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domingo, 25 de agosto de 2013

Milagres self-service

Texto de opinião, Sinais dos Tempos, Diário de Notícias do Funchal, 25 de Agosto de 2013...
 Os cristãos da Idade Média viviam permanentemente em busca de milagres e dispostos a identificá-los em qualquer fenómeno extraordinário. Aqueles que os realizavam eram considerados santos. Quanto aos simples fiéis, os milagres que esperavam dos servos de Deus eram, sobretudo, curas, que consistiam em devolver a paz de espírito aos possessos, fazer caminhar os coxos, fazer ver os cegos… Estes eram então os principais critérios de santidade.
O mal físico tal como o pecado é obra do diabo, a cura miraculosa só pode vir de Deus. Ora se embarcamos nisto, ficamos muito pobres e quiçá somos profundamente injustos, porque a santidade fica reservada a uns iluminados/privilegiados e os outros, a maioria, condenados a serem uns diabos sem cura nenhuma. Não entendo isto, por mais exercício que faça à minha cabeça. Neste âmbito considero que devemos acolher a vida como ela se nos apresenta, mesmo que sejam fortes o sofrimento, a limitação e toda a injustiça que às vezes ela nos oferece. Mas, acreditamos que a sua plenitude nos está reservada, não sabemos quando e como. Este crer faz parte da «santidade» que a fé nos revela como qualidade que todas as pessoas podem alcançar, mesmo que não seja já aqui e agora, mas um dia quando Deus no seu imenso amor o revelar em toda a Sua Grandeza. 
Se nos dedicamos à «caça» de milagres então vale tudo, até chegar à bruxa, ao prestidigitador, ao padre, ao pastor, grupo religioso ou outro, que por artes mágicas se dedica a fabricar remédios, gestos, sinais e todas as manifestações esotéricas que abundam por aí para alcançar curas, exprimir vinganças e todo o género de desejos que germinam no coração humano como cogumelos. Assim sendo, esquecemos o quanto é necessário descobrir a dimensão do mistério que nos envolve, contemplar e acolher isso é o grande desafio da nossa vida neste mundo. Porque se não conseguirmos realizar esta tarefa, então como acolheremos o sofrimento e toda a injustiça que esta vida acarreta? Como conviveremos com a doença incurável, com a morte de crianças inocentes, com as desgraças de tantas vítimas que este mundo sempre implica de forma tão cruel e injusta? Como se compreende a fome, a guerra e todas as manifestações humanas que existem em todos os tempos e em todos os lugares do mundo? Porque não há um milagre que faça desaparecer todas as misérias? (…).
Apresentar e crer num Deus milagreiro será para nós uma tragédia e uma forma de limitarmos o que Deus é. Deus oferece o «único» milagre, o da Vida com tudo o que este tesouro implica. Depois, somos nós, humanidade, que sob a sua proteção e cuidado realizamos todas as condições para que a vida seja possível com dignidade e felicidade. O que é nosso fazer não pode nenhuma divindade tomar para si nem nós podemos descartar o que é nossa responsabilidade.
Nós, contemplados com o «único» milagre, o da vida, e uma vez sendo a obra-prima da criação, à humanidade cabe zelar pelos outros seres sob a sua responsabilidade, para tanto é necessário que ela aprenda a viver em comunidade, trabalhando, visando não só o seu bem-estar, mas o do Todo e o de todos.
O que necessitamos, é que nos coloquemos ao serviço da vida e com ela acolhemos a transcendência, para que sejamos fortes e corajosos para aceitar as limitações, problemas, dificuldades, inquietações e perplexidades da vida material. E sempre com esperança e fé nessa dimensão da existência, lutamos justamente contra a carência de transcendência, que se manifesta no apego aos bens materiais explícito no alto índice de criminalidade, no escandaloso crescimento do tráfico e consumo de drogas, nos casos cada vez mais comuns de gravidez na adolescência e no abandono dos filhos, no crescente número de tráfico de pessoas, no grande aumento da prostituição e nos casos cada vez mais absurdos de corrupção, na fome e na guerra… É contra tudo isto e contra tudo o que não eleva a vida para o bem e a felicidade, que o «milagre» da vida nos chama a lutar.

1 comentário:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

A mensagem de Cristo foi atestada por grandes milagres que fizeram o povo acreditar, mas ainda assim os políticos mais espertos conseguiam confundir os mais simples levando-os a gritar:
- À morte...à morte com o Rei dos Judeus...
A Fé tem de ser interior e sólida.