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domingo, 11 de maio de 2014

Maria de Nazaré é a Mãe que foi apóstola

O meu texto de opinião no Dnotícias de hoje (11 de maio de 2014)... 
Se Nossa Senhora fosse menos olhada como Mãe de Jesus e mais como a discípula ou a apostola de Jesus, dar-se-ia uma revolução na Igreja Católica e quiçá no mundo cristão. 
Explico-me. Maria de Nazaré foi sempre considerada ao longo dos séculos como a Mãe Imaculada, a mulher submissa à virgindade e endeusada no papel de Mãe, coisa que os textos bíblicos facilmente desmentem e falam-nos de uma mulher interventora, discípula, que antes de ser Mãe, ouve a Palavra de Deus e a coloca em prática de forma sublime e exemplar. Eis o papel do discípulo/a, aquele ou aquela que se coloca aos pés de Jesus para escutar a Sua Palavra e depois a leva aos outros com entusiamo e alegria.
Maria trata-se de uma mulher activa, que vai ao encontro dos outros e resiste de pé firme junto da cruz. Antes de ser apenas a Mãe, é também a discípula que escuta, mas avança na entrega total à causa de Jesus. 
Se esta visão sobre Maria de Nazaré fosse mais rezada, celebrada pelo mundo cristão, as mulheres teriam o seu verdadeiro lugar nas igrejas e estariam em plena igualdade face aos homens. Não haveria acepção de pessoas nem estaria o poder apenas reservado à masculidade, mas a todos sem execepção. Os sacramentos seriam para todos, especialmente, o Sacramento da Ordem que continua vedado às mulheres. Esta seria uma reviravolta enorme no pensamento e na mentalidade dos cristãos.
O que se diz ou prega sobre Maria de Nazaré reveste-se de uma desumanidade impressionante. A iconografia mariana é disso um exemplo. As imagens que se contemplam de Maria de Nazaré revelam uma mulher assexuada, nada próxima da condição do ser mulher. Um rosto sempre tristonho, cabisbaixo e de mãos sempre voltadas para o céu como se o inferno estivesse aí junto aos pés. Esta visão do ser mulher em nada tem que ver com a condição feminina e não espelha a dignidade que esta condição expressa de riqueza e diversidade. A feminilidade ainda continua a ser um perigo para as igrejas profundamente masculinizadas que a tradição máscula arquitectou baseada na imbecilidade de se dizer que é a vontade de Deus. A divinização de tais argumentos é um sacrilégio e uma ofensa ao Deus da universalidade bem patente no Evangelho da Cananeia e no diálogo extraordinário de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob.  
Maria de Nazaré, mesmo sendo Mãe, é a Serva de Deus, que participa do plano libertador que Deus quer levar adiante a favor da humanidade inteira. É Ela que se levanta como profeta ou discípula ou apostola para dizer «NÃO» a tudo o que se opõe a esse plano libertador de Deus. O Seu «SIM» não é uma manifestação submissa, mas compromisso activo, militante nessa obra de Deus. Ela é a Maria do povo, um povo concreto, a mulher do nosso chão, a companheira que faz caminho connosco nas veredas deste mundo e que em cada esquina nos toca com o Seu abraço de amor. O Evangelho prova-nos que esta mulher é a Maria pobre, que vem do meio do povo, da aldeia, da cidade… Ora integrada no sangue que escorre nas encruzilhadas dos caminhos ora desprezada por ser mulher e por manifestar a diferença, exactamente, como acontece ainda hoje a qualquer mulher que assuma activamente a sua condição feminina e que se preze porque quer ser diferente do status machista que a sociedade convencionou. 
No canto de Maria «O Magnificat», acolhemos Maria como a mulher pobre vergada ao carinho dos pobres desta vida, que procuram Deus e gritam por justiça. É desta mulher que se aprende o que é a fé, a escuta, a reflexão e a capacidade de decidir, mesmo que muitas vezes a compreensão das coisas não seja assim tão clara e tão óbvia como Ela desejaria.
Melhor seria para termos uma humanidade mais justa, fraterna e amiga dentro das igrejas cristãs, se Maria de Nazaré fosse olhada como a discípula ou a apostola e menos como a Mãe, que Jesus desvaloriza frequentemente em muitos momentos do Evangelho. E mais, Maria não se valeu da sua condição de Mãe para contrariar o Filho e fez-se discípula. E isso, nenhum eclesiástico pode contrariar.

1 comentário:

Jose Machado disse...

Caro padre Rodrigues aprecio a sua coragem pelas propostas que faz, no caso em relação à mãe de Jesus.
Há-de haver por aí muita gente a "roer-lhe" os calcanhares...Para além do apego ao PODER/TER (pecado maior da IC)o da discriminação das mulheres é um pecado ainda consentido e praticado oficialmente.
Mas, ao não permitir que os homens-padres- constituam família, está também a cometer um pecado de discriminação, de lesa humanidade. O meu abraço
Jose