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segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Amor é a poesia dos Sentidos

Conferência que pronunciei no dia 29 de maio no Festival de Poesia na Escola Gonçalves Zarco...

As “Sinestesias” (do  grego συναισθησία, συν- (syn-) "união" ou "junção" e -αισθησία (-esthesia) "sensação") é a relação de planos sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o tacto). Os diferentes sentidos da poesia e a sua possível inserção numa mensagem de valores, de modo a que os alunos se apercebam que a poesia vai além da rima e incorpora mensagens variadas.
 1. Dos sentidos
Tomo o título desta comunicação de uma frase de Honoré de Balsac que diz o seguinte: «O amor é a poesia dos sentidos. Ou é sublime, ou não existe. Quando existe, existe para sempre e vai crescendo dia a dia». Nada melhor para me fazer pensar, porque sinto o silêncio naquela procura constante pelo centro do tudo para o todo da minha existência. Eis-me aqui a sentir o silêncio:
Sentir o silêncio
As flores testemunharam um sol
Naquele aperto sentido no vapor
Da visão sublime à porta do ser.
Quando as vozes cantaram a serenidade que vejo
Na delicadeza do toque
Que os amantes vivem no silêncio da noite.

Neste invólucro cósmico
Gritam estrelas e mais não digo do segredo
Que só o inquieto mistério pode guardar mais uma vez
Na certeza da felicidade que a ternura do gesto desvela. (José Luís Rodrigues)

A poesia – na sua forma própria, ou em prosa – encerra frequentemente um conteúdo existencialista e filosófico. Há muita poesia glosando a vida, as suas alegrias, o fado, o destino, o nosso lugar no universo, a ilusão, o sem sentido da dor ou a crueldade da vida. Os temas específicos podem variar, mas cantar ou chorar, de forma filosófica, o sentido da vida faz parte do reportório de dezenas de grandes escritores.
Que é que Cervantes fez, quando escreveu: 
«Abençoado seja o que inventou o sono, a manta que cobre todos os pensamentos humanos, o alimento que satisfaz a fome, a bebida que apazigua a sede, o fogo que aquece o frio, o frio que modera o calor, e, finalmente, a moeda corrente que compra todas as coisas, e a balança e os pesos que igualizam o pastor e o rei, o ignorante e o sábio.»
Não será isto filosofia existencial ou ainda mais tanto quanto é a poesia?
O que é que o imperador Adriano fez nas vésperas da morte, ao escrever o seu epitáfio: 
«Pequena alma errante, hóspede e companheira do corpo, para onde irás tu agora, pálida, rígida e nua, sem poderes brincar como dantes?»
E como classificar grande parte dos versos bíblicos do Eclesiastes, por exemplo?
Como classificar versos como: 
«Goza da vida com a mulher que amas, durante todos os dias da fugaz existência que Deus te concede debaixo do Sol.
Essa é a tua parte de vida, entre os trabalhos a que estás condenado.
Tudo o que a tua mão possa fazer, fá-lo intensamente,
pois na região dos mortos, para onde irás,
não há trabalho nem inteligência, não há ciência nem sabedoria»?
Estes versos são obviamente filosofia, mas também são poesia. Eles são poesia existencialista, e filosofia existencialista. Não são necessários tratados, nem muito menos é necessário a linguagem ser hermética, para se fazer filosofia e para elaborar a poesia.
E um exemplo maior disso mesmo é Fernando Pessoa. Poemas como a Tabacaria não são apenas exemplos sublimes e maiores do génio poético do homem. Eles são igualmente exemplos maiores do filosofar existencialista. Grande parte da poesia de Pessoa é também filosofia.
Oiçamo-lo: 
«Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio.» 
Trata-se, obviamente, de filosofia. Mesmo que ele a rejeite, e diz:
«E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.»
 Ou quando diz:
«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.»
Pergunte-se: Será que se pode fazer filosofia, no sentido mais exigente do termo, por via da poesia?
Que dizer, por exemplo, de um poema sobre o sentido da vida, como o Life de Charlotte Brontë. Nele, muito simplesmente, canta-se a esperança juvenil, defende-se em verso as «soalhentas horas da vida», e «agradecidamente, animadamente», pede-se que as gozemos «enquanto elas vão voando».
Eis que estamos diante do pensamento filosófico expresso em poesia.
Num campo filosófico como o do sentido da vida, a poesia e a literatura podem ser formas maiores de filosofar. Compreender a vida, dar-lhe um sentido ou não, depende fundamentalmente dos nossos sentimentos, e não tanto da nossa razão.
A profundidade filosófica, neste caso, é indesligável da beleza, da forma, da arte, e não depende estreitamente do pensamento abstracto. Associa-se à alegria e à tristeza, à forma como traduzimos e nos dirigimos à nossa sensibilidade, e acordamos ou evocamos sentimentos e formas específicas de ver e sentir. A novidade e a profundidade, neste caso, estão aí - nas formulações capazes de nos emocionar, de tocar a nossa alma.
Por exemplo neste poema onde tentei olhar e sentir a cidade…
 Cidade
Canto a cidade nos cantos sublimes das artérias do medo
Como se o dia fosse acabar em cada passo da gente
Que deambula nas avenidas, ruas, becos, travessas e rampas
Porque cada momento e cada esquina escondem o segredo
De nunca chegar a vida que o tempo engoliu naquela hora.

