Convite a quem nos visita

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Deus no meu caminho

«Deus e eu»...

Com o professor Universitário, João Nelson Veríssimo.
– É a tua cruz… o que vais fazer?

– É a tua cruz… tens de carregá-la!

– É a tua cruz… que Deus te ajude.

Dizem-me frases como estas. Quase sempre respondo que não gosto de encarar como cruz o que de menos bom a vida me oferece. Outras ocasiões poupo nas palavras e forço um sorriso. Mas sempre recuso essa visão terrífica e anquilosante da cruz.

Não sei se foi Deus quem me colocou pedras no caminho. Meço os obstáculos, enfrente-os ou contorno-os. Por vezes, consigo.

Agradeço-lhe todos os dias. Peço também que me acompanhe. Nunca ouvi a sua voz. Mas tenho a certeza de que já o vi sorrir. Fico então com a sensação de vitória.

A cruz foi injustiça, sacrifício e amor. É sinal da sua presença.   

O meu Deus não quer que eu carregue uma cruz. Mostra-me o caminho, deixa-me escolher e caminha comigo. E vou caminhando como posso, mas sem o peso de uma cruz que me dificultaria o andar.

Uma colega perguntou-me um dia como me era possível acreditar, ter fé. Qualquer resposta que tentasse, não a demoveria dos seus argumentos. Respondi-lhe, simplesmente, que assim era mais fácil. Soou-lhe a afirmação de analfabeto.

Já não lhe disse que não era acreditar e deixar correr. Um aceitar resignado! Não!
Era mais fácil apenas porque não estava só.      

Nelson Veríssimo
22 jan. 2017

A eutanásia voltou em força

1. Eutanásia, morte medicamente assistida. «Morte doce» como define a palavra eutanásia. Há tanta coisa terrível neste mundo. Mas vermos uma pessoa a sofrer e sabermos que o único fim para esse sofrimento é a morte, mexe com todas as entranhas do nosso corpo e remete-nos para a imensidão do mistério que nos envolve. São imensas as vezes que me lembro que a maior das minhas inquietações está relacionada com o sofrimento. Não temo tanto a morte, mas o sofrimento, a dor e a angústia a ele relacionado. Esta deve ser das coisas mais perturbantes que me removem o pensamento e a alma.

2. Como eu, devem ser quase todas as pessoas a pensarem e a se inquietarem sobre o sofrimento, a dor. Por isso, não admira que o tema da eutanásia esteja aí em força. É um assunto complexo. Ontem presenciei um pouco do programa da Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras, sobre esta temática. Foi um arraial de argumentos, percebe-se que há uma larga maioria que defende claramente a aplicação da eutanásia com base na «vontade do doente» e ponto final. Mas, ainda outra maioria que é contra, argumentando com base filosófica, religiosa, psicológica e cultural. Eu, espectador, no final do programa, estava mais confuso do que nunca sobre a eutanásia.

3. Face à ramboiada da argumentação, vamos ter na Assembleia da República uma discussão e votação sobre este assunto, sobre o qual não há uma clareza de argumentos que nos deixe descansados. Seja a eutanásia votada favoravelmente ou, ainda assim, não passe na Assembleia da República, vamos continuar envoltos numa enorme confusão. Por hora ainda não me encaixa a ideia de que devemos discutir estas questões fraturantes só porque devemos ser um país moderno e que tem que estar na linha dos países onde estes assuntos são votados e aprovados sob o espírito do vanguardismo e do progresso. Progresso é outra coisa bem distinta e quiçá por aí não se encontrem argumentos que venham dizer que a eutanásia é perfeitamente desnecessária…

4. Face a este considerando de vanguardismo e modernismo, devemos ter em conta um elemento que não deve ser descurado. Face a este contexto, do meu ponto de vista, há dois aspectos a ter em conta. Por um lado, os avanços tecnológicos e científicos no domínio da saúde também não pararam no tempo, por isso, a morte natural sem sofrimento hoje devia ser uma possibilidade para todas as pessoas. Por outro, a doença faz parte da vida e o sofrimento nunca vai acabar. Por aqui se percebe o que dizia sobre a doença o médico João Lobo Antunes: «A doença convida ao exame da vida, provavelmente a única circunstância em que chegamos próximo da análise lúcida do caminho percorrido. Então regressam à cena os actores esquecidos da nossa biografia. Voltamos a viver os momentos em que subimos mais alto do que alguma vez aspirámos, ou descemos àquela profundidade em que a vergonha nos perdera. Ouvimos novamente as palavras que deveríamos ter contido ou então, pelo contrário, as que ficaram por dizer. Contabilizamos o balanço final e escrevemos, com um sorriso e um travo de amargura, o último currículo». Até que ponto a eutanásia não é uma forma de travar as várias possibilidades vivenciais que o deserto da doença também permitir experimentar? E perante o que se devia exigir quanto à qualidade dos nossos hospitais, a aposta nos cuidados paliativo e na dignidade das pessoas na convalescença, quem sabe se a eutanásia não é uma forma de nos livrarmos de tais apostas responsabilidades? Por isso, quem sabe se a eutanásia encapotada de avanço civilizacional não é antes um grave retrocesso civilizacional?
 
