A tarde estava airosa embora a humidade
estivesse presente como acontece com muita frequência nestas alturas do ano no Funchal.
É precisamente nessa última tarde de junho que subo o monte até ao hospital do
Marmeleiros.
Primeiro embate negativo, não pode
entrar com o carro. Onde deixo o carro, fora, responde com funcionário porteiro
com voz seca e grossa. Procuro estacionamento fora, há carros parados por todo
o lado, há um caos vergonhoso que atrapalha a circulação dos outros carros com
outros destinos que não o hospital. Repentinamente, uma boa alma vai sair,
apresso-me e tomo o lugar deixado vago, mesmo ali junto à entrada do hospital. É
melhor era impossível face ao dramático caos. Metade do meu carro em cima do
passeio a outra metade na estrada. Um obstáculo que acabo de deixar
perigosamente num canto que devia estar livre para a circulação de peões e para
os outros veículos. Obedeci e fiz o que me mandaram.
Lá vou eu preocupado, visitar uma pessoa
doente. Antes de entrar deparo-me com um descampado logo na parte frontal do
hospital que seguramente chegaria para estacionar uma boa porção de carros que
estavam estacionados caoticamente fora do hospital.
É hora de vislumbrar a paisagem que a localização
do hospital dos Marmeleiros nos proporciona sobre o Funchal. Há um navio de
cruzeiro encostado no Porto, as casas brancas anunciam uma paz sem fingimento
que nos retempera a alma e faz sorrir com tamanha beleza.
Depois da hora do assombro divino que os
olhos contemplaram, temos que entrar e vamos nós à procura de quem desejamos
ver e quem almeja uma palavra de saudação, de esperança e de consolo. Nada é mais
importante para que passa pela experiência da convalescença.
Entramos logo até ao hall onde está
alguém cheio de simpatia, que logo que se apercebe da nossa condição, dá-nos
livre trânsito ao contrário do impacto inicial negativo que a voz grossa e seca
revelou.

Eis que chego ao andar e à sala onde jaz
doente a pessoa que venho visitar. Não gosto do cheio, não gosto de quase nada
que vou vendo. Mesmo que reconheça o esforço que deve estar ali estampado para
que esteja limpo e as pessoas tenham alguma dignidade. Por isso, nunca se
afasta de mim o pensamento, aqui estão os nossos espelhos.
Hoje dia 1 de julho dia da Autonomia,
que há muito anda perdida, seria bom pensar o essencial para os madeirenses. A
saúde e o bom ambiente nos nossos hospitais deviam ser essenciais para todos os
madeirenses. Mas, não está sendo, só será para cada um, provavelmente, quando
seja tomado pela fatalidade da doença. Essencial para os madeirenses, ainda
continua a ser as festas, as marchas populares, a animação musical dos arraiais
(este ano com uma abundância de cantores famosos como nunca se viu e a fortuna
que isto não deve implicar!), os foguetes, as barracas com comes e bebes e toda
a parafernália que vai fazendo cegar o pensamento, que inebria por alguns
momentos, mas passado o efeito levamos com a paisagem desoladora do sistema de
saúde que temos. É triste que baste ao madeirense apenas circo.

Faz falta responsabilidade quanto às
prioridades da parte de quem tem responsabilidade, mas faz falta também a consciência
a um povo que devia há muito ter aprendido o que é o essencial. Neste domínio
falta-nos ainda muito para crescermos e sermos um povo verdadeiramente
militante na luta pelos seus direitos e menos embriagado pelas festas e
festanças. Também muito menos iremos a onde se deseja com propaganda, muita propaganda.
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