31 de Julho, estamos à porta de Agosto, mês de desgosto e de cabritos, porque ninguém
casava neste mês por ser o que se dizia. Mas, neste agora, onde pouco ou nada se importam com cornos e outros adereços, fica um mês atípico para férias num Verão que não
mexe, mas que se remeteu a alguma depressão derivada do infortúnio que se
abateu sobre todas as cabeças que muitos pensam estarem descampadas. Vá lá
contentem-se.
Só
mesmo este clima de férias para acalmar os ânimos e nos remeter de novo à
pasmaceira costumeira em que mergulha a nossa terra.
Os
incêndios animaram as festas de Verão. Provocaram um falatório entretido que
nos fez bem, por um lado, mas, por outro, disse mais do inferno numa semana do
que a catequese em 2000 anos de existência cristã.
Agora
resta uma paisagem negra, sinal exterior de que «a coisa está mesmo preta».
Pois,
está mesmo, para quem caiu na valeta do desemprego. Negro está para quem tem
filhos para alimentar e mandar para escola, mas não tem um cêntimo na carteira
para corresponder a este custo de vida altíssimo em que estamos mergulhados.
Negro está para quem perdeu os bens na última tragédia. Negro está para quem
está ameaçado com as próximas tragédias. O risco já era evidente, mas agora nem
se fala. Negro parece estar para os nossos atletas que participam nos jogos Olímpicos
que, pelos sinais, não trarão uma medalha que seja para salvar a honra do
convento. Por isso, isto anda mesmo muito mal para o nosso lado…
Então
vemos uma sociedade inquieta, incrédula perante as investidas de quem tem
responsabilidade, mas não as assume. Antes se entretém a explorar o povo,
dispara em tudo o que mexe e depois emenda a mão com uma festança, um brinde,
uma charuteada, uma palmadinha nas costas, um disfarce qualquer para emendar a
bacorada, a ofensa, a calúnia proclamada como verdade suprema, debita a análise
sábia dos males do sistema, do regime e dos outros, sempre os outros… Este
Verão, não aquece e se já esteve quente derivou do fogo que não se queria que
existisse, aquele que os incendiários de florestas e da sociedade atearam.
No
desenrolar deste tempo, falamos do que sabemos e vemos no descampado do
pensamento, da ignorância e do vazio que se instalou em todos os domínios uma
depressão preocupante, uma solidão que mata toda a possibilidade de qualquer
ideal. Por isso, salta a vista o pensamento de Mário Quintana: «Sorri com
tranquilidade / Quando alguém te calunia. / Quem sabe o que não seria / Se ele
dissesse a verdade...». Neste esforço para tornar viva matéria já morta vemos
um grande esforça, um sacrifício que nos anima a compaixão, mas gosto mais do
grito de L. Uhland quando sentencia: «Levem
ao túmulo, aquele que parece um cadáver!». Nem mais.
Ora
num Verão atípico, o nosso estado de alma, o nosso pensamento também são atípicos
e andam como que perdidos no desalento, no desencanto do nada que se avizinha
em cada dia que o tempo nos reserva para viver. E neste deambular com pouco
sentido, remetemo-nos a Fernando Pessoa que nos diz do nada que se vê neste
clima impróprio para quem gosta de vibração e de animação cheia de esperança. Meditemos
no «Ah, Onde Estou»:
Ah,
onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A
banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah,
a angústia insuportável de gente!
O
cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio
outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)
Queria
vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago
da alma alvorotado de eu ser...
José Luís Rodrigues
1 comentário:
Querido Amigo
Das cinzas...renasceremos e do pó se faz a ressurreição!
A minha mãe também dizia: Agosto ...desgosto! Pois mudemos-lhe então a cor, para no fim podermos dizer:Agosto...o mês que eu gosto!!
Se puder, dê um pulo ao meu blog e ao FB onde estou como Graça Machado, talvez possa dar dos dois espaços...o sol que hoje nos falta.
Um abraço
Graça
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