5. Neste momento não tenho claro se sou a favor ou se sou contra a eutanásia, até porque, não deve ser assim que tratamos os assuntos quando são desta gravidade. Porém, estou seguro que sou pela vida, pela sua qualidade e dignidade em absoluto, do momento da concepção até à morte natural. A ligeireza do ser contra ou favor, não deve fazer parte desta questão. Também não embarco na ideia de que por ter esta ou aquela religião deve-se ser contra. Muito menos ainda se não tendo religião pode-se e até deve-se ser a favor da eutanásia. A vida a meu ver está muito para além de tudo isso e não depende felizmente dos estados de alma ou dos sentimentos de uns e de outros. Finalmente, está instalada a confusão, isso não é bom para a reflexão e para o debate.  

domingo, 29 de janeiro de 2017

A hemorragia da Vida Consagrada

1. O Papa Francisco reconheceu em Roma neste sábado passado que há uma «hemorragia» na Vida Consagrada, que enfraquece a Vida Consagrada e a própria vida da Igreja e que «Os abandonos na vida consagrada nos preocupam muito» - disse-o perante os participantes na Plenária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, ao abordar o tema escolhido para este encontro: «fidelidade e abandonos».

2. As notícias avançam, segundo as estatísticas, que em Espanha encerra um convento por mês. A falta de vocações e os abandonos são as principais razões para estes encerramentos. Entre nós não se tem falado muito sobre este assunto. Há como que um silêncio estudado sobre esta questão. Faz-se de conta que está tudo bem.  

3. Obviamente, que não é com alegria que vejo a dita «Vida Consagrada» definhar. Os conventos foram lugares de santidade inigualável, espaços privilegiados de estudo que contribuíram para o progresso da humanidade a todos os níveis. Pelos conventos brilhou a cultura em geral destacando-se a riqueza e a beleza da música, as enormes colecções de livros, a grandeza das bibliotecas, a culinária, a investigação científica, o pensamento filosófico, os laboratórios, o desenvolvimento agrícola e nenhuma dimensão humana foi descurada pelo trabalho dos frades e freiras ao longo dos séculos.
Não esqueçamos o quanto foram importantes para fixar as povoações e como foram portos de abrigo para matar a fome material, cuidar da saúde e saciar a sede de Deus para tantos homens e mulheres de tantos lugares do mundo e nos diversos momentos da história da humanidade, especialmente, as ocasiões da guerra, da peste e da fome.

4. Mas não podemos também deixar de ver que os conventos foram lugares de verdadeira «escravidão» e repressão em nome da «santa obediência» e em nome da desigualdade que ali se vivia como um desígnio divino. Tudo isto e as mudanças humanas que se foram verificando com o passar dos anos, levaram à escassez de vocações para a «vida consagrada». Hoje várias congregações e conventos definham. São autênticos lares de idosos/idosas sem sangue novo que lhes garanta olhar o futuro com um sorriso de esperança.

5. Há também razões alheias à «vida consagrada», com toda a certeza, para a convalescença dos conventos. Mas essencialmente a «doença» deriva da perda de identidade da «vida consagrada». Os conventos converteram-se em centros administrativos de escolas iguais às outras ou centros de acolhimento de doentes sem que seja prioritário ser fiel à mensagem dos seus fundadores. Estão dominados os frades e as freiras que restam pela Segurança Social de acordo com as políticas levadas a cabo pelos partidos políticos que assumem a governação. São a mão caridosa do poder político em muitas situações.

6. Esta perda de identidade, que passa pela infidelidade ao carisma dos seus fundadores e a subjugação ao poder político vigente, conduziu os conventos à sua inutilidade e a consequente morte das causas que defendiam. Por isso, hoje temos congregações religiosas todas muito iguais, não se percebe para que serve cada uma e qual é o destino de cada uma. Os que restam nos conventos e nas congregações religiosas, são alguns homens e mulheres idosos aflitos para segurarem o vasto património que têm entre mãos, que resultou do seu momento histórico de esplendor.

