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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A fé não é um guarda-chuva

O que a fé não é (4)
Nas tragédias onde está Deus?
Quando acontecem as tragédias e se nos afectam com maior proximidade, salta-nos logo as perguntas do costume: onde está Deus? Porque permite Deus, se é todo-poderoso, as desgraças que tanto sofrimento provoca?
Por isso, reparei que por estes dias estas questões estão bem presentes na nossa cabeça, agora que fomos outra vez atingidos por tanta chuva, que provocou medo, vários desalojados, sofrimento e um transtorno impressionante a todos os níveis. Basta que se converse com algumas pessoas para nos apercebermos destas inquietações. As redes sociais também têm feito eco desta perplexidade.
Perante estas perguntas habituais nos momentos de tragédia lembro-me sempre do episódio que se passou com Elie Wiesel no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Diz assim o relato: «voltávamos do trabalho uma tarde e vimos três forcas erguidas na praça do apelo. Ao nosso redor, os S.S., com metralhadoras apontadas, a cerimónia tradicional. Três condenados algemados. Um deles, uma criança, anjo dos olhos tristes [...]. Os três condenados subiram as cadeiras, juntos. Nos três pescoços foram colocados, ao mesmo tempo, os nós corrediços. – Viva a liberdade! – Gritaram os dois