Fica depois uma sombra de um esbelto plátano no oásis
Daquela cidade maior onde um dia no baptismo da história
Te nomearam de liberdade sobre a rocha firme da calçada.

Agora passeiam-te os povos vindos de todos os lugares
Sob o olhar atento de quem deseja um dia saber mais
De todos os lugares mágicos que a vida nos ofereceu.

Ò cidade da minha memória encantada pelo ideal fervor
Quero ver-te esbelta, viva ou mesmo ressuscitada
E nesta hora nasci de novo para o dia maior
Daqueles passos em volta do rosto sublime do amor.

E não digas mais que a cidade nunca pode ser sentida
Como uma vida cheia de esperança no ideal da felicidade. (José Luís Rodrigues)

Por isso Fernando Pessoa confirmou: «Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar». Mas, Friedrich Nietzsche, melhor enquadrando a nossa existência, feita para a assunção dos sentidos sentenciou: «É só dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade». Se formos fieis aos sentidos, descobrimo-nos na verdade do amor, que é o melhor da vida partilhado na relação com os outros. Todo o gesto feito com condimento do amor, expressa a autenticidade do que somos e temos no nosso interior. Para que no fim da caminhada neste mundo possamos saborear em alegre libertação o que ensina Platão «A velhice é um estado de repouso e de liberdade no que respeita aos sentidos. Quando a violência das paixões se relaxa e o seu ardor arrefece, ficamos libertos de uma multidão de furiosos tiranos».
Dos sentidos, cada um por si, nada pode ser. Mas se juntos na comum fraternidade do ser, se assim podemos dizer, são manifesto reflexo da alma e daquele mistério insondável que faz cada pessoa ser o que é na existência que se contempla, esse eu que partilho de mim para os outros e que comungo dos outros para mim, sem que nunca deixe de ser pessoal e intransmissível. Diderot disse-o assim de cada um, para que nenhum se separe do conjunto que somos, para que a verdade que desejamos partilhar não resulte adulterada ou traidora da nossa nobre existência pessoal: «De todos os sentidos, a vista é o mais superficial. O ouvido, o mais orgulhoso. O olfato, o mais voluptuoso. O gosto, o mais inconstante. E o tato, o mais profundo». Mesmo assim, correndo esse risco avanço seguro porque «Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos» (Galileu Galilei). Por isso, cantemos os cinco sentidos…
 Cinco Sentidos
Cinco sentidos são os cinco dedos
Com que o homem tacteia a escuridão,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haverá mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior visão,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencerão.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido! (Alberto de Oliveira, in "Novos Sonetos")
2. Dos Valores
 A liberdade do amor não sabe o que é o medo mais a certeza que «A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade», disse William Maugham.
O Victor Cunha Rego dizia com a sua clarividência extraordinária que as dores, os medos, as espontaneidades, os amores, os ódios são demasiado tímidos. Pretendo com isto reflectir um pouco sobre os medos que nos invadem quotidianamente e que, por vezes, podem coarctar as nossas acções para o bem e para o mal. O grande estadista inglês Winston Churchill dizia: «Todas as grandes coisas são simples. E muitas podem ser expressas numa só palavra: liberdade; justiça; honra; dever; piedade; esperança». Estes valores cantam-se poeticamente e vivem-se convictamente, mesmo que por eles se derrame suor, lágrimas e sangue. «Nem todos podem tirar um curso superior. Mas todos podem ter respeito, alta escala de valores e as qualidades de espírito que são a verdadeira riqueza de qualquer pessoa» disse o autor Alfred Montapert.
O medo é um sentimento terrível. E são tantos os medos que nós podemos alimentar todos os momentos da vida, mesmo que à partida confessemos que não temos medo de nada.
Os pais têm medo de perder os seus filhos, para a droga, para álcool e para a prostituição. Os filhos podem ter medo de perder o apoio dos pais. Os trabalhadores têm medo de perder o emprego e faltar-lhes o dinheiro suficiente para gastar no fim de cada mês. Os cidadãos têm medo de sair à rua porque a insegurança social é muito grande. Ninguém quer ser roubado, espoliado ou espancado. Quase todos têm medo de serem presos, mas por isso não deixam de infringir a lei. Há também o medo de se ver nas malhas da justiça, porque implica ter que lidar com gente pouco honesta.
