Convite a quem nos visita

sábado, 30 de novembro de 2013

Advento

Poema para o fim de semana...
A porta do círculo que faz a liturgia
Na história de Deus e da humanidade
Que na firmeza da esperança recria
Nas entranhas da solidão o amor
Mais a luz do tempo que chora
A emoção do momento novo do encontro.

Depois sonhamos juntos no gosto da paz
Uma criança que sorri nas mãos do olhar
Quando uma mulher fervilha a alegria de ser mãe.

O advento que vem e virá sempre quando todos
No querer de cada pensamento dizem venha
O abraço de Deus no toque solene do mundo.

Ah e que nunca nos falte fermento em vida
No pão dos dias que a chegada da boa notícia
Faz banquete na mesa de cada casa
Que se edifica no alicerce do coração.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Os grandes devoram os pequenos

Vamos perder um bocadinho de tempo, não será em vão, garanto-vos, para lermos estas passagens do Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira, expulso do Reino de Portugal, por ser uma voz incómoda… Debrucei-me neste Sermão por estes dias, à medida que fomos tomando conhecimento das medidas dos Orçamentos de Estado de Portugal e para a Madeira. Mais actualidade nesta mensagem proferida em 1654 é impossível. Extraordinário e digno de ser lido sem que se reflicta nos tempos em que vivemos...

(…) A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. (…)

Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.  

(…) A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem?

Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens. Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos. Assim foi; mas se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviriam estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos, quando lá chegam, acham outros maiores que os comam também a eles.  

(Sermão de Santo António aos Peixes, pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654, VII-VIII-IX, 264-268)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O ADVENTO: Vigiar em jubilosa esperança

Mesa da palavra
Comentário à missa do Domingo I Advento - Ano A
1 Dezembro de 2013

A partir deste Domingo, até ao dia 24 deste do mês de Dezembro, vamos celebrar um tempo muito especial, o Advento. Esta palavra significa vinda ou chegada. A Igreja manda, que durante este tempo, nós cristãos façamos uma preparação especial para receber Aquele que vem no Natal, Jesus Cristo, o salvador da humanidade.
Por ser um tempo de preparação a palavra que mais palpita agora é a esperança, como a mulher que está grávida, como algumas vezes dizemos que está de esperanças e os nossos irmãos espanhóis sabiamente dizem sempre para a mulher grávida.
Por isso, o Advento é esse tempo de gravidez interior, quando o nosso coração se reveste com essa palavra tão forte e tão necessária para a vida, a ESPERANÇA. A vida sem esperança não tem sentido nenhum, por isso, vamos fazer deste tempo do Advento o melhor tempo para procurar forças e todos os caminhos que nos levem ao encontro da esperança. Crise também se conjuga bem com a esperança.
A esperança é a luz de toda a vida, luz para o desespero perante os problemas, luz para deixar o coração ser mais generoso e aberto à partilha solidária, luz para quando os outros nos querem destruir e nos fazem muito mal, luz para a injustiça no trabalho, luz para a desobediência dos filhos perante a palavra amiga dos pais, luz nas trevas da doença e da morte, luz para a tristeza que é ver alguém mutilar-se com a droga, o álcool, luz para o domínio da soberba e do egoísmo, luz para toda a forma de injustiça e contrariedade que esta vida contém.
Vamos então procurar a esperança, porque ela é o melhor remédio para todas as doenças e de modo especial a febre da crise, que de tanto se falar nela, vai consumido cada um de nós pelo medo e pela incerteza em relação ao futuro. Neste ambiente falta dizer bem alto as razões da nossa esperança. Deixemos Cristo acender essa a luz dentro de nós. O Advento serve para isso.
A esperança conjuga-se em Jesus com a vigilância. Que o nosso coração se aqueça com a chama da esperança em relação ao futuro cheio de amor que Deus nos oferece. Nisto consiste o «vigiar» de Jesus. Assumir a vida toda como dádiva do amor e fazer dessa dádiva uma oferta de felicidade para si e para outros consiste o sentido para vida toda. Quem assim proceder não se surpreenderá com a chegada de Deus, porque se preparou devidamente. Bom Advento para todos.

UM MANIFESTO CONTRA O INSTALAMENTO

Nota do autor do blogue: Estou muito feliz, muito feliz, com a Exortação Apostólica «Evangelii gaudium» do papa Francisco… Um texto que deve ser lido por todos os cristãos. Porque liberta-nos dos receios de leis anacrónicas e algumas desumanas. Mais ainda, solta todos os que sempre pautaram a sua ação pela libertação evangélica, contra as «igrejinhas» que se apresentavam ao mundo com a «verdade absoluta» e como «sociedade perfeita» e para «gente perfeita». O Papa desmonta toda esta lógica e abre o coração da Igreja de Jesus de Nazaré ao mundo, convidando a entrar todos os «pecadores»… Magnífico texto do Papa Francisco, que o Padre João Teixeira resumiu em dez pontos no Facebook da seguinte forma. Que seja um aperitivo para a leitura atenta de todos nós da Exortação papal.
 
1. O Papa Francisco não é diluente. Afinal, o Papa Francisco até se mostra muito acutilante e bastante exigente.
Não abandona nenhum elemento da doutrina. E insiste imensamente no testemunho de vida.

2. É preciso que a Igreja deixe de se referir a ela mesma. É fundamental que a Igreja saia, que vá ao encontro.
Que pare junto das pessoas. Que, sem excluir ninguém, dê prioridade aos mais pobres, aos que estão nas periferias.

