Convite a quem nos visita

quarta-feira, 30 de março de 2016

Ver e acreditar para ser feliz

Domingo II Páscoa. Uma achega de reflexão...
Não é nada fácil acreditar sem ver. Todos nós temos experiências quotidianas que marcam profundamente essa realidade. Não gostamos de receber ou comprar a coisa mais insignificante sem primeiro vermos bem o que nos vai chegar às mãos.
Porém, Jesus garante-nos que a sua ressurreição está sempre acontecendo. E serão muito felizes todos aqueles que acreditarem sem terem visto concretamente a pessoa de Jesus em carne e osso. Quer isto dizer que a ressurreição é uma realidade profundamente espiritual que acontece no fundo da existência de cada pessoa que acredita de verdade.  
Nenhum argumento prova de verdade que a ressurreição aconteceu nem importa provar a ninguém que tal acontecimento é um facto da história. A ressurreição mostra-nos claramente que a vida venceu a morte e que com esse acontecimento inaugura-se o tempo escatológico da Acão do Espírito Santo. A era do Espírito começa com as palavras de Jesus ressuscitado, atestando que sem a ação transformadora do Espírito Santo nada será possível realizar. Estamos diante da realização da promessa de Jesus: «Não vos deixarei abandonados, vou enviar-vos o Espírito...»
Jesus revela-nos agora que chegou o tempo do Espírito Santo e sem Ele nada pode ser feito (este aviso também foi pronunciado várias vezes por Jesus). Por isso, há-de ser o espírito que realiza o mais nobre ministério: “àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos”. Esta é a missão principal que Jesus confere aos Discípulos, que consiste em promover a paz através do perdão dos pecados. Serão eles os continuadores da misericórdia que Jesus trouxe do Pai para junto da humanidade.
Porém, também estamos diante do mais que curioso episódio de Tomé, um dos doze, que não estava presente por ocasião das primeiras aparições de Jesus. Claramente nega tal facto e à maneira tipicamente humana, assegura que não acreditará sem ver e sem tocar no lugar dos cravos.
A expressão: «Vimos o Senhor», leva-nos a imaginar que deveria ser muita a alegria que transparecia nos rostos dos Discípulos que corriam ao encontro de Tomé para dar-lhe essa grande notícia. Não é que Tomé, um homem prudente, se mostra incrédulo e joga bem alto! Mas querem enganar quem! «Não acredito sem ver e tocar!» – dirá profundamente seguro de si mesmo. Porém, logo depois também afirmará com grande convicção: «Meu Senhor e meu Deus». A fé em Cristo ressuscitado, é o outro nome da felicidade, porque é a possibilidade última para o único sentido da vida que salva, a eternidade. Não recusemos ser felizes por nada deste mundo. 

Pais e filhos

Um camponês viu numa árvore um ninho de passarinhos. Estavam sós, pois os pais tinham ido à procura de alimento para os filhos. O camponês pegou nos passarinhos, levou-os para casa e meteu-os numa gaiola. Quando chegaram os pais, vendo que não estavam os filhos, procuraram-nos muito aflitos. Encontraram a gaiola e viram os seus filhos a esvoaçar lá dentro.
Ao vê-los, disse o camponês: - Se os pais vêm cuidar dos filhos com tanto esmero, quero ver como é que os filhos agradecem todo esse amor. Agarrou os pais e, abrindo a porta da gaiola, meteu-os lá dentro e libertou os filhos, que correram a voar para longe. Em vão os pais esperaram pelo regresso. Passado algum tempo, morreram de tristeza.
Para fazer pensar:
* Esta pequena fábula é a imagem do que se passa por esse mundo fora, onde são cada vez mais os lares para pais idosos, que podemos comparar a gaiolas.
* Hoje há muitos pais abandonados em lares para a terceira idade, porque os filhos cheios de tudo não encontram tempo para uma visita, um diálogo e um carinho em relação àqueles que tudo fizeram para os criarem e educarem. Honrar pai e mãe durante toda a vida é um princípio cristão muito verdadeiro que deve fazer parte do coração de todos.
* Os idosos, separados do seu ambiente habitual, serão felizes? Qual a melhor solução para tornar a velhice uma etapa feliz da vida?

terça-feira, 29 de março de 2016

A eutanásia não é um avanço mas um retrocesso

A eutanásia, para além de ser um problema jurídico ou de direito, é antes, uma questão de cultura e de educação ética fundamental. Isto é, o modo como se encara a vida, refletirá, inevitavelmente, o modo como se acolherá o sofrimento e a morte.
A morte provocada para aliviar o sofrimento de doenças incuráveis – eutanásia – enquadra-se no contexto da cultura de morte e na cultura do pragmatismo tão característicos da sociedade a atual. Se continuarmos na crescente desvalorização da vida e no encarar a vida não como uma totalidade que vai até à eternidade, mas apenas como algo puramente terreno que termina com a morte, estarão, daqui para algum tempo, reunidas condições psicológicas e sociais para que a eutanásia seja um facto tão natural como um doente tomar um sedativo para uma dor de dente. Ou expulsa a vida como se extrai um dente.
Mesmo perante a dureza da dor e diante da debilidade física, o dom da vida emerge como bem supremo que merece respeito absoluto. Assim sendo, a morte não é apenas uma inevitabilidade fatal e dramática, mas um «dom» que confirma a esperança na eternidade da vida.
O nosso tempo marcadamente materialista e pragmático, perante uma população elevada de anciãos – característica das nossas sociedades – corre também o risco de se ver cada vez mais na convicção de considerar os idosos uns inúteis e um fardo para a população jovem trabalhadora, por isso, a melhor solução será suprimi-los através da pílula da morte.
Qualquer tipo de eutanásia não soa bem para quem aposta na vida desde a fecundação até à morte natural. Se a sofisticação científica dos nossos tempos serve para argumentar-se de que será um avanço civilizacional defender-se a aplicação da eutanásia para quem a solicite, serve também o mesmo argumento para defender-se o prolongamento da vida e o acontecer da morte naturalmente sem dor e com dignidade. A não existirem tais condições que tratem das pessoas na sua fase terminal, aí sim estamos perante um retrocesso civilizacional.
Os cuidados paliativos devem ser uma aposta e deve a sociedade criar todas as condições para que o final da vida neste mundo seja vista também como um bem e a morte aconteça com a maior naturalidade e se for possível com o mínimo de sofrimento. Se existirem elementos científicos para aliviar todo o género de sofrimento devem ser usados. É do quer de Deus que ninguém sofra e se existirem remédios que travem o sofrimento devem ser aplicados e nesse domínio devemos dispensar poupanças. Porém, já não será do quer de Deus que ninguém tire a vida a ninguém, mesmo que seja protegido pelo crivo da lei ou outra razão deste mundo por mais elevada e nobre que seja. 

