do mundo». Porém, o autor divide em quatro partes o seu texto: primeiro, «Habitar»; segundo, «O espelho do mundo»; terceiro, «desvendar»; quarto, «Coda». Mas olhemos para cada uma das expressões.
1. Habitar, é «A morada para o homem o domínio aberto à presença do Deus (do insólito)». Tenho dito. A habitação de cada pessoa é o lugar por excelência da presença de Deus. A ideia da casa ou da habitação como lugar da intimidade com Deus é sempre reincidente em muita literatura.
2. O espelho do mundo, aí se reflecte o sentido da vida. Basta procurar e acolher o reflexo de Deus presença constante. 3. Desvendar, é a tarefa da luz. 4. A palavra Coda, é um túmulo sobre o qual se celebra o encontro com o divino. Para nós cristãos, foi a partir do túmulo que se percebeu que o corpo ali depositado tinha entrado na luz. Por isso, no fim desta caminhada celebro convosco que para toda a vida e para todas as vidas a verdadeira oferta da luz é a Ressurreição.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Candeia que vai à frente alumia duas vezes

Mais um dia para reflexão e celebração da luz... Hoje na Igreja de São Roque às 20 horas.
Oitava novena
Novena da Paz
Lá vamos nós nesta viagem com a luz e à procura da luz. Na novena de ontem terminamos com a luz a identificar-se com a esperança. Bem me parecia ter aprendido que a melhor definição para a luz era a de acolhê-la como um anseio. A esperança é um anseio. Por isso, nos tinha dito Manuel Alegre que «Era essa luz que no meio da mágoa e da saudade e das multidões do mundo e do exílio eu trazia dentro de mim, um pequeno astro cintilante que apontava um país azul, uma luz só luz».
Mário Caeiro e Marc Pottier ensaiam coordenar uma iniciativa há vários anos, chamada «Luzboa» Bienal Internacional da Luz. Os dois perguntam-nos: «Qual é o teu sonho?». A resposta radica na luz. Ora vejamos: «- Oferecer a todos a luz, oferecer as estrelas no céu...» Mais adiante, acrescentam: «O meu sonho é sonhar. Como tu, transfigurar a noite, reflectir o dia...». Por isso, «a luz é boa». Porque entendem sair da luz tudo o que desejam e sonham para o mundo das trevas: «que a luz revela, projecta, desenha, surpreende e diz. E que a luz é uma espécie de metáfora-conhecimento, ritual, espiritual, mecânica, lógica e poderosa expressão de que são feitos os sonhos. Qual é o nosso sonho? Luzboa». Também será por isso que a «toda a luz é boa» que os adultos ensinam às crianças que perante a perda pela morte de um familiar estimado (p. ex. o avô, a avó, um tio, um irmão, a mãe ou o pai…) sempre ensinam que aquelas pessoas são agora uma estrela que brilha no céu, coisa que faz as crianças ficarem satisfeitas.  
Num texto de Sara Pina, descobre-se uma palavra fortíssima, mas que para a autora se identifica com a luz, falamos da palavra «eternidade». Pois então, o que é a eternidade? – É o seguinte: «A noite rendilhada de estrelas. Nada mais». Porém, o buraco não é o fim e a eternidade não pode existir na escuridão, por isso, «O buraco sem luz não pode esperar mais. Foram-se as estrelas e nasceu o dia». A luz é o sinal da eternidade. O nosso horizonte é esse, o da eternidade. Pela luz, porque é já sinal do eterno, vamos ao encontro da plenitude e da glória. A esperança, que também significa a luz, tem este horizonte, tem este lugar seguro de que a vida não pode acabar no buraco escuro da morte.
Mais adiante, encontramos um texto extraordinário, escrito pela pena de Luís Sepúlveda, onde conta um episódio curioso do tempo dos Maias, escutemos o curto episódio com atenção: «Nas ruínas da cidade Maia de Chichén erguem-se várias pirâmides orientadas segundo a deslocação solar e, todas elas, têm esculpida uma serpente que desce desde a ponta até à base da construção. Pelo lombo dessa serpente desliza a luz durante centenas de anos e mal esta tocava no chão os Maias davam o dia por começado. Todos os seus afazeres estavam determinados pelo preciso momento em que a luz e a terra se uniam fugazmente. Esse minúsculo momento de união entre o indiscutível, o insaciável, o incorpóreo, a luz, e o mundo, era para eles a única eternidade possível, e assim o certifica o Popol-Vuh, o livro sagrado dos Maias: ‘a luz desce pelas costas da serpente, deixa para trás o já feito, em sombras e ao acender as suas faces indicar-nos-á o que fazer. Assim será até ao fim do tempo, que é o fim da luz’». Esta atenção ao jogo da luz entre a noite e o dia é algo de muito cativante para nós e como os nossos antepassados sabiamente entendiam a vida a partir desse casamento entre a luz e as trevas.
A luz dá sentido ao mundo e às coisas do mundo: «a luz convida a darmos um nome a tudo aquilo que se vê e a soma de todos os nomes resulta na canção da luz». Por isso, não devia existir mal maior no mundo, se todos soubessem conjugar harmoniosamente o jogo da luz e das trevas. Para quem viva na luz não pode fazer mal nem a si próprio nem aos outros, porque na luz «não há lugar para o mal sobre o seu império».
Mas também sabem bem a escuta dos versos de Kenzaburo Oe: «Uns dizem que vimos uma grande luz / mas é mentira / vimos a morte da luz». Os versos rezam assim, porque ressoam do contexto, onde a morte falou alto, muito alto, mesmo que tenha sido sob o efeito de uma grande luz, lembramo-nos de Hiroshima. Pois é, é a memória das trevas que continua neste mundo tão forte como a luz, mas não devia ser assim, claro, se todos os homens quisessem. Sim, quisessem, porque para a luz basta querer, e logo a luz faz-se. Já Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, ficou conhecida por essa palavra que ao mesmo tempo significa vontade e luz: Fiat (faça-se) e apareceu o Sol da humanidade inteira, Jesus Cristo.
Outro autor que nos faz reflectir sobre a luz termina o seu texto deste modo. A luz «É o discurso da terra, dos milhares de minerais que se foram formando no decorrer dos milhões de anos, e fazem-nos lembrar que a vida é efémera, frágil e que este planeta é de todos e não somente dos donos do dinheiro. Eu ouvi esse discurso e fi-lo meu, graças à luz que é a voz da vida».
Talvez seja por causa desta forma de pensar e ver a vida que João Lopes, escreveu o nome Luzia, que é o nome dos nomes. Porque, acrescenta: «chamo-te Luzia porque és tu que me trazes o sol de outra galáxia». O sol que embeleza a vida e o mundo. Tudo a partir de um nome se torna realidade autêntica, cheia de esperança e de eternidade. Eis a luz.
Ao terminar ainda vemos a letra suave e poética de Tereza Coelho que nos ensina a cantar Primavera assim: «Primavera, primavera, és linda como haver morte» (não soa bem, mas foi o que aconteceu mesmo e o que a autora nos revelou do seu pensamento), «porque essa frase incluía a luz, a noite, e toda a imensidão possível». No fundo, quer segredar a todos que a vida é esse mistério intocável, que requer de nós o maior respeito e a mais profunda veneração. Porque nem toda a luz é para nós, mas a luz suave do amor pode ser nossa, basta que o interruptor da alma se deixe acender sempre e em cada hora da vida. Mas, apesar de tudo e contra tudo e todos somos, segundo a Alexandra Quadros: «Meninos de luz». E eu quero acreditar que Deus assim nos fez, para ser luz como «candeia que vai à frente aluminando (alumiando) duas vezes»…