3. O Papa não quer uma Igreja sentada, consumindo o tempo apenas em congressos, simpósios e reuniões.
Ele pretende uma Igreja de joelhos e de pé. Enfim, uma Igreja orante e caminhante.

4. Neste sentido, prefere «uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças».
Decididamente, ele não quer «uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos».

5. Para isso, é urgente que a Igreja emagreça as estruturas. É imperioso que o Evangelho perpasse, que nunca se desfaça e que sempre nos refaça.
É decisivo que as energias se gastem na missão e não se desgastem em tantas adiposidades que os séculos foram introduzindo.

6. A leveza do Evangelho reclama uma cura da obesidade burocrática que tão aprisionados nos retêm.
Não raramente, parece que vivemos entalados entre uma bulimia funcionalista e uma anorexia vivencial.

7. O Papa oferece-nos uma exortação apostólica, mas o seu impacto não será seguramente inferior ao de uma encíclica.
É um texto que vem na sequência do Sínodo dos Bispos. Mas as marcas impressivas de Francisco estão lá.

8. A «Evangelii gaudium» é, além do programa de um pontificado, uma espécie de «manifesto contra o instalamento».
Ela convoca-nos para a renovação da Igreja e para a transformação da humanidade.

9. Num mundo diferente, a Igreja não pode ser indiferente.
Ela tem de fazer coro com quem diz «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia».

10. No deserto em que o mundo se tornou, os cristãos são chamados a ser «pessoas-cântaro para dar de beber aos outros».
Assim imitaremos Jesus, «o evangelizador por excelência e o Evangelho em pessoa, que Se identificou especialmente com os mais pequeninos (cf. Mt 25, 40)».
Pe. João Teixeira

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Um caminho simples «Somos servos inúteis»

Escutemos o que ensina a Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997), fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade... 
Não vos inquieteis, procurando a causa dos grandes problemas da humanidade; contentai-vos em fazer o que puderdes pela sua resolução, ajudando aqueles que precisam. Há quem me diga que, praticando a caridade com os outros, libertamos o Estado das suas responsabilidades para com os pobres e os necessitados. É coisa que não me preocupa porque, em geral, os Estados não dão amor. Por mim, faço tudo o que posso; quanto ao resto, não me compete.
Deus foi tão bom connosco! Trabalhar no amor é sempre uma maneira de nos aproximarmos Dele. Reparai no que Cristo fez durante a Sua vida na terra: passou fazendo o bem (Act 10, 38). Eu recordo às minhas irmãs que Ele passou os três anos da Sua vida pública a cuidar dos doentes, dos leprosos, das crianças e de muitos outros. É exactamente isso que nós fazemos, pregando o Evangelho com os actos.
Consideramos que servir os outros é um privilégio e procuramos fazê-lo, a cada instante, com todo o nosso coração. Sabemos perfeitamente que os nossos actos são uma gota de água no oceano, mas sem eles faltaria essa gota.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Madeirense e mainada!

Madeirense puro e duro..
Tava o vendeiro no paleio com o vadio do vilão quando ouviu uma zoada.
Era a água de giro. O buzico do levadeiro que vinha mercar palhetes à venda, vinha às carreiras e a fazer patifarias e a chungalhar os badalos da vizinhança pelo caminhe abaixe como um demoine. Dá-lhe uma cangueira, trompicou nas passadas e empuxou o vilhão qué um cangalhe dum home.
Bate cas ventas no lanço e esmegalha a pucra. O vilão dá-lhe uma reina vai a cima dele para lhe dar uma relampada, patinha uma poia. Ficou todo sovento. O vendeiro dá-lhe uma rezonda por ele querer malhar num bizalho dum pequeno. Vem o levadeiro, e, ao ver o vassola, que anda à gosma e a encher o bandulho à custa dos outros, a ferrar com o filho, fica variado do miolo e diz-lhe umas. O vilão atazanado, atremou mal e pensou que ele lhe tinha chamado de chibarro, ficou alcançado, deu-lhe uma rabanada e foi embora. Todo esfrancelhado.
O levadeiro ficou mais que azoigado mas lá foi desatupir a levada. O piquene chegou a casa todo sentido, com um mamulhe. A mãe que é uma rabugenta mas abica-se por ele, ao ver ele todo ementado e a tremelicar das canetas, deu-lhe um chá que era uma água mijoca, pensando que canalha é mesmo assim, mas, como ele não arribava, antes continuava olheirento, entujado e da chorrica foi curar do bicho virado e do olhado roxo. O busico arribou e até já anda a saltar poios de bananeiras na Fajã.
(Não sei quem foi o autor, mas está interessante)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Que Deus lhe pague

Vejam lá como nasceu a expressão «Deus lhe pague»... Algum humor para desopilar e esquecer que a semana começa hoje. Rir é o melhor remédio!