sábado, 26 de março de 2016

A Ressurreição de Jesus

Domingo de Páscoa 2016
Cristo Ressuscitou! Aleluia… A nossa esperança mais uma vez renova-se e ansiamos que ressurja toda humanidade abatida pela injustiça, pela irresponsabilidade de quem tem responsabilidade sobre os demais e não cumpre o seu dever… renovemo-nos na esperança que cada pessoa é outro Cristo e se está doente, triste, pobre, angustiado e morto, deverá encontrar dos outros uma palavra, um carinho, um sorriso, uma mão… Que os ajude a levantar-se do túmulo. Ressuscitemos todos para vida nova no amor. Escutemos o grande Helder Câmara sobre o sentido e significado deste dia da Ressurreição de Cristo.

Hoje é o dia da ressurreição de Jesus. Comemoramos o seu retorno à vida. Foi por Ele que divisamos que não deixaremos de existir jamais. Foi por Ele que a nossa esperança se redobrou eternamente, na vida de Jesus além do sepulcro.

Neste dia grandioso, onde rememoramos os passos decisivos do Nosso Senhor Jesus Cristo, temos a comemorar, mas também temos que refletir.

Refletir sobre a nossa sorte na vida. O que fazemos com a vida que Deus Pai nos concedeu? O que estamos a produzir com ela? Os nossos dias são frutíferos? Nossas ações são benfazejas?

Um tiro sem misericórdia nas nossas existências seria a morte sem fim, sem mais nada existir, mas não, Deus nos provém a vida eterna para que possamos saborear o grande banquete celestial.

Outra reflexão importante é o nosso ir e vir. Para onde vamos? Para onde estamos levar a nossa presença bendita? O que fazemos aonde chegamos? Distribuímos o bem ou o mal? Que estamos fazendo para ajudar os mais necessitados? Para onde queremos ir, afinal?

Uma reflexão permanente e essencial: como está a nossa relação com Deus Pai? Somos justos com nosso próximo e, portanto, com Ele? Somos corretos no nosso dizer e no nosso agir ou tentamos esconder os nossos atos ignóbeis? O Pai tudo sabe e não podemos querer enganá-lo, não é verdade? Tolos seríamos se assim tentássemos.

A vida é feita de desafios e o Nosso Senhor Jesus Cristo mostrou-nos como superá-los. Fez da sua vida uma demonstração prática para o nosso bem existir.

Com relação à traição, submeteu a condição humana a sua inexperiência com a solidariedade e perdoou.

Com relação ao abandono, sabia do medo de muitos de enfrentar uma causa, por mais nobre que fosse, e desconsiderou.

Com relação à injustiça, fez-se maior diante das mentiras, não as aceitando e deixando sob os seus algozes o peso das decisões. Não recuou.

Com relação à morte, sobreviveu, lutando contra a mesmice do existir pelo existir, dedicando a sua vida à causa do Pai.

Há muito a considerar e a aprender com Jesus, nosso Salvador. Creio nisso, ainda. Ele nos salvou sim.
Salvou-nos da incredulidade.
Salvou-nos da falta de fé.
Salvou-nos do despropósito de viver.
Salvou-nos da desesperança.
Salvou-nos da morte.

Foi Jesus esta figura ímpar entre os povos. Quem o conhece jamais o esquece e é neste dia da sua ressurreição que rendemos graças ao Pai que nos enviou o Seu Filho queridíssimo para nos salvar.
Salve, Jesus!
Salve, salve, nosso Pai!
Até uma próxima oportunidade, se Deus quiser.
Helder Camara

A inocência

Salmo...
Sábado Santo ou Sábado de Aleluia
Na mesa senta-se o poeta
e escreve magoado na brancura do papel
onde a luz do candeeiro
se derrama numa nódoa
infinda de melancolia
como se o negro da noite
fosse a alma da luz cintilante
e daquela palidez soberba.

As letras letra a letra saltam no papel
nesse ambiente de anémicas penumbras,
mágoas íntimas acordadas pelo silêncio
que por momentos desceu das estrelas
e trespassa as fendas pedra a pedra
nas paredes da nossa casa.

Neste ambiente quimérico
saturado de anímicas essências,
emanações astrais divinizadas
onde há sonhos de anjos e de homens
que anunciam o poema,
uma fina flor celeste
numa paisagem sinistra, infernal
ladeada de montes tisnados pelo sol
e à noite povoados de fantasmas penitentes.

E não é que o autor e o leitor de cada texto
são os mais trágicos penitentes?
- São. Ficou registado para todo o sempre
quem sofre em nós não é o pecado:
é a inocência.  
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 25 de março de 2016