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nem tudo o que luz é ouro

Continuamos à procura da luz. Hoje na Igreja de São Roque às 20 horas...
Sétima Novena
Novena da Mocidade
Este é um grande desafio da nossa existência. Saber escolher a melhor parte, para que a felicidade e o sentido da vida sejam uma realidade muito forte no coração de cada homem e mulher. A humanidade não é feliz e continua enterrada na miséria porque não encontra a melhor parte. É preciso descobrir qual é a sabedoria que nos conduz à verdadeira escolha. A melhor parte depois de descoberta nunca mais lhe será tirada.
Sempre senti uma grande simpatia e encanto particular pelo episódio contado por São Lucas no Seu Evangelho. Diz assim o autor com a sua delicadeza cirúrgica referindo-se a Jesus: «Estando em viagem, entrou num povoado, e certa mulher, chamada Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra. Marta estava ocupada pelo muito serviço. Parando, por fim, disse: ‘Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o serviço? Diz-lhe, pois, que me ajude’. O senhor, porém, respondeu: ‘Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só importa. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada’» (Lc 10, 38-42).
Também o realizador Fassbinder me fez pensar nesta passagem da Escritura, quando vi o seu filme magnífico «Marta». Nessa ocasião senti que o realizador tinha rezado este momento da vida pública de Jesus.
A questão que se coloca é a de se saber escolher a melhor parte na vida e para a vida. Mas, qual será o conteúdo da melhor parte? A melhor parte terá de ser uma descoberta pessoal e única para cada pessoa. Só Deus na pessoa de Jesus, pode identificar-se como sendo a melhor parte, mais nenhuma criatura reúne condições para impor o que quer que seja a ninguém. A melhor parte é sempre Deus e a Sua Palavra.
A partir destes pressupostos, vamos tentar delinear alguns aspectos que nos ajudem a descobrir a melhor parte. Antes de mais, é preciso perceber o carácter incondicional na nossa vida. Muito da vida de cada um de nós assenta nessa base. A incondicionalidade deve ser uma constante em todas as opções. Por isso, nada deve perturbar a escolha das opções que se pretenda realizar, para que sejam verdadeiras e sinceras todas as escolhas.
Toda a escolha implica uma renúncia. A nossa vida está cheia desta experiência. Quantas escolhas foram feitas e que depois implicaram elevados sacrifícios e renúncias incontáveis? Desta realidade está cheia a vida deste mundo e não nos parece que tal seja uma desgraça, mas antes, uma riqueza extraordinária que se descobre no coração da humanidade.
A ideia de escolha de Deus é muito diversa da nossa ideia de escolha. Para nós a escolha implica muitas considerações vantajosas, pessoais e para o âmbito familiar. Deus escolhe de modo distinto. Na Sua ideia de escolha não está presente a exclusão de ninguém. Deus chama e escolhe alguns para que todos se deem conta de que são amados. A base da escolha de Deus é sempre o amor não apenas por alguns, mas o amor por todos.
Neste sentido, aprendemos agora que as nossas escolhas teriam outro valor e outro sentido se estivessem sempre como base o amor. As opções pelo matrimónio ou pela vida religiosa de modo especial, não acertam, por vezes, porque não estão fundamentadas naquilo que é essencial. Deste modo, feita a escolha, faço a fundamentação não em mim e nas minhas convicções pessoais, mas em Deus. A Sua Palavra e o Seu amor por todos fundamentam a minha escolha. Por causa desta certeza São Paulo ensinou o seguinte: «Depois disto, que nos resta dizer? Se Deus está connosco, quem estará contra nós? (...) Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 8, 31; 38-39).
Muitas vezes estamos habituados a pensar que a escolha trás consigo a ideia de perfeição e a santidade. Nada disto devia acercar-nos o pensamento. A escolha surge para melhor servir a todos e dar testemunho que Deus ama a todos de forma incondicional.
Porque pensamos de modo distinto desta visão, quando surgem as críticas menos simpáticas, logo aparece o desprezo, as caras macambúzias e com raiva contra tudo e contra todos. Tudo isto acontece nos grupos humanos quando o sentido da escolha não está assente no serviço e na total disponibilidade, por isso, a escolha muitas vezes cria pequenos ditadorzinhos soberbos sem cabeça. Saber escolher é essencial e sentir-se escolhido com humildade também não é menos essencial.
Termino com a ideia de que o sentimento de pertença não pode confundir-se com o sentimento de posse. Se pertenço à família, à empresa, à escola, à paróquia ou Igreja, devo saber estar e exercer a minha função sem qualquer sentimento de posse. A pertença mútua entre Deus e o seu povo, não se manifesta em termos de sentimentos de posse, nem ninguém é propriedade de ninguém. Tudo está em função do amor e nada está contra o amor.
Quem ama não põe condições. Simplesmente escolhe a melhor parte porque se sentirá feliz e porque é feliz saberá como corresponder para a felicidade dos outros. Porque soube escolher a melhor parte com sabedoria e inteligência, logo desde o início da sua procura definiu conscientemente que nem tudo o que luz é ouro. 

