Convite a quem nos visita

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Cristãos estacionados na Igreja

Comensal divino
1. Ser cristãos não é fácil. Ser católico é mais fácil. Ser cristão implica estar sempre inquieto, requer uma força de vontade para seguir e pôr em prática o ideal de Jesus Cristo, que não é nada pêra doce. Ser católico é mais fácil, porque aquieta a consciência com meia dúzia de orações, umas devoções, umas bênçãos, umas idas à missa algumas vezes no ano ou apenas quando lá tem que ser, a celebração de um Baptismo, um Casamento, um funeral e uma circunstância qualquer que num determinado contexto não permite a fuga.

2. O Papa Francisco numa das suas missas em Santa Marta exortou os católicos a se tornarem cristãos a levarem «uma vida corajosa» contra a preguiça que invade tantos que estão «estacionados» na Igreja. E definiu o que são e o mal que fazem: «os cristãos preguiçosos, os cristãos que não têm vontade de ir avante, os cristãos que não lutam para fazer as coisas mudarem, coisas novas, coisas que fariam bem a todos se mudassem. São os preguiçosos, os cristãos estacionados: encontraram na Igreja um belo estacionamento». Não se cuidem que estas palavras sejam só para uns ou para alguns especialmente. Continuem a leitura.

3. A dureza das palavras do Papa Francisco, foram cravadas como lanças sobre o quietismo e o comodismo que afecta tanto a nossa Igreja: «E quando digo cristãos, digo leigos, padres, bispos… Todos. E como existem cristãos estacionados! Para eles, a Igreja é um estacionamento que protege a vida e vão adiante com todas as garantias possíveis». Viram, destinam-se estas palavras a todos sem excepção.

4. Assim, face a tantos desafios que nos assistem é quase imperdoável a apatia que trava a ousadia do Espírito que sonha organizar uma Igreja mais humana e solidária, respondendo aos clamores da sociedade, especialmente das pessoas abandonadas. Porém, para que este sonho não seja realidade alguns especialmente terão mais culpas do que outros, porque empatam e de que maneira as propostas, as ideias, o debate e mais grave ainda as soluções. Quando o poder cega, a vaidade endoidece e as mordomias ensoberbecem não há nenhuma hipótese de mudança.

5. A Igreja peregrina no mundo, precisa avançar sempre mais, rompendo com a tentação de acomodar-se. E para avançar com liberdade evangélica, há necessidade de abandono de tudo o que a impede de ser verdadeiramente discípula missionária de Jesus. O apelo à conversão mantém-se e o apelo é claro, é preciso sair de uma Igreja distante, burocrática e sancionadora para uma Igreja mais de acordo com o Evangelho, comunitária, participativa, realista sem que tenha que abdicar da sua aura mística, é certo. Mas, a prática da Igreja deve retomar as origens, ser seguidora de Jesus Cristo, servidora do seu evangelho e, por isso mesmo, promotora da vida digna sem exclusão e sem condenações.

6. O Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium apresenta o caminho a ser seguido pela Igreja quanto à evangelização a seguir no mundo de hoje. É a proposta do evangelho que precisa ser retomada com coragem, «A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4,43); trata-se de amar a Deus que reina no mundo. À medida que ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos» (EG 180). Porém,, tudo isto deverá começar a ser experimentado no interior da Igreja com (e entre) todos os seus membros.

4 comentários:

francisco disse...

Concordo com a ideia e objectivo e que o Papa Francisco dá-nos um exemplo e exortação bem necessário para não ficarmos na passividade.
Mas permita-me discordar do princípio, o que nos indica como sendo católico não me parece que seja, está mais próximo do farisaísmo, ser católico não é isso por isso não pode ser usado para criar uma diferença entre ser católico e ser cristão. E ser cristão também não é praticar o ideal de Jesus porque Jesus não nos deu um ideal, deu-nos a possibilidade de recebermos a Graça de Deus e sermos Filhos de Deus, a partir da qual ajudamos a propagar o Reino de Deus.
Por isso acho que a diferença está não entre ser cristão e ser católico mas entre ser católico e esquecer o que é ser católico.

O verdadeiro exemplo de "retomar as origens" vem no Evangelho do próximo Domingo:
"[Jesus] De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar. Simão e os companheiros foram à procura d’Ele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram». Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim"

Parece um exemplo bem católico: rezar porque se sabe que nada se faz sem a Graça de Deus e a partir daí ir evangelizar, anúnciar a todos o Reino de Deus, chamando à conversão e levando a todos o amor de Deus.

A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, por isso devemos permanecer nela e sermos católicos, precisamos é de bons católicos, que não fiquemos na passividade. Compreender que as orações, devoções e missas não têm o sentido dos fariseus são antes os meios que Deus nos dá para estarmos com Ele, nos alimentarmos para ir ao encontro do nosso próximo, amá-los e servi-los como Cristo, e Cristo mostra-nos que o faz unindo a Sua vontade de uma forma perfeita à vontade do Pai.

francisco disse...

não é por acaso que no Evangelho que vem citado no ponto 6 e que vem da EG180 "A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4,43)" tem novamente no versículo anterior a indicação "Ao romper do dia, saiu e retirou-se para um lugar solitário." (Lc 4,42).
A Graça de Deus e a oração é a semente para tudo o resto. Temos de incentivar esta intimidade com Deus e exortar à acção, as duas coisas juntas.

francisco disse...

posso fazer uma proposta e saber a opinião do sr.padre e dos leitores num ponto?

O Papa Francisco dá um belo exemplo de proximidade, simplicidade, exemplo de uma Igreja acolhedora, como nos indica "de acordo com o Evangelho, comunitária, participativa, realista sem que tenha que abdicar da sua aura mística".

Para isto é fundamental o testemunho que dá, ser visivel, quem precisa poder o reconhecer, saber e recordar-nos que o amor de Deus está entre nós.

E o Papa Francisco consegue fazer tudo isto vestindo uma simples batina, como indicam as normas da Igreja os sacerdotes devem usar batina ou fato preto com cabeção de modo que sejam visiveis. O Papa Francisco faz isto muito bem no exemplo de Cristo, leva a Lei à perfeição, não é apenas uma regra mas um meio que o Papa consegue usar com simplicidade, consegue usá-la sem mostrar clericalismo, é antes sinal do sacramento da ordem, o testemunho visivel que depois transmite nas suas acções de proximidade e simplicidade.
O Papa Francisco se não usasse a batina perderia um elemento fundamental, pois ver estes dois elementos juntos, a visibilidade e a proximidade, faz-nos lembrar a alegria do Evangelho, que é Graça e amor.

A proposta é, dado que as normas da Igreja o indicam e seguindo o belo exemplo do Papa Francisco será que se consegue ter os sacerdotes a usar a batina ou outro sinal visível de que são testemunho de Cristo no mundo?

francisco disse...

O sr.padre tem razão, a minha proposta não encontra acolhimento e resposta apesar do Papa Francisco a colocar em prática de uma forma tão bela, a misericórdia apresentada em Graça e amor.
Será que em alternativa se pode alterar a norma para que a prática esteja de acordo com ela? O Papa Francisco também costuma referir a importância da coerência e testemunho.