Em São Paulo, um homem sentiu-se mal no meio da rua, caiu e foi levado para a urgência de um hospital particular, pertencente à Universidade Católica, administrado totalmente por Freiras.
Lá, verificou-se que teria que ser urgentemente operado ao coração, o que foi feito com total êxito.
Quando acordou, a seu lado estava a Freira responsável pela tesouraria do hospital e que lhe disse prontamente:
- Caro Senhor, sua operação foi bem sucedida e o Senhor está salvo.
Entretanto, há um assunto que precisa de sua urgente atenção:
Como o senhor pretende pagar a conta do hospital ?
E a cobrança começou...
- O Senhor tem seguro-saúde?
- Não, Irmã.
- Tem cartão de crédito?
- Não, Irmã.
- Pode pagar em dinheiro?
- Não tenho dinheiro, Irmã.
E a freira começou a suar frio, antevendo a tragédia de perder o recebimento da conta hospitalar !
Continuou com o interrogatório;
- Em cheque então, o senhor pode pagar ?
- Também não, Irmã.
Nessa altura, a freira já estava a beira de um ataque. E continuou...
- Bem, o senhor tem algum parente que possa pagar a conta?
- Ah.... Irmã, eu tenho somente uma irmã solteirona, que é freira, mas não tem um tostão.
A Freira, corrigindo-o:
- Desculpe que lhe corrija, mas as freiras não são solteironas, como o senhor disse, elas são casadas com Deus !!!
- Magnífico! Então, por favor, mande a conta para o meu cunhado!
Assim nasceu a expressão: "Deus lhe pague".

sábado, 23 de novembro de 2013

Trovoada

Para o fim de semana... Divirtam-se e sejam felizes sempre!
As nuvens se nos descobrem humanidade
Na guerra da miséria que somos no egoísmo
Na ferida que mata na fome e no ódio
Até a morte de crianças e tudo.

Então cabeceiam-se e esmurram-se
Exaustivamente até ao céu temporal
Depois derramam água por todos os poros
Mas choram amargamente e chove.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Jesus também é rei?

Mesa da Palavra
Comentário à Missa do próximo domingo
Domingo XXXIV – Cristo Rei – Ano C, 24 Novembro de 2013
Escultura de Jesus representado como um sem-abrigo
a dormir num banco de jardim. 
Oferecida ao papa Francisco
que a recebeu esta quarta-feira, no Vaticano.
A peça de bronze, cujo original, em tamanho real,
foi instalado em Toronto,
é assinada pelo escultor canadiano Timothy Schmalz. 
A realeza de Cristo, é totalmente diferente daquela que é assumida e exercida pelos reis deste mundo. Como podemos reparar Cristo não é em nenhum momento um rei todo-poderoso, rodeado de exércitos ávidos de combate e de poder nem muito menos de afilhados e padrinhos sedentes das benesses e dos dinheiros que o poder confere.
Pelo contrário, dirá com veemência: «o Meu Reino não é deste mundo». De que Reino fala Jesus? - Antes, o Reino que terá o rei dos famintos, dos que têm sede de justiça, dos peregrinos, dos sem roupa, dos doentes e dos presos. Ele é rei. Mas um rei que não se coaduna com as injustiças sociais, pessoais e institucionais. E a sua morte na Cruz é o resultado da sua acção contra tudo o que não promove a dignidade da vida e do amor entre os homens. É o preço a pagar pela sua radical preferência pelos desafortunados deste mundo.
Jesus é rei de um Reino outro, onde o entendimento entre todos emerge como o resultado da fraternidade e da partilha. O Reino de Jesus não está de acordo com a mentalidade da cultura onde predomina o mais forte sobre o mais fraco. Neste Reino, não podem existir pacificamente os lugares da morte e do sofrimento nem podem ser tolerados os caminhos da pobreza e da miséria que resultam da corrupção e das influências das amizades, do «lambebotismo» e das lutas de uns contra os outros com a traição, a bajulação e tudo o que a ganância pelo poder implica. É necessário fazer surgir outros valores e outros caminhos que proporcionem o bem-estar igual para todas as pessoas.
Somos todos chamados não a zombar de Jesus, como fizeram os descrentes do seu tempo, mas a acolher com verdade e sinceridade que é possível mudar as coisas do mundo. Cada um é chamado a procurar no lugar da sua existência formas e modos de encarar as relações com os seus semelhantes de forma mais humana e mais cristã.
Neste sentido, é urgente deixarmos que o nosso coração não seja tão ávido de poder e domínio. E melhor será para a felicidade se facilmente aprendermos que o rei que parece morrer à mão dos algozes da sociedade judaica, está vivo e reina no coração de muitos homens e mulheres que sabem conduzir as suas acções pela disponibilidade, a simplicidade e a humildade, a transparência, a justiça e a honestidade. Cristo é o rei da vida para todos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pérolas de outro amigo de trabalhadores e pensionistas

Sempre nos fez bem termos prendido que quem dá aos pobres empresta a Deus. Mas alguma maturidade e a curta experiência de vida vai ensinando que quem insulta os pobres empresta ao diabo.
Este sr. que se pavoneia em muitos meandros católicos, chamado para dar conferências ou lições a bispos, padres e catequistas, levantou-se e foi dizendo o que lhe vai na alma em entrevista ao Diário de Notícias de Lisboa.
Destacamos algumas pérolas para que conste e fique bem gravado para o futuro. E que fique registado, já escutei algumas vezes este senhor um pouco contra a minha vontade, mas a partir de agora fugirei das suas lições catequéticas como o diabo foge da cruz.
Vamos às pérolas.
1.     O aumento da retribuição mínima seria a pior forma de «estragar a vida aos pobres» e a criação de um movimento de opinião que defenda esta medida é «criminoso».
2.     «A maior parte dos pensionistas estão a fingir que são pobres".
3.     «É uma válvula de escape espantosa que Portugal sempre usou» e de congratular os bons sinais da economia, frisando que «o vento mudou».
4.     João César das Neves adianta ainda «os do sul têm de mostrar que não são aldrabões e que não andam a pedir esmolas», trabalhando para controlar o défice.
5.     Sobre as decisões do Tribunal Constitucional, o economista acusou esta entidade de «não estar a funcionar em termos jurídicos, mas sim em termos políticos» e de «não argumentar com detalhes mas sim com princípios genéricos como igualdade e outras coisas».