No debate/diálogo nasce a luz

Seguimos analisando, reflectindo e celebrando o tema da luz... Hoje será assim às 20 horas na Igreja de São Roque...
Sexta Novena
 Novena da Cruz
 Como não poderia deixar de ser para melhor fundamentarmos e compreendermos esta ideia da luz como consequência do debate de ideias, vamos à Sagrada Escritura e vemos logo palavras interessantes sobre o que é e quem é a luz. A luz, como criatura maravilhosa da Natureza, é símbolo de Deus: «O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam» (Jo 1, 4-5).
Por meio de Cristo, também Ele luz, «o Verbo era luz verdadeira que ilumina todo o homem... Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más... «De novo Jesus lhes falava: ‘Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida’... ‘Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo’» (Cf. Jo 1,9; 3, 19; 8, 12; 9, 5). A luz brilha nos nossos corações, «...para os incrédulos, dos quais o deus deste mundo obscureceu a inteligência, a fim de que não vejam brilhar a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus... Por quanto Deus, que disse: ‘Do meio das trevas brilhe a luz, foi ele mesmo que reluziu nos nossos corações, para fazer brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2 Cor 4, 4.6).
Somos convidados a ser luz do mundo. Reparemos no apelo formidável de Mateus: «Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte» (Mt 5, 14). Por isso, Lanço-vos um desafio, imaginemos como seria a nossa cidade sem luz elétrica… Imaginemos a nossa casa sem luz elétrica. Depois ensaiemos o sentido e o significado de tal escuridão face ao esplendor da luz.
Passadas as principais citações sobre a luz nos textos do Novo Testamento, vamos agora ao encontro de outras expressões e palavras que nos revelam, em síntese, a necessidade da luz ou então de como devemos aprender que a nossa vida sem luz é um castigo terrível. Uma agonia insuportável. Porque o diálogo nunca seria possível nem muito menos saborearíamos o que deriva do debate e do diálogo das ideias.
A definição de Mário Assis Ferreira é interessante, a luz «é um anseio». Mais acrescenta ainda, como palavra final, que encerra o desejo da luz para sempre no coração de todos: «E só as trevas não cabem nessa luz». Porque antes tinha dito que há «...uma luz necessariamente branca: porque o branco é harmonia, a síntese de todas as cores». A expressão poética revela que a vida não tem sentido sem a luz. Por isso, todos precisam da luz interior que conduza para o sentido da vida e com ele nos revelem o esplendor do prazer que pode ser uma vida em cada pessoa. Com a luz a vida é uma festa. Sem a luz a vida não tem gosto. É uma perdição.
Por isso, desejamos a luz para cegueira do mundo, que neste tempo ganhou contornos universais. As trevas do ódio, da fome, a imigração/emigração que hoje ganha contornos dramáticos (por isso, ficou dito o seguinte na opinião de Vicente Jorge Silva: «Que Europa é esta onde seres humanos são reduzidos a gado – ameaçados de morrer no mar, assaltados por cães ou fechados dentro de cercas?») e da guerra saneiam a vida e todas as obras que a humanidade a custo procura «dar à luz».
João Magueijo, engendrou um conto interessante de um jovem que deseja escrever livros e publicá-los, por isso, vai para a cidade, «porque na cidade se encontra a luz». Mas na procura frenética para encontrar um título para o seu livro, encontrou um que lhe diz tudo e assim ficou sendo chamado o seu primeiro romance: «Dar à luz». O autor do conto remata finalmente o seguinte, concordando com o título criado pela sua personagem: «E, mais uma vez, esperaria que a luz singular das suas palavras cintilasse, por fim, sobre a cegueira universal». Eu também quero crer nisso mesmo.
Alexandre Melo mostrou como numa sala escura podemos ouvir a música e como podemos entrar na luz, mesmo que rodeados pelas mais densas trevas. A luz mais importante não é a exterior, mas a de dentro, a que vem de dentro e conduz depois para dentro. No interior descobre-se a luz verdadeira. Por isso, repare-se na beleza das palavras: «Viu que estava no interior de uma sala ricamente decorada. Olhou para o seu lado direito e a luz nascente permitiu-lhe distinguir, entre céus azuis, brisas verdes e suaves arvoredos, um casal de jovens enamorados contemplando uma carta e um outro rapaz que aliciava uma rapariga com a oferta de uma flor... À medida que a luz ia revelando a sala, percebeu que podia dar vida, cor e movimento a todas estas cenas e personagens». E da vida simples do quotidiano, pode nascer a mais rica e intensa luz. Basta procurar e deixar que dessas coisas da vida ecoem os brilhos de tudo o que existe de positivo, a luz. 
O Manuel Alegre mostrou que «Uma luz só luz». E em apenas uma luz descobrimos uma pequenina luz, que é «Uma pequenina luz» do poema de Jorge de Sena que dizia assim: «Uma pequenina luz bruxuleante e muda / como a exactidão como firmeza / como a justiça. / apenas como elas. / Mas brilha. / Não na distância. Aqui / no meio de nós. / Brilha». Depois percebemos todos com Manuel Alegre que esta «pequenina luz», era «em todas as línguas do mundo» a luz da esperança. E ainda acrescenta o autor de «Cão como nós»: «A mesma sobre que já tinha escrito Stephan Zweig, quando em plena guerra, nos dias do desespero e do opróbrio, prestou homenagem a Romain Rolland: «Este pequeno ponto luminoso, este astro delicado / a esperança / brilhava sobre os homens oprimidos». Não pode dizer mais, porque basta-me esta luz, a luz da esperança para sentir a vida e Deus tão perto do meu coração.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Espírito Santo é a luz interior que nos faz brilhar