7. A «vida consagrada» não pode esquecer deliberadamente a dimensão da fraternidade, não pode ser motivo de desigualdade onde os mais antigos são senhores e reis que dominam os mais novos, não pode ser um caminho de mordomias para comer bem e os outros comerem sobras ou uma zurrapa qualquer só porque começam agora, não pode ser fechada do mundo e da vida social de hoje, não pode recorrer à escravidão e à subjugação dos candidatos, não pode ter como chefes pessoas doentes ou suspeitas de alguma mazela pouco edificante, não pode ser apenas e só administradora de vasto património, não pode deixar as suas causas e a razão de ser da sua existência que normalmente estava associada aos pobres, à educação e à saúde dos mais necessitados.

8. É urgente que a dita «vida consagrada» se reencontre com o espírito dos seus fundadores e nos mostre em que é que se distingue para que a partir daí os jovens estejam disponíveis para abraçar causas que libertam e promovem o bem comum e a justiça, como foram o pensamento e a prática dos seus fundadores. As razões do definhamento da Vida Consagrada não estão principalmente fora, na vida de hoje e na crise das famílias, como se aponta frequentemente, mas estão também, e essencialmente, dentro da própria Igreja em geral e dentro de cada comunidade religiosa de Vida Consagrada. Sem mudanças, o único horizonte que vejo, é mesmo esse, o fim dos conventos.   

sábado, 28 de janeiro de 2017

Definição de ausência

Ensaio de poema para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Tenho saudades de Deus dentro do poema
por isso fujo das palavras
e corro como lebre no descampado cruel
sem refúgio de uma toca ou silvado protector
que me esconda a alma e o pensamento.

Há cães caçadores salivando a correr esbaforidos 
contra um inocente atirado às feras do mundo
mostram os dentes sedentos de carne fresca.

Tenho saudades de palavras 
que me façam lembrar o calor da mãe
naquele momento infantil
a dizer as primeiras letras do futuro
que a fé garantia que veria logo amanhã
pelas mãos e pelo olhar do fogo.

Tenho saudades de corpos celestes que a todos assustavam
naquela casa pobre da minha infância
penso nela todos os dias
porque moro agora numa ausência 
de um tempo que foi nosso e que até não se cumpriu.
Foi promessa, sempre será promessa. 
JLR

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Duas demissões provocam um pequeno tsunami na Igreja Católica

1. Fiquei surpreso e boquiaberto, como tanta gente na Igreja Católica e fora dela ficou com o pedido do Papa Francisco, para que o líder da Ordem dos Cavaleiros de Malta pedisse a sua demissão do cargo. A notícia cai assim como uma bomba: «o líder da ordem dos Cavaleiros de Malta, Matthew Festing, resignou hoje ao cargo, depois de o Papa o ter obrigado, ontem, a demitir-se». Meio mundo considerará brilhante, outro nem tanto. Eu digo, tem muito que se lhe diga e precisamos de analisar com serenidade esta posição, porque não veio a lume tudo o que provoco esta medida extrema.
É uma posição extrema da parte do Papa Francisco, após um processo meio esquisito que andou à volta de uma outra demissão. Este braço-de-ferro entre Matthew Festing e o Papa Francisco arrastava-se desde dezembro depois de um dos cavaleiros de topo da ordem, o alemão Albrecht Freiherr von Boeselager, ter sido demitido por ter permitido a utilização de preservativos num projeto no âmbito da saúde destinado aos pobres.
Não é que isto revele qualquer alteração da Igreja Católica quanto à doutrina sobre os contraceptivos, até porque o cavaleiro alemão, já afirmou que este foi apenas o pretexto e que ele seria uma vítima da guerra que os conservadores teimam em alimentar contra as reformas do Papa Francisco. Daí se compreender que circulem agora notícias que o Cardeal Burke, o rosto principal da oposição ao Papa Francisco, parece, que aconselhou o líder da Ordem de Malta, agora demitido, a desobedecer ao Papa.

2. Gostaria de me referir a dois pontos que considero essenciais nesta «guerra» entre o Papa e os conservadores. Um, é que, muitos dos problemas da Igreja Católica têm sempre como epicentro a questão da sexualidade. Outro, é que, os conservadores, finalmente, demonstram o que valem e que a «devoção» doentia ao Papa só existe enquanto o Papa corresponde aos seus interesses.