Rogativa a Jesus

Sexta Feira Santa:
Um dia especial. Porque particular para o silêncio, a contemplação e a oração. Por isso, dispenso-me a comentários e fiquemo-nos com esta reflexão do «Santo» Helder Câmara, que resulta numa oração magnífica para ser rezada em silêncio neste dia tão denso da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Um dia feliz para todos. Que esta rogação nos faça despertar do sono da indiferença, da falta de esperança e do desamor. 
Querido e amado Jesus!
Nós te rogamos nesta prece matinal por todos os nossos irmãos, filhos do mesmo Deus.
Rogo a Ti para que nos dês forças para trabalhar pelo futuro melhor da humanidade. Sei da minha pequenez, mas junto dos meus irmãos de caminho podemos fazer bem mais.
Rogo, Senhor Jesus, pelos famintos e deserdados, pelos desamparados e esquecidos, pelos marginalizados e adoecidos. Eles necessitam de esperança, Jesus, e Tu podes ajudá-los.
Quero pedir-Te para que todos nós possamos nos juntar a Ti, de verdade, no amparo aos que mais precisam, na ajuda sincera aos que menos têm. O pouco que dermos, sabemos, já é algo e um dia pode ser ainda mais.
Rogo que nos dês forças para a luta, que não fraquejemos no caminho, achando-nos impotentes para tamanha obra. Tu falavas pelo nosso Pai e mesmo incompreendido pela multidão, avançavas, pouco a pouco, no coração dos homens.
Jesus, neste momento decisivo da história do mundo, ajuda aqueles que ainda permanecem cegos diante dos seus próprios erros. Permite com que eles, de algum modo, despertem a lucidez. Clareai as suas mentes e, sobretudo, aliviai os seus corações.
Jesus, Tu que és a luz do mundo, sejas a luz destes nossos irmãos perdidos em si mesmos. Toque-os docemente para a descoberta de sua luz interior.
Neste dia, Jesus, que nos encontramos difusos, sem direção certa, amplia as nossas possibilidades de entendimento e ação para que não erremos mais.
É ancorado na misericórdia de Deus e no teu apoio constante e infinito que confiamos as nossas vidas na certeza que jamais nos abandonarás na estrada que nos leva ao Pai e a nossa verdadeira felicidade.
Dá-nos paz e que sigamos Contigo sempre.
Helder Camara

quarta-feira, 23 de março de 2016

Dia do Sacerdócio e da Eucaristia

Quinta feira Santa:
«Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 15).
Primeiro, Sacerdócio e a Eucaristia São isto: «Pois bem, servir-te-ei Eu!», respondeu o Criador ao homem. «Senta-te à mesa; farei eu o serviço: lavar-te-ei os pés. Descansa; tomarei os teus males sobre os meus ombros; carregarei com todas as tuas fraquezas. [...] Se estiveres fatigado ou sobrecarregado, levar-te-ei, a ti e à tua carga, a fim de ser o primeiro a cumprir a minha lei: "Levai os fardos uns dos outros" (Gal 6,2). [...] Se tiveres fome ou sede [...], eis-Me pronto a ser imolado, para que possas comer a minha carne e beber o meu sangue. [...] Se te levarem para o cativeiro ou te venderem, eis-Me aqui [...]; resgato-te pelo preço que derem por Mim. [...] Se estiveres doente, se receares a morte, morrerei em vez de ti para que do meu sangue faças remédio para a vida.» [...] (Beato Guerric de Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense, 1º Sermão para os Ramos).
Segundo: O Padre António Vieira ensina o que é ou o que deve ser o Sacerdócio: «Há homens que são como as velas; sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros». Sobre a Eucaristia ensina o seguinte: «O mistério da Eucaristia é o mais alto de todos os mistérios, como o sacramento do corpo e sangue de Cristo é o mais levantado de todos os sacramentos, previu o Senhor que havia de achar nele a fra­queza, e descobrir a malícia maiores ocasiões de duvidar. Haviam-no de duvidar os sentidos, e haviam-no de duvidar as potências; havia-o de duvidar a ciência, e ha­via-o de duvidar a ignorância; havia-o de duvidar o escrúpulo, e havia-o de duvidar a curiosidade, e onde estava mais ocasionada a dúvida, era bem que ficasse mais expressa e mais ratificada a verdade. Por isso ratificou a verdade de seu corpo debai­xo das espécies da hóstia: Caro mea vere est cibus (A minha carna é verdadeira comida); por isso ratificou a verdade de seu sangue debaixo das espécies do cálix: Et sanguis meus vere est potus – O meu sangue é verdadeira bebida» (Sermão do SS.Sacramento, em Santa Engrácia 1645).
Conclusão: Os cristãos celebram hoje a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio. Se há muitos momentos solenes na vida da liturgia cristã, as celebrações deste dia são de uma importância crucial. A Eucaristia é a alma da Igreja e o Sacerdócio a ela ligado, tornam-se duas dimensões da fé cristã essenciais para perceber e viver a condição do ser cristão e do ser Igreja.
Para melhor refletir sobre a importância deste dia, tomo a expressão da Ceia do senhor quando diz: «Fazei isto em minha memória» (Lc 22, 19). Esta curta frase expressa de uma forma perfeita a razão de ser da Eucaristia e do Sacerdócio. A Igreja não passaria de uma instituição humana e mundana sem esta memória da vontade que brota do coração de Jesus Cristo e de todo o Seu processo de Paixão, Morte e Ressurreição.
Dado este pressuposto a minha reflexão para este dia centra-se na importância da memória viva que constitui o Corpo de Jesus Cristo continuamente encarnado na história mediante o conjunto de batizados que formam Igreja.
Tudo isto radica na maior e mais sublime paixão de um amor. Como diria Virgílio Ferreira «estávamos prometidos um ao outro desde toda a eternidade, como é próprio de um grande amor». O amor de Deus é desde toda a eternidade essa radical paixão pela causa do homem e pela sua redenção plena. 