A LUZ: a luz de Deus ilumina a vida e o mundo. Seguimos com a celebração da luz nas novenas de São Roque...
Quinta novena hoje na Igreja de São Roque às 20 horas
Novena da Água de Mel
Vamos seguir os dons do Espírito Santo para que façamos a descoberta da luz e os seus raios para que possamos brilhar na vida e no mundo concreto onde vivemos:
- A dom da Sabedoria é o dom que faz o cristão perceber, intuir e gostar das coisas espirituais. Sente deleite nas coisas de Deus e por isso começa a temer a Deus, a respeitá-Lo mais. Diz o salmo que o temor de Deus é o princípio da sabedoria.
- O dom do Entendimento é o dom do conhecimento, pois a pessoa consegue entender e conhecer aquilo que vai no coração e na mente das pessoas.
- O dom do Conselho: quem o possui consegue dirigir, orientar e aconselhar as almas para a sua própria salvação e felicidade. O dom do conselho que é dado pelo Espírito Santo não é inconveniente, interesseiro, não aconselha segundo a conveniência pessoal mas aconselha somente para o bem da pessoa.
- O dom da Fortaleza é também uma virtude. A virtude é um bem e um dom dado pelo Espírito Santo que diz "não" ao pecado, a uma boa proposta, à pressão social, a certas modas que prejudicam a vida espiritual do homem ou da mulher. O dom da fortaleza faz com que o cristão saiba resistir a certas influências sociais e não se deixe conduzir pela pressão do grupo social ou de amigos onde está inserido. Com este dom a pessoa mantém a sua personalidade, sendo aquilo que realmente é, conservando os valores cristãos.
- O dom da Ciência permite ao homem perceber e sentir, através da natureza e dos acontecimentos do dia-a-dia a presença e a linguagem de Deus.
- O dom da Piedade inclina o cristão à oração, ao louvor, à adoração, à contemplação; leva o cristão a sentir gosto pela oração, sentir desejo e gosto de estar com Deus, gosto em rezar e em falar com Deus através da oração.
- O dom do Temor de Deus leva-nos a ter consciência do bem e do mal e sabermos escolher sempre o bem para nunca estarmos contra Deus. Este dom está, em certa medida, associado ao dom da fé porque nos faz sentir e perceber que estamos na presença de Deus e, se estou na Sua presença, não quero pecar. O temor de Deus é um grande dom pois faz com que o homem faça tudo para não perder a graça de Deus, o Seu amor e a Sua presença. Por isso, o temor de Deus é o princípio da sabedoria.
Um exemplo de como podemos ser brilhar sempre…
Um cavalo que guia outro cavalo cego
Um proprietário agrícola tinha um cavalo de grande estimação. Certo dia, num acidente de viação, o animal ficou cego.
Muito desgostoso, não se desfez do cavalo. Comprou outro mais novo e fê-lo companheiro do mais velho. Ao pescoço do mais novo colocou uma sineta para orientar o cego.
Quando os cavalos caminhavam juntos para o campo ninguém percebia que um deles era cego. No campo distanciavam-se um do outro e o cavalo cego aproximava-se ouvindo a campainha.
Quando regressavam ao curral, o mais novo ia à frente e até olhava para trás para ver se o outro o seguia. O cavalo cego seguia-o com a certeza de que ia no caminho certo, para o lugar certo.
O Papa Francisco faz-nos o convite na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho) número 3: «Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de o procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada».

domingo, 9 de agosto de 2015

A luz do Evangelho de Jesus Cristo

Seguimos desenvolvendo a reflexão sobre a Luz nas Novenas de São Roque...
Quarta Novena: Novena dos Emigrantes
O Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à luz da alegria. Apenas alguns exemplos: «Alegra-te» é a saudação do anjo a Maria (Lc 1,28). A visita de Maria a Isabel faz com que João salte de alegria no ventre de sua mãe (cf. Lc 1,41). No seu cântico, Maria proclama: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1,47). E, quando Jesus começa o seu ministério, João exclama: «Esta é a minha alegria! E tornou-se completa!» (Jo 3,29). O próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo» (Lc 10,21). A sua mensagem é fonte de alegria: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15,11). A nossa alegria cristã brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus discípulos: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria» (Jo 16,20). E insiste: «Eu hei-de ver-vos de novo! Então, o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16,22). Depois, ao verem-no ressuscitado, «encheram-se de alegria» (Jo 20,20). O livro dos Atos dos Apóstolos conta que, na primitiva comunidade, «tomavam o alimento com alegria» (2,46). Por onde passaram os discípulos, «houve grande alegria» (8,8); e eles, no meio da perseguição, «estavam cheios de alegria» (13,52). Um eunuco, recém-batizado, «seguiu o seu caminho cheio de alegria» (8,39); e o carcereiro «entregou-se, com a família, à alegria de ter acreditado em Deus» (16,34). Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria?
Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. O Papa Francisco na sua Exortação Apostólica sobre «O Evangelho da Alegria» diz: «Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da acção evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?”. Com estas palavras da Evangelii Gaudium (n.8), o Papa Francisco evoca a nossa divinização, essa elevação que nos é concedida como um dom de Deus. Em Cristo descobrimos quem é a pessoa humana e qual a grandeza da sua vocação (cf. Gaudium et Spes , 22). Do encontro com Jesus nasce o desejo de partilhar essa alegria com os outros (cf. EG 3). O Papa Francisco convida-nos a “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (EG20).
Afinal, descobre-se que são tantos os momentos em que Deus vem para a nossa vida. Em cada gesto amigo e fraterno, está o reflexo do amor de Deus. Em cada sinal de partilha, Deus manifesta a Sua presença solidária. O acontecer de Deus está em todos os sinais onde o amor escorre. Daí Jesus se apresentar como "pão da vida", alimento que se enforma no coração, para ser vida que escorre pelas atitudes e palavras que dizemos uns aos outros. Daqui deriva o gesto mais nobre do ser cristão, levantar do chão quem caiu à beira do caminho, vergado ao sofrimento da solidão, da depressão, do desemprego, da incompreensão e da desgraça da pobreza que faz tantas vítimas.  
O cristão não deve temer nada e deve enfrentar toda a vida com a maior das liberdades. Porque viver toda uma vida cheio de medo e com desconfiança parece impossível, mas muitas vezes encontramos pessoas profundamente inquietas com o coração oprimido pelo medo e pelo desespero em relação ao futuro.
A alma vigilante é aquela que está sempre preparada, para a surpresa da chegada do amor de Deus. Assim, a vida torna-se saborosa para todos os que semeiam no terreno dos dias os valores que Paulo nos aponta e que o Papa Francisco equaciona desta forma: «A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem com o mal e sim vencê-lo». É deveras custoso, mas podemos acabar com o mal. 

