Convite a quem nos visita

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A metáfora da vinha

Comentário à missa do domingo V do Tempo Pascal, 3 maio de 2015.
O desafio é esse mesmo, que sejamos capazes de fazer frutificar a vida no amor perante as pessoas mais difíceis, os lugares piores do mundo e as situações mais complexas da vida. Nesta ordem de ideias podemos deduzir, que devemos então, nós cristãos, ser uns ingénuos coitados que aceitam tudo e todos com uma subserviência inocente, como se «gostássemos» de sofrer? - Esta visão dos cristãos está completamente errada. O que nos manda Jesus é que sejamos capazes de dar frutos de salvação para todos, mesmo que isso nos custe a vida e, eventualmente, o preço do bem tenha que ser passar por alguma contrariedade que faz sofrer.
Cada pessoa é como é e não se lhe pede que seja de outra forma para que existam os frutos do bem. A glória do amor que agrada a Deus passa pela sua total entrega e não pela vivência normal do amor, isto é, amar os que nos são próximos é muito fácil, os pais, a esposa, o esposo, os irmãos de sangue, os amigos e todos os que nos interessam por qualquer razão. A glória do amor está muito para além das facilidades. Os contextos mais difíceis do mundo são os melhores lugares para fazer frutificar o amor. Por isso, diante da tragédia, deve prevalecer o amor, perante a ganância, a injustiça e toda a violência contra a integridade física, espiritual, cultural e psicológica deve prevalecer sempre o amor... Nada de extraordinário, se pensarmos que é isso que Deus tem feito desde sempre em relação à humanidade.
Deste modo, primeiro que tudo, devem estar no nosso coração todos os que a vida nos ofereceu como membros de família, do trabalho e todos os que o nosso olhar cruzar nas veredas da vida. Mas, depois devemos dar frutos de amor, com obras concretas, em todos os momentos onde a reconciliação seja premente e em todos os lugares onde os caminhos do ódio se tornaram mais evidentes.
A esta forma de vida não se chama ingenuidade doentia, mas disponibilidade para centrar a ida na felicidade pessoal e dos outros. Mas como entender isso? - Perguntam tantos cristãos em todo o mundo…
Tenhamos em conta logo que não devemos aceitar todas as patetices e asneiradas da humanidade, mas somos chamados a acolher, compreender e perdoar. O fruto do amor que Jesus nos manda viver como elemento essencial do Seu Reino passa pela entrega ao serviço dos outros e pelo acolher a todos como irmãos. É este o maior desafio da religião cristã.
Ninguém deve sentir-se inibido perante o dom maravilhoso da vida e deve cada pessoa procurar conduzir os passos e as opções para o sentido do amor que salva e liberta da escravidão do desespero. E para que esta realidade aconteça, é muito importante que não se reduza o amor a palavras ou frases muito bonitas, mas prática concreta, obras sinceras que promovam a justiça e a paz para todos à nossa volta.
Hoje é o Dia da Mãe. Que todas as mulheres que são mães se sintam abençoadas com a dádiva do amor de Deus que se reflecte nos filhos que geraram para o mundo. São o expoente máxima na criação de Deus. Aliás os seus principais instrumentos.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A renovação do tira um mete o outro

Podem ler AQUI a notícia aberrante do dia...
No diário de Notícias online está o seguinte título: «Miguel Albuquerque assina 'Discurso Directo' no DIÁRIO». A renovação é isto, tira um/uns e põe outro/outros?
Ora vejamos o caso. Numa terra de bilhardice como é a nossa, onde todos têm opinião sobre tudo, fechados dentro de casa ou na rede pequenina de amigos, salta à vista que o governante principal da ilhota tenha que assinar uma coluna de opinião quinzenal para opiniar sobre o que vai fazendo em termos governativos.
Por favor, poupem-nos deste filme. Não bastou que anos e anos o Jornal da Madeira tenha sido instrumentalizado pelo poder político desta terra de uma forma tão repugnante, aliás, coisa sobejamente criticada pelo Diário de Notícias do Funchal. E agora presta-se a mais do mesmo com outros figurinos. Só mesmo nesta terra onde já se pode ver a tão propalada «renovação» em forma de elefante a andar de bicicleta pelos ares.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Porque a renovação do Papa Francisco não pode parar

«Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (Mt 20,16).
«Aos pobres os lugares de honra do concerto no Vaticano», ordena o Papa Francisco
As reformas do Papa Francisco continuam imparáveis. Assim se vai fazendo o caminho com verdade e consistência evangélica. Aconteça o que acontecer, muita coisa jamais será como antes. Não pode ser, porque a semente da mudança rebenta pujante perante o coração da humanidade. Deus não é propriedade de ninguém, veio para todos e todos são convocados para a mesa do banquete do amor. Não há maior reforma do que esta que o Papa está a fazer… E com ela envergonha meio mundo dentro e fora da Igreja. O quanto deve doer ao mundo que «produz pobres» este exemplo que faz dos pobres os protagonistas da história...
O concerto, intitulado «Com os pobres e para os pobres», vai ocorrer quinta-feira, dia 14 de maio, na Aula Paulo VI. Ou seja, naquela mesma Aula onde aos 22 de junho de 2013 se consumou um pequeno incidente. Num concerto organizado para o ano da fé, Francisco, no último momento, não foi ao evento, por «motivos improrrogáveis», a sua poltrona ficou vazia todo o concerto.
Sob a batuta do maestro Daniel Oren sob ao palco a Orquestra Filarmónica Salertiana «Giuseppe Verdi» e o coro da diocese de Roma dirigido por monsenhor Marco Frisina. Fá-lo-ão para manter as obras de caridade do Pontífice, com o patrocínio da secretaria apostólica de esmolas, do pontifício Conselho da Cultura para a Nova Evangelização e pela fundação São Mateus do cardeal Van Thuan.
Os bilhetes de ingresso serão gratuitos, mas a todos os presentes, lê-se no convite, «será dada a possibilidade de contribuir com ofertas voluntárias que serão integralmente devolvidas ao Setor de Esmolas».
Os sem-teto são os hóspedes ilustres do evento. Serão convocados através de associações de voluntariado que operam no território: a Caritas diocesana de Roma, o Grande Priorado de Roma, a delegação de Roma do Soberano Militar Ordem de Malta, o Círculo São Pedro, a Comunidade Santo Egídio e o Centro Astalli.
Explicam os organizadores: «Ocuparão na Aula os postos de honra e, junto a eles, segundo os ensinamentos do Papa, serão convidadas famílias, anciãos e jovens de todas as paróquias romanas, em particular aqueles que nas periferias da cidade vivem em pobreza material e espiritual com o augúrio de que para eles, como para todos aqueles que participarem, esta tarde festiva represente uma semente de confiança e de esperança para o futuro». 
Mais uma vez o Papa mostra a toda a Igreja e ao mundo, que desmoronaram os castelos e que Vaticano não é um castelo reservado à elite, turistas, fiéis ou curiais que sejam. É a casa de todos, o centro de uma Igreja sinodal no governo, mas também em sua essência. Já há poucas semanas o Papa havia aberto as portas dos museus e da capela Sistina a uma visita privada reservada aos sem-teto. E assim ele faz no próximo dia 14 de maio, quando aquela Aula, onde até a algum tempo ocorriam concertos com lugares reservados aos poderosos e 'auto blu' incorretamente estacionados na Praça São Pedro, se abre aos necessitados que vivem sob as colunatas de Bernini, os pórticos da via della Conciliazione, as ruas de Burgo Pio.
 Baseado na notícia do «Instituto Humanitas Unisinos» 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Uma ternura espantosa

