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sábado, 11 de maio de 2013

Manifesto contra a generalização do mal

Nota: Pode servir para alguém. Aqui está o documento na íntegra, que resultou de uma reunião de 10 padres da Diocese do Funchal. Após uma aturada reflexão e diálogo achamos por bem distribuir à comunicação social este texto. Não é contra nada nem muito menos contra ninguém. A única razão que nos move prende-se com silêncios ensurdecedores, para que fique claro e conste para a história da nossa terra que nem todos alinharam no encolher de ombros e na demissão dos problemas que estamos a viver. 
Facilmente o pensamento humano se permite enfermar deste vírus cancerígeno, quando surge uma mazela ou mancha negra em qualquer instituição ou numa camada humana e social, o perigo da generalização imediatamente nos toma de assalto. Para mais se for a instituição Igreja Católica quando se trata de qualquer escândalo de teor sexual que afecte membros do clero.
A sociedade madeirense acordou no dia 8 de Maio de 2013 com uma notícia horrível e triste para a Igreja da Madeira. Em altas parangonas a fundo negro anuncia meia primeira página de alto a baixo um jornal diário da nossa terra que um padre que manteve um «relacionamento íntimo», foi vítima de extorsão de dinheiro após chantagem e que o caso entraria em julgamento no dia seguinte no Tribunal do Funchal.
Esclareça-se que não nos move o facto da notícia em si nem o seu conteúdo, porque misérias e pecados há em todo o lado. Não haverá ninguém totalmente puritano que possa atirar pedras a quem quer que seja. A humanidade está por todo o lado e com ela estão todas as virtudes e misérias. Neste sentido, vimos a público manifestar total repúdio por qualquer pecado levado a cabo por um padre ou por outra pessoa qualquer, mas salvaguardamos a pessoa em si e continuamos a estar disponíveis para compreender e acolher o pecador. Mais ainda se manifestar público arrependimento e disponibilidade para redimir-se da sua conduta imprópria.
Cada pessoa é um caso, um universo que deve ser visto como tal e se a definição de pessoa nos revela desde logo o quanto há de individual e intransmissível em cada ser humano, não nos permite a lucidez ajuizar com dois pesos e duas medidas, nas virtudes tomados assim como se descreve, mas nos erros todos tomados pela mesma bitola e vítimas de um julgamento sumário como se todos tivessem que assumir e responder pelas mazelas de cada um. Não embarcamos por aí. A serenidade permite-nos ver mais longe, com profunda vergonha e humildade compreendemos todo o mal, repudiamos todo o pecado e acolhemos sob o dom do perdão todo o ser humano entregue às malhas da miséria, não fosse cada pessoa criação absoluta do amor de Deus.

Nós, grupo de sacerdotes da Diocese do Funchal, sentindo que haverá o risco de ser tomada uma generalização grave na tentativa de colocar tudo no mesmo saco, queremos publicamente manifestar, que a nossa Igreja Diocesana do Funchal, que conta já uma memória histórica de 500 anos, sai profundamente abalada de mais este caso, por isso, nós consideramos que não podíamos deixar passar só e unicamente a primeira notícia, para que fique claro com a nossa posição que os sacerdotes continuam a dedicar-se com total disponibilidade ao povo da Madeira e que repudiam todas as manchas deste teor ou de outros que ferem a nossa terra e especialmente a nossa Igreja.
Mais ainda desejamos relevar todo o trabalho que a Igreja realiza em prol das populações nos vários domínios humanos, sociais e espirituais... O que seria das imensas famílias sem a caridade da nossa Igreja - ainda mais agora no contexto de pobreza avassalar que estamos a viver - levada a cabo pelos diversos organismos paroquiais sob a alçada dos padres? O que seria da educação ligada à Igreja Católica, do acompanhamento espiritual e psicológico das populações e de todo o bem realizado pela Igreja da Madeira que nunca é notícia nem precisa que assim seja?
Saliente-se então que esta porção de clero da Madeira demarca-se destas manchas negras, manifestam total disponibilidade para continuar a servir as pessoas sem as instrumentalizar e com transparência, deseja continuar ao lado das populações administrando com verdade os bens a si confiados. Nada mais desejamos senão contribuir para uma Igreja ao lado de toda a população, especialmente, dos mais pobres, fazendo jus ao ensinamento e testemunho do Papa Francisco.
Por isso, diz o Papa: «Peçamos ao Senhor que o Espírito Santo nos defenda da tentação de nos tornar, talvez, puritanos, no sentido etimológico da palavra, de buscar uma pureza ‘para-evangélica’.» (Papa Francisco, Homilia de 2 de Maio de 2013). Mais ainda reforçamos a nossa oração por todas as vítimas de todas manchas, pecados que cerceiam a dignidade e o bem no coração de tanta gente, dentro e fora da Igreja Católica.

Neste sentido, escutemos a oração do papa Francisco que nos engrandece e retempera a alma na busca da verdade e de todo o bem no coração da humanidade inteira. Diz o Papa: «Peçamos ao Senhor a graça de nos tornarmos baptizados corajosos e certos de que o Espírito que temos em nós, recebido no baptismo, nos estimula a anunciar sempre Jesus Cristo com a nossa vida, com o nosso testemunho e também com as nossas palavras», referiu, na homilia da celebração que decorreu na capela da Casa de Santa Marta, a 17 de Abril de 2013.
Por fim, resta reafirmar que nos move a causa do Evangelho de Jesus de Nazaré e que não serão os pecados de membros da Igreja nem muito menos as nossas falhas e limitações, que nos travam ou ofuscam o bem que desejamos para todos. Porque entendemos melhor do que ninguém a natureza humana, no que tem de bem e de mal, não embarcamos na cegueira do juízo que hipocritamente generaliza nem no puritanismo falso,  mas sempre compreendendo e acolhendo todos os nossos semelhantes que caiem na tragédia do pecado.
A Deus encomendamos o nosso trabalho e dedicação, na esperança que a opinião pública encare com serenidade e compreensão as manchas do clero, exactamente, como nós compreendemos e acolhemos as imensas misérias e limitações humanas que quotidianamente encontramos no trabalho pastoral que realizamos em prol das nossas comunidades.
Funchal, 10 de Maio de 2013
Padres signatários
Padre Rui de Sousa
Padre José Pascoal Freitas Gouveia
Padre Francisco Caldeira
Padre Bernardino Andrade
Padre António Paulo de Ponte Sousa
Padre Paulo Jorge Catanho Silva
Padre Ricardo Freitas
Padre Miguel Lira
Padre José Luís Rodrigues
Padre Silvano Gonçalves

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