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domingo, 29 de janeiro de 2017

A hemorragia da Vida Consagrada

1. O Papa Francisco reconheceu em Roma neste sábado passado que há uma «hemorragia» na Vida Consagrada, que enfraquece a Vida Consagrada e a própria vida da Igreja e que «Os abandonos na vida consagrada nos preocupam muito» - disse-o perante os participantes na Plenária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, ao abordar o tema escolhido para este encontro: «fidelidade e abandonos».

2. As notícias avançam, segundo as estatísticas, que em Espanha encerra um convento por mês. A falta de vocações e os abandonos são as principais razões para estes encerramentos. Entre nós não se tem falado muito sobre este assunto. Há como que um silêncio estudado sobre esta questão. Faz-se de conta que está tudo bem.  

3. Obviamente, que não é com alegria que vejo a dita «Vida Consagrada» definhar. Os conventos foram lugares de santidade inigualável, espaços privilegiados de estudo que contribuíram para o progresso da humanidade a todos os níveis. Pelos conventos brilhou a cultura em geral destacando-se a riqueza e a beleza da música, as enormes colecções de livros, a grandeza das bibliotecas, a culinária, a investigação científica, o pensamento filosófico, os laboratórios, o desenvolvimento agrícola e nenhuma dimensão humana foi descurada pelo trabalho dos frades e freiras ao longo dos séculos.
Não esqueçamos o quanto foram importantes para fixar as povoações e como foram portos de abrigo para matar a fome material, cuidar da saúde e saciar a sede de Deus para tantos homens e mulheres de tantos lugares do mundo e nos diversos momentos da história da humanidade, especialmente, as ocasiões da guerra, da peste e da fome.

4. Mas não podemos também deixar de ver que os conventos foram lugares de verdadeira «escravidão» e repressão em nome da «santa obediência» e em nome da desigualdade que ali se vivia como um desígnio divino. Tudo isto e as mudanças humanas que se foram verificando com o passar dos anos, levaram à escassez de vocações para a «vida consagrada». Hoje várias congregações e conventos definham. São autênticos lares de idosos/idosas sem sangue novo que lhes garanta olhar o futuro com um sorriso de esperança.

5. Há também razões alheias à «vida consagrada», com toda a certeza, para a convalescença dos conventos. Mas essencialmente a «doença» deriva da perda de identidade da «vida consagrada». Os conventos converteram-se em centros administrativos de escolas iguais às outras ou centros de acolhimento de doentes sem que seja prioritário ser fiel à mensagem dos seus fundadores. Estão dominados os frades e as freiras que restam pela Segurança Social de acordo com as políticas levadas a cabo pelos partidos políticos que assumem a governação. São a mão caridosa do poder político em muitas situações.

6. Esta perda de identidade, que passa pela infidelidade ao carisma dos seus fundadores e a subjugação ao poder político vigente, conduziu os conventos à sua inutilidade e a consequente morte das causas que defendiam. Por isso, hoje temos congregações religiosas todas muito iguais, não se percebe para que serve cada uma e qual é o destino de cada uma. Os que restam nos conventos e nas congregações religiosas, são alguns homens e mulheres idosos aflitos para segurarem o vasto património que têm entre mãos, que resultou do seu momento histórico de esplendor.

7. A «vida consagrada» não pode esquecer deliberadamente a dimensão da fraternidade, não pode ser motivo de desigualdade onde os mais antigos são senhores e reis que dominam os mais novos, não pode ser um caminho de mordomias para comer bem e os outros comerem sobras ou uma zurrapa qualquer só porque começam agora, não pode ser fechada do mundo e da vida social de hoje, não pode recorrer à escravidão e à subjugação dos candidatos, não pode ter como chefes pessoas doentes ou suspeitas de alguma mazela pouco edificante, não pode ser apenas e só administradora de vasto património, não pode deixar as suas causas e a razão de ser da sua existência que normalmente estava associada aos pobres, à educação e à saúde dos mais necessitados.

8. É urgente que a dita «vida consagrada» se reencontre com o espírito dos seus fundadores e nos mostre em que é que se distingue para que a partir daí os jovens estejam disponíveis para abraçar causas que libertam e promovem o bem comum e a justiça, como foram o pensamento e a prática dos seus fundadores. As razões do definhamento da Vida Consagrada não estão principalmente fora, na vida de hoje e na crise das famílias, como se aponta frequentemente, mas estão também, e essencialmente, dentro da própria Igreja em geral e dentro de cada comunidade religiosa de Vida Consagrada. Sem mudanças, o único horizonte que vejo, é mesmo esse, o fim dos conventos.   

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