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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O que dizer de um domingo trágico?

27 de Janeiro de 2013, ficas gravado.
Uma paisagem de estragos incompreensível, porque semeou a morte, o sofrimento, a solidão, a impotência e tudo regado com as lágrimas da dor. Tudo condimentado com o falhanço do iluminismo que parecia tudo resolver, o fim dos limites limpava a inteligência de todo o incenso, mas parece que o fumo também se pode tornar mortal e mata todo o sinal de vida que seja trancado entre portas feitas para salvar e se teimosamente trancadas matam como qualquer outra arma feita para semear a morte.
Copérnico e Galileu disseram que a harmonia da natureza era reflexo do Criador. Nesta senda Newton acertou os seus cálculos os ponteiros dos relógios das catedrais. A chuva caiu sobre os telhados do mundo e inundou os claustros provocando humanidade no pensamento e cerceou a liberdade, autonomia humana e a condução do Espírito.
Mas, a razão emergiu pujante e nobre colocando tudo o que é dito de Deus e da religião pura superstição, porque não era experimentável no crivo das regras elementares da ciência. Porém, curioso é sabermos hoje que o mistério sempre lá esteve e hoje mais presente do que nunca, para nos tomar de luto perante as tragédias que impiedosamente matam e fazem verter lágrimas de sofrimento, de raiva e de revolta.
Para que serviam as perguntas quanto dizíamos possuir todas as respostas?
Voltaire e outros quiseram só e unicamente a inteligência como explicação para autonomia e libertação humana. Porém, Baudelaire, Rimbaud entre tantos outros, quiseram beber em Deus a sua sede de absoluto e descansar das suas inquietações. Nessa procura foram dizendo o que queriam, o que desejavam como sentido último para a existência. Por isso, lembro Dostoiévski que olhando para Jesus despiu os eclesiásticos e escancarou-lhes a alma revelando quanto os demónio nela habitavam. Nietzsche disse, o homem é livre, nada que o faça sobrenatural, transcendente, ele é o super-homem, deu no que deu e todos nós sabemos. Sartre solenemente proclamou o inferno são os outros e a morte é o último limite humano que destitui a existência de qualquer sentido.
E neste subir e descer, temos sempre diante de nós o maior dos enigmas, Jesus. Ele o eleito da inquietação de tantas mentes, por exemplo: Claudel, Simone Weil, François Mauriac, Chesterton, Péguy, Graham Greene, Alberto Schweitzer; entre nós destaque-se Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, José Saramago, José Carlos Ary dos Santos, Natália Correia, Júlio Pomar entre tantos outros autores/artistas que por cá e por todo o mundo fazem do coração inquieto o lugar do mistério e nele produzem palavras como sombras onde se refresca o descanso da paz para que a serenidade da vida se retempere na esperança e nalgum sentido.
Por nós, mesmo assim, no descampado do incenso mortífero e da ravina assassina e em tudo o que seja violência que mata, descobrimos o Deus de Jesus que não é um velho Narciso, que à socapa de adoradores submissos nem muito menos um tirano assassino que anda constantemente irado com os pecadores. É o Abba, o pai/mãe cheio de amor (e a meu ver «mais mãe do que pai» como diria o Papa João Paulo I), cuja oferta maior que tem para nos dar é a vida. Contraditório? – Dirão perante a desgraça e a tragédia, mas «se o grão de trigo não morrer fica só»... 
O que nos deu este domingo 27 de Janeiro de 2013 não foi uma grande guerra que inquietou tanta gente e tantas figuras proeminentes como Tolstoi, Camus. As notícias do incendio na discoteca em Santa Maria (o nome mais curioso que nos poderia ser dado), Rio Grande do Sul no Brasil, o autocarro que se estatela pela encosta na Sertã com excursionistas que iam visitar um presépio e outros tantos mortos resultantes da violência no Egipto… Tudo, é muito horrível e trágico para um dia só.
Hoje, tropeça-se na rua com tantas almas feridas na sua dignidade. Há uma multidão sem pão e o sistema salva a auréola cristã e exclui o pão partilhado, não se importando nada que as mesas estejam vazias. Por isso, Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein - 1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da Europa, no Poema «Am Steuer» / «A Tempestade», 1940, fez-nos germinar na alma flores que se chamam esperança, fé… Num amanhã que será alegre e feliz no oásis de um novo tempo onde secaram para sempre as lágrimas deste tempo de tragédia, de dor e de sofrimento. Escutemos então:
«Sou Eu. Não temais»

- Senhor, como são altas as ondas,
E tão escura a noite !
Não poderias dar-lhe alguma claridade ?
É que velo solitária na noite !

- Segura o leme com mãos firmes,
Tem confiança, mantém a calma.
A tua barca é-Me preciosa,
A bom porto a levarei.

Mantém, sem desistires,
Os olhos na bússola.
É ela que ajuda a chegar ao destino
No meio de noites e tempestades.

A agulha da bússola
oscila mas mostra segura a direção.
Ela te indicará o cabo
Aonde quero que arribes.

Tem confiança, mantém a calma :
Por noites e tempestades
A vontade de Deus, fiel, te guiará,
Se vigilante for teu coração.

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