sábado, 8 de agosto de 2015

Refeição espiritual

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
Estavam todos debaixo do fogo
à beira do caminho que vinha sem mais
de longe ante a admiração do rosto
que ao ritmo dos passos de alguns homens
se envergonhava das regras legais
mas sempre pensava nas letras viáveis
pois se não fossem as luzes confortáveis
e se nos dessem apenas o chão quente
éramos para sempre os maiores miseráveis.
Então nesse mistério rúbido e escarlate
nós ficamos para sempre a beber
o dom e o ar que as solenes mãos sacerdotais
serviram ao mundo e ao tempo a salvação
no banquete da visão perene sobre a água
que Deus encerra em cada coração.
José Luís Rodrigues

A luz de Deus

Terceira Novena
Novena da Quinta
Falar na luz de Deus é concentrar-se em Jesus que se apresenta deste modo no Evangelho: «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (João 8.12). Seguro é isto mesmo, Jesus é a luz do mundo, quem Nele acredita não ficará nas trevas.
Vamos então começar com um pensamento do Papa Francisco que diz assim: «Quantos desertos tem o ser humano de atravessar ainda hoje! Sobretudo o deserto que existe dentro dele, quando falta o amor a Deus e ao próximo, quando falta a consciência de ser guardião de tudo o que o Criador nos deu e continua a dar».
Jesus é a luz enviada pelo Pai não para condenar, mas para nos salvar. Luz que iluminou e continua iluminando através de todos os homens e mulheres seus discípulos e apóstolos de hoje, as nossas mentes, conduzindo-nos a seguir o verdadeiro caminho da verdade e da vida em abundância.
Essa luz é tão forte, penetrante e ofuscante que às vezes fugimos dela, para que ninguém veja a nossa maldade, presente na inveja, o no egoísmo, a na ganância por mais riqueza do que na verdade necessitamos. Por aqui compreendemos o ensinamento do Papa Francisco quando afirma o seguinte: «Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos». E vai ainda mais longe no desafio: «Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio» (Laudato Si, Louvado Sejas, Encíclica sobre a ecologia). Não compreender isto e não ser capaz de o levar à prática, é querer manter-se no escuro, é a fuga do essencial não se deixando iluminar pela luz de Deus.
Jesus é o mestre que veio iluminar a nossa mente e o caminho a ser seguido. Ele nos mostrou de várias maneiras que longe de Deus não há felicidade e que o sentido da vida para nós cristãos radica precisamente na luz do amor e da verdade que emana de Deus. Aqui podemos perguntar, como fazer? – Ele convidou-nos a segui-Lo, mostrou que Ele veio do Pai e que era o próprio Deus, para que acreditando Nele tenhamos a vida em abundância, a vida eterna. Parece fácil, mas não é. É antes um desafio que se renova em nós todos os dias da nossa vida.
No entanto, tudo isto acontece na maior e na mais firme liberdade em cada homem e em cada mulher, por isso, ainda hoje são muitos os que lhe dizem sim e muitos os que lhe dizem não. Este Deus respeita em absoluto a opção, a escolha e a decisão de cada um.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O bem atrai o bem

Segunda Novena de São Roque
Novena da Achada
Hoje somos convidados a seguir uma ideia belíssima apresentada pelo Papa Francisco. Está aí como três pilares para que sejamos instrumentos para que o bem aconteça para nós e para os outros. Diz Francisco: «As três linguagens do amor concreto: a linguagem da cabeça, a linguagem do coração e a linguagem das mãos. Tem que haver harmonia entre as três, de tal maneira que você pense o que sente e o que faz, sinta o que pensa e o que faz e faça o que sente e o que pensa. Isto é o concreto. Ficar somente no virtual é como viver numa cabeça sem corpo».
Assim é tanto que este lema faz todo o sentido: «VIDA VIVIDA NO BEM, ATRAI O BEM VIVIDO!». Neste sentido, somos chamados a viver construindo uma vida mais digna… por aqui podemos seguir esta luz, dê sempre o seu máximo onde quer que empregue as suas forças.
No trabalho, seja qual for a sua profissão, seja o melhor que puder, cumpra as suas responsabilidades. Não roube. Seja zeloso no cumprimento dos seus deveres. Não explore ninguém. Não insulte nem muito menos menospreze as capacidades dos outros.
Como empregado, seja amigo e ajude para ser ajudado, ouça para ser ouvido. Não descarte ninguém e especialmente esteja atento aos que mais precisam, porque limitados com qualquer deficiência. Aliás, não são deficientes como consideramos hoje de forma tão bonita, são especiais.
Se é empregador, dê o seu tempo a ajudar, a ouvir e a pensar no crescimento das pessoas e da economia como um todo, para que os lucros sejam canalizados para o bem comum. Mas, se antes está concentrado na ganância, na loucura dos lucros só para si e engana para obter mais vantagens passageiras pensando que ganha amigos de verdade, não esqueça que todos os processos da vida tendem a nos levarem a nos tornarmos donos daquilo que construímos. Por causa disso, Jesus preveniu no Evangelho, «juntai para vós tesouros no céu, onde a traça nem a ferrugem podem destruir, e onde os ladrões não arrombam e roubam. Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração» (Mt 6, 20-21).
E nos seus magníficos sermões o Padre António Vieira avisou: «Entre o conhecimento do bem e do mal há uma grande diferença: o mal conhece-se quando se tem e o bem quando se teve; o mal, quando se padece, o bem, quando se perde».
Pensemos no bem que proporcionarmos dando a cota que pudermos dar, ao amigo que pede auxílio. O maior milagre do mundo é este, ajudar uma pessoa a melhorar as condições da sua vida. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Chocante demais para ser verdade