3. O tema da sexualidade na Igreja tem sido mais do que debatido. Até já cansa termos que reconhecer que muita da falta de credibilidade da Igreja perante a sociedade tem como uma das suas causas esta obsessão desajustada e inábil da sexualidade. A meu ver não deve «meter-se» a falar tanto sobre esta temática, uma instituição que afunila a sexualidade, não a reconheça como dimensão fundamental da pessoa humana, que tenha posições tão contra a dignidade humana, muitas vezes até ao ponto de querer inverter o curso natural das coisas. Por isso, sempre que se mete por aí falha redondamente e acaba a falar para o vento. Ninguém ouve e provoca descrédito, chacota e ridicularização. Não me admira nada que esteja instalada a confusão entre o Vaticano e a Ordem dos Cavaleiros de Malta. E sobre estas demissões, não sabemos da missa a metade.

4. A segunda questão. Nos tempos fortes do «endeusamento» do Papa João Paulo II e Bento XVI, lembro-me como tantas vezes não se podia falar, não se podia discordar e nem muito menos dizer-se uma frase que contestasse o Papa. Várias vezes ouvi: «aquela parede é branca, mas se o Papa disser que é preta, passo a dizer que é preta».
Felizmente, os tempos do Papa Francisco vieram quebrar este enguiço do seguidismo cego e surdo. É ele o primeiro, a dizer que gosta de ser confrontado com visões diferentes. Obviamente, que os tais conservadores do seguidismo dos Papas transactos, agora esperneiam e demonstram o seu desgosto perante as posições e as reformas do Papa Francisco, ao ponto de porem em causa, o seu sacro santo «sacramento», ouvir e seguir o Papa sem contestá-lo. Não lhes servem, afrontam e alimentam uma guerrilha preocupante, que não vislumbramos até onde nos vai levar. É preocupante.

5. Por fim, resta dizer que se espera que toda a Igreja caminhe com o Papa Francisco, para que o processo de «mudanças» venha a ter impacto em toda a Igreja Católica. A grande riqueza da Igreja é a sua diversidade e diferença. O esforço do Papa Francisco, desde o início, tem sido incluir todas as sensibilidades, é por isso, que se espera de todos, uma abertura a este espírito, para que nunca mais se volte aos tempos negros da condenação de teólogos, à recusa porque sim ao pulsar da vida de hoje e às posições intransigentes anti evangélicas contra aqueles que eventualmente tenham caído na desgraça do insucesso matrimonial. Nunca mais uma Igreja de puros e iluminados, mas uma Igreja em marcha, feita por pecadores que buscam o amor e o perdão de Deus.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

As Bem-Aventuranças - O Sermão da Montanha

Domingo IV tempo comum. Comentário para a missa deste fim de semana...
O Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus é o texto mais importante do Novo Testamento. Aqui estão expressos os principais conceitos do cristianismo e contém, sem dúvida, a síntese da mensagem de Jesus. Afirmava Mahatma Gandhi que se toda a literatura ocidental se perdesse e restasse apenas o Sermão da Montanha, nada se teria perdido.
O Sermão começa com as Bem-Aventuranças, que são a síntese dos passos da iniciação cristã, que é o processo de evolução do espírito na sua jornada terrena. Aqui estão descritos, de um modo impressionante e com uma clareza cristalina, os passos que cada pessoa deve seguir para chegar ao Reino dos Céus.
1. Os pobres de espírito: a vida não é só matéria.
2. Os que choram e sofrem: as coisas do mundo não dão satisfação plena.
3. Os humildes ou mansos: quem tudo quer tudo perde, quem não pensa só em si, mas também nos outros, nada lhe falta, Deus está com ele.
4. Os que têm fome e sede de Justiça: quem não se acomoda com as coisas más, procura fazer tudo pela justiça e pelo amor.
5. Os misericordiosos: a verdadeira Misericórdia vem depois da Justiça. Só é misericordioso quem for Justo, fora disto temos «pena» (comoção injusta) e dó dos nossos semelhantes, por egoísmo, que neste caso falará sempre mais alto e tomará conta da vida.
6. Os puros de coração: são os que vivem sempre e de acordo com a vontade de Deus.
7. Os que fazem a paz: sem a paz não há felicidade.
8. Os que sofrem perseguição por causa da Justiça: Cristo é o exemplo.
9. Vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem, dizendo todo o mal contra vós por minha causa, a glória do cristão está no sofrimento que sente por causa do projecto do Reino que anuncia.
Finalmente, fica o ensinamento de São Francisco de Assis, muito bem associado ao desafio da prática das Bem-Aventuranças:
«O que temer? Nada. A quem temer? Ninguém. Por quê? Porque aqueles que se unem a Deus obtêm três grandes privilégios: omnipotência sem poder; embriaguez, sem vinho; e vida sem morte». 

