
Para lá desse papel de polarizador das paixões (e das frustrações) sociais, o futebol vale por si. Ele dá a ver o jogo, a surpresa do movimento, a cartografia rápida do encontro e do contraste, o avanço, a finta ao obstáculo, a estratégia dos passes, a dança inteligente dos corpos, a leveza que pode ter a alegria. Dá a ver a relação criativa entre o indivíduo e o grupo, entre os talentos individuais e a mecânica do conjunto, instituindo práticas de cooperação onde a disciplina e o improviso frequentemente se aliam. Ele dá a ver a força e a vulnerabilidade, o cálculo e o risco, a solidão e o júbilo.
Nestes dias tem-se também falado da riqueza e dos estilos de vida de alguns profissionais do futebol. O que se diz sobre eles não pode ser senão o que se aplica a todos, em iguais circunstâncias. Lembrando que tão mau como a exibição exorbitada da riqueza é o sacrifício do escasso tempo que lhes resta à sociedade de consumo, vendendo carros, roupa ou bancos. Dá que pensar o que Galeano escreve: “ao fim e ao cabo, isso só prova que este mundo é tão absurdo que tem até escravos milionários”.
José Tolentino Mendonça, In Agência Ecclesia

Ucrânia, 9.6.2012. Foto: AP Photo
Sem comentários:
Enviar um comentário