Para quê mais palavras e comentários. Pérolas são pérolas, têm valor por si mesmas.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Para onde vai a política da vingança?

O que se vai passando na nossa terra está completamente fora dos parâmetros da ética humana e dos valores democráticos. A vingança contra quem pensa de modo diferente e que tenha tomado opções que tenham ido contra a hegemonia habitual, está a tornar-se insuportável e é muito grave que assim seja. Mais uma vez se prova como estamos longe, muito longe da verdade democrática. Não se admirem de quem nota que vivemos em «deficit democrático». Lembram?
A esquizofrenia geral em que mergulhou a Madeira está a ser horrível. Como é possível existirem pessoas que assinam por baixo, de forma cega todas as patifarias que resultam do espírito da vingança? Como se dá lugar à insensatez de executar medidas que são claramente para todas as pessoas medidas infantis que resultantes do não saber perder ou mau perder? Como se juntam forças políticas contra natura para fazer passar medidas que se enquadram dentro desse espírito de vingança e que são claramente para empatar as outras medidas que seriam importantes realizar em favor das populações especialmente as mais carenciadas? Por onde anda a coerência? Como se entra em joguetes baixos de baixa política em tempos de penúrias e de tenebrosas dificuldades para uma grande parte das famílias da nossa terra? – Dizer intolerável a tudo isto, é muito pouco… Espero que na devida altura os eleitores sejam lúcidos e ponham na ordem, estes mascarados que desfilam no palco da nossa vida todos os dias, fazendo da Madeira um Carnaval trapalhão o ano inteiro.
Dado que as famílias se contorcem com a chaga do desemprego e estamos em tempo de pagamento de uma dívida que não foi feita por nós, mas por gente irresponsável, que se divertiu à conta disso fazendo conta que governava, era necessária maior responsabilidade dos muitos jovens que nas últimas eleições entraram no desafio de terem sido eleitos para gerir os destinos das populações. Todos deviam colaborar ao máximo para banir a intolerância, a falta de respeito pelo povo e fazer morrer à beira da praia todo o espírito de vingança. É o mínimo que se exige e com isso já estaríamos a caminhar para fazer nascer o espírito da democracia que tanto desejamos que comece acontecer entre nós. A política da vingança de qualquer teor não leva a lado nenhum e não serve em nada as nossas populações que neste momento anseiam que os seus destinos sejam tomados a sério e que sejam respeitadas as suas dificuldades. Na medida do possível devem ver minoradas as chagas que afectam a sua vida. Aos políticos todos, está incumbida essa tarefa.
Precisamos de muitas pessoas em todos os partidos, que sejam sérios, honestos, transparentes, lutem com todas as forças pela justiça e pelo bem comum. Não suportamos mais a irresponsabilidade, o disfarçado desgosto de não saber perder e por causa disso a vingança. Esta vil glória de mandar rasteira não pode estar mais entre nós, os tempos exigem respeito por todos, diálogo franco com todas as forças e humildade respeitosa diante das opções que os eleitores vão tomando. É isto democracia, é isto serviço público, é isto amor ao povo que se diz servir.   

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O Bando de reformados governa o País!

Estou plenamente de acordo com este texto... Nem tudo o que é legal é moral e ético. E porque não proibir todos os reformados e pensionista de serem candidatos a qualquer cargo político que implique eleição? - Fica a ideia...

O destino do país está na mão de aposentados. O presidente Cavaco Silva, a primeira figura do Estado, é reformado. A segunda personalidade na
hierarquia protocolar, Assunção Esteves, é igualmente pensionista. Também nos governos nacionais e regionais há ministros que recebem pensão de reforma como Miguel Relvas ou até Alberto João Jardim. No Parlamento, há dezenas de deputados nesta situação. Mas, também muitas câmaras são presididas por reformados, do Minho ao Algarve, de Júlia Paula, em Caminha, a Macário Correia, em Faro.
É imensa a lista de políticos no activo que têm direito a uma pensão. Justificam este opulento rendimento com o facto de terem prestado serviço público ao longo de doze anos ou, em alguns casos, apenas oito.
Esta explicação não convence, até porque uma parte significativa deste bando de reformados não só não prestou qualquer relevante serviço à nação como ainda utilizou os cargos públicos para criar uma rede clientelar em benefício próprio. 
Foi graças a esta teia que muitos enriqueceram e acederam a funções para que nunca estiveram curricularmente habilitados. A manutenção até hoje destes privilégios e prebendas é inaceitável, em particular nos tempos de crise que atravessamos.
Sendo certo que a responsabilidade por este anacronismo não é de nenhum destes políticos e ex-políticos em particular - também é verdade que todos têm uma culpa partilhada por não revogarem este sistema absurdo que atribui tenças milionárias à classe que mais vem destruindo o país.
Urge substituir este modelo pelo único sistema admissível que é o de que os titulares de cargos públicos, quando os abandonam, sejam indemnizados exactamente nos mesmos termos que qualquer outro trabalhador.
E que passem a reformar-se, como todos os restantes cidadãos, quando a carreira ou a idade o permita.
É claro que dirigentes habituados a acumular reformas de luxo com bons salários jamais compreenderão os problemas dos que têm de viver com salários de miséria; ou sequer entenderão as dificuldades dos que sobrevivem apenas com pensões de valor ridículo. Não serão certamente estes reformados de luxo que conseguirão proceder às reformas estruturais de que Portugal tanto está a precisar.