As crianças são a imagem mais fidedignidade de Deus…
O Papa recebeu em audiência, nesta segunda-feira (27/04), no Vaticano, a Rainha Sílvia da Suécia, acompanhada por alguns familiares e pela comitiva real.
Sua Majestade informou o Papa sobre as atividades que ela promove na Suécia em favor das crianças. O Papa aproveitou a ocasião para manifestar a sua gratidão pelo acolhimento oferecido pela Suécia aos refugiados e deslocados. 

sábado, 25 de abril de 2015

abril das águas mil

Para o nosso fim de semana. Sejam sempre felizes sem prejudicar ninguém. 25 de abril sempre...

Isso mesmo onde se escreveu na água em abril
a liberdade tecida nas malhas do pensamento
de um povo oprimido sem pão em todas as idades
que testemunhavam as casas sem luz primaveril
além da obscuridade negra e branca do sofrimento
estampada na paisagem sombria e feia das cidades. 
Veio abril...

então soaram os cravos enfeitando os canhões
e as armas dos homens que gritavam covardia
calaram as balas a libertação do tempo naquele dia
quando se viu um povo solto em jubilosa alegria. 
E veio a esperança depois...

de ser feito o caminho de água revolta ademais
semeou-se o sonho e o desejo sempre novo
para um país de todas as horas onde se plantasse
a felicidade como flores nos canteiros dos beirais. 
E no entanto o povo...

passado o tempo desse abril de bravos
nem tudo são rosas nem muito menos cravos
são também ainda a dureza da fome
parida pela desigualdade escandalosa
que os verdugos do tempo lhe dão o nome
e acarinham como se fosse dádiva saborosa.
Diante de vil necessidade...

precisamos de gente grande na palavra
que se anuncia justiça fermento honestidade
da massa que no silêncio humilde
constrói vida nova pela coragem da verdade
da paz enorme que o sorriso da criança
contagia pelas artérias da liberdade. 
E renovo o propósito...

hoje chove a angústia e sopra o vento do sofrer
não preocupam as palavras cínicas
bem vestidas nos corredores do poder
são sinal dos tempos e doença
- ai como dói o troar pensado da indiferença.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Um consolo para os tempos da crise

Crise? Qual crise?!
A língua portuguesa continua rica...
A crise...
Os padeiros não têm massa
Os padres já não comem como abades
Os relojoeiros andam com a barriga a dar horas
Os talhantes estão feitos ao bife
Os criadores de galinhas estão depenados
Os pescadores andam a ver navios
Os vendedores de carapau estão tesos
Os vendedores de caranguejo vêem a vida a andar para trás.
Os desinfestadores estão piores que uma barata
Os fabricantes de cerveja perderam o seu ar imperial
Os cabeleireiros arrancam os cabelos
Os futebolistas baixam a bolinha
Os jardineiros engolem sapos
Os cardiologistas estão num aperto
Os coveiros vivem pela hora da morte
Os sapateiros estão com a pedra no sapato
As sapatarias não conseguem descalçar a bota
Os sinaleiros estão de mãos a abanar
Os golfistas não batem bem da bola
Os fabricantes de fios estão de mãos atadas
Os coxos já não vivem com uma perna às costas
Os cavaleiros perdem as estribeiras
Os pedreiros trepam pelas paredes
Os alfaiates viram as casacas
Os almocreves prendem o burro
Os pianistas batem na mesma tecla
Os pastores procuram o bode expiatório
Os pintores carregam nas tintas
Os agricultores confundem alhos com bugalhos
Os lenhadores não dão galho
Os domadores andam maus como as cobras
As costureiras não acertam as agulhas
Os barbeiros têm as barbas de molho
Os aviadores caem das nuvens
Os bebés choram sobre o leite derramado
Os olivicultores andam com os azeites
Os oftalmologistas fazem vista grossa
Os veterinários protestam até que a vaca tussa
Os alveitares pensam na morte da bezerra
As cozinheiras não têm papas na língua
Os trefiladores vão aos arames
Os sobrinhos andam "Ó tio, ó tio"
Os elefantes andam de trombas...
 
SÓ OS POETAS CONTINUAM COMO SEMPRE...  TESOS MAS MARAVILHOSOS! 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Somos todos filhos de Deus

