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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Nenhuma lei faz os afectos

Uma notícia vinda da China está a causar alguma reflexão entre nós. Ainda bem que estamos a pensar sobre este assunto. Diz assim a notícia, o governo chinês poderá aprovar este ano um projecto-lei que obriga os filhos a visitarem os pais idosos, para que estes recebam os cuidados adequados por parte dos familiares.
Uma notícia surpreendente. Ou talvez não muito. Está antes de acordo com a chegada do progresso económico e social à China. A pensar nisso poderá não surpreender muito. Faz pensar, e muito. Os afectos regulamentados, feitos lei que os obriga a serem praticados e quem não os praticar vai para a prisão ou paga multa.
A velhice. O grande problema. O grande desafio do mundo actual. O desafio maior para cada um de nós, tanto na forma como lidamos com os velhos que se nos deparam tanto na nossa própria condição de chegarmos um dia à velhice.
Carlos Drummond de Andrade, dirá o seguinte: «Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons». Mas, seria necessário legislar para que «a caixa de bombons» fosse entregue a essas «duas épocas»? – Obviamente, que não… «Duas épocas da vida» que necessitam de afectos redobrados, mas livre-nos Deus, de que seja necessária uma lei para que os afectos sejam levados à prática para quem está nessas «duas épocas da vida».
Por fim, tudo isto é consequência da forma como se encara a velhice. Essencialmente, vista como uma tragédia irremediável e não como aquilo que Jean Jacques Rousseau proclamou, «a juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar». Neste sentido, nunca nem em parte nenhuma do mundo, nenhuma lei pode fazer dessa etapa da vida o melhor que já li sobre a velhice em Simone de Beauvoir. Diz assim a autora, «a velhice é a paródia da vida». E porque não dizer que a vida toda pode ser isso mesmo, uma grande paródia, se aprendermos todos a viver com todo o amor do mundo.
JLR
Imagem: in Correio da Manhã

5 comentários:

tukakubana disse...

Não Amigo, não pode haver "afectos regulamentados"; os afectos, para merecerem este nome, saem do coração e da inteligência também, pois temos de ter a inteligência de os escolher e adoptar.Não há lei que possa obrigar os filhos a cuidar dos pais, como o inverso também não funciona.O que temos de aprofundar é a germinação dos elos familiares, dos carinhos, dos afectos, do amor!Quem nunca amou e perdeu um amor, dizia um escritor, não pode dar valor! Talvez seja assim.

José Luís Rodrigues disse...

Claramente de acordo amiga. Obrigado pelo seu contributo.

Carol P. disse...

José, cá estou em espaço teu. Passo de primeiro pra te agradecer visita boa ao Theartbrazil. Venhas sempre, serás muitíssimo bem por lá-cá canto meu, espaço também nosso. No de depois, venho pra dizer que me apeteceu sincero blogue teu. Palavras-banquete em belezura boa de a gente ler e ir ficcionando-bocado uma vida menos asfalto doloroso dos dias todos nossos.

Te parabenizo pelo trabalho bom com as palavras e com saberes que não nos devem ficar adormecidos ou distantes...

Abraço-te com carinho, querido,
Carol P. - Theartbrazil

José Luís Rodrigues disse...

Muito obrigado Carol P. e seja também benvinda ao BANQUETE. Um abraço.

M. disse...

Só o título seria suficiente...