Paulo Morais, Professor Universitário

sábado, 16 de novembro de 2013

O encontro

Este poema, dedico-o ao Papa Francisco, que está a ser acossado pelos movimentos integristas e fundamentalismas que estão em abundância dentro da Igreja Católica. As suas acções contra o Papa envergonham-me e enchem-me de tristeza. Mais ainda se Jesus, Aquele que dizem seguir e que nos deixou o Evangelho da inclusão contra todas as formas de exclusão. Façamos deste singelo poema uma oração pelo Papa Francisco... Para que a corrente de oração o livre dos perigos enormes que o rodeiam e a força das reformas não sejam travadas pela irracionalidade do anacronismo patético. Mas prevaleça a razão do amor e da paz que vai ao encontro de todos, com uma Igreja iluminada pela fé no Evangelho do amor proposto por Jesus de Nazaré.
Ao Papa Francisco
Naquele entrecruzar de olhares famintos da paz
Veio depois o abraço fraterno que na sinfonia de um tempo maior
Os requintados salões da festa dançaram e cantaram
Durante o banquete sublime da ternura da descoberta da felicidade.

O encontro face a face da misericórdia divina e humana
Fez ranger os gonzos de todas as portas que outros homens
Tinham trancado com a chave da discórdia de um antes
Que nunca mais ditará as regras para o descontentamento.

Nesse momento as mãos também vibraram no toque
Deste encontro da amizade que veio distante cheio de luz
Para a alegria desta festa de homens que se agigantam
Todas as vezes que dizem sim dançando no salão do perdão.
José Luís Rodrigues

O fim do mundo

Mesa da palavra
Comentário à Missa deste domingo
Domingo XXXIII Tempo Comum, 17 Novembro de 2013


Evangelho deste Domingo - tirado de Lucas - é muito intrigante e coloca-nos diante das coisas do mundo, envolvidos em muita perplexidade. 
Será que as guerras, a insegurança geral e o medo que nos atacou serão os sinais dessa realidade do fim que Jesus nos fala? Como ler os acontecimentos do mundo sem cair num sobressalto? Como não viver assustado perante tanta desgraça que o mundo apresenta? O que pensar ao lermos este texto onde Jesus parece prever destruição e sofrimento para toda a humanidade? Já chegou esse tempo de desgraçadas anunciado pelo Evangelho? Em que ficamos... (?) 
São muito legítimas, todas estas questões e inquietações, porém, descobrimos por detrás das palavras de Jesus um tema essencial da sua mensagem, a esperança. Assim, escutemos esta frase: «...Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e de revoltas, não vos alarmeis...». O apelo à esperança está claramente nestas palavras de Jesus. Mais ainda se tomar atenção quando Jesus pronuncia o seguinte: «Assim tereis ocasião de dar testemunho». Nestas frases a descoberta da esperança torna-se elementar. E mais devemos saber que ninguém pode dar testemunho se não tem esperança. 
Os cristãos, são hoje confrontados pela palavra do Mestre, para reacenderem de novo a esperança e perceberem que a desgraça da cruz é apenas uma passagem para a ressurreição e para a plenitude da vida. Nada deve ser motivo de desânimo, porque já sabemos que a acção de Deus continua de forma silenciosa na história concreta de toda a humanidade. Nada deve ser causa de derrota, porque, embora, a consternação das nossas almas perante o sofrimento e a morte de tantos irmãos, motivados pela fome, pelas epidemias, pelas tempestades e pela guerra... 
Nós devemos lutar por um mundo mais justo e mais fraterno. Deixar-se derrotar será a pior das atitudes, porque isso, nada resolve a situação das misérias e dos problemas que a humanidade toda enfrenta. A partilha e a solidariedade são nomes que nunca tiveram tanta actualidade.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Questionário do Papa Francisco para o Sínodo sobre a Família (VIII e IX)

Grupo 8 e 9 das perguntas sobre a família para o Sínodo... Hoje terminamos aqui a publicação das respostas às perguntas do questionário do Lineamenta do Sínodo da família... Espero que tenha ajudado à reflexão de várias pessoas e que outras se tenham inspirado a darem também o seu contributo.  

Para quem deseja ler e responder às perguntas pode fazê-lo a partir daqui: http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20131105_iii-assemblea-sinodo-vescovi_po.html 
QUESTIONÁRIO (VIII e IX)
8. Sobre a relação entre a família e a pessoa

a) Jesus Cristo revela o mistério e a vocação do homem: a família é um lugar privilegiado para que isto aconteça?
- Sem dúvida nenhuma. A pregação e a catequese da Igreja a este nível passam bem e são acolhidas por todos. Surpreendentemente, às vezes até casais – digamos menos crentes ou menos habituados com a prática litúrgica da Igreja – fazem testemunho entusiástico da importância desta doutrina. Poderá ainda ser necessário intensificar-se mais e criar-se mais dinâmicas de grupos para pensarem e dialogarem sobre esta temática. 

b) Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo para o encontro da pessoa com Cristo?
- Haverá muitas situações onde o encontro com a pessoa de Cristo seja obstáculo. As situações extremas de pobreza, que desencantam as pessoas e as rebaixam à condição infra humana, porque se foram injustiçados, agora não encontram vontade nem forças para lutar. Mais ainda se considerarmos que estão abandonados pela sociedade em geral e pelos governantes que estão mais empenhados a promoverem a injustiça contra a verdade do bem comum. Sem o mínimo de pensamento sobre os mais frágeis.
O encontro com Cristo, também pode ser difícil onde houver situações que criaram a mentalidade que o dinheiro resolve tudo e que a abundância de bens materiais é a solução para ser feliz.
Mais ainda se pensarmos nas doutrinas anti cristãs e toda a mentalidade de hoje que vai propagando a ideia que Deus não serve para nada, permitindo com isto uma aversão enorme contra as Igrejas e os seus membros, porque são uns inúteis e que só anunciam mentiras… 

c) Em que medida as crises de fé, pelas quais as pessoas podem atravessar, incidem sobre a vida familiar?
- As crises de fé têm muita influência nas famílias, porque não existindo espaço para a fé, descura-se a educação religiosa dos filhos ou porque algo desiludiu e desencantou ou porque o desleixo toma conta das pessoas. Mais ainda a força crescente de que a vida acaba na morte, que o que importa é «gozar» hoje e depois acabada tudo no cemitério. Tudo isto influi na educação das crianças, porque ficam privadas de acompanhamento catequético e sem tempo/espaço para participarem na comunidade religiosa. A abundância e a variedade de actividades lúdicas têm muita influência nisto. Também não descuramos que a crise de fé em alguns membros da família ou em toda a família contribui para banir do seu espaço familiar todos os momentos de oração e todas as imagens que sugiram qualquer indicação religiosa. Esta perda da espiritualidade e da dimensão religiosa da família contribui imenso para crise das famílias e da sociedade em geral.  

9. Outros desafios e propostas
Existem outros desafios e propostas a respeito dos temas abordados neste questionário, sentidos como urgentes ou úteis por parte dos destinatários?
1º Desafio: Há cada vez mais uma recusa em fazer tantos anos de catequese. As famílias estão agastadas com esta situação, causa-lhes imensos embaraços e lutas enormes dentro da família o facto dos filhos atingindo uma determinada fase de crescimento, nomeadamente, adolescência, não quererem participar na catequese e na liturgia da Igreja. Por causa disto, alguns casais sofrem bastante e às vezes as complicações com os padres e catequistas são difíceis de enfrentar.
- Proposta: Permitir que logo no início da adolescência fosse ministrado o sacramento do Crisma. Após esta etapa, os crismados que quisessem, integravam-se nos grupos das igrejas particulares, grupos de jovens, Escuteiros, catequese e em movimentos e outros grupos paroquiais.

2º Desafio: Relacionado com as famílias e que tantas dificuldades trazem aos párocos são os padrinhos e madrinhas, que hoje vão sendo cada vez mais raros aqueles que se apresentam idóneos e de acordo com todas as regras canónicas que a Igreja apresenta.
- Proposta: Acabar com o peso formal que se dá aos padrinhos/madrinhas para a recepção dos sacramentos. Que a comunidade (todos os presentes no momento do acto) sejam as principais testemunhas do acontecimento e que os pais ou outros que tenham a responsabilidade de fazer crescer e educar as crianças e os adolescentes, sejam os principais responsáveis e isso bastaria. Acabar com toda a burocracia que norteia esta pastoral. A simpatia e o carinho da sociedade pela Igreja em geral seriam mais fortes e mais visíveis. Hoje a sociedade é tão diversificada, passa por tantas dificuldades ao nível da relação familiar e os casais são assolados com tantos desafios ao nível da vida matrimonial, que não encontrariam na Igreja que os acolhe, nenhum embaraço ou impedimento, mas compreensão e misericórdia perante todo o historial de sofrimento que já carregam.

- Por fim, surpreendeu-me não estar neste questionário nenhuma pergunta sobre o aborto e a eutanásia, assim de forma muito concreta e objectiva. Porque são dois temas sempre muito polémicos e profundamente relacionados com a família. Espero que o Sínodo tenha estes dois assuntos em conta, os debata e sobre eles apresente uma mensagem que venha ao encontro das inquietações de muitos católicos quando são confrontados com o debate sobre estes dois assuntos. Aliás, estes temas nas sociedades de hoje, são muito prementes e reincidem frequentemente.

Nota do autor do blogue: Espero que vos tenha ajudado a pensar um pouco. Não pretendi outra coisa senão isso mesmo, fazer pensar. Nada é definitivo neste mundo. Venham outros contributos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Questionário do Papa Francisco para o Sínodo sobre a Família (VII)

Grupo 7 das perguntas sobre a família para o Sínodo... Manhã finalmente publicaremos o VIII e o IX grupos. 
QUESTIONÁRIO (VII)