O Bom Pastor
Comentário à missa domingo IV Tempo Pascal, 26 abril de 2015 
O 4º domingo da Páscoa é considerado o «domingo do Bom Pastor», neste preciso domingo a liturgia propõe uma passagem do capítulo 10 do Evangelho de São João, no qual Jesus se apresenta como «Bom Pastor». Este é o tema central para a nossa reflexão e celebração neste dia.
O mais importante é que com esta ideia do «Bom Pastor», sentimo-nos todos filhos de Deus. Esta filiação radica em Jesus, que veio ao mundo para realizar a obra maior da história humana. Nós, humanidade englobada neste processo, somos agora membros desta grande família de Deus. Os filhos de uma fraternidade que marcha a partir do Deus revelado por Jesus Cristo e que caminha na História em direcção à eternidade que se encontra na «casa» deste Deus. Por mais desgraçados que sejamos, não somos órfãos nem muito menos «filhos das varas verdes», mas filhos no Filho do Deus revelado na história humana.
Nós precisamos e é bom que nos digam sempre que somos filhos de Deus. A solidão que o sofrimento desta vida provoca precisa de uma palavra que nos anime na esperança de uma realidade consoladora a partir de um Deus que nos ama como seus filhos.
Por isso, São João desafia-nos a estender os braços, como faz o Bom Pastor com as suas ovelhas, a todos os recantos da vida. Onde a doença consome a vida e debilita o corpo, podemos aquecer o coração dessas vítimas com a nossa palavra de esperança e tocar bem fundo com esta certeza, o nosso Deus é um Deus Pai-Mãe da humanidade inteira e ama de modo especial todos aqueles e aquelas que experimentam a dor como alimento desta vida.
Podemos nós lutar contra a injustiça, que o nosso mundo alimenta e dá como alimento a tantos irmãos nossos. A nossa filiação divina devia encorajar-nos e escandalizar-nos contra tudo o que não promova a vida em todo o seu esplendor. Tudo o que seja contra a felicidade devia receber de nós uma luta constante.
Somos filhos de Deus e nesta condição devemos estar atentos a tudo o que não é felicidade. Deus deseja que tomemos consciência da nossa condição e logo depois colocá-la em prática, deixando o nosso egoísmo e comodismo de parte para nos devotarmos à vida partilhada para o bem de todos.
Por fim, termino com uma breve explicação sobre o sentido da filiação de Jesus e a nossa condição de filhos de Deus.
Em última instância Deus é nosso pai-mãe, porque é nosso criador. Mas de criaturas de Deus passamos a filhos adoptivos de Deus pelo Baptismo. Somos, portanto, propriedade de Deus, somos filhos adoptivos de Deus, por isso mesmo, filhos amados de Deus. No Antigo Testamento usa-se para o povo de Israel a expressão «Filho de Deus» (Ex 4,22) e cada um dos seus membros como «Filho de Deus» (Dt 14,1). No Novo Testamento, São Pedro proclama Jesus como Filho do Deus vivo (Mt 16,16). Porém, Jesus parece preferir chamar-se de «Filho do Homem», que equivale a «Messias» (Mt 26,64). Jesus está unido ao Pai pela filiação divina, mas ele quis ser igual a nós em tudo, menos no pecado. Por isso, ele, nascendo de Maria, é o «Filho do Homem» também. Assim, por ser verdadeiro homem ele pode nos libertar do pecado e garantir para nós a filiação divina também. Há uma frase que resume bem a salvação que Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nos trouxe. A frase é esta: «O Filho de Deus se fez homem, se fez Filho do Homem, para que o homem fosse filho de Deus». 

terça-feira, 21 de abril de 2015

A desumana humanidade

Magnífica imagem. 
Acrescento uma legenda a esta luta hercúlea pela sobrevivência: é preciso salvar esta humanidade desumana. Uma vergonha às portas de uma Europa que deixou há muito de ser para pessoas. Converteu-se numa fortaleza velha... Acorda Europa, por favor!
 
«É necessário enfrentar juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais. A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos» (Papa Francisco, Discurso no Parlamento Europeu em Estrasburgo - 25 novembro de 2014).

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Apelo aos políticos da nossa terra


Hoje é um dia especial para a nossa terra. Realizadas as eleições regionais, chega o dia e a hora da tomada de posse do governo formado pelo partido mais votado. Outra vez governo do PPD-PSD com maioria absoluta encabeçado por Miguel Albuquerque. Nada de novo debaixo do sol, tudo como se previa.
Algumas coisas vão se alterar profundamente, é normal que assim seja, mas não se diga que estejamos perante um «novo ciclo», porque efectivamente até prova ao contrário, não estamos. Há sim uma continuidade denominada de «renovação» com um grande número dos mesmos que andam na política há muitos anos.
Convém lembrar que nada se alterou em termos sociais. A miséria continua derrama sobre as mesas de milhares de madeirenses. Nem a cidade que não temos, pintada de flores e mulheres bonitas por estes dias consegue a apagar essa chaga.
Por isso, aos novos e velhos políticos que hoje assumem funções governativas e os outros que se vão sentar na casa de democracia, a Assembleia Regional, é legítimo fazer-se um apelo.
Todos sabemos que não há políticas e políticos milagreiros. Ninguém faz milagres, é um dado mais que evidente para todos. Mais ainda se sabemos que a realidade de hoje é da mundialização. O mundo está interdependente e mais ainda nós dependentes do Governo Central, porque foram os últimos anos na Madeira de uma irresponsabilidade grave, que nos deixa dependurados a uma dívida pública astronómica. Por isso, aos governantes novos e velhos pede-se engenho e arte para que a justiça e a preocupação com o bem comum prevaleçam sobre qualquer interesse privado ou de grupo.
O principal apelo que se deve fazer é que com base nesta ideia da mundialização, nós não nos tornemos ainda mais dominados pela ideia da ilha. O isolamento provocado pela arrogância, o insulto e a ideia banal de que somos auto-suficientes até à hora de estender a mão para pedir dinheiro, não pode existir mais. Precisamos de muito espírito aberto à diferença e quebrar as divisões e toda animosidade que estes últimos anos geraram na sociedade madeirense. É preciso acabar com o pensamento único, encomendado aos escribas de serviço do regime que amordaçaram a liberdade de expressão e manietaram completamente a criatividade e o caminho da crítica, aliás, um bem fundamental no espírito da democracia.
Muita atenção à igualdade. As divisões, criam conflitos e miséria que se instala em toda a parte. Não pode continuar a prevalecer a ideia de que quem está na política fica cada vez mais rico. Tem todos os direitos e benesses. A maioria da população é o resto que deve simplesmente contribuir a todo o custo para alimentar estes eleitos. Um mundo com ricos cada vez mais ricos, pobres mais miseráveis. Isto não pode continuar. Não é da justiça que assim seja. Não é humano. Não faz da democracia um caminho simpático para todos. Ajudem a organizar a nossa terra de forma diferente. Não se esqueçam da partilha, mesmo que não se importem muito com a competitividade, que já demonstrou até à saciedade ser a face negra do capitalismo. Não tenham medo de pensar, falar e propor medidas que tenham como fundo a solidariedade, contra a minoria dos interesses dos privilegiados.
Senhores governantes, lembrem-se que a beleza de uma cidade, de um país e de uma região não está apenas em ter monumentos e jardins  esplendorosos, estruturas desportivas de ponta, festas luxuosas com muitas iguarias típicas e com desfiles de flores, mulheres e crianças bonitas... A beleza da nossa região resplandece quando a população tem habitação condigna para viver, quando há emprego para todos, quando a saúde está garantida sem que tenhamos listas enormes de gente à espera de uma cirurgia ou lhes falta camas e outros elementos necessários para ser tratada nos hospitais ou quando vai à farmácia e tem condições monetárias para aviar as suas receitas.
A beleza da nossa região está na possibilidade das nossas crianças e jovens puderem ir para a escola sem fome e aí encontrarem um ambiente saudável de convivência humana, familiar, porque sem violência e com todos os meios necessários para estarem seguros aprendendo os valores e adquirindo sabedoria para o seu e nosso futuro, porque a nossa escola, afinal, permite trabalho a sério, lazer para todos, para que aí possam crescer felizes e despertarem para o sentido da dignidade de virem a ser cidadãos verdadeiramente empenhados na construção do bem comum.
A beleza da nossa região está no seu povo quando está feliz, porque lhe foi proporcionada a possibilidade de ter tempo para trabalhar, para o lazer e desabrocha com dignidade para a vida, à luz das medidas justas que os políticos eleitos souberam implementar.
A beleza de uma região está na ausência de ter que estender a mão à caridade para matar a fome. Acabem com o oceano de instituições de caridade que proliferam nos últimos anos como cogumelos entre nós. Ponham fim a este estado de pedincha onde uma larga maioria pede e a outra anda mais que esfolada a pagar impostos astronómicos e quase mensalmente ser perseguida à porta dos supermercados para dar esmolas para os pobres. Não, isto não embeleza o nosso povo e a nossa região!
Senhores governantes não fiquem fechados nos seus confortáveis escritórios e nos espaços oficiais que o cargo vos permite, venham ao encontro das pessoas, procurem saber do que falta na casa daqueles que ficaram sem emprego e que têm filhos para criar. Vão aos nossos hospitais e comecem a vossa caminhada pelas urgências até às enfermarias, onde estão muitos conterrâneos nossos a sofrer. Não tenham medo das pessoas e não se fechem debaixo da auréola da importância do poder, permitam que a realidade se vos imponha e não deixem de se comover com ela se for o caso.
Fica este apelo singelo e que o dia de hoje seja de facto o dia D, não para um partido político, para o grupo dos governantes e para toda a máquina que se tem alimentado do bolo do orçamento regional, mas para todo o povo da Madeira. Esta é a nossa esperança, mesmo que tenha alguma ingenuidade à mistura. O sonho comanda a vida e a vida sem sonho é miséria cruel.

