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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A fé não é uma fonte de conhecimento secreto


O que a fé não é (2)
Nos primeiros séculos do Cristianismo desenvolveu-se uma crença que se veio a chamar de «gnosticismo». O gnosticismo tem origem na palavra grega «gnoses», que significa «saber».
Os gnósticos acreditam que possuem um conhecimento mais elevado, são uma classe privilegiada em relação às outras, porque têm um conhecimento superior e mais profundo sobre Deus. A salvação dependia de uma iluminação ou conhecimento interior que libertasse do mal e da ignorância da vida neste mundo. Negam a humanidade de Jesus, recusam aceitar o Antigo e o Novo Testamentos. Negam a doutrina da Igreja e a tradição cristã. O gnosticismo tem uma visão dualista da pessoa e da criação. A alma humana está aprisionada ao corpo e a criação não é vista como um bem, mas enformada pelas forças do mal. Os humanos desejam o bem e a verdade, mas estas realidades estão fora das realidades criadas. Neste sentido, Deus é uma entidade totalmente transcendente, que envia uma pequena luz e um ténue conhecimento secreto (gnoses) para alguns privilegiados que tenham a «sorte» de aceitar essa iluminação interior.
Bom, a fé não é esta forma de conhecimento nem outra que se encaixe num circunscrito mundo pessoal ou de um grupo. Está muito além deste parâmetro e encontra terra fértil no coração de todos aqueles e aquelas que se abram ao abraço do mistério. Tudo o que seja conhecimento esotérico, secreto, sobre as coisas de Deus, da vida e do mundo, para dizer de uma fé, que só está ao alcance de alguns, não se enquadra no pensar do Evangelho de Jesus de Nazaré nem encontra justificação na doutrina e tradição cristãs.
As pessoas que acreditam não têm informações «confidenciais e secretas» sobre nada. A fé abre ao mistério de Deus e faz com que o crente possa perscrutar nem que seja por pequenos sinais a vontade de Deus em relação à sua vida e à vida do mundo. Por isso, a criação não pode ser um mal desde logo, mas um bem que nos revela a acção de Deus. Em tantos sinais da vida e do mundo criados, podemos vislumbrar a presença de Deus e a Sua vontade. São Paulo confirma: «Com efeito, desde a criação do mundo, as suas perfeições invisíveis, eterno poder e divindade, são visíveis nas suas obras, para a inteligência…» (Rom 1, 18-21). 
A fé não pode ser uma forma de conhecimento centrado num secretismo qualquer, mas uma realidade interior que abre o coração da pessoa não apenas para o «seu» conhecimento ou a «sua» iluminação, mas para todas as realidades que desvelem alguns conhecimentos acerca de Deus, da salvação e do sentido da vida em plenitude. Acolher a fé desta forma livra-nos do perigo do fundamentalismo e da propensão para a violência que a fé reduzida ao afunilamento podem facilmente levar aqueles que assim concebem o caminho da fé. Temos tido ainda recentemente muita violência e insegurança em nome de «fezadas» propagadas por grupos e pessoas individualmente. A fé nunca destrói. Se conduz a algum mal, então estamos perante a ausência da fé ou então perante conteúdos totalmente distorcidos acerca do que é e deve ser o acolhimento da fé.  
A fé não sendo esse conhecimento secreto e afunilado, apresenta-se em nós como um dom que nos revela o que somos, de onde viemos e para onde vamos. Como diz Simon Weil: «Se mergulhamos em nós mesmos, descobrimos que possuímos exactamente o que desejamos». A fé por este caminho nunca nos violenta nem muito menos faz violentar os outros e a obra da criação. Porque, «Deus é cheio de compaixão e nunca falha com os aflitos e desprezados, se estes confiarem apenas Nele» (Santa Teresa D’Avila).
A fé não sendo um conhecimento que nos dá as maiores certezas e a segurança que tanto procuramos, leva-nos à confiança no mistério, envolve-nos nele e nesse «abandono» podemos encontrar um sentido para a vida presente e a vida futura.

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