Mais do que a ideia ser grave, é muito grave existirem escolas disponíveis para aplicá-la. Não serve este maniqueísmo a ninguém. Se renovação é isto, estamos falados. 
A escola não deve contribuir para a inclusão e não deve ensinar que a vida, o mundo e a sociedade se fazem com todos, bons e maus? Aliás, o que são pessoas boas e pessoas más? Não somos todos às vezes bons e à vezes maus? Que critérios irá presidir à escolha? Quem serão os juízes? As aulas serão umas para maus e outras para bons alunos? Haverá diferenças também de professores? - Um infindável conjunto de perguntas que me assiste neste momento. 
Outro dia escrevi esta frase que partilhei no facebook e que deu muito que falar: «É puro engano, considerarmos que o burro, o animal, não é inteligente. Há burros que progridem e revelam-se serem inteligentes, mas há inteligentes que ficam burros e nunca mais têm remédio». Não há pior forma de ensinar que é fazê-lo premeditadamente movido pela ideia de que diante de si estão bons e maus alunos, inteligentes e outro medíocres de inteligência. Por favor acabem com isto. 
Senhores professores, já dizia a Madre Teresa de Calcutá, leiam: «Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las». E ao lado desta frase descobri um texto de Augusto Cury que é fascinante. Um convite à reflexão de todos os educadores. Obviamente, que há-de imperar o bom senso e esta medida não deve ser levada para diante. A escola ser fomentadora de estigmas sociais pela metodologia da educação e formação das pessoas é muito grave. 
Ora por favor leiam com atenção... 
Filhos brilhantes, alunos fascinantes
«Bons filhos conhecem o prefácio da história dos seus pais. Filhos brilhantes vão muito mais longe, conhecem os capítulos mais importantes das suas vidas.
Bons jovens se preparam para o sucesso. Jovens brilhantes se preparam para as derrotas. Eles sabem que a vida é um contrato de risco e que não há caminhos sem acidentes. 
Bons jovens têm sonhos ou disciplina. Jovens brilhantes têm sonhos e disciplina. Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas, que nunca transformam seus sonhos em realidade, e disciplina sem sonhos produz servos, pessoas que executam ordens, que fazem tudo automaticamente e sem pensar.
Bons alunos escondem certas intenções, mas alunos fascinantes são transparentes. Eles sabem que quem não é fiel à sua consciência tem uma dívida impagável consigo mesmo. Não querem, como alguns políticos, o sucesso a qualquer preço. Só querem o sucesso conquistado com suor, inteligência e transparência. Pois sabem que é melhor a verdade que dói do que a mentira que produz falso alívio.. 
A grandeza de um ser humano não está no quanto ele sabe, mas no quanto ele tem consciência que não sabe. O destino não é frequentemente inevitável, mas uma questão de escolha. Quem faz escolha, escreve sua própria história, constrói seus próprios caminhos.
Os sonhos não determinam o lugar onde vocês vão chegar, mas produzem a força necessária para tirá-los do lugar em que vocês estão. Sonhem com as estrelas para que vocês possam pisar pelo menos na Lua. Sonhem com a Lua para que vocês possam pisar pelo menos nos altos montes. Sonhem com os altos montes para que vocês possam ter dignidade quando atravessarem os vales das perdas e das frustrações.
Bons alunos aprendem a matemática numérica, alunos fascinantes vão além, aprendem a matemática da emoção, que não tem conta exacta e que rompe a regra da lógica. Nessa matemática, você só aprende a multiplicar quando aprende a dividir, só consegue ganhar quando aprende a perder, só consegue receber, quando aprende a se doar.
Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, uma pessoa sábia vai além, aprende com os erros dos outros, pois é uma grande observadora. 
Procurem um grande amor na vida e cultivem-no. Pois, sem amor, a vida se torna um rio sem nascente, um mar sem ondas, uma história sem aventura! Mas, nunca esqueçam, em primeiro lugar tenham um caso de amor consigo mesmos».
Nota final: Espero ver um levantamento de professores de Religião e Moral se esta medida for para a frente, encabeçado pelos defensores acérrimos desta dama, que nestes dias se têm manifestado de forma acossada contra o singelo comentário que fiz no facebook sobre as aulas de Religião e Moral nas escolas públicas.