sábado, 18 de abril de 2015

Somos sal

Poema para o fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém...
O balanço sereno
que a suavidade da brisa
permitiu
numa hora qualquer
desta vida
disse-nos que o sentido
se reclinava
para sempre no sol
incandescente da palavra
do poema do amor.

Foi aí que percebi o quanto nos toca
a ideia do amor quando somos sal
tempero na maresia junto da margem
que a encosta íngreme permitiu
entra a linha de água e a terra
lá longe na origem do criador
quando as águas foram e vieram
e contornaram as rochas do mundo.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Jesus vivo é o nosso «advogado»

Comentário à missa deste domingo III Tempo Pascal, 19 abril de 2015
Jesus ressuscitou verdadeiramente. Para todos nós cristãos é isso que importa. Porque esta é uma realidade que nos convida para a transcendência, a eternidade da vida. Obviamente, que não se trata de um acontecimento histórico, está para além da história, por isso, é mistério que nos abre ao mistério da vida e com isso encontramos razões para que a fé ou a dimensão do acreditar faça da nossa passagem neste mundo, não apenas alguns momentos limitados no tempo e num lugar, mas certeza de que a vida está além da história e que a nossa história não acaba com a morte.
Podemos ainda salientar que os elementos históricos sobre a ressurreição de Jesus estão apenas e só nas pessoas que fizeram essa experiência e a relatam nos textos bíblicos. Tendo em conta isso, cada um de nós é convidado hoje a tentar descobrir como pode fazer na sua vida concreta a experiência do encontro com Jesus vivo e como pode com isso receber e oferecer a salvação de Deus a todos os que encontra no seu caminho quotidiano.
O calor da presença de Jesus ressuscitado é uma realidade testemunhada pelos discípulos de Emaús, que nos reconforta também e que nos faz sentir que essa presença é muito importante para enfrentar todas as caminhadas da vida deste mundo. O calor da Ressurreição faz arder o coração de alegria, porque não se sente desamparado nem à margem do amor de Deus. Deus aí está e diz-nos: «Tocai-Me e vede…».
Perante esta constante paixão amorosa de Deus por nós, não pode haver medos nem desconhecimentos, que possam eventualmente travar o acolhimento desta proposta que nos torna grandes diante do amor compassivo de Deus-Pai-Mãe, revelado por Jesus Cristo.
Na Eucaristia, Jesus senta-se à mesa, pega no pão, parte o pão e entrega o pão para todos como sinal do Seu Corpo glorioso. Não podemos temer esta entrega e esta disponibilidade para o banquete, porque aí descobrimos Cristo totalmente entregue à causa de salvação designada por Deus-Pai-Mãe, que nos defende e nos protege com o Seu amor infinito e incondicional.
Somos hoje, também chamados pelo nosso nome a tomar parte nesta festa de amor e de vida. Os tormentos dos caminhos da vida nada são diante desta maravilha que Jesus nos oferece. Como venceríamos o desgosto das caminhadas sem sucesso que muitas vezes encetamos pela vida fora? - Só com a força de Jesus que é alimento eucarístico entregue sobre o que somos e temos. E só nessa entrega podemos encontrar sentido para os altos e baixos deste mundo, porque a contar unicamente com a prestação das coisas desta vida, as expectativas saem profundamente goradas.          
A comunidade que se reúne à volta do altar da Eucaristia, descobre-se a si mesma como corpo vivo de Cristo presente na história e descobre também a mediação do Espírito Santo como razão de ser da convocação que Cristo faz todas as vezes que a possibilidade do encontro se manifesta.
Dentro da comunidade cada um descobre a sua vocação ou a sua capacidade de doação aos outros. A comum união fraterna que Cristo deseja e para a qual nos chama em todos os momentos, só é possível mediante a disponibilidade do coração para o acolhimento da fé. Não há outra forma de descobrir Cristo vivo nem há outra forma de salvação.
Ninguém se salva sozinho. Só na comunidade à volta da mesa do pão e do vinho se pode encontrar a possibilidade da redenção, porque Cristo ressuscitado manifesta-se de forma plena na comunidade reunida. Que todos sejam capazes de abrir a sua existência à Palavra do Amor que Cristo nos dirige. Não se encontra o verdadeiro sentido da vida fora de Jesus ressuscitado. E a verdadeira vida só é possível quando todos os homens e mulheres, como irmãos, se juntarem à volta da mesa do banquete que Cristo nos prepara. O comensal do amor de Deus para todos sem excepção. Vinde à mesa da festa da vida.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A sociedade da aparência