Os traidores em todos os tempos

Quarta feira da Semana Santa:
Primeiro: Jesus respondeu: «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que vai entregar-Me»:
«Vede de que compaixão Cristo dá provas para com Judas, o homem que recebeu tanto amor e, contudo, traiu o próprio Mestre; esse Mestre que manteve um silêncio sagrado, sem o atraiçoar perante os companheiros. Com efeito, Jesus poderia muito bem ter falado abertamente, revelando aos outros as intenções ocultas e os actos de Judas; mas não o fez. Preferiu dar provas de misericórdia e de caridade: em vez de o condenar, chamou-lhe amigo (Mt 26,50). Se Judas tivesse olhado para Jesus de frente, como fez Pedro (Lc 22,61), teria sido amigo da misericórdia de Deus. Jesus foi sempre misericordioso» (Beata Teresa de Calcutá (1910-1997), fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade, «Jesus, a Palavra a proferir», cap. 8).
Segundo: «A traição, a inveja, o ciúme, as fantasias demiúrgicas, a cobardia, o medo, o arrependimento, a catarse, a prepotência, o abuso de poder, o conservadorismo e a ritualização vazia de vida, o ódio aos heréticos, a punição dos delitos de opinião, o cinismo, a boçalidade, as gargalhadas alarves, a falta de respeito pelos que sofrem, a instrumentalização, a injustiça, a bondade, a resignação, a solidariedade, o desejo de afectos, a dor, a mágoa, a raiva, a coragem, a determinação. Tantas sensações, tantas memórias, tantas razões de reflexão para todos e para cada um de nós!» (José Miguel Júdice).
Conclusão: A vingança mata em todos os sentidos. Ora vejamos, nenhuma relação será possível dentro do espírito da vingança, a não ser mesmo a intenção de matar e cortar a relação com o outro. Depois da vingança ficam cerceadas todas a possibilidades de encontro, todos os chamamentos ao encontro da festa do amor e da amizade. A acontecer, a vingança, não permite mais qualquer possibilidade de encontro fraterno.
António Damásio, o neurologista, que considera que todas as nossas manifestações e reações estão centradas nas emoções. Este estudioso ensina-nos que toda a maldade (a vingança) é inevitável, existe em cada canto da vida e do mundo. A vingança, a inveja, a raiva, o rancor, o ódio e o orgulho são aspetos «perfeitamente automáticos» - exatamente o que vos referi no início do texto com outras palavras, é claro. Nenhuma pessoa é toda maldade. O mal é o especto ou o momento circunstancial. O melhor para a vida está no saber «viver com a tragédia e o privilégio de ter uma regulação automática, compreender essa regulação, descobrir que há aspectos dessa regulação que são magníficos – que nos levam ao prazer, à alegria – mas também nos podem levar a atos completamente desvairados e à violência», diz o mestre das emoções.
Por fim, a vingança não tem nome na festa da alegria e da felicidade. Por isso, apesar de vermos este espírito comandar muitos homens e mulheres, acreditamos para sempre com Fernando Pessoa: «Tudo vale a pena se a alma não é pequena».

terça-feira, 22 de março de 2016

O dom das lágrimas

Terça feira da Semana Santa: 
«As palavras podem não conseguir exprimir uma oração, as lágrimas exprimem-na sempre; as lágrimas exprimem sempre o que sentimos, ao passo que as palavras podem ser impotentes para o fazer». (São Máximo de Turim (?-c. 420), bispo, Sermão 76)
O evangelho dos traidores (S. João 13,21-33.36-38)
Judas:
Disse-lhe Jesus: «O que tens a fazer, fá-lo depressa».
- A traição por causa do vil metal, a relação amor/ódio com Jesus, um exaltado habitado por inveja ou por ciúme; ou, em certas versões não menos interessantes, o idealista revolucionário nacionalista, que faz os gestos da traição para obrigar Cristo a chamar as forças celestiais e assim tomar o poder e afastar os romanos odiados.
Pedro:
Disse-Lhe Jesus: «Darás a vida por Mim? Em verdade, em verdade te digo: Não cantará o galo, sem que Me tenhas negado três vezes».
- O mais sólido dos apóstolos, capaz de "fé do carvoeiro" que dá os grandes sacerdotes, mas frágil, com medo, que - apesar de avisado - renegou três vezes antes de o galo cantar, mas que pelo arrependimento e pela catarse que isso provoca consegue recuperar o seu estatuto de primus inter pares após a morte do Cristo.  «Aquele que tinha três vezes renegado o Senhor, três vezes O confessa; por três vezes se tinha tornado culpado, por três vezes obtém a graça pelo seu amor. Vede pois que benefício tirou Pedro das suas lágrimas! [...] Antes de derramar lágrimas, era um traidor; tendo derramado lágrimas, foi escolhido como pastor: aquele que se tinha portado mal recebeu o encargo de conduzir os outros» (São Máximo de Turim (?-c. 420), bispo, Sermão 76).

segunda-feira, 21 de março de 2016

Nenhuma economia sobrevive na injustiça

Tomemos e vamos lavar alma…
Primeiro: «Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar» (Mt 18, 6)
Segundo: «Não é lícito alimentar a riqueza dos ricos, confirmando a miséria dos pobres». Paulo VI
Terceiro: «Tenho a impressão de que certas pessoas, se soubessem exatamente o que são e o que valem na verdade, endoideciam. De que, se no intervalo da embófia e da importância pudessem descer ao fundo do poço e ver a pobreza franciscana que lá vai, pediam a Deus que as metesse pela terra dentro...» Miguel Torga
Conclusão: «Para os ricos, a pobreza dos outros é uma lei da natureza» (Emanuel Wertheimer), a máxima continua válida e vai sendo confirmada por alguns que vivem sentados sobre o trono do dinheiro. Não é pecado que tenham dinheiro e riqueza, mais ainda se a colocam ao serviço do desenvolvimento do país, criam emprego e riqueza para o bem comum. Mas que não queiram convencer-nos que tal só é possível à conta da exploração dos trabalhadores e que exploração mais exploração cria mais emprego e mais riqueza. Nada mais errado.  

sábado, 19 de março de 2016

Existir

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sem prejudicar ninguém.
Ao Pai      
Todas as vezes a pessoa que vejo
fico cheio de agradecimento
porque perdi naquele momento
o medo de me ver só
sem gente para sorrir e falar,
agora penso que não pode haver luz
no amor sem retribuição
essa paga certa na relação que o encontro reclama
no brilho do sorriso e da visão.
O amor quando é ardentemente
voa mais alto para o vento sentir.
Na verdade o amor autêntico é para sempre
vocacionado para dar a liberdade de existir. 
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 18 de março de 2016