Luz e trevas do amor e do ódio

Hoje dia 6 de agosto damos início às novenas em honra de São Roque, na Paróquia de São Roque do Funchal. Será todos os dias até ao dia 14 às 20 horas, nos dias 15 e 16 haverá a festa em honra do padroeiro desta freguesia. Cada uma das novenas consiste no seguinte, primeiro haverá oração do terço às 19.30 horas e depois segue-se a missa solene às 20 horas com a respectiva invocação da novena desse dia. As reflexões este ano seguem o tema da LUZ, por ser o ano de 2015 o Ano Internacional da Luz. Em cada dia a homilia orienta-se por um subtema. O tema de hoje é o que acompanha o título desta reflexão: «Luz e trevas do amor e do ódio». No Banquete da Palavra, todos os dias irei tentar partilhar convosco uma pequena achega da reflexão da novena do dia. Depois das novenas como é habitual, haverá animação no adro da Igreja, não faltando música e barracas com comes e bebes típicos dos arraiais madeirenses. Todos estão convidados.
Novena da Alegria, Terça, Bugiaria e Igreja Velha:
Parece que o mundo gosta mais de trevas do que luz. São tantas as trevas que ofuscam a luz e que emana do ódio e da dimensão selvagem que habita cada homem e cada mulher. Deixar dominar essa dimensão gera tantas tempestades, tantas guerras, tantos crimes, tanta violência, tanta fome, tanta destruição, tantos milhões em campos de refugiados, tantos milhões de drogados, tantos milhões doentes de sida, tantos milhões sem emprego, tantos perseguidos por causa da sua religião, tantos desertos sem pão, sem amor, sem Deus.
Parece que o mundo (melhor, os homens e as mulheres que nele habitam) devia estar mais civilizado com o passar dos séculos, mais justo, mas fraterno, mais perto dos que sofrem, mais aberto à justiça, à partilha, a lutar pela felicidade, pela paz, pelo amor, afinal, a ser mais rápido a acender o interruptor de onde emana esta luz. Mas, tristemente, o mundo parece estar cada vez mais cruel, carnificina, raivoso de ódio, sedento de sangue derramado, destruidor de vidas, de casas, de culturas, de bens e riquezas históricas. Não pode ser este o mundo de Deus, não pode ser este o nosso mundo.
Por isso, há trevas densas que ofuscam o bem e a verdade, a paz e a justiça, a luz que deveria iluminar inteligências e corações. Trevas que sujam a vida, a honra, a dignidade. Trevas que impedem tantos de serem honestos, dignos e inundam a sua existência com o mal, porque se tornam corruptos, criminosos, ladrões e sem qualquer sombra de escrúpulos, assumem uma escalada desenfreada de luxo, opulência, violência, corrupção que chega a comprar e vender seres humanos e à matança em massa de aldeias e tribos. 
Dá uma dor de alma ver homens, mulheres e crianças que, fugindo à guerra, à fome, à tortura, compraram um lugar num navio para virem para outro lugar mais seguro, no sul da Europa, onde tivessem aconchego, pão para o estômago e sorriso nos lábios, e a meio do Mediterrâneo foram deitados ao mar e quase todos morreram afogados. Custa pensar nas dezenas ou centenas de cabeças decepadas e penduradas em fios elétricos, numa violência atroz, em genocídio ignóbil e vergonhoso.
Mas há luz no meio destas trevas densas de mal, de pecado, de crime. Começamos hoje a celebrar as novenas em honra de São Roque, que nos preparam para a sua festa na nossa Paróquia nos dias 15 e 16 deste mês de Agosto. Ele é luz nos caminhos do mundo, é refúgio e exemplo de que podemos ser cristãos a sério cuidando dos outros como nossos irmãos contra as investidas do rancor e do ódio. Ele é o exemplo seguro de que o amor de Deus triunfará.

Os divorciados não estão excomungados

O Jesus que passa saúda, cumprimenta, acolhe, cura, perdoa e aceita convite para entrar na casa dos piores da sociedade. Vemo-lo com Madalena, a prostituta; com Zaqueu, o publicano (cobrador de impostos), o centurião romano, com os pobres, com os doentes (leprosos, cegos e endemoninhados). Uma série de gente de quem o Evangelho nos dá conta. Ao lado ficavam na sua os fariseus, que Jesus chamará de hipócritas, túmulos caiados, raça de víboras… Porque se mantinham na doutrina, intransigentes ao pé da letra e agarrados ao poder que dominava impondo fardos pesados aos outros, os quais eles não eram dignos de lhes tocar sequer com a ponta de um dedo.
Resumidamente, é este o ambiente do Evangelho do Jesus que passa. Hoje o Jesus que passa está em cada homem e cada mulher que pautam as suas vidas pela compaixão, pela verdade e pela justiça. Sabem desde o primeiro momento quando descobriram o Evangelho que passar ao modo de Jesus é saber ver a realidade tal como ela se apresenta e nela reparar que há pessoas que sofrem, que morrem, que são marginalizadas, excluídas da comunhão ou friamente descartadas porque algo falhou nas suas vidas. Por causa das tricas e laricas relacionadas com o matrimónio, há uma multidão enorme de divorciados da Igreja, excluídos ou que se auto excluíram ou porque foram postos aí fora da mesa do pão da salvação, porque alguém tinha uma doutrina que aceita só puros. Tudo ao contrário do Evangelho, que não se inibe de ensinar que quem mais precisa é quem está doente. Até porque claramente Jesus se apresenta para os manchados, os pecados e contra os considerados salvos, puros. Não serve andar com Deus na boca e o diabo no coração.
Tudo isto vem a propósito do pronunciamento do Papa Francisco ontem na Ala da Sala Paulo VI no Vaticano sobre os que se divorciaram no matrimónio e que alguma Igreja Católica imediatamente os divorciou da comunhão. Disse o Papa Francisco que os divorciados que se voltaram a casar «são parte da Igreja e não devem ser tratados como excomungados».
Pode ser que o Sínodo marcado para Outubro deste ano da graça de 2015, pejado de altos dignatários eclesiásticos (cardeais e bispos de todo o mundo) venha a dizer o contrário e até votarem contra isto como fizeram comodamente os «pilatos» dos bispos portugueses, que se esconderam por detrás de votos sobre questões que se deve tratar com toda a transparência e lealdade. A família não pode ser objecto de votos. É o que é e ponto final.
Porém, se o Sínodo decidir o contrário daquilo que o Papa já afirmou cai em saco roto, ninguém ligará patavina, a não ser os eternos fariseus que antes preferem fixar-se na segurança da doutrina e na letra da lei, contra os ventos do Espírito Santo que sopra livre com o discorrer do tempo, da vida e do mundo.
Ontem será um dia histórico e marcou este dia o Papa Francisco, porque ele é Jesus que passa, encolhendo os ombros compassivos diante dos fariseus que ficam. Por nós, preferimos seguir o Papa Francisco e faremos tudo para que a luz da misericórdia e do amor de Deus esteja com todos para que ninguém se sinta descartado ou excluído da salvação.
Esperemos então que toda a Igreja, especialmente, aquela que lida com o concreto das pessoas, tenha em conta esta palavra do Papa. Até porque vem sendo hábito na Igreja que a palavra do Pontífice marca o ritmo dos tempos pastorais. Senhores cardeais e bispos, esperemos que este pronunciamento do Papa seja «palavra da salvação». Não fora ele a «Sua Santidade», como gostam tanto de referir quando fazem as vossas homilias e discursos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A emigração tem muito que se lhe diga

