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terça-feira, 9 de outubro de 2012

O enterro nas fozes das ribeiras

 Porque é Terça-feira, Farpas no Banquete...
Ontem fui dar o meu habitual passeio de fim de dia na baixa da nossa cidade. Algo que não dispenso por ser das coisas mais agradáveis que se pode ainda fazer na nossa terra. Andei ao lado dos tapumes que escondem, mais ou menos, as obras que o «nosso querido» governo está a realizar nas fozes das Ribeiras de João Gomes e de Santa Luzia. Uma obra «grande, necessária e imprescindível» que agradecemos muito, porque estávamos fartos de ver duas fozes de ribeira ali tão próximas, mas separadas. Já era tempo de se lembrarem de juntarem estas pobres coitadas que sempre ali estiveram há imensos anos separadinhas. Um grande bem e um exemplo contra este tempo mergulhado na divisão, na discórdia, no divórcio, na separação... Haver algo que junta é sempre bom de se ver.
Bom, mas chegado ao sítio para ver o movediço das terras e das pedras, deparo-me com algo nada surpreendente, o mar já se encarregou de engolir a maior parte dos inertes que foram espalhando junto à muralha da Avenida do mar na direcção do Forte de Santiago. Será que os doutos obreiros responsáveis por mais esta megalomania terão pensado que ali existe mar e que era preciso pensar nesse elemento? Será que vamos ter ali mais um mamarracho tipo Marina do Lugar de baixo onde em cada ano se enterram milhões para reconstruir o que o mar se encarrega de destruir sem pedir licença? – Calha bem que esta Zona da cidade, após o 20 de Fevereiro de 2010, foi denominada de aterro, palavra que facilmente se conjuga com enterro. É disso que se trata, um verdadeiro enterro de dinheiros públicos que nestes tempos de penúrias poderiam servir para outros bens mais necessários à sobrevivência das populações.
Ora, deduz-se que estamos outra vez diante de uma teimosia e uma vingança. Uma teimosia de quem acha que «quer, pode e manda», tem os votos da famosa maioria na mão. Basta isso! E sempre que os «ressabiados», «os traidores» e «os ingratos» se lembram de dizer alguma coisa logo deve ser-lhes pregado nas «ventas» este argumento. Tomem lá que o povo «superior» votou em nós em maioria.
Outra coisa que salta à vista, é que estamos também outra vez diante de uma vingança, contra quem sempre aponta os contra das coisas, não que o façam por simples discordâncias, mas, porque é assim mesmo, tudo aquilo que fazemos na vida tem prós e contras, pena que muita gente não funcione assim e se ache sempre perfeito, seguro e dono do que quer fazer. Mais ainda resulta como vingança contra a Câmara Municipal do Funchal, que ambiguamente, mas mais para o contra do que a favor se manifestou pontualmente. E porque não tem poderes para embargar uma obra seja lá de quem for, a entidade que melhor representa os cidadãos, a Câmara Municipal? – Há aqui algo que não se entende…  
As coisas não deviam ser assim quando implicam dinheiro de todos os contribuintes e a seriedade devia obrigar que nada deve ser feito na base da vingança e da teimosia da megalomania de uma pessoa ou de um grupo. O que é de todos e para todos a todos diz respeito. Desde o início sempre foi defendido por uma larga maioria de cidadãos e de diversas entidades que os inertes do aterro deviam ser retirados dali. A manifestação que logo no início se realizou sobre o aterro deveria ter feito pensar um pouco quem avançou com mais esta loucura de um novo cais neste lugar sem protecção contra a fúria do mar e a união de duas fozes de ribeiras como se isso fosse o mais prioritário neste momento.  
Saltam dois aspectos em tudo isto. Primeiro, o mar vai encarregar-se de mostrar quem manda de verdade naquele lugar e se tivermos mais um temporal forte, mesmo que não seja tanto como o 20 de Fevereiro, veremos mais uma vez como não estamos nada preparados para situações deste género e como a nossa cidade está sob ameaças terríveis que pelo jeito são da natureza, mas também da má vontade humana. E tudo isto é deveras preocupante.
Segundo aspecto, faz muita impressão ver obras que pouco ou quase nenhum impacto terão na vida quotidiana dos cidadãos, quando estamos com as nossas escolas na penúria, famílias inteiras mergulhadas no desemprego e com isso o drama da fome, da depressão e da desgraça. Os serviços de saúde entre nós agonizam numa penúria terrível que põe em causa a dignidade de quem precisa destes serviços e de quem ali realiza o seu trabalho. As prioridades estão totalmente invertidas e teima-se em seguir o mesmo como se ainda estivéssemos em tempo de vacas gordas.
Ao olhar este panorama concluímos que, neste momento, não precisávamos nada destas obras. Há outras necessidades mais urgentes. Quem sabe se a guerra à praga do mosquito fosse mais necessária ser feita neste momento, para não que tivéssemos que conviver com mais essa terrível doença, que, segundo os «nossos doutos governantes», é uma doença «benigna, trata-se como uma gripe»… Resta dizer que não mata cidadãos indefesos, que são a maioria, mas apenas governantes. Ora esta, façam-me o favor de ir passear, então, não sabem que a gripe mata imensa gente e que qualquer doença deve ser vista com muito respeito… Das três uma, ou estamos perante ignorância, ou vontade de enganar as pessoas mentindo e ou perante alguém que nunca teve gripe e se teve, afinal, gostou de a ter…. Tretas que cai quem quer.

Fotos «Gasparadas» ao Dr. Raimundo Quintal.

1 comentário:

Thomas Dellinger disse...

Já agora convém mencionar que a obra se inicía convenientemente no princípio do Outono, para que, quando chova, os custos dos pobres empresários sejam aleviados, para que os significativos descontos que fizeram ao GR possam ser ligeiramente amortizados e a obra se concretize, em benefício dessas altruistas empresas, digo, de todos os Madeirenses.