Um nada que é tudo

Comunicar a verdade...
A verdade é fácil de contemplar, mas difícil de realizar. Os caminhos tortuosos que a vida nos oferece nem sempre permitem a realização da verdade como o valor mais procurado, defendido e vivido. As circunstâncias do quotidiano obrigam ao mais profundo desgaste da verdade e conduzem, por vezes, ao esquecimento daquilo que é autêntico para a identidade das pessoas e das coisas. Muito facilmente a vida empurra para a não verdade das situações e das atitudes.
A comunicação deve em todos os seus aspectos, não ter a preocupação de transmitir a verdade, mas ser a verdade em si mesma. Este conteúdo da comunicação deve fazer parte de todo e qualquer meio de comunicação. Não digo apenas a comunicação mediatizada, mas toda e qualquer comunicação humana.
Toda a vida de Jesus é um exemplo de como é viver na verdade e fazer a verdade: a palavra; os milagres; o perdão; a compaixão; a obediência; a oração; a sabedoria... Tudo o que é dito e feito em Jesus Cristo está empenhado no serviço da vida e no rumo certo da caminhada para a luz. Por isso, ver-se-á autorizada esta mesma pessoa a pronunciar estas palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).
Como viver a verdade hoje, neste tempo e neste mundo marcado mais pela não verdade, pela fealdade e pela mediocridade das atitudes? – No nosso tempo não parece fácil descobrir-se caminhos seguros que nos orientem pela certeza da verdade. Porque este é o tempo marcado profundamente pelo viver tão habitual do seguinte mito, como já denunciava Fernando Pessoa: “um nada que é tudo”. 
Deus é a verdade. Conhecer a verdade é conhecer o plano salvífico de Deus – viver a verdade é estar em Deus e é manter-se dentro deste plano de salvação de Deus.
Assim, fora da verdade não há comunicação nem salvação nem libertação. Deste modo, não há outra forma de embelezar o mundo senão através da comunicação da verdade e pela verdade.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Outra vez a Páscoa com toda a esperança

Comentário à missa deste domingo: Ramos. Início da Semana Santa ou Semana Maior...
Este dia de Ramos, convida-nos a refletir profundamente na pessoa de Jesus, não como um Rei qualquer que à maneira humana assume o poder e o domínio de uma nação, mas como um Rei obediente, servo sofredor e que se humilha diante de uma missão que depende totalmente de Deus Pai. Neste dia somos convidados à reflexão sobre os nossos projetos. Isto é, procuramos ver se as nossas ações estão em consonância com o bem estar e felicidade de todos.
Por vezes, é um desconcerto muito grande viver nesta sociedade competitiva, que privilegia a posse, o prazer e o poder sobre os outros como se fossem os bens principais da vida das pessoas. Por isso, não nos surpreende que nesta mesma sociedade se gere tanta violência e tanta alienação que conduzem as pessoas para horizontes de desespero e de perdição total. Como satisfazer os anseios de libertação e de vida plena? Como realizar o projeto de Deus na nossa vida concreta? O que significa ser cristão hoje? - Estas são questões que podem fazer parte do nosso pensamento diante do mistério que celebramos hoje e durante esta Semana Santa.
A Semana Santa, merece ser vivida em oração pessoal com Deus, esforço de conversão e maior dedicação aos irmãos. Do Domingo de Ramos à Quinta-feira santa, completamos os últimos dias do grande retiro quaresmal que nos apelou à conversão ou à mudança de vida, para acolher de verdade todo o mistério central da nossa fé. Com a Missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira santa à tarde, iniciamos o Tríduo Pascal da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. São três dias que nos revelam uma plenitude numa trilogia de acontecimentos que nos revelam até onde vai o amor de um Deus cheio de Misericórdia e de ternura.
O culminar de todas as celebrações é a Vigília Pascal na noite de Sábado, madrugada de Domingo. «Esta é a noite...» da glória e da vida em plenitude, como muito bem alude o canto, do Precónio Pascal. Durante esta noite, os diversos gestos simbólicos nos convocam para a grandiosidade do acontecimento que celebramos: eles são a Luz, a Palavra, a Água e a Eucaristia...
Esta Vigília desdobra-se na alegria do Domingo da Ressurreição e nos cinquenta dias do Tempo Pascal até ao Pentecostes, que são considerados como que um único e grande Domingo. A vida que se esgota na perdição dos caminhos reencontra uma luz verdadeira na cruz do amor salvador e que nos guia para a vida plena do amor ressuscitado.
Tudo isto adensa-se numa palavra, a palavra Páscoa, que significa passagem. Passagem do sofrimento e da morte. Por isso, hoje brilha a libertação da dor e canta a vitória da vida contra a injustiça deste mundo. Nesta Páscoa digamos todos: Cristo precisa de mim!

quarta-feira, 16 de março de 2016

A ver se o eleitorado aprende de uma vez

Mais uma vez o exemplo de que muito tempo no poder o mesmo partido faz estragos.
Vejo com tristeza o que acontece no Brasil. O governo do Partido dos Trabalhadores (PT) também foi engolido pela maldita corrupção. Os especialistas em matéria de leituras políticas vão também afirmando que esta é a consequência das políticas implementadas. Os governos do PT não se distinguiram em nada quanto a políticas a favor das pessoas.
Ora vejamos: «Não encarou o problema carcerário ou a brutalidade policial voltada contra os mais pobres. Não houve melhorias notáveis no ensino ou saúde públicos. A legislação ambiental saiu de bandeja para a agroindústria». Os mais cínicos afirmam que foram governos como «o violino, que se pega com a esquerda e toca-se com a direita». Por isso, até não é tanto sobre a corrupção, que essa mina a sociedade de alto a baixo para a esquerda e para a direita, mas as más políticas que mantiveram tudo na mesma. Portugal é também sintomático desta realidade. A corrupção, infelizmente, em nenhum sector social se coíbe de estar presente.
As políticas do PT foram mais, muito mais a favor dos grandes grupos económicos, da grande indústria, dos banqueiros, esquecendo os pobres, especialmente, a questão indígena. Agora temos um emaranhado de misérias que revelam perda total de valores, para não dizer a perda da cabeça.
Neste sentido, o arranjinho ministerial de Dilma Rousseff para encaixar dentro de uma auréola imaculada o seu mestre Lula da Silva, é vergonhoso e bem revelador de até onde pode ir a perda de cabeça quando a miséria parece estar a ser destapada. Esperemos por algum bom senso, algum pudor e quiçá a não perda total de vergonha.
E esperemos também por um fim justo e que o povo brasileiro mantenha a serenidade necessária e que encontre quanto antes soluções viáveis que o conduza no caminho da não violência e na justa prosperidade social.
A meu ver nenhum partido devia estar no poder mais do que dois mandatos. A alternância devia estar dentro dos parâmetros legais para que pelo menos de década em década os vícios que se instalam na poltrona do Estado fossem purificados. Já que a educação não promove a ética e não imprime valores morais então que seja uma lei a impor o que o berço devia ter ensinado como conduta de vida. 