7. Sobre a abertura dos esposos à vida

a) Qual é o conhecimento real que os cristãos têm da doutrina da Humanae vitae a respeito da paternidade responsável? Que consciência, têm da avaliação moral dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que aprofundamentos poderiam ser sugeridos a respeito desta matéria, sob o ponto de vista pastoral?
- Uma questão difícil. Considero que a maioria dos cristãos tem pouco ou quiçá nenhum conhecimento sobre a Encíclica Humanae Vitae. Eis algo profundamente dramático. Se quisermos particularizar sobre este ponto, «a paternidade responsável», concluiremos que os cristãos têm aqueles conhecimentos que a Lei Natural lhes concedeu, a tradição do meio social onde nasceram, cresceram e vivem. Não devemos também descurar que a educação da casa paterna ou o ambiente familiar também contribui bastante para que assumam a paternidade com responsabilidade. Sejamos também honestos e reconheçamos que alguma catequese, a pregação e a vida das comunidades particulares da Igreja também fazem um pouco esse trabalho da educação para a paternidade responsável.
Hoje todos os casais fazem a regulação dos nascimentos. As condições económicas difíceis, o envolvimento da vida actual com a consequente falta de tempo, a impaciência para gerar e educar filhos, a descoberta da vida sexual como forma de realização pessoal (o dom prazer), isto é, como um bem também desejado e promovido por Deus, induzem, e muito bem, os casais a fazerem a regulação dos nascimentos. Hoje ninguém considera isso mal e muito menos pecado. Mas, antes uma forma responsável de viver em casal e como elemento essencial na constituição da família. Por conseguinte, todos os casais recorrem aos métodos de regulação dos nascimentos propostos pelas entidades de saúde e que estão expostos nas várias lojas comerciais para o efeito. Tudo isto tornou-se quase banal, porque aceite por toda a sociedade. A maior parte dos casais considera os métodos de regulação dos nascimentos naturais impraticáveis e pouco eficazes. As condições difíceis da vida do nosso tempo, influi sobremaneira na instabilidade psíquica e física das pessoas, mais ainda se aliarmos a falta de tempo e a pouco vontade e paciência que dispensam para a sua auto-observação. Todos aceitam, afirmam e defendem que o mais prático e eficaz são os métodos artificiais de regulação de nascimentos.
Sob o ponto de vista pastoral, podia a Igreja escutar mais os casais e não descurar tanto a vida concreta de cada um deles, o seu querer e as suas opções. Respeitar a liberdade de opção de cada casal, admitir que tudo tenham realizado de acordo com a sua consciência e que as suas opções são também manifestação da Presença de Deus nas suas vidas. Também poderia ser benéfica a aceitação de alguns métodos artificiais de regulação dos nascimentos propostos pelas entidades de saúde, porque em muitos casos está mesmo em causa a saúde das pessoas e noutros servirá para evitar que a miséria se propague onde faltam condições materiais necessárias para fazer crescer e educar mais vidas humanas com responsabilidade. Melhor também, talvez seja considerar a sexualidade como um valor e como elemento desejado por Deus para que os casais vivam a comunhão do amor e não descurem a dimensão do prazer sexual como um valor essencial para se realizarem como casal feliz e contribuírem para a edificação de uma família plenamente realizada e integrada na sociedade. Isso não pode ser pecado, mas um dom de Deus dado à humanidade.     

b) Esta doutrina moral é aceite? Quais são os aspectos mais problemáticos que tornam difícil a sua aceitação para a grande maioria dos casais?
- Não. Não é aceite esta doutrina moral. Os casais crentes, às vezes até são os primeiros a assumirem que «violaram» esta doutrina, porque a consideram impraticável e longe de produzir os efeitos desejados.
Os aspectos mais problemáticos prendem-se com os métodos de regulação dos nascimentos. É preciso, é urgente, mudar a mentalidade que considera o uso dos métodos artificiais como pecado, para que se quebre a ideia que vai pairando na sociedade de que a Igreja vive numa «teimosia» retrógrada e completamente fora da realidade. Este aspecto sempre impede o diálogo e não permite que se vá mais além na magnífica doutrina que a Igreja tem sobre a vida em casal e sobre a família.   

c) Que métodos naturais são promovidos por parte das Igrejas particulares, para ajudar os cônjuges a pôr em prática a doutrina da Humanae vitae?
- Tendo em conta que os métodos naturais foram laconicamente recusados pela generalidade dos casais, este assunto tornou-se tabu nas Igrejas particulares. 

d) Qual é a experiência relativa a este tema na prática do sacramento da penitência e na participação na Eucaristia?
- Assunto tabu para a generalidade. Penso que até haverá medo de falar-se neste assunto.

e) Quais são, a este propósito, os contrastes que se salientam entre a doutrina da Igreja e a educação civil?
- Enormes. A doutrina da Igreja não passa. A educação civil tem sucesso garantido à partida.

f) Como promover uma mentalidade mais aberta à natalidade? Como favorecer o aumento dos nascimentos?
- Muito fácil, a meu ver. No geral os homens e as mulheres estão abertos à paternidade e à maternidade, falta-lhes condições materiais para levarem essa tarefa a adiante. A crise económica gerou um desemprego assustador, as políticas contra a natalidade são um desastre e quiçá nalguns momentos nulas. Os apoios financeiros do Estado estão a ser consecutivamente cortados e as políticas neoliberais vão acabando com o sistema de saúde e a educação gratuitas o que vai fazendo com que os casais recuem bastante na ideia e no desejo de gerarem filhos.
O favorecimento do aumento dos nascimentos passa pela criação de emprego e pela implementação de políticas que apoiem esta causa da natalidade. Será a tragédia para algumas nações da Europa se estas políticas neoliberais que nada se preocupam com as pessoas e com os povos não forem travadas. Toda a Igreja deve estar atenta a esta realidade, denunciar tudo o que seja contra a vida humana, contra a família. Os políticos terão de perceber que o futuro faz-se com desenvolvimento económico, mas porque as pessoas, faz-se também e essencialmente com desenvolvimento humano. A Igreja não deve calar perante esta injustiça e lutar seriamente para que todos percebam que o mundo e o futuro constrói-se na base dos povos e para termos povos saudáveis e felizes a promoção da natalidade é caminho elementar.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Questionário do Papa Francisco para o Sínodo sobre a Família (VI)