O cardeal-patriarca de Lisboa, no discurso de abertura da 186.ª assembleia plenária do organismo episcopal da Conferência Episcopal Portuguesa, que decorre até esta quinta-feira em Fátima, utilizou a seguinte expressão: «evite-se trocar causas por casos». É sintomática e significativa a expressão que está no meio da frase onde faz apelo aos partidos e candidatos às próximas eleições legislativas que «apresentem propostas concretas e consistentes para a resolução dos problemas que enfrentamos».
Ontem circulou na internet uma frase de Eduardo Galeano, falecido a semana passada que dizia: «Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus». Vivemos um vazio preocupante, que perpassa todas as dimensões da vida. Daqui deriva o desrespeito pela vida, pela dignidade do outro enquanto alteridade que deve impor-se a nós com o direito absoluto de existência. Estamos a perder por completo esse respeito absoluto pela vida do outro.
Hoje mata-se uma pessoa por coisa nenhuma. A crueldade está por todo o lado. Confirma a sentença latina: «Homo homini lupus (o homem é o lobo do homem). No século XVII esta máxima foi popularizada pelo filósofo francês Thomas Hobbes. Na sua obra «Leviatã», explicou os seus pontos de vista sobre a natureza humana. Aí define com clareza que cada um de nós tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma constante guerra de todos contra todos (bellum amnia omnes). Associado a esta idiossincrasia da natureza humana, mergulhamos na sociedade da aparência a todos os níveis, que nos tem conduzido à crueldade e à desgraça da violência por coisa nenhuma.
Neste sentido, emerge um tempo numa sociedade onde vale mais a forma do que o conteúdo. A dimensão política das sociedades está cheia de exemplos onde os casos são mais importantes do que as causas. Os maus exemplos de falta de respeito pela diversidade e pela diferença chegam-nos de todos os quadrantes da vida social. Tudo isto contribui para a ditadura da aparência e para a ideia que o conta é safar-se seja a que preço for, mesmo que isso implique tirar a vida a alguém. Não passa um dia que não tenhamos uma ou mais notícias sobre pessoas que são barbaramente assassinadas com métodos inverosímeis por coisas perfeitamente banais.
Por aqui não vamos lá. Precisamos de uma sociedade equilibrada, que faça do respeito pela vida a base da convivência, onde nunca se pode esquecer, a tolerância, o perdão e a paciência.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Deus não se cansa de estender a mão (Nº 19)

Misericordiae Vultus (o rosto da misericórdia)...
Nota: acabo de ler a Bula que proclama o Ano Extraordinário da Misericórdia (8 de dezembro de 2015 e 20 novembro de 2016). Um texto maravilhoso que todos os que puderem e que tenham tempo devem ler e rezar. Chama-nos a atenção para muitos aspectos importantes para a vida concreta. A misericórdia de Deus deve estar em cada um de nós. O rosto misericordioso de Deus é o rosto de cada um de nós, quando pratica a compreensão, a compaixão e perdão, para que o Evangelho de Jesus Cristo esteja hoje como esteve há dois mil anos encarnado, isto é, seja carne na nossa carne, para que a vida se torne um caminho de felicidade para todos. Não é do desejo de Deus, que ninguém viva com o peso terrível da má sorte nem muito menos que esteja neste mundo onde parece que muitos nasceram para viver sob o jugo horrendo do azar constante que conduz ao sofrimento e à tristeza. Precisamos de palavras e iniciativas que nos alegrem, que nos reanimem porque a depressão fez mergulhar a nossa sociedade no vazio e na tristeza generalizada. Basta andarmos pelas ruas para notarmos isso em cada rosto que se cruza connosco. Destaco aqui algumas partes da Bula que para mim foram mais significativas. Quem desejar ler na íntegra pode fazê-lo AQUI
BULA DE PROCLAMAÇÃO 
DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
- «Misericordiosos como o Pai é» - o « lema » do Ano Santo (Nº 14)
- Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida (nº 2).
- «É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência». Estas palavras de São Tomás de Aquino (Nº 6).
- Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco (Nº 9).
- A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua acção pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja « vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia ».[8] Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia. Por um lado, a tentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa de ir mais além a fim de alcançar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, é triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança (Nº 10).
- São João Paulo II com a sua segunda encíclica, a Dives in misericordia (Nº 11).
- A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma acção pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia.
A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia (Nº 12).
- Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo (Nº 15).
Aos confessores
- Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia (Nº 17).
- Os números 20 e 21 são sobre «a relação entre justiça e misericórdia». A meu ver uma reflexão brilhante.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O genocídio povo arménio

A Turquia não gosta. Mas a história não mente. O denominado holocausto arménio ou ainda o massacre dos arménios é, como foi chamada a matança e deportação forçada de centenas de milhares ou até mais de um milhão de pessoas de origem arménia que viviam no Império Otomano, com a intenção de exterminar a sua cultura, a economia e todas as suas raízes familiares. Tudo se passou durante o governo dos chamados Jovens Turcos de 1915 a 1917. O Papa fez referência na Basília de São Pedro a esta tragédia. A reação de Ancara não se fez esperar. Não aceitam o termo «genocídio». Porque o governo turco rejeita o termo «genocídio» organizado e nega que as mortes tenham sido intencionais.
Porém, o Papa Francisco mandado às urtigas os salamaleques hipócritas da diplomacia, proclamou alto e bom som que este foi o «primeiro genocídio do século XX». Afirmou o Papa Francisco o seguinte referindo-se às «três tragédias massivas e sem precedentes» no último século. «A primeira, que é considerada globalmente como o primeiro genocídio do século XX, atingiu o povo arménio». Chega de andarmos com eufemismos patéticos para designar a barbárie e a tragédia da humanidade. Os salamaleques diplomáticos não podem sobrepor-se ao bem dos povos e à sua dignidade. Por isso, se entendeu o Papa Francisco utilizar a palavra genocídio, que é globalmente considerada para designar este holocausto arménio fez muito bem e que se amanhe o governo turco com o seu branqueamento histórico. Está dito pelo Papa e tem toda a razão.

sábado, 11 de abril de 2015

Chamamento

Para o fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém...
E hoje o dia reveste-se de especialidade, celebro 19 anos de sacerdócio presbiterial. Um percurso cheio de altos e baixos, mas que se vai perscrutando como uma entrega a uma causa que sabemos nunca ser nossa. Sempre com Deus e por Deus. E no magno São Paulo seguro-me: «Se Deus é por nós, quem será contra nós?» (Rom 8, 31).
Fomos juntos
à fonte de um tempo
onde brotava palavra
e vento,
como um apelo sereno
que pelo mistério do tempo
fora rezado com o nome de chamamento.
parecia longe e velho
mas era verbo
e dom em carne
que abençoavam os céus
visto no clarão da esperança
e na fé como sustento
porque escuto seguro e bebo à sede
o sentido para os passos meus.