terça-feira, 15 de março de 2016

Canonização da Santa Madre Teresa de Calcutá

Notícia importante:
O Papa Francisco marcou para o dia 4 de setembro a canonização de Madre Teresa de Calcutá. Santa Madre Teresa, morreu em 1997 aos 97 anos, era conhecida como «a «santa das sarjetas» ou como «mãe dos pobres de Calcutá», foi beatificada pelo Papa João Paulo II em 2003.
No caminho para ser considerado santo pela Igreja Católica, são três as etapas pelas quais deve passar o candidato a santo – confirmação das «virtudes heróicas», beatificação, e canonização, para as quais é necessário um milagre comprovado.
O primeiro passo para o processo de beatificação geralmente é dado pelo bispo da diocese à qual pertence o candidato e dificilmente antes dos cinco anos posteriores à sua morte.
Durante a investigação, primeiro se demonstra que o candidato tinha «fama de santidade» e que merece ser proposto à canonização.
Os teólogos consultores, os cardeais e até o papa têm o direito de opinar nesta etapa do processo, depois da qual se pode prever a beatificação, sempre e quanto se tenha demonstrado pelo menos a existência de um milagre que possa ser atribuído ao candidato.
Mas demonstrar a validade do milagre não é tarefa fácil. A Congregação para as Causas dos Santos recorre à assessoria de uma equipa de 70 médicos e vários especialistas, assim como dos estudos clínicos aos quais é submetido o indivíduo supostamente curado por um milagre.
Uma primeira aproximação do fenómeno denominado «milagre» é que a cura tenha acontecido de forma instantânea, perfeita e duradoura e inexplicável cientificamente, como a de uma doença incurável ou muito difícil de se tratar.
Quanto à canonização de Madre Teresa de Calcutá. Era expetável que o Papa Francisco tomasse a decisão de a fazer, não fora todo o seu pontificado «marcado» pelos pobres. A Santa Madre Teresa, sendo uma figura bem próxima dos nossos tempos, corresponde perfeitamente ao ideal do Papa Francisco, dá autoridade aos seus gestos e aponta mais um exemplo a ser seguido pela Igreja no que diz respeito à «opção preferencial pelos pobres».  

segunda-feira, 14 de março de 2016

Três anos de luz para o mundo chamada Papa Francisco

O papa Francisco completou ontem o seu terceiro aniversário de pontificado. Na Praça de São Pedro, em Roma, estiveram reunidas dezenas de milhares de pessoas, onde o Papa fez um reforço da sua mensagem sobre a misericórdia e ofereceu 40 mil cópias do «Evangelho de São Lucas», aos peregrinos que foram receber a bênção papal na praça, em formato de bolso.
O pontificado de Francisco começou 2013, tem salientado a mensagem da misericórdia, que ele enfatiza, em particular, durante este o Ano Santo da Misericórdia. 
À multidão o Papa comentou o episódio bíblico da mulher adúltera a quem Jesus não condenou. Disse: «Esta mulher representa todos nós, adúlteros diante de Deus, traidores da sua confiança. E sua experiência representa a vontade de Deus para todos nós: que não há condenação, mas a nossa salvação através de Jesus».
Saliente-se então o essencial destes três anos. Temos um Papa que nos entra em casa todos os dias com sorrisos largos, abraços apertados e que nos fala ao coração. É o Papa da proximidade.
O Papa que elegeu o povo como sacramento privilegiado da presença de Deus. Marca um tempo novo na vida da Igreja Católica. O tempo do amor universal, a misericórdia como elemento essencial da pastoral e tem ajudado (e muito) a limpar toda a miséria que acompanhou a Igreja Católica durante largos anos e coloca-a agora na prática concreta do Evangelho.
Nada daquilo que é humano é estranho ao Papa Francisco. Para tudo e para todos responde com um gesto, uma palavra, sorriso, um aceno... Com tudo isto o Papa vai marcando a diferença e anunciando ao mundo que nos pequenos sinais e gestos, pode estar o segredo para a transformação do mundo. É seguro que ficará para a história como o Papa do encontro e do abraço.

Micaela Abreu na final do Got Talent Portugal

Brilho Madeirense. Parabéns...

micaela abreu por videosTVpt

sábado, 12 de março de 2016

Existencial humano

Ao Ângelo Paulos, que hoje atravessou o existencial humano para toda a eternidade.
No existencial humano

que se forma misteriosamente
no ventre. Umas vezes é uma dor sentida
sobre um corpo.
Inerte. Silenciosamente,
como que dominado pela idade cortante
afiada na crista do tempo.
Sofrer solidariamente é uma dádiva
na grande vivência existencial
enrugada e triste numa tez
frágil e amarelecida no rosto
e nas mãos do trabalho.
Ali jaz doente a pobre
humanidade tomada
naquele quadro incandescente
ou ascendente solitária
sobre uma enxerga ancestral e vazia
onde está pousado o teu altar
que me fez ajoelhar,
fechar as mãos e os olhos sem pensar
para que a minha prece nada mais seja!
Basta descansar.
José Luís Rodrigues

Amigo Ângelo: PAZ

Paz... Para o amigo Ângelo Paulos. Era desta forma, com a palavra PAZ, que todos os domingos saudava a sua extensiva rede de amigos no momento da saudação na Eucaristia que assistia em sua casa pela televisão. Após a missa não faltava a sua certeira apreciação crítica sobre a homilia. Ficava desgostoso quando o sacerdote não falava das questões sociais e se não citasse o Papa Francisco. Muita falta vai me fazer aquela singela e curta palavra todos os domingos. Vai em PAZ, amigo Ângelo... Um forte Abraço ao Tolentino Nóbrega que nesta hora deve estar radiante com a tua chegada. 
Porque sei do texto bíblico mais apreciado por ti e citado nas tuas sábias reflexões aqui vai:
SERMÃO DA MONTANHA (5,1-7,29)
As Bem-aventuranças (Lc 6, 20-26) - 1Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois de se ter sentado, os discípulos aproximaram-se dele. 2Então tomou a palavra e começou a ensiná-los, dizendo:
3«Felizes os pobres em espírito,
porque deles é o Reino do Céu.
4Felizes os que choram,
porque serão consolados.
5Felizes os mansos,
porque possuirão a terra.
6Felizes os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
7Felizes os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
8elizes os puros de coração,
porque verão a Deus.
9Felizes os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.
10Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céu.
11Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.12Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no Céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.» 

