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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O carnaval religioso 2018

Comensal divino
1. Andava meio mundo descansado a comprar farinha e fermento para as malassadas, os jovens a contorcer-se no samba pelos salões e garagens em ensaios para os desfiles de carnaval, que nos próximos dias irão colorir e encher de carne desnudada as ruas das nossas cidades e vilas por esse país fora. É neste ambiente que surge do cardeal de Lisboa, Manuel Clemente (digo de Lisboa apenas e só e não o «responsável máximo da Igreja Portuguesa», como andam muitos a dizerem erroneamente. É Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é um órgão meramente consultivo e de reflexão, não tem a função de gerir nada. Este antístite é "responsável máximo" por si mesmo e pela Diocese de Lisboa, ponto). Numa «nota para a receção do capítulo VIII da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’», considera o bispo de Lisboa no ponto nº 5, alínea d) «Quando a validade se confirma, não deixar de propor a vida em continência na nova situação». A frase caiu como uma bomba, que rebentou ontem de manhã na comunicação social e durante o dia incendiou as redes sociais.

2. O cardeal com esta frase totalmente descabida, desnecessária e profundamente infeliz provocou uma onda geral de indignação, antecipou o carnaval, semeou a chacota da Igreja Católica e remexeu o veneno terrível das injustas generalizações. Não podia ser de outro jeito, porque a sua posição é um retrocesso e uma recomendação errada que viola a dignidade humana e a liberdade dos casais, estejam em que situação for. Nenhum clérigo tem nada com isso, deve respeitar a liberdade e vontade própria de cada pessoa. D. Clemente mais uma vez considera a sexualidade não como um bem, mas, quando exercida fora das regras que foram convencionadas por pretensos celibatários, é um pecado ou algo diabólico que precisa de rectificação religiosa para ser válida e querida por Deus. Nada mais retrógrado e absurdo. A frase ainda choca mais se nos lembrarmos da doutrina da misericórdia, os apelos ao acolhimento e a pastoral da inclusão para os recasados defendido pelo Papa Francisco.

3. O bispo Manuel Clemente é um homem da história, disciplina que nunca devia ter abandonado, porque até tinha algum jeito para isso. Porém, aconteceu-lhe o que acontece a muitos na Igreja Católica, quando caem em graça, tornam-se «menino bonito e sabichão», por isso, servem para tudo, mesmo que tantas vezes se revelem com uma carga de incompetência confrangedora. Relativamente a D. Clemente, por causa dessa lógica amiguista, provavelmente, perdeu-se nas calendas da história um bom professor para termos pastor menor. Algumas vezes compromete a Igreja toda ou pelo silêncio estudado ou por pronunciamentos deste género totalmente descabidos, que descredibilizam toda a Igreja e metem no mesmo saco toda gente.

4. Já vai sendo tempo de os hierarcas não se meterem onde não são chamados, muito menos mexer no que está quieto. A teimosia de que os hierarcas da Igreja Católica sabem tudo e de tudo, cai neste ridículo diante de uma sociedade informada, liberal no domínio da sexualidade e em todas as questões sobre a vida. Daí que não colem estes anacronismos, ainda mais são patéticos perante uma sociedade esclarecida e com tanta gente especializada nas questões sobre a vida e a sexualidade. Porque deve falar sobre um assunto quem não tem experiência nenhuma sobre a matéria, renunciou à família e aceitou a missão que implica viver na solidão? - Nem vou pelo lado dos escândalos que têm assolado a Igreja inteira e que a desautorizaram por completo neste domínio da sexualidade. A famosa diplomacia de D. Clemente desta vez espatifou-se…

5. Face ao escândalo e indignação que se vive mais uma vez por causa de disparates sobre a sexualidade ou mais concretamente a vida dos casais em qualquer circunstância, proponho o seguinte: a) calem-se os hierarcas moralistas encartados de uma vez para sempre de falarem sobre o que não percebem e do que não vivem; b) Paremos de uma vez por todas de impor fardos pesados no âmbito da sexualidade sobre os outros, porque começa a levantar a suspeita de que estão invejosos; c) Vamos purificar-nos desta obsessão doentia pelo sexo e deixar em paz a intimidade dos casais; d) Deixemos de considerar as pessoas em geral como se fossem infantis e de que precisam de umas dicas para não caírem em pecado; e) Deve calar-se para sempre quem não é capaz de compreender a vida de hoje cheia de contornos multifacetados e que não vai ser capaz de assumir uma linguagem sempre nova que as mais variadas possibilidades da vida actual apresenta todos os dias; f) Enfim, é preciso deixar quieto o que não nos diz respeito e aceitar as opções de cada pessoa que pretenda refazer e assumir novas opções quantas vezes entender desde que não fira a dignidade de ninguém, mas persegue a felicidade.

5 comentários:

francisco disse...

Na postagem abaixo tinha percebido que "O Deus de Jesus não está nada aí para a marginalização e faz a denúncia clara contra todas as formas de opressão nas famílias, na política e na religião. A sua lógica é a fraternidade.", então porquê 3 dos 5 pontos são contra uma pessoa?

Quanto ao assunto também me parece que não se deve reduzir à sexualidade, o problema do adultério não é apenas sexual, é mais do que isso.

Para compreender o ponto de vista do sr.padre, parece-me que a sua ideia será considerar aquela família como é, com todas as suas dimensões, e a partir daí aproximá-la da comunidade possibilitando aceder aos Sacramentos, continuando eles a ser um casal. É assim?

É bom termos propostas mas para a alinea f) dá a entender que o melhor será permitir o divórcio?

Rodrigues Rodrigues disse...


Nada é contra ninguém. Mas contra uma postura ou posição sobre uma determinada matéria, que penso não ter necessidade de referir-la outra vez aqui, que implica muito com a vida dos outros... Por isso comentei, senão pouco ou nada me importava com o caso, não me diz respeito.

francisco disse...

Obrigado sr.padre por clarificar, é sempre possível seguir a lógica da fraternidade e de acolher o que pensa de forma diferente. É esse até o grande exemplo de Deus que ama tanto os que pensam de forma diferente d'Ele e ama tanto os que lhe são indiferentes que enviou o Seu Filho para que se convertam e encontrem o caminho até Ele.

É esta uma situação complicada que afecta quer a vida quer a vida eterna das pessoas, a verdadeira felicidade está em Deus e por isso devemos ajudá-las a estar em estado de Graça e a encontrar o tesouro, com misericórdia e verdade.

Tedi Bus disse...

Muito obrigado Padre José Luís, pela sua coragem e facilidade em escrever brilhantemente estas verdades. Bem haja.

Cisaltina Pinto disse...

Fantásticas palavras Sr. Padre. Fomentar a união e compreensão, sem julgamentos desnecessários.