Vamos devagar
devagarinho,
até onde o sol raiou.
trouxe a paz como resposta
é sonho e desejo primaveril que me seduz
mais ainda o sentido e a força da luz
que é por tudo
e para todos
sempre que uma vida triunfou!
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Directório homilético já veio a lume

Não resolve tudo. Mas se tomado a sério, este directório pode ajudar a não maçar ninguém e, melhor ainda, fazer com que ninguém se sinta maçado...
ACABA DE SAIR O DIRETÓRIO HOMILÉTICO
LEITURA OBRIGATÓRIA PARA OS MINISTROS ORDENADOS DA IGREJA CATÓLICA
(Eis aqui um resumo do texto)
1º - É urgente saber pregar de modo adequado.
2º - A pregação é verdadeiramente uma arte que deve ser cultivada
3º - A pregação deve ser acompanhada pelo testemunho da própria vida
4º - A homilia deve ser, na verdade, uma experiência intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a Palavra e uma fonte constante de renovação e crescimento
5º - A pregação é uma das prioridades da vida da Igreja.
6º - Para se tornar um homileta eficaz, não é necessário ser um grande orador. Mas precisa de estar convencido do que diz e como diz.
7º - O que é exigido a um bom homileta é o seguinte: colocar a Palavra de Deus no centro da sua vida espiritual; conheça bem o seu povo; reflicta sobre os acontecimentos do seu tempo; procure constantemente desenvolver as capacidades que o ajudem a pregar; invoque sempre a força do Espírito Santo e nunca se esqueça que na homilia não se improvisa; precisa de preparação
8º - A homilia não é só uma instrução mas uma acção litúrgica, ou seja, não é só para santificar o povo de Deus mas serve também para glorificar a Deus
9º - A homilia deve ser feita apenas pelos bispos, presbíteros ou diáconos. Contudo os leigos podem ajudar o sacerdote celebrante na preparação da mesma
10º - A homilia deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição
11º - Não é um sermão sobre um assunto abstracto nem para tecer considerações à toa
12º - A homilia não é um mero exercício de exegese bíblica.
13º - A homilia também não é um ensinamento catequético.
14º - A homilia não deve servir de ocasião para o pregador dar um testemunho pessoal. Deve expressar não a fé pessoal do pregador mas a fé da igreja
15º - A pregação meramente moralista, doutrinária ou exegética, reduzem a comunicação entre os corações que se dá na homilia e que deve ter um carácter quase sacramental.
16º - O homileta deve saber conjugar os textos de uma celebração com os factos e questões da actualidade.
17º - O homileta deve também falar de modo que quem o escuta possa ver a fé dele no poder de Deus.
18º - A homilia deverá ser sempre formulada de acordo com as necessidades da comunidade paroquial.
19º - A linguagem da homilia deve ser uma linguagem da cultura materna para que o coração se disponha a ouvir melhor.
20º - A homilia deve ser a explanação de algum aspecto das leituras tendo sempre em conta o mistério que se celebra.
21º - A homilia da Missa deve levar a comunidade dos fiéis a participar activamente na Eucaristia.
22º - A homilia não é apenas para aprofundarmos as verdades de fé que acreditamos mas acima de tudo ajudar-nos a sermos capazes de actuar à luz da fé.
23º - Um pregador que não se prepara, que não reza, é desonesto e irresponsável. Um falso profeta, um embusteiro ou um charlatão vazio.
24º - Os bons pregadores devem recorrer a um diálogo profundo com a Palavra de Deus através da Lectio Divina
25º - O homileta deveria consultar comentários, dicionários e outros estudos, que o possam ajudar a compreender melhor o significado dos textos bíblicos.
26º - O homileta não pode ser um teórico mas um homem do testemunho dos acontecimentos com um forte sentido da realidade dos mesmos.
27º - O homileta deve preocupar-se em traduzir os resultados do seu estudo numa linguagem compreensível aos seus ouvintes.
28º - Uma boa pregação deve ser simples, clara, direta, adaptada.
29º - Um dos esforços a fazer é aprender a usar imagens na pregação, isto é, a falar por imagens.
30º - O pregador deve também pôr-se à escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Deverá ser um contemplativo da Palavra e um contemplativo do povo.
31º - O homileta para além de rezar a Palavra precisa de estar atento ao que acontece na paróquia e também na sociedade. Deverá iluminar a Palavra de Deus com os acontecimentos do dia a dia.
32º - Na missa só deve haver uma homilia. Não cair na tentação de fazer longos comentários ao longo da missa.
33º - O homileta tem de preparar a homilia dominical ao longo da semana e não em cima do joelho.
34º - AS homilias nos Matrimónios são de grande importância onde se deve falar do mistério do Matrimónio cristão sabendo que está a falar para crentes e não crentes.
35º - Nas homilias dos funerais devem-se evitar os elogios fúnebres mas ter uma atenção muito especial a pessoa do defunto, as circunstancias da morte, a dor dos familiares sem nunca esquecer o dever de os confortar, com delicada caridade.
36º - O homileta tem de ter a consciência que o dom da explicação da palavra deve ser exercitado com muita arte pois requer muita preparação.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

É preciso nascer de Deus para renovar a vida

Comentário à missa deste domingo II Páscoa, 12 de abril de 2015
Neste segundo domingo da Páscoa, celebramos com renovado entusiasmo a vida nova que nasceu da cruz e da ressurreição de Jesus. A partir daqui surgiu uma comunidade de pessoas que se anima na fé e na esperança, porque anuncia o milagre da ressurreição de Jesus, que não se circunscreve apenas e só para o Filho de Deus, mas para a humanidade inteira. A esta comunidade nova compete fazer a proclamação desta notícia a todos os povos da terra.
A primeira leitura apresenta qual é o quadro ideal dessa comunidade. É uma comunidade que se forma na maior das diversidades, nela se concentram pessoas de todos os quadrantes sociais e com os mais diferentes modos de pensar e de ser, porém, são conduzidos pela mesma fé «num só coração e numa só alma». A dimensão da fraternidade é a luz que mais brilha nesta comunidade pelos gestos concretos da solidariedade, da partilha dos dons, sejam eles humanos, espirituais e materiais. Nesta comunidade não há pobres e se os existir logo são integrados no seio da comunidade com todos os direitos e deveres. Ninguém fica para trás.
Um exemplo que precisa de ser retomado nas nossas comunidades de hoje, mesmo que nos nossos tempos a pobreza seja dos problemas mais complexos que temos que lidar. Os seus tentáculos são enormes e a sua complexidade pior ainda, mas não podemos de forma nenhuma deixar que esta questão não faça parte da vida das comunidades. O exemplo dos primeiros cristãos assim nos desinquieta e desafia a tomar a sério essa dimensão do cuidados dos mais necessitados.
Na segunda leitura e no Evangelho, ambos os textos de São João, podemos ver que partir da Páscoa de Jesus Cristo, descobrimos que "nascer de Deus" é ressuscitar. A Ressurreição mostra-nos claramente que a vida venceu a morte e que com esse acontecimento inaugura-se o tempo escatológico da acção do Espírito Santo.
A era do Espírito, começa com as palavras de Jesus ressuscitado, atestando que sem a acção transformadora do Espírito Santo nada será possível realizar. Estamos diante da realização da promessa de Jesus: "Não vos deixarei abandonados, vou enviar-vos o Espírito..." (Várias vezes pronunciou esta ou outras frases semelhantes nos Evangelhos, quando se refere ao Espírito). Jesus revela-nos agora que chegou o tempo do Espírito Santo e sem Ele nada pode ser feito (este aviso também foi pronunciado várias vezes por Jesus).
Por isso, há-de ser o Espírito que realiza o mais nobre ministério, acreditar ou como se refere São João, viver "a nossa fé". Esta é a Missão principal que Jesus confere aos seus Discípulos, que consiste em promover a paz através do perdão dos pecados e mediante a força da fé e da esperança que emergem do coração sempre renovado. Somos todos nós os continuadores deste anúncio. É o Espírito que sempre nos deve fazer renascer, para que a vida não se torne uma prisão, mas libertação para a felicidade. Nisto consiste o nascer de Deus e para Deus. E como precisa o nosso mundo deste testemunho.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O morreu o jornalista da pena cirúrgica