sexta-feira, 11 de março de 2016

A escravidão moderna

É assim mesmo, quando a humanidade não sabe fazer um mundo para as pessoas serem felizes, mas um mundo submetido ao lucro desenfreado de alguns, engendra formas de escravidão que fazem da vida das pessoas em geral um verdadeiro inferno. Leiam atentamente...
Por Paulo Querido
A Organização Internacional do Trabalho estima que 21 milhões de pessoas são vítimas de trabalho forçado, dos quais 44% são migrantes. No total, o trabalho forçado gera anualmente cerca de 150.000 milhões de dólares em lucros ilegais. Uma pesquisa recente mostrou que 71% das empresas suspeita da presença de escravidão moderna nas suas cadeias de produção.
A recente crise de imigrantes, emparelhada com a exposição chocante de problemas laborais nas cadeias de produção globais, aumentou a atenção pública para a escravidão moderna, o trabalho forçado e o tráfico humano.
Crianças trabalham em minas de cobalto para a Apple e cadeias de fornecimento da Samsung, refugiados sírios trabalham, em circunstâncias terríveis, para cadeias de fornecimento de vestuário na Turquia, refugiados de Rohingya operam como escravos no setor da pesca tailandesa e imigrantes do Norte da África trabalham na agricultura em Itália e Espanha.
Em resposta, foi introduzida regulação cruzada sobre a escravidão moderna em cadeias de produção. Ao nível internacional, a OIT adotou o Protocolo de Obra Forçada, que exige que os Estados tomem medidas acerca do trabalho forçado. Nos Estados Unidoas da América surgiu o California Transparency in Supply Chains Act of 2010, visando garantir que aos consumidores é fornecida informações sobre os esforços para prevenir e erradicar o tráfico humano e a escravidão de suas cadeias de fornecimento.
O presidente Obama também lançou uma ordem executiva de grande alcance para evitar o tráfico humano em contratos federais e aprovou uma lei permitindo a forte aplicação do Tariff Act de 1930, que visa impedir a importação de produtos para os EUA produzidos usando trabalho infantil.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Viver a Quaresma no Ano da Misericórdia

A Comissão Nacional Justiça e Paz publicou a Reflexão para a Quaresma de 2016 intitulada «Viver a Quaresma no Ano da Misericórdia». Um texto muito importante que vos convido a meditar com atenção, porque faz uma leitura da vida da humanidade hoje e da sociedade no nosso país que nos parece deveras interessante. Podem ler AQUI.
Fazemos os seguintes destaques:
Destaque 1:
«O nosso País é um reflexo do panorama global aludido, evidenciado por indicadores que referem a imensa extensão da população portuguesa que vive em situação de pobreza, os níveis crescentes de desigualdade, e ainda muitas outras situações que vão deixando para trás tantos e tantas que assim se vão juntando ao crescente número dos excluídos: as crianças com insucesso educativo, os jovens sem trabalho, uma parte significativa da população ativa a caminho de situações de desemprego estrutural, os velhos sem voz, e tantos outros sem acesso adequado à justiça e à saúde, perante a ineficácia de estratégias e políticas públicas».
Destaque 2:
«É necessária uma conversão urgente e sem medo.
É urgente olhar e ser capaz de ver, combater a indiferença e perceber o carácter tremendo da necessidade da intervenção solidária, sempre solidária, perante a necessidade do vizinho, o silêncio do velho, a impotência da criança, a invisibilidade da diferença, a exclusão do estrangeiro, a injustiça da desigualdade.
É urgente não ter medo de olhar e de ver, de ser capaz de prescindir e partilhar, de amar, de ser compassivo, de viver a misericórdia. Será importante, para tal, repensar e redescobrir a "atualidade das obras de misericórdia"».
Destaque 3:
«Mas a conversão que se procura promove, informa e exige a ação.
O Papa Francisco na Bula do Ano Jubilar cita o profeta Isaías: "O jejum que me agrada não será antes este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão" (Is 50, 1-9a).
A cada um de nós, cidadãos e cidadãs comuns, é exigido um comprometimento em cada dia, em cada realidade concreta onde vive, na família, no trabalho, na comunidade, de forma a tornar real o desafio do profeta».

É proibido condenar

Comentário à missa do domingo V tempo Quaresma. Pode servir aos que habitualmente vão à missa, mas não só... 
A mulher pecadora é acusada de um crime grave, "foi surpreendida em adultério", no tempo de Jesus, tais mulheres eram apedrejadas até à morte, em obediência a uma má interpretação da lei do Antigo Testamento.
Para Jesus, esta condenação era bárbara demais. Mais uma vez, Jesus Cristo, mostra que não tolera hipocrisias e que veio para estabelecer a compreensão e a misericórdia diante do pecado, mesmo que seja uma ofensa grave contra Deus e contra a dignidade humana. Todos e tudo têm o perdão de Deus, basta haver arrependimento e propósito de emenda.
A resposta de Jesus revela claramente que o perdão é possível e demove por completo os «inquisidores» de todos os tempos que de dedo em riste pretendem matar os pecadores. A hipocrisia é flagrante neste episódio, os moralistas que agora querem purificar a sociedade através da morte da mulher impura, foram, provavelmente, também eles beneficiados com os seus serviços. Os mesmos que gritam morte à mulher pecadora também foram servidos pelos seus préstimos. A sociedade humana é assim mesmo. É escrupulosa no cumprimento das regras, mas, serve-se miseravelmente dos outros levando-os à desgraça para servir os seus instintos pessoais, mesmo que para tal sejam violados os valores e os princípios da dignidade humana de forma descarada.
Ninguém é perfeito, todos têm as suas manchas pecaminosas que provocam distância em relação a Deus e desencontro pessoal com os outros. Jesus ensinará o seguinte: quem não tiver pecado que de imediato atire a primeira pedra. Todos virtuosos, todos pecadores. Eis uma substância essencial da humanidade inteira.
Hoje ainda persistem vários tipos de armas utilizadas na violência contra a mulher, eles são: agressão física, como socos, pontapés, bofetões, entre outros, o estupro ou violência carnal, atentados contra o pudor pela força física, com o intuito de satisfazer desejos sexuais, ameaças de morte ou qualquer outro mal, feitas por gestos, palavras ou por escrito (as redes sociais e os telemóveis são meios hoje muito utilizados para aplicar este género de violência), abandono material, porque o homem não reconhece a paternidade, obrigando assim a mulher a ter que andar numa rede judicial interminável para poder receber uma pensão de alimentos para sobreviver e criar os seus filhos.
Mas há outro género de violência que não deixa marcas físicas, como as ofensas verbais e morais, que causam dores ainda mais agudas que as dores físicas. Humilhações, torturas, abandono, etc, são considerados pequenos assassinatos diários, difíceis de superar e praticamente impossíveis de prevenir, fazendo com que as mulheres percam a sua dignidade.
A violência contra a mulher, não está restrita a um certo meio, não escolhe raça, idade ou condição social. A grande diferença é que entre as pessoas de maior poder financeiro, as mulheres, acabam calando-se contra a violência que recebem, talvez por medo, vergonha ou até mesmo por dependência financeira. E muitas vezes porque a sociedade considera a mulher culpada pela agressão que é vítima. Uma triste sina que faz com que muitas mulheres sofram todo o tipo de violência num silêncio ensurdecedor.
A condenação não tem lugar no coração de Deus, revelado plenamente em Jesus como o Pai/Mãe do reencontro e da reconciliação plena com todos os homens. Este é o caminho da graça de Deus mostrado por Jesus a todos nós mediante estes gestos de ternura amorosa.
Todo o pecado, mesmo que seja muito grave, é sempre uma pequena gota diante do oceano infinito da compaixão misericordiosa de Deus. E pelo que cada um de nós é capaz e como somos sempre vulneráveis diante dos instintos que nos assistem, deve ser proibido condenar.

