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segunda-feira, 30 de abril de 2012

“O mal é a ausência do homem no homem.” [Eugénio de Andrade]

Frei Bento Domingues, Funchal 26 Abril 2012

Pelos anos 60, os novos titãs entraram pelas vinhetas da Banda desenhada com o mesmo vigor do medo com que a Humanidade se munia face a essas longínquas, remotas, mas ameaçadoras possibilidades. Entretanto, o “progresso” foi gerundiva, mas velozmente, sendo edificado e, da ficção, a uma suposta realidade tem sido um passo bem curto. As implicações sociais, culturais e, infelizmente, também, económicas e financeiras, da crescente automatização do mundo têm marcado as sociedades com traços de paradoxal retrocesso e carecem, muito gravemente, de reflexão e de análise, mas e sobretudo, de acção. Num ápice, está o mundo a discutir o que, actualmente, se designa por “pós-humanos”. Trata-se de um de um novo campo de reflexão que, em breves e nada profundas palavras, discute a “redefinição” do conceito de humano, uma re-escrita – versão século XXI – do homem e das suas circunstâncias actuais. Esta questão não se encontra isenta de polémica sendo que as suas principais vozes não “aprovam” esta designação que, em certa medida, tem contribuído para “manchar” a natureza dos pressupostos epistemológicos que subjazem à mesma.
Numa recente palestra, na paróquia de São Roque, no Funchal, Frei Bento Domingues proferiu a afirmação que reproduzo em epígrafe e que nos interpela para o lugar de onde olhamos o mundo, onde nos posicionamos e que ideia projectamos do ser que somos [passe a redundância]. A propósito do Concílio Vaticano II, Bento Domingues desenvolveu uma reflexão acerca do quanto, implicitamente, falta cumprir de humanidade, neste mundo de [des]harmonias várias, de contrassensos e paradoxos que acentuam as diferenças e que reduzem – dramaticamente – o número de “obsequiados”. Relembrando que João Paulo II tantas vezes se insurgiu contra o neo-liberalismo a que apelidou de “loucura”, este frade que faz da sua postura na vida uma homenagem ao título que ostenta, fez carregadas referências ao papel da mulher na sociedade actual. Os oxímeros deixaram de ser tropos assim que este tema passou a designar uma semântica de retorno a um passado que já não tem sentido, nem como resquício, e que persiste em ser utilizado como argumento de uma suposta feminilidade associada ao exclusivo exercício de tarefas domésticas. Creio, até, que terá abordado, consciente e “descaradamente”, a questão dos próximos tempos no que respeita à instituição Igreja Católica que teima em entender as mulheres e o seu contributo à sociedade apenas na qualidade de “virgens piedosas” ou como “mães e esposas devotas”. Nada disto seria – em si mesmo – errado se não fosse redutor e manipulador. Esses papéis, sem dúvida relevantes, não podem ser considerados os únicos. Sobretudo se não forem opção das próprias. Diante de um mundo que acentua diferenças e agrava as condições da maioria da sua população, discutir os homens no âmbito de um qualquer pós-humanismo parece, aos olhos de Bento Domingues, despropositado. Para ele, como para o grande poeta Eugénio de Andrade, falta realizar o Homem: “É possível que só as árvores tenham raízes, mas o poeta sempre se alimentou de utopias. Deixe-me pois pensar que o homem ainda tem possibilidades de se tornar humano.”
Do Concílio Vaticano II falta, ainda e também, realizar essa humanidade de dentro da Igreja e cumprir o sonho revolucionário de João XXIII. É que – como refere este religioso – os textos emanados desse encontro cabem todos, em papel bíblico, na palma de uma mão. Mas é necessário que se expandam em acção pelos povos. A extensão desse passo poderá significar um profundo contributo de uma religião que se terá fechado demasiado em instituição. A Igreja, relembrou Bento Domingues, deixou de ser edifício [no sentido físico do termo, claro], para tornar-se no conjunto de cada um e de todos quantos se unem no propósito comum de realizar os desígnios legados por Deus através do seu Filho.
Lição de humanidade, vinda de dentro, esta a que pudemos assistir. Afinal, o que falta cumprir do Concílio que referimos e que foi tema da palestra é mesmo muito simples: é a mensagem e o exemplo completamente revolucionários de um homem que ousou desafiar os cânones, as barreiras e as hipocrisias. Disse Bento Domingues que, aquando da morte de Cristo, ficaram apenas as mulheres, as únicas que acreditaram que algo ia suceder e que ele iria “regressar”. Os homens foram todos embora. Da homenagem a Maria Madalena fica, igualmente, este registo no que consubstancia uma forte mensagem para o que se designa como “século das mulheres”.
Escutar Bento Domingues é viajar pelo coração de um inconformado, de um fervoroso crente que olha o mundo com os mesmos olhos do seu mestre e que sofre com as lágrimas que os povos derramam numa terra que nem sempre sabem amar. Este peregrino que os anos vão curvando, caminha cada vez mais perto da essencialidade, cada vez mais perto de nós. Escutar este frade é confrontar-nos com as nossas inquietudes, com as nossas grandezas e misérias – é escutar a nossa consciência – e saber que a nossa voz não nos trai.
[Notas muito pessoais:
Quando nos despedimos, entre votos de felicidades, Frei Bento Domingues encostou a sua testa à minha e disse-me com ternura: “agora ficamos amigos”. De lágrima ao canto do olho, a mesma que teima em insinuar-se nestas linhas, confesso que senti uma bênção especial que me invadiu de carinho, em suma, que me encantou.
Uma palavra de gratidão e de amizade infinda ao amigo e Padre José Luís Rodrigues que teve a amabilidade de convidar-me para apresentar Frei Bento Domingues nas duas palestras que proferiu, proporcionando-me, assim, momentos de inesquecível e muito saborosa paz.]

Ana Maria Kauppila, in Polis... Palavras no tempo...

2 comentários:

AnA disse...

Agradecer estes momentos de pura benção é muito pouco. Mas a finitude das palavras é essa e, por isso, agradeço. No entanto, faço-o com a certeza do que sente o coração. Um abraço amigo e fraterno. ana maria k

José Luís Rodrigues disse...

Ana, as palavras são sempre uma curta aproximação do que vai dentro... Mas, deixe que lhe diga, sua reflexão é muito interessante e toca no essencial da mensagem do Frei Bento. Parabéns. Bem haja.