O nosso estimado amigo Tolentino Nóbrega fez «a curva da estrada, deixou de ser visto» (Fernando Pessoa). Deixou esta passada noite o mundo dos vivos. Entrou no lugar da eternidade. Estou seguro que, agora, está livre de todo o sofrimento e vive a «vida verdadeira» (São Paulo).
O pior para todos nós, é que perdemos o jornalista cirúrgico, do trabalho aturado, minucioso no que diz respeito às contas das diversas medidas do Governo Regional da Madeira. Foi por ele, no trabalho excelente nas páginas do público que fomos lendo e vendo os desmandos de muitos orçamentos regionais que nos conduziram à dupla austeridade. Muitas vezes se lamentava da preguiça de muitos políticos que não se davam ao trabalho de lerem os números que as suas notícias apresentavam, para darem mais consistência e acutilância ao que diziam na Assembleia regional. Vai fazer-me falta os seus diálogos e a sua inteligência para reparar com sabedoria aspetos que só o jornalista experimentado era capaz de reparar. São infindos os detalhes que a sua capacidade observadora foi descortinando para nós.
Para mim e para todos os que tiveram a gentileza de adquirir o livro, deixou-nos este presente, o Prefácio ao meu livro «O que a fé não deve ser». Dada a relevância do momento, que nos restem as palavras para expressar o sentimento de perda que nos assiste. A toda a família enlutada manifesto os meus sentidos pêsames e faço votos que a coragem e a esperança sejam muito fortes nos seus corações.
Prefácio
Na comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II, o papa Bento XVI convidou toda a Igreja a celebrar o Ano da Fé. Foi um apelo à mobilização de todos ao aprofundamento nas riquezas proporcionadas pelo Concílio para a vivência da fé na actualidade, fruto de seu empenho para responder às inquietações e aos desafios dos novos tempos e tornar a Igreja e sua doutrina compreensíveis e significativas para o presente e para o futuro.
Ao ser eleito Papa, a 13 de Março de 2013,o cardeal Jorge Mario Bergoglio - ­­que significaficamente escolheu o nome de Francisco num sinal da linha que deseja para a Igreja sob o seu pontificado, “uma Igreja pobre e para os pobres” - elogiou o trabalho realizado pelo seu antecessor , do qual disse sentir “uma grande gratidão e afecto”. Lembrou que foi Bento XVI “quem revigorou a Igreja com sua fé, seus conhecimentos e sua humildade”, acrescentando que “todos nós vamos tentar responder com fé para levar Jesus Cristo à humanidade e para trazer a humanidade a regressar a Cristo, à Igreja”.
Durante o seu ministério como arcebispo de Buenos Aires e primaz da Argentina, Bergoglio foi muitas vezes a voz da Igreja nesse país, em defesa da vida e da família, em questões sociais, e, neste último período, levou a cabo um intenso trabalho de nova evangelização e para implementar as directrizes para o Ano da Fé. Homem muito espiritual e próximo, muito querido no seu país, Bergoglio pediu aos argentinos que "não se acostumassem com a pobreza" e que "saíssem às ruas" em defesa da família. Em Setembro do ano passado, repreendeu os sacerdotes que se negam a baptizar os filhos de mães solteiras, chamando-os de "os hipócritas de hoje que clericalizaram a Igreja. Os que afastam o povo de Deus da salvação".
Hoje, na segunda década do século XXI em que a tecnologia e o economicismo neo-liberal aparecem como a solução para todos os problemas, faz ainda sentido falar-se de fé, a força de acreditar na humanidade, face à crescente frustração das pessoas com muitas promessas da modernidade que não se realizaram. A redenção que assim se ofereceria a todos continua limitada a uma pequena parcela da população mundial, enquanto, por outro lado persistem as ocorrências de intolerância, despotismo, discriminação e exclusão social, com enormes contingentes de trabalhadores a padecerem terrível exploração e miséria, embora sejam os produtores das mais avançadas tecnologias. São perceptíveis as manifestações de vazio existencial e de carência de transcendência.
O Vaticano II empreendeu grande esforço para tornar a fé compreensível para o indivíduo da modernidade e tornar a Igreja e suas estruturas mais aptas a dialogar com este mundo em transformação e ajudar as pessoas a combaterem as desigualdades. Apesar de ímpetos de modernidade negarem em grande parte a religião, a fé, a transcendência e, sobretudo, certas expressões religiosas que para o mundo hodierno serem  incompreensíveis ou injustificáveis, a busca de sentido para a vida leva-nos a ultrapassar a barreira da  ilusão do consumismo, do poder, do prazer, da fama e do materialismo. Mesmo para o crescente número dos que se declaram sem religião ou vivem a fé a seu modo, ou para muitos cristãos que perderam ou acham que perderam a fé, por terem uma concepção equivocada dela ou a vivenciarem de maneira imatura.
Na solenidade da Epifania do Senhor, a 6 de Janeio de 2013, Bento XVI declarava: “A fé atrai-nos para dentro de um estado em que somos arrebatados pela inquietação de Deus e faz de nós peregrinos que estão interiormente a caminho para o verdadeiro Rei do mundo e para a sua promessa de justiça, de verdade e de amor. Nesta peregrinação, o Bispo deve ir à frente, deve ser aquele que indica aos homens a estrada para a fé, a esperança e o amor”.
Caminheiro e guia dessa “estrada para a fé, a esperança e o amor”, o padre José Luís Rodrigues reúne neste livro um valioso conjunto de profundas reflexões sobre a fé, como legado do Vaticano II, face à inquietação dos nossos dias. Partilhados no seu blogue “O Banquete da Palavra” (www.jlrodrigues.blogspot.com), estes textos mostram que a fé não é uma ideologia ou guarda-chuva, um contrato ou um escape, uma muleta ou uma cegueira, é uma vivência interior que “desafia para a coragem e para a força com que enfrentamos os males desta vida, sem alienação, mas com esperança”, E conclui que “a fé é ou pode ser o coração de cada pessoa que se abre ao Mistério de Deus e da humanidade”. Que promove o Amor, a Paz e a Justiça, ou seja, a mensagem de Cristo.
Tolentino de Nóbrega
jornalista do PÚBLICO