terça-feira, 8 de março de 2016

Toda a mulher é sacramento de Deus


Neste dia em que o mundo celebra a MULHER, sussurra em mim uma vontade de dizer do acervo da feminilidade e maternidade de Deus. Os nossos tempos precisam muito que esta teologia se faça valer, porque são muitos os desvios e é abundante a concentração nas mediações que nada têm que ver com o essencial da fé no «Deus Todo Poderoso» do credo que encerra em si todas as dimensões da criação. Tudo que esteja fora deste alcance pode, mesmo que muitos não queiram, ser idolatria e paganismo.
Há também ao mesmo tempo muita gente que não lhe interessa, não querem e nunca permitirão que Deus seja considerado, acreditado, rezado e vivido como Mãe e Pai. O poder patriarcalista que atravessou os séculos fez da humanidade um reino de dominadores e dominados. Os principais desses dominados foram e ainda são a multidão imensa das mulheres. A ideia sempre foi o poder para os homens, a vã glória de mandar, o domínio, mas os serviços, o trabalho, as lides domésticas, o cuidado dos filhos e tudo o que fosse trabalho no anonimato pertencia e pertence às mulheres.
Uma nova visão acerca de Deus, na sua feminilidade e masculinidade, na sua maternidade e paternidade, criaria uma humanidade mais humana, onde homens e mulheres fariam uma fraternidade, mulheres e homens convergiriam para o exercício do poder. Na comunhão humana, ambos os géneros estariam ao serviço de todo o tipo de trabalhos para fazer funcionar a vida para todos.
Por isso, é urgente entender-se e enunciar que por Nossa Senhora, Deus «mostrou que além de ser Deus-Pai é também Deus-Mãe com as características do feminino: o amor, a ternura, o cuidado, a compaixão e a misericórdia. Estas virtudes estão também nos homens, mas elas encontram uma expressão mais visível nas mulheres» (Leonardo Boff).
E neste sentido, no contexto do sorriso e da postura aparentemente informal que caraterizava  o papa João Paulo I, causou surpresa, ao afirmar que «Deus é Pai e Mãe». Foi a 10 de setembro de 1978 na recitação do Angelus. Pelo profeta Isaías que pergunta: «Não. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do próprio filho? Mas ainda que ela se esquecesse dele, nunca Deus esquecerá o seu povo» (Is 49,15). Então o Papa garantia: «Somos objeto, da parte de Deus, dum amor que não se apaga. Sabemos que tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é Pai; mais ainda, é mãe. Não quer fazer-nos mal, só nos quer fazer bem, a todos. Os filhos, se por acaso estão doentes, possuem um título a mais para serem amados pela mãe. Também nós, se por acaso estamos doentes de maldade, fora do caminho, temos um título a mais para que o Senhor nos ame».
Deus é espírito e, por isso, os que O adoram, devem adorá-Lo em espírito e verdade (Jo 4, 24). Deus é espírito e, como tal, é invisível. Tornou-se visível de forma eminente em Cristo («Quem me vê, vê o Pai» – Jo 14, 9). Mas Deus torna-se visível em cada homem e em cada mulher, já que o ser humano foi criado – homem e mulher – à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26.27) e de Deus recebeu o mandamento de crescer, multiplicar-se, encher e dominar a terra (Gn 1, 28). Ser homem e mulher, porque divinizados, torna-se uma missão em nome de Deus para o mundo, para a vida e para a humanidade inteira. Como idiossincrasia do homem, sobressai a paternidade, e como sendo próprio da mulher, foi-lhe atribuída a propriedade da função maternal (Gn 2,24; 3,30).
Não permitamos que nenhuma mulher seja descriminada. Pois, cada mulher revela uma dimensão importante de Deus, a feminilidade e a maternidade, aliás elementos tão importantes para o mundo dos homens e das mulheres, que só elas podem fazer e partilhar com todos. Vamos reforçar todas as lutas que a sociedade implementa para que sejam vencidos todos os desequilíbrios entre homens e mulheres, dentro e fora das Igrejas.
Elas são o sacramento de Deus Pai e Mãe para toda a humanidade, o melhor caminho que nos revela e conduz à ternura e misericórdia de Deus. Oxalá, que todas as mulheres assumam como Maria de Nazaré o seu verdadeiro lugar divino, para que tenhamos necessidade de que haja um dia especial no ano para nos fazer lembrar que mulheres e homens são a humanidade realidade única e que estão divinizados pelo Filho de Deus com a ação do Espírito Santo. Por isso, ambos os géneros merecem todo o respeito e que os tempos da submissão, escravidão desapareçam para sempre.