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sábado, 29 de junho de 2013

O avô e os poios

Ensaio poético para o fim de semana... 
Uma ribanceira enforma uma parelha de poios
Semeados de trigo até à cozedura do pão
Neles fez um avô um ornamento de couves
Em volta do quadrado de terra
Que depois florescem pujantes
Com as cores brancas e amarelas.
São a oferta potente de novo alimento
No futuro que todos conscientemente preparam.
Nesta visão infantil e rural
Se reaviva os meus passos em volta
Das courelas, das veredas, das mangas, das moitas...
E todos os nomes que recebiam posse os poios
Onde pisava o figurão de gente
Que a misteriosa natureza designou ser um avô.
Sobre os outros poios rebentam as cerejeiras
As pereiras e os pereiros em cores
Com abundante brancura. Mas... Ah!
Os lilases, os roxos, os amarelos e mais e mais
Em vida nova até coalhar o chão de alegria.
E dos enxertos que sempre foram a melhor técnica
Que se destina a poucos pois vingam ou não
Porque só a sabedoria experiente o designa
Naquelas mãos gretadas de trabalho e fadiga.
Só o gosto dessa labuta enforma uma fé
Uma certeza que se recebeu numa missão divina.
A construção feita sobre a terra testemunha
Essa incompreensão dura que a vida concedeu.
Depois cantam os pássaros de ramo em ramo
As pedras úteis edificam paredes emparelhadas
E marcos entre poios nossos e dos outros.
Uma festa em cada altura do ano
Esta caminhada em chão de terra batida
Pelos calcanhares duros de calos
Que nalguns dias vertem sangue das gretas
Que se curam com a saliva e a terra dos caminhos.
Assim se faz uma memória encontrada
Neste baú do pensamento que a mudança dos dias
Nos vai desembrulhando em dádiva
Como o bride mais importante para a felicidade.
José Luís Rodrigues
Nota: Foto da minha avó e avô paternos que se fossem vivos somavam acima dos 100 anos, segundo o meus cálculos o avô faria este ano 109 anos. Ó que saudades!

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