Desvendar o Dilúvio, a Arca de Noé e a Torre de Babel

Haim Baharier nasceu em Paris, de pais judeus polacos, que passaram ambos pelo horror de Auschwitz. Vive em Milão, Itália.
Foi aluno de Emmanuel Levinas, um dos maiores filósofos do século XX, e de Léon Ashkenazi, o pai do renascimento do pensamento judaico na França 
Comerciante matemático e psicanalista, mas também de consultor precioso e negócios, há anos que pratica uma exegese bíblica, na qual a cabala e o comentário talmúdico se entrelaçam. 
Em conversa com Antonio Gnoli, do jornal La Repubblica, em 20 de janeiro de 2017, faz uma leitura nova das histórias do Dilúvio universal, da Arca de Noé e da Torre de Babel.

«Por um lado, há a humanidade que será afogada no Dilúvio universal e, de outro, está Noé, que se salvará numa arca. O que essa Arca representa? Arca, em hebraico teva, também significa «palavra». No texto, relatam-se as medidas da Arca: altura, comprimento, largura. Os valores numéricos (em hebraico, as letras também servem como números) correspondem à palavra «linguagem». Noé, que se salva, é o antepassado de Abraão, que, por meio da linguagem e da palavra, inaugura a identidade judaica. Nesse sentido, a história do Dilúvio e da salvação representam as origens arcaicas dessa identidade.
É como um ato de fundação, e, como tal, requer o nascimento de uma nova linguagem. A velha linguagem serviu para contornar a punibilidade das leis, para encobrir a verdade, e não para a revelar. Hoje, conhecemos perfeitamente o que é a manipulação da linguagem, o uso das palavras que nos afastam da verdade.

Então, o naufrágio de que a Bíblia fala tem algo em comum com o nosso naufrágio?
O grande naufrágio do nosso mundo tem muito que ver com o Dilúvio. A história do Dilúvio é comum a muitíssimas civilizações e religiões. No entanto, a narrativa bíblica se diferencia das outras na medida em que insiste em como nos salvamos da catástrofe.

Depois do Dilúvio, temos a história da Torre de Babel. O que significa essa sequência?
Reforça a história anterior. O texto bíblico fala de uma cidade em construção, cujos construtores parecem prisioneiros de uma linguagem composta por palavras únicas comuns. Nessa cidade, que não reconhece as virtudes da diversidade, não há línguas diferentes. Há uma língua vertical, monolítica e ameaçadora, que impede o desenvolvimento horizontal das línguas plurais. A Torre de Babel, em última análise, mostra o nascimento da linguagem absolutista. Nessa linguagem, já estão presentes implicitamente todos os totalitarismos e os fascismos da história.
A Torre de Babel é o fim da ilusão do “como seria bom se todos falássemos a mesma língua”. Isso não é nada bom, isso anula o tempo da reflexão, da aprendizagem, da dúvida, da contradição. A incompreensão generalizada no nosso mundo conectado na rede é a versão atual da Torre de Babel. Estamos novamente mergulhados na ignorância da diferença entre linguagem e língua.
Publicado por Fraternitas Movimento

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Nova rubrica no Banquete da Palavra

«Deus e eu»
Hoje iniciamos a secção «Deus e eu» no Banquete da Palavra. É um espaço aberto à participação dos amigos do Banquete e do facebook, convidados por mim a escreverem um texto inédito sobre o seu posicionamento pessoal face a esta expressão: «Deus e eu». Não podíamos começar melhor. Temos logo a abri um texto magnífico do amigo Nuno Morna, escrito em exclusivo para os leitores e seguidores do Banquete da Palavra. Vai ser uma secção que vai dar que falar. Assim espero. Agora desfrutem…
25 janeiro de 2017
Tenho de Deus uma perspectiva judaica. Não sei se isso advém da minha costela de cristão-novo, se de um relacionamento que fui criando com ele de parceria.

Pode soar a blasfémia, mas Deus é um bocado de mim. Acompanha-me sempre porque em mim. Penso mesmo que temos todos um quê de divino. Porque assim o entendo, tenho a certeza da divindade que reside nos outros. É por isso que se todos formos criando a habilidade de nos admirarmos uns aos outros estamos no caminho correcto para um mundo melhor. Porque da admiração vem o respeito e do respeito o amor.

Não há dia em que com Ele não fale. E são conversas que por vezes passam além do cordato. Dos assuntos do dia-a-dia, aos de cariz mais filosófico. De tudo falamos. E não é um falar de mim para mim como se poderia pensar. São verdadeiras conversas entre duas entidades que porfiam o mesmo caminho. Entre duas entidades onde uma procura orientar a outra dando-lhe a capacidade de poder escolher as vias a seguir, os caminhos a trilhar.

