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sexta-feira, 12 de maio de 2017

O que nunca dirão os discursos oficiais ao Papa Francisco (3)

1. Para hoje reservei a hipocrisia e o oportunismo político abençoado pela mais alta hierarquia da Igreja Católica Portuguesa (embora disfarce), para pensarmos neste humilde banquete que nunca chegará ao Papa Francisco por nenhuma via nem muito menos por aqueles sortudos que irão falar com ele nestas horas de visita ao Santuário de Fátima.

2. Veio a tolerância de ponto. Está mais que evidente o aproveitamento político e sendo o governo de esquerda, devia mostrar a sua coerência e a sua defesa intransigente da laicidade do Estado. Essa coerência do Estado laico deve existir em todos os momentos. E ponto final. Mas sendo declarada por uma razão qualquer deve contemplar todos os portugueses, tanto no continente como nas ilhas. Por isso, devia ser para todo o país, ao contrário daquilo que defendeu o Presidente do Governo Regional da Madeira, que invocou a não «continuidade territorial» para não declarar na Madeira a tolerância de ponto. Não há, não pode haver, portugueses de primeira e portugueses de segunda. Não é assim que está consagrado na Constituição Portuguesa e no Estatuto Político da Madeira? - Mas, a partidarite não raras vezes reveste-se da mais sentida devoção religiosa para fazer vingar os seus intentos.
Seguindo ainda mais de perto estas reviravoltas partidárias, temos três concelhos na Madeira com tolerância de ponto para os seus funcionários para verem o Papa: Funchal, Porto Moniz e Porto Santo. Ah… Já me esquecia, a Universidade da Madeira também alinha na tolerância de ponto. Melhor é impossível…

3. Mais interessante ainda foi o «carnaval» na Assembleia Regional da Madeira. Disseram as notícias que o PSD e o CDS apresentaram, no parlamento regional, dois votos de congratulação pelo centenário das aparições em Fátima e pela visita do Papa Francisco a Portugal, justificados pela «devoção» dos madeirenses. O CDS, através do deputado Rui Barreto, voltou a desafiar o governo regional a conceder tolerância de ponto aos funcionários públicos, na sexta-feira.
O partido JPP e o PS associaram-se aos votos, recordando a tradição católica de Portugal e o PCP compreende a intenção das propostas que, segundo o deputado Edgar Silva, não se centram nas aparições mas na visita do papa.
As críticas mais fortes vieram do BE e do deputado Gil Canha que votaram contra. O deputado independente defendeu o respeito pela separação entre o Estado e a Igreja e acusou os dois partidos proponentes de aproveitamento grosseiro da visita papal. Cá nada! Será até caso para adivinhar um forte arrependimento de um líder partidário e Presidente de Governo Regional arrependido pelo imbróglio que criou com aquela justificação atabalhoada da «continuidade territorial» para não conceder tolerância de ponto na Madeira no dia 12 de maio de 2017.
O deputado Rodrigo Trancoso, do BE, considerou «ridículos» os dois votos de congratulação e lembrou o contexto em que se verificaram as aparições de Fátima, em 1917, que considerou serem um «grande embuste».
O mais famoso e truculento deputado da Assembleia Regional da Madeira, José Manuel Coelho, do PTP, fazendo uma incursão bíblica protestou por serem dois partidos «fariseus», PSD e CDS, a propor estes votos. Espetacular. Melhor é impossível…

4. Por fim, destaque-se a santa aliança política nesta matéria entre Presidência da República, Governação do país e a hierarquia da Igreja Católica em Portugal. Todos juntinhos nesta causa, mesmo que esta comunhão faça surgir leituras pouco abonatórias para ambas as partes.
Neste âmbito não quero deixar passar em branco a «conversão» do Partido Comunista Português. Foi enternecedor ler o seu comunicado de imprensa, onde o Partido Comunista Português (PCP) afirmou a sua posição em relação à visita do Papa Francisco a Portugal.
O PCP reafirma a sua posição a princípio de respeito e defesa da liberdade de consciência, de religião e de culto. «Trata-se de uma conquista de abril e de uma exigência constitucional, pela qual lutámos», diz o documento.
Mas relembrou que muitos dos seus militantes são católicos e crentes, havendo dentro do Partido um respeito pelas «múltiplas expressões e manifestações de religiosidade». A relação da Igreja Católica com o PCP é descrita como um «normal relacionamento institucional», que deve ser respeitado, assim como a visita do Papa, «acolhida com a consideração devida» pelo seu carácter religioso. Só faltou dizer que «rezava» pelo sucesso da peregrinação a Fátima do Papa.

5. Estas peripécias em nome da peregrinação do Papa Francisco e dos 100 anos da história da Cova da Iria, nada se coaduna com a simplicidade e proximidade deste Papa, que nem por sombra deve sonhar com estas cambalhotas e que muito deviam envergonhar-nos, não fossem tão cheias de graça.

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