Homilia na Missa Crismal do Papa Francisco

O Papa Francisco na homilia da Missa Crismal de Quinta feira Santa... Serviu para meditação nesta manhã. De algumas coisas (muitas) confesso humildemente o meu pecado... E de outras alegro-me que Deus me tenha inspirado a tentar estar a vivê-las.
Linda reflexão... Aqui apresento algumas passagens, quem desejar ler na integra pode fazê-lo AQUI. O que nos faltou por destes lados veio pela voz do maior profeta dos nossos tempos, o Papa Francisco.
«Não são tarefas fáceis, não são tarefas externas, como, por exemplo, as actividades manuais: construir um novo salão paroquial, ou traçar as linhas dum campo de futebol para os jovens do oratório, etc. Os compromissos mencionados por Jesus envolvem a nossa capacidade de compaixão: são compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove. Alegramo-nos com os noivos que vão casar; rimos com a criança que trazem para baptizar; acompanhamos os jovens que se preparam para o matrimónio e para ser família; entristecemo-nos com quem recebe a extrema-unção no leito do hospital; choramos com os que enterram uma pessoa querida... Tantas emoções! Se tivermos o coração aberto, estas emoções e tanto carinho cansam o coração do pastor. Para nós, sacerdotes, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração; e o nosso, sofrendo com eles, vai-se desgastando, divide-se em mil pedaços, compadece-se e parece até ser comido pelas pessoas: tomai, comei. Esta é a palavra que o sacerdote de Jesus sussurra sem cessar, quando está a cuidar do seu povo fiel: tomai e comei, tomai e bebei... E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus, etc., o que sempre, sempre cansa.
Gostaria agora de partilhar convosco alguns cansaços, em que meditei.
Temos aquele que podemos chamar «o cansaço do povo, o cansaço das multidões»: para o Senhor, como o é para nós, era desgastante – di-lo o Evangelho – mas é um cansaço bom, um cansaço cheio de frutos e de alegria. O povo que O seguia, as famílias que Lhe traziam os seus filhos para que os abençoasse, aqueles que foram curados e voltavam com os seus amigos, os jovens que se entusiasmavam com o Mestre… Não Lhe deixavam sequer tempo para comer. Mas o Senhor não Se aborrecia de estar com a gente. Antes pelo contrário, parecia que ganhava nova energia (cf. Evangelii gaudium, 11). Este cansaço habitual no meio da nossa actividade é uma graça que está ao alcance de todos nós, sacerdotes (cf. ibid., 279). Como é belo tudo isto: o povo amar, desejar e precisar dos seus pastores! O povo fiel não nos deixa sem actividade directa, a não ser que alguém se esconda num escritório ou passe pela cidade com vidros escuros. E este cansaço é bom, é um cansaço saudável. É o cansaço do sacerdote com o cheiro das ovelhas, mas com o sorriso de um pai que contempla os seus filhos ou os seus netinhos. Isto não tem nada a ver com aqueles que conhecem perfumes caros e te olham de cima e de longe (cf. ibid., 97). Somos os amigos do noivo: esta é a nossa alegria. Se Jesus está apascentando o rebanho no meio de nós, não podemos ser pastores com a cara azeda ou melancólica, nem – o que é pior – pastores enjoados. Cheiro de ovelhas e sorriso de pais... Muito cansados, sim; mas com a alegria de quem ouve o seu Senhor que diz: «Vinde, benditos de meu Pai!» (Mt 25, 34).
Existe depois aquele que podemos chamar «o cansaço dos inimigos». O diabo e os seus sectários não dormem e, uma vez que os seus ouvidos não suportam a Palavra de Deus, trabalham incansavelmente para a silenciar ou distorcer. Aqui o cansaço de enfrentá-los é mais árduo. Não se trata apenas de fazer o bem, com toda a fadiga que isso implica, mas é preciso também defender o rebanho e defender-se a si mesmo do mal (cf. Evangelii gaudium, 83). O maligno é mais astuto do que nós e é capaz de destruir num instante aquilo que construímos pacientemente durante muito tempo. Aqui é preciso pedir a graça de aprender a neutralizar (é um hábito importante: aprender a neutralizar): neutralizar o mal, não arrancar a cizânia, não pretender defender como super-homens aquilo que só o Senhor deve defender. Tudo isto nos ajuda a não deixarmos cair os braços à vista da espessura da iniquidade, frente à zombaria dos malvados. Eis a palavra do Senhor para estas situações de cansaço: «Tende confiança! Eu já venci o mundo» (Jo 16, 33). E esta palavra dar-nos-á força.
E, por último (último, para que esta homilia não vos canse demasiado!), há também «o cansaço de nós próprios» (cf. Evangelii gaudium, 277). É talvez o mais perigoso. Porque os outros dois derivam do facto de estarmos expostos, de sairmos de nós mesmos para ungir e servir (somos aqueles que cuidam). Diversamente, este cansaço é mais auto-referencial: é a desilusão com nós mesmos, mas sem a encararmos de frente, com a alegria serena de quem se descobre pecador e carecido de perdão, de ajuda; é que, neste caso, a pessoa pede ajuda e segue em frente. Trata-se do cansaço que resulta de «querer e não querer», de ter apostado tudo e depois pôr-se a chorar pelos alhos e as cebolas do Egipto, de jogar com a ilusão de sermos outra coisa qualquer. Gosto de lhe chamar o cansaço de «fazer a corte ao mundanismo espiritual». E, quando uma pessoa fica sozinha, dá-se conta de quantos sectores da vida foram impregnados por este mundanismo e temos até a impressão de que não há banho que o possa lavar. Aqui pode haver um cansaço mau. A palavra do Apocalipse indica-nos a causa deste cansaço: «Tens constância, sofreste por causa de Mim, sem te cansares. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primeiro amor» (2, 3-4). Só o amor dá repouso. Aquilo que não se ama, cansa de forma má; e, com o passar do tempo, cansa de forma pior».