É o livre arbítrio que nos guia. Esse “terrível” poder que Deus nos deu de sermos responsáveis pelas nossas decisões, de delas colhermos os benefícios ou prejuízos, como tão bem explica Santo Agostinho em De Libero Arbitri. Se Agostinho diferencia e considera o livre arbítrio a possibilidade de escolhermos entre o bem e o mal e a liberdade o bom uso do mesmo, para mim tudo isto se mistura.

Se houvesse que definir um lugar onde colocar a alma, esta residiria entre o coração e a cabeça. O coração que sofre e se alegra, o coração dos estados de espírito que coabita no mesmo corpo com a razão, o conhecimento, o lado que comportamos como mais racional.

E é sumula de tudo isto que forma aquilo que somos, o que representamos: entidades únicas e irrepetíveis condenadas a se entenderem em paz e pela solidariedade sob pena de um dia deixarmos de ser.

E a culpa não será certamente de Deus.

Nuno Morna 

A riqueza da diversidade faz Deus estar presente

Oitavo dia da unidade 2017 (tirado de Fraternitas Movimento AQUI)
A unidade dos cristãos
18 a 25 de janeiro 2017 – Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

25 de janeiro de 2017 – oitavo dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: texto bíblico, oração e meditação
Tema do DIA 8 – Reconciliados com Deus (2.ª Carta aos Coríntios 5, 20)
Oração
Deus, Pai, Filho e Espírito Santo!
Nós te agradecemos por esta Semana de Oração,
por estarmos juntos como cristãos
e pelas diferentes maneiras
como experimentamos a Tua presença.
Queremos saber estar unidos em Teu nome,
para continuarmos a crescer em unidade e reconciliação.
Amém.

Meditação
E se as profecias na Bíblia se tornarem realidade?
E se as guerras entre povos pararem? E se das armas se produzirem instrumentos capazes de dar vida?
E se a justiça e a paz reinarem, uma paz que seja mais do que simplesmente a ausência de guerra?
E se toda a humanidade se unir para uma celebração na qual nem mesmo uma única pessoa seja marginalizada?
E se, de facto, não houver mais luto, nem lágrimas, nem morte?
O certo é que isso acontece. Não é uma experiência universal, mas é vivida em alguns lugares. E onde acontece é porque Deus está presente, e onde Deus está, existe Céu, existe nova Terra.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O clericalismo

1. Tantas vezes se diz, com toda a propriedade, que onde existe anticlericalismo há seguramente clericanismo. O Papa Francisco voltou a referir-se ao clericalismo com palavras nada brandas na entrevista que deu ao El País. Disse sentenciando que «O clericalismo, a meu ver é o pior mal que pode ter hoje a Igreja». Partilhei no fecebook esta frase e uma pessoa perguntou o que é o clericalismo. Fez bem ter feito a pergunta, porque muitas vezes, consideramos que os termos que usamos são todos percetíveis por todas as pessoas. Mais uma vez provou-se que não é assim. Neste caso, já que tal pergunta apareceu, aproveito para apresentar aqui algumas considerações sobre o que é o clericalismo.
 
2. O clericalismo é o domínio exagerado do poder do clero, dentro e fora da Igreja Católica. O Concílio Vaticano II definiu que a Igreja é formada pelo conjunto do povo de Deus, todos os batizados pertencem e são a Igreja. O clero quando se destaca, saindo fora dessa realidade, chama-se clericalismo. Por isso, o Papa Francisco considera que o clericalismo é «fruto de uma má vivência da eclesiologia exposta pelo Vaticano II».

3. A atitude clerical não produz fraternidade. É mais uma forma de poder que ao invés de servir gera, dominados e dominadores. Só isto é suficiente para repararmos que esta atitude está totalmente contra o espírito de Jesus de Nazaré e do Seu Evangelho. Assim, o Papa Francisco faz o grave rol das consequências do clericalismo. «Esta atitude não só anula a personalidade dos cristãos, mas também gera uma tendência a diminuir e desvalorizar a graça batismal que o Espírito Santo colocou no coração das pessoas. O clericalismo anula a personalidade dos cristãos e leva a uma ‘homologação’ do laicado. Tratando-o como mandatário, limita as diversas iniciativas e esforços e, ousa negar, as audácias necessárias para poder levar a Boa Nova do Evangelho a todos os âmbitos da atividade social e sobretudo política».

4. Penso que será mais que suficiente considerar o seguinte como elementos bem reveladores do veneno fatal que é o clericalismo e que tem toda a razão o Papa quando afirma que o clericalismo é o pior mal que afeta a Igreja Católica hoje. Vejamos o seguinte: «O clericalismo longe de impulsionar as distintas contribuições, propostas, pouco a pouco vai apagando o fogo profético que a Igreja toda está chamada a dar testemunho no coração dos seus povos. O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus (cf. LG 9-14) e não só a poucos eleitos e iluminados». O clero é povo, nasce do povo e o seu «sangue» só pode ser o povo. Quando o clero não está ciente disto e não pratica isto, estamos claramente, perante o veneno do clericalismo.