Grupo 6 das perguntas sobre a família para o Sínodo...
Para quem deseja ler e responder às perguntas pode fazê-lo aqui: http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20131105_iii-assemblea-sinodo-vescovi_po.html

QUESTIONÁRIO (VI)

6. Sobre a educação dos filhos no contexto das situações de matrimónios irregulares

a) Qual é nestes casos a proporção aproximativa de crianças e adolescentes, em relação às crianças nascidas e educadas em famílias regularmente constituídas?
- As situações estão a tornar-se tão comuns e tão do nosso quotidiano que quase não se nota diferenças significativas na convivência entre as crianças e adolescentes no processo educativo. Face à crise as diferenças mais notórias prendem-se com a riqueza e a pobreza… No entanto, haverá sempre casos que resultam de separações conflituosas, onde se nota nas crianças e nos adolescentes a tristeza, o desencanto e a falta de interesse pela aprendizagem. Outras vezes também se nota o contágio dos conflitos do casal nos vários momentos da educação onde são chamados a darem a sua colaboração. A conjugação dos interesses muitas vezes está completamente à margem do essencial e obviamente que isso influirá sobremaneira os filhos.

b) Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensino da religião em geral?
- Alguns dirigem-se à Igreja cheios de interesse, também aqui não seremos honestos se generalizarmos. Outros apresentam-se completamente desinteressados, mais concentrados no aspecto social dos sacramentos e menos interessados na catequese. Tudo se torna mais fácil e isso nota-se claramente quando os casais se separaram de forma amigável. Quando há sérios conflitos e incompreensões a todos os níveis tudo se torna mais complexo. Sofre sempre o elo mais fraco, as crianças. No geral todos pedem os sacramentos apenas, a catequese, será o «parente pobre», porque necessário, mas se alguma entidade o dispensasse melhor seria. Esta mentalidade está bem enraizada no coração de muita gente da Igreja Católica nos nossos dias. A este nível temos um pouco de tudo.

c) Como as Igrejas particulares vão ao encontro da necessidade dos pais destas crianças, de oferecer uma educação cristã aos próprios filhos?
- As Igrejas particulares estão no geral abertas ao acolhimento destas crianças e são integradas nos vários grupos da catequese e na participação litúrgica sem qualquer distinção. Não quer dizer que naquelas crianças onde se note a tristeza e traumas ou outras complicações da vida familiar desintegrada, procuramos acompanhar com redobrada atenção e fazer um trabalho específico para que a criança se sinta colhida e integrada na vida da Igreja e seja bem recebida pelos seus colegas da catequese.

d) Como se realiza a prática sacramental em tais casos: a preparação, a administração do sacramento e o acompanhamento?
- Como referi nas questões anteriores, procuramos não fazer distinções. São crianças, que em geral se apresentam iguais a todas as outras, até porque as crianças hoje encaram cada colega, venha de onde vier, com a maior das naturalidades. A preparação é realizada no conjunto sem qualquer distinção para ninguém. A administração do sacramento também é realizada sem qualquer distinção.  Independentemente das circunstâncias das pessoas, o que importará de verdade será considerar, amar e acolher todos os que se aproximam exactamente porque são, pessoas que Deus ama e que nós devemos também acolher e amar. Tudo o resto é acessório.   

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Questionário do Papa Francisco para o Sínodo sobre a Família (V)

Grupo 5 do questionário do Lineamenta para o Sínodo extraordinário sobre a família. Eis o meu contributo...
QUESTIONÁRIO (V)

5. Sobre as uniões de pessoas do mesmo sexo

a) Existe no vosso país uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimónio?
- Sim, existe.

b) Qual é a atitude das Igrejas particulares e locais, quer diante do Estado civil promotor de uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, quer perante as pessoas envolvidas neste tipo de união?
- A atitude das Igrejas particulares e locais em relação a estas leis tem sido simplesmente ignorar com medo de se meter em polémicas.

c) Que atenção pastoral é possível prestar às pessoas que escolheram viver em conformidade com este tipo de união?
- Ainda há uma homofobia transversal a toda a sociedade e se quisermos ser justos, muito forte dentro das comunidades cristãs-católicas. Apelar ao respeito e permitir que cada pessoa siga o seu caminho sem que se violente a sua dignidade. Não condenar e abrir-se a todos os que desejem participar na vida e na oração da Igreja estejam em quaisquer condições. A Igreja pode ter um papel importante para reverter o sentimento terrível que se instalou no coração da humanidade dos nossos dias contra os casais do mesmo sexo e contra tudo o que seja diferente. A pluralidade e diversidade são amadas por Deus. É preciso respeitar e integrar, depois deixar ao cuidado de Deus a salvação, nós, Igreja, somos apenas instrumentos dessa acção salvífica de Deus.  

d) No caso de uniões de pessoas do mesmo sexo que adoptaram crianças, como é necessário comportar-se pastoralmente, em vista da transmissão da fé?
- Sempre com a ideia do acolhimento e do respeito bem presentes. Alguns casais do mesmo sexo têm crianças ao seu cuidado que resultam de anteriores relações falhadas, para todos os efeitos formam uma família, por isso, devem ter à sua disposição a misericórdia e o amor da Igreja. Ninguém deve ser desprezado porque está a crescer num contexto que não é o habitual ou o dito normal. Mais razão deve aí encontrar toda a Igreja fortes desafios para viver os valores do Evangelho seguindo o exemplo de Jesus que não marginalizou ninguém nem muito menos quando confrontado com a realidade seja conditio sine qua non a situação concreta de vida de cada pessoa para derramar o amor e a salvação.