A doença e a morte também são aspectos da condição humana que todos querem exorcizar e o medo que provocam é incalculável, o estado da medicina também não anima nada e o que se houve dizer dos lugares da saúde, provoca-nos, para além do medo natural da doença, um terror insuportável.
Outros, talvez não muito poucos, ainda terão medo de Deus. E quantos não terão medo do diabo e das bruxas. Resumindo, todos têm medo de alguma coisa, a vida é assim mesmo.
Quanto ao medo de Deus, estamos falados. Não pode haver medo de alguém que nos acarinha, nos envolve de atenção amorosa. E ensina S. Ireneu sobre Deus e o homem: "gloria Dei, homo vivens" (a glória de Deus, é o homem vivo). A lógica de Deus é esta, promover a pessoa humana para que se salve e viva sem medo de nada deste mundo nem do outro.
Deus não pode ser uma força que nos massacra e oprime. Deus, que é nosso pai e nossa mãe, concede-nos livremente as suas graças e a gratidão é a única resposta que, a partir deste facto, pode fazer sentido. Por isso dirá S. Paulo: "Pois Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade" (2 Tm 1, 7).
Tal como os pagãos dos tempos antigos que, por medo, lançavam os seus primogénitos para o fogo aos pés da estátua de Baal, também nós acreditamos que nos devemos sacrificar para ser agradável a Deus. Incapazes de compreender a grandeza, a beleza e o amor infinito de Deus, adoramos assim um ídolo criado apenas por cada um. Assim sendo, uma vida espiritual adulta e vivificante consiste em resistir e em recusar realizar qualquer prática religiosa cujo fundamento único seja o medo de Deus.
O dom supremo de Deus é o amor. Viver o amor verdadeiro e habitar num lugar onde se é sujeito na vivência do amor, conhecemos incondicionalmente a presença de Deus. A condição única de salvação, é a vida no amor, que não se consegue por simples meios humanos, como o confirma o apóstolo João: "Quem não amar não pode conhecer Deus, porque Deus é amor"(1Jo 4, 8).
O amor exorciza o medo e torna-nos livres diante do nosso ser e diante dos nossos semelhantes. Diante desta base, o amor é sempre um verdadeiro milagre. É sempre o dom que Deus nos faz de Si mesmo, é sempre uma experiência divina. Na comunidade de amor que pode ser a nossa, a presença de Deus é-nos oferecida sem preço algum livremente todos os dias. Se nos abrimos a esse milagre, podemos partilhá-lo com os outros em sinal de gratidão.
É que nós gastamos o coração e a inteligência com lógicas matreiras e maquinações interesseiras que nos perdem e nos envolvem no esquecimento fatal da perdição. O coração e a inteligência, segundo a perspectiva de Deus por Jesus Cristo, são para gastar no que é fundamental, isto é, no que salva e no que nos conduz ao Reino de Deus.
Conclusão:
O amor de Deus é forte como a morte, dirá o Cântico dos Cânticos e onde não há amor ponha amor, dirá São João da Cruz. Pois, então, que melhores caminhos podemos delinear para nós próprios senão estes que nos requerem um bom uso da liberdade, da inteligência, da alma e do coração.
Não devemos entregar-nos ao amor como se fosse um negócio com regras e condições, mas como o único modo que nos identifica com Jesus, o Mestre maior da história do mundo. Por isso, com Mahatma Gandhi rezamos assim: «Mantenha os seus pensamentos positivos, porque os seus pensamentos tornam-se as suas palavras. Mantenha as suas palavras positivas, porque as suas palavras tornam-se as suas atitudes. Mantenha as suas atitudes positivas, porque as suas atitudes tornam-se os seus hábitos. Mantenha os seus hábitos positivos, porque os seus hábitos tornam-se os seus valores. Mantenha os seus valores positivos, porque os seus valores... Tornam-se o seu destino».
Desta forma compreendemos que o amor não é moeda de troca que requer condições, mas algo que nos envolve por dentro, nos anima e nos caracteriza totalmente. Só com esta forma de vida podemos descobrir a presença de Deus, pois Deus é amor, como nos ensina de forma extraordinária o apóstolo João.
O amor por Deus e pelos outros é um modo de ser, uma vida e um dom que se acolhe como manancial da bondade de Deus, que nos torna grandes não aqui no lugar desta vida material, mas lá no lugar do Reino de Deus. suas

1 comentário:

PR disse...

Bom dia,
Brilhante!
Gosto de poesia como gosto do sol e do ar que respiro ainda que por vezes ela assuma a forma de ondas tempestuosas ou me queime por dentro, viver sem a "poesia" da vida será como morrer e não ressuscitar.
A sua conferencia foi magnifica.
Admiro a sua capacidade de se expressar, de comunicar...
Parabéns.
Paulina