Superar as divisões dentro do Cristianismo

Sétimo dia da unidade 2017 (tirado de Fraternitas Movimento AQUI)
A unidade dos cristãos
18 a 25 de janeiro 2017 – Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

24 de janeiro de 2017 – sétimo dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: texto bíblico, oração e meditação

Tema do DIA 7 – «Deus nos reconciliou consigo e confiou-nos o ministério da reconciliação» (2.ª Carta aos Coríntios 5, 18-19)
Meditação
Deus não quer o sofrimento nem a discórdia. E se estes existem por causa da natureza humana e finita do mundo, Ele faz-Se presente para sarar os relacionamentos quebrados.
Os cristãos, em dois mil anos de História, cometeram muitos erros. Todavia, Deus suscitou grandes reformadores, como Martinho Lutero, Ulrich Zwinglio e João Calvino, Inácio de Loyola, Francisco de Sales e Carlos Borromeu, entre muitos outros, que contribuíram para a renovação das Igrejas cristãs.
A esta presença de Deus o apóstolo Paulo chama «serviço da reconciliação», que inclui o trabalho para superar as divisões dentro do cristianismo. Hoje, muitas Igrejas cristãs trabalham juntas com mútua confiança e respeito.
Oração
Deus de bondade,
nós te agradecemos por reconciliares o mundo inteiro contigo em Cristo.
Dá ânimo e vigor ao serviço da reconciliação em todos e cada um de nós,
nas nossas comunidades e nas nossas Igrejas.
Cura os nossos corações obstinados e ajuda-nos a espalhar a tua paz.
“Onde houver ódio, faz-nos semear o amor;
onde houver injúria, o perdão;
onde houver dúvida, a fé;
onde houver desespero, esperança;
onde houver escuridão, luz;
onde houver tristeza, alegria”.
Assim te pedimos em nome de Cristo Jesus,
pelo poder do Espírito Santo.
Amém.

O Papa imparável não dá descanso

«O site da revista America, dos jesuítas americanos, anunciou a nomeação do arcebispo de Boston, o cardeal franciscano Sean P. O’Malley, como membro pleno da Congregação para a Doutrina da Fé. O’Malley é um cardeal progressista, da confiança de Francisco.
A nomeação é um estrondo. A Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora do Santo Ofício, sempre foi dominada pelos conservadores e promoveu nas últimas décadas perseguições a teólogos, teólogas, sacerdotes e leigos progressistas. O prefeito (chefe) da Congregação é o cardeal alemão conservador Gerhard Müller, que buscou aproximações com o Papa nos últimos meses e distanciou-se do grupo radical dos quatro cardeais das “dubia” que lideram uma mini rebelião contra Francisco. Com a chegada de O’Malley à Congregação, o equilíbrio de forças sofre uma mudança histórica - estará ele sendo preparado para a sucessão de Müller?» 
In blogue de Mauro Lopes, «Caminho Pra Casa».

Nunca haverá unidade de ideais sem reconciliação permanente

Sexto dia da unidade 2017 (tirado de Fraternitas Movimento AQUI)
A unidade dos cristãos
18 a 25 de janeiro 2017 – Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

23 de janeiro de 2017 – sexto dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: texto bíblico, oração e meditação
 
Tema do DIA 6
Deus nos reconciliou consigo (2.ª Carta aos Coríntios 5, 18)
Oração
Misericordioso Deus,
que por amor fizeste uma aliança com toda a humanidade;
fortalece-nos para que possamos resistir a todas as forma de discriminação;
que o dom de tua amorosa aliança nos encha de alegria e nos inspire a construir uma unidade maior. Amém.
Meditação
A reconciliação tem duas faces: é fascinante e assustadora ao mesmo tempo.
A reconciliação atrai, pois é bom e agradável viver em concórdia. Desejamos viver reconciliados dentro de nós mesmos, uns com os outros e entre as diferentes comunidades cristãs e religiões.
A reconciliação assusta, porque significa renunciar aos nossos desejos de poder e de reconhecimento: ter razão; ser maioria; ser os melhores; ser os únicos verdadeiros cristãos, etc.
Em Cristo, Deus não perdoou e reconciliou somente os judeus, ou os cristãos, mas toda a Humanidade, e, mais ainda, todo o conjunto da criação.
Do mesmo modo, todas as Igrejas são chamadas a cultivar a reconciliação, vencendo todas as formas de discriminação humana.

