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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Este produto não é de risco

1. Muito se tem ouvido falar sobre os «nossos» bancos. Há quem não pondere muito as palavras, para considerar logo que os culpados do descalabro económico foram os bancos. Mas não pode ser isso que me trás aqui, porque não percebo o que devia sobre estes assuntos relacionados com finanças, sigo Jesus Cristo, que no poema «Liberdade» Fernando Pessoa disse: «Que não sabia nada de finanças / Nem consta que tivesse biblioteca...». Uma mini biblioteca, é seguro que tenho, mas conhecimento de finanças, menos, muito menos. Deixo essa matéria para os entendidos.
Porém, é óbvio, que não fico indiferente ao sofrimento dos lesados deste ou daquele banco. Não sou indiferente à venda de bancos a estrangeiros, especialmente, chineses e angolanos. Não sou indiferente às enormes somas de liquidez rapada do Orçamento de Estado para salvar qualquer banco aflito porque foi mal gerido ou andou envolvido em produtos tóxicos. Não sou indiferente a todas as confusões que andaram a marcar a agenda à volta dos bancos nos últimos anos.

2. Bom, mas o que me trás aqui tem a ver com o sentimento que nos assiste quando entramos numa agência de qualquer banco. Explico-me. Um dia destes, fui fazer um singelo depósito numa agência bancária no Funchal, para que as despesas correntes não entrem em derrapagem nem tenhamos à porta visitas desagradáveis para cortar água ou luz. Ouvi sem querer, esta frase: «este produto não é de risco». Há mais de uma semana que ando a pensar nesta frase.

3. Pergunta ingénua: o que não é produto de risco hoje num banco quando o próprio banco está em risco? - Lembro-me que nessa ocasião quando aquelas palavras soaram no meu interior esbocei um sorriso e conclui que tudo está em risco nos dias que correm. Até ver, até o próprio banco como instituição está em risco.

4. Nada, devemos ter contra os funcionários dos bancos que nos atendem amavelmente e com toda a atenção. Mas, por favor, não nos enganem mais. Têm que fazer o vosso trabalho e transmitir o que vos mandam dizer aos clientes. Mas, por causa deste negativismo à volta dos bancos, hoje, penso que não haverá ninguém que não desconfie e que não se admire das garantias que os bancos apresentam. Todos os «produtos» são um risco, o dinheiro anda em alto risco e a falta dele ainda é mais arriscado, os bancos são um risco, a vida é um risco, o mundo é um risco… Ai que mistério, para que alguma coisa não seja um risco e que se nós pertencemos a essa realidade então poderá haver alguma «coisita» em nós que não esteja em risco fatal.

5. Hoje, estamos naquela fase, relativamente aos bancos como estivemos muito tempo em relação aos charlatães que nas ruas distribuíam papéis anunciando a solução para todos os problemas de saúde, familiares, profissionais e até de finanças. Um mundo dourado, vinha ao nosso encontro na pessoa dos «mestres» iluminados cheios de saber e poderes do aquém e do além.
No campo religioso também existiam milagres para todos os gostos, eles foram seitas religiosas e grupos carismáticos que resolviam todos os problemas e dificuldades das pessoas.
Ao princípio olhamos isto com muita admiração, depois desconfiança e agora indiferença dura, porque o descrédito foi tão grande que hoje só cai nessa conversa fiada quem tenha passado mais de 20 anos a dormir.
Assim, os bancos estão na fase da desconfiança e fazem-nos sorrir algumas expressões como esta que ilustra este banquete, mas logo pode chegar a ocasião em que caímos na indiferença e essa fase será trágica para os cidadãos, para economia e para os bancos especialmente. Srs. dos bancos, por favor, que não vos canse a língua de falar claro, com verdade e honestidade.

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