A RTP- Madeira, em reportagem do Clube de emigrantes Venezuelanos lá para os lados do mijadeiro em São Martinho, chamou ao microfone para botar palavra o seu inefável líder Olavo Manica com esta tirada: «Eu penso que a emigração nos enriquece». Tomara que sim. 
Mas pelo que vejo daquela emigração dos anos 60/70 não me parece que assim seja tanto. Alguns regressam iguais ou piores e com a mesma ideia de que a Madeira devia ser pobre e eles endinheirados. A Madeira devia ser católica ainda com mantilha na cabeça das mulheres e o terço na mão, mas as suas mulheres não. Esses «ricos emigrantes» vêm ansiando ver as paisagens da Madeira ainda a preto e branco como era quando eles de cá se piraram com vontade de enriquecer, não com sabedoria, mas com dinheiro. Pelo amor de Deus. A emigração é a última hipótese, o último recurso que sobrou a tanta gente que tem que sair para encontrar trabalho para ganhar dinheiro para matar a fome. A emigração é um caminho doloroso para as famílias que vão e para as que ficam. A emigração quando é um mal necessário é a evidência mais concreta para avaliarmos o quanto estamos mesmo pobres.
Pensamos só um pouco no drama desta onde de emigrantes que batem às portas da Europa, onde encontram líderes europeus energúmenos, que lhes chamam nomes feios e erguem muros altos para que a «praga» não entre. Viria dos seus países de origem toda esta gente arriscando a vida, se tivessem condições adequadas de desenvolvimento, segurança e paz? - Claro que não. É a pobreza, a insegurança, a falta de trabalho, a corrupção e todas as desgraças que a humanidade provoca a si própria que faz levantar os povos para a emigração.
A emigração enriquece quando as pessoas são bem recebidas nos países para onde foram, já vinham qualificadas ou então se procuram qualificar-se minimamente mediante as propostas para tal que os países eventualmente ofereçam. Mas se vão unicamente para encher os bolsos à conta de falcatruas e negócios escuros, a única riqueza que se pode falar é dos bolsos.   

Quando a rádio é uma escola


Uma das minhas primeiras paixões, foi sem sombra de dúvida a rádio. À luz da lanterna a petróleo escutava atentamente os parodiantes de Lisboa, as radionovelas, que delas guardo ainda na memória toda a aquela dicção perfeita das palavras bem pronunciadas e toda a graça que daí advinha para aquecer os dias sombrios e mergulhados na mais densa saudade inquietante. Aí na profundidade das cerejeiras ora cheias de folhas ora feitas pau seco a se prepararem para o novo ciclo dos frutos vermelhos, ouvia rádio nos tempos que sobravam entre o roçar da erva para alimentar as cabras e a lenha que se buscava pelas serras dentro para fazer o fogo debaixo das panelas para cozinhar os alimentos. Esse ambiente alegrava-se com rádio, que me ensinava que havia um mundo grande para se conhecer, havia música por todo o lado e não podia faltar pessoas importantes ligadas a todos os ramos da existência para partilharem o seu saber e a sua experiência. A Rádio foi para mim a minha primeira escola e logo depois os livros emprestados pela biblioteca itinerante da Gulbenkian. Bom, mas por tudo, um muito obrigado à Rádio Antena 1 por tudo o que fez despertar em mim e pelo que me sugeriu para eu procurar nas encostas do mundo e da vida. Parabéns à Antena 1 pelos seus 80 anos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A irresponsabilidade da Europa e a dureza das nossas sociedades

Eis uma possível legenda para a imagem seguinte do público de hoje:
o que vemos? - Vemos que sobra a fé para aliviar o drama. Que Deus lá no alto proteja todas as pessoas que são vítimas da loucura humana e se vêm obrigadas a ter que deixar o seu espaço para andar à deriva pelo mundo, onde o que tem de mais certo não parece ser mãos amigas que acolhem, mas dentes afiados para lhes devorar a carne e a alma.
A saga dos migrantes continua. As políticas cegas e as bacoradas de alguns líderes europeus nada resolvem. Não ouvem ninguém. Não se importam com as chamadas de atenção e os alertas do Papa Francisco. Limitam-se a empurrar para frente, a levantar muros e a fazer de conta que não têm responsabilidades nenhumas com a situação de miséria em que mergulharam os países de origem dos migrantes. O Editorial do Público de homem coloca o dedo na ferida e faz uma longa reportagem sobre este problema que deve deixar-nos a todos inquietos e preocupados face a este drama. Aconselho vivamente a leitura do Editorial do Público e todo o trabalho que a edição do dia 2 agosto nos dava conta. Podem ler o EDITORIAL AQUI e a REPORTAGEM TAMBÉM AQUI.
E como tudo isto nos deve fazer pensar: «Quem procura entrar na Europa são sobretudo populações vítimas de conflitos graves ou de políticas de pura pilhagem dos recursos dos respectivos países. Muitos deles tinham casa, emprego, bens, não andavam a pedir nas ruas de Trípoli ou nas planícies da Eritreia»… «Muitos destes migrantes também estão ligados ao velho continente por séculos de passado colonial e até por isso a Europa tem responsabilidades para com eles. Não pode lavar as mãos como Pilatos. Mas a quem não consiga ver além dos seus próprios interesses, talvez seja útil pensar nas consequências de tanta cegueira. Os muros acabam por ser derrubados. Mais cedo ou mais tarde».
Destaco o pronunciamento do pastor de Trevor Willmott da Igreja de Inglaterra, cuja paróquia inclui os 30 quilómetros de mar que separam os dois países, criticou a «falta de humanidade e compaixão» do Governo. «Tornámo-nos num mundo cada vez mais duro, e quando nos tornamos duros uns com os outros e esquecemos a nossa humanidade acabamos nestas situações de impasse», disse Willmott, numa entrevista ao semanário Observer.