sábado, 21 de janeiro de 2017

O perfil do cristão em qualquer confissão religiosa

Quinto dia da unidade 2017 (tirado de Fraternitas Movimento AQUI)
A unidade dos cristãos
18 a 25 de janeiro 2017 – Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
22 de janeiro de 2017 – quinto dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: texto bíblico, oração e meditação
Tema do DIA 5
«Se alguém está em Cristo, é uma nova criação» (2.ª Carta aos Coríntios 5, 17)

Oração
Deus,
Tu te revelaste a nós como Pai e Criador,
como Filho e Salvador,
e como Espírito e doador de vida,
e ainda assim és Um;
ultrapassas as nossas fronteiras humanas e nos renovas;
dá-nos um novo coração para vencer tudo que põe em risco nossa unidade em Ti.
Amém.
- Meditação
Paulo, depois de conhecer Jesus Cristo, tornou-se uma pessoa renovada. Acontece exatamente o mesmo a todos que creem Nele.
O cristão renovado põe em prática as obras do Espírito Santo:

Aprende com humildade
Ensina, praticando
Orienta, educando
Obedece, colaborando
Ama, edificando
Teme apenas a si mesmo
Sofre, aproveitando o desejo de melhoras para encontrar soluções
Fala, entusiasmando
Ouve, sem julgar
Ajuda, elevando o próximo
Ampara, levantando
Aproxima-se, servindo
Ora serenamente
Pede com consciência e justiça
Espera, trabalhando a parte que lhe compete
Crê, agindo
Confia vigilante
Recebe, distribuindo
Atende com gentileza
Coopera sem procurar recompensa
Socorre, melhorando
Examina, salvando
Esclarece, com caridade fraterna
Semeia para que outros colham os melhores frutos
Estuda, aperfeiçoando-se e ao património da humanidade
Caminha com todos
Avança, auxiliando quem fica para trás
Age pensando no bem comum
Corrige-se com gratidão
Perdoa sempre
(André Luiz)

Génesis

Ensaio poético para o nosso fim de semana. Sejam felizes, nunca prejudicando ninguém.
Respiro o ar da luz que faz a existência
do mundo todo quando cabe numa mão
mesmo que eu não tenha um justo merecimento
do húmus sagrado na hora do Génesis que fez o homem.
mas há sempre o vidro embaciado pelo fogo
quando um princípio se faz pela manhã de uma semente.

Respiro o trigo recolhido porque despertei com fome 
então comi o pão por direito
quando antigamente o homem era escravo vergado
como o ressoar da água na cascata do abismo.
Uma nuvem solitária, líquida que se fez chuva 
sobre a pele e a carne de todas as palavras 
medidas pelo frio do medo que não permite o voo
sobre as colinas do tempo, logo no começo. 

Respiro isolado naquela margem onde se ouviu a voz
desde a origem de um tsunami altivo 
sou eu barro não cozido, frágil como o vento
mas melhor seria um espírito sentido pelo fogo
no começo que nunca mais ninguém entendeu.
JLR

Os cristãos só podem ser gente do presente e do amanhã

Quarto dia da unidade 2017 (tirado de Fraternitas Movimento AQUI)
A unidade dos cristãos
18 a 25 de janeiro 2017 – Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 
21 de janeiro de 2017 - quarto dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos: texto bíblico, oração e meditação
Tema do DIA 4
O mundo antigo passou (2 Coríntios 5, 17)

Oração
Senhor Jesus Cristo,
o mesmo, ontem, hoje e para sempre,
cura as feridas do nosso passado,
abençoa a nossa peregrinação na direção da unidade hoje
e guia-nos para o futuro,
quando serás tudo em todos,
com o Pai e o Espírito Santo.
Amém.
- Meditação
Olhar para trás, para o passado, pode ser útil, e às vezes é necessário para a saúde das nossas memórias. Mas é mau se nos paralisa e impede de viver o presente.
Na Bíblia, olhar o passado é útil, quando é lembrar o bem que Deus tem feito e a vida renovada e entusiasmante daqueles que se tornam amigos de Deus; e é mau, quando o que fica na memória é a maldade praticada pelas pessoas. Dizem os entendidos que quem desejar ler a Bíblia de seguida, da primeira à última página, morrerá no deserto, no terceiro ou quarto livro, pois há muita violência nas páginas do livro Sagrado.
A Bíblia é uma escola pedagógica: vai ensinando a ultrapassar os defeitos humanos com o Amor constante de Deus, a inspiração do Espírito Santo e o exemplo de Cristo. A história feliz da Sagrada Escritura é a humanidade vencer os seus egoísmos e divisões, até ser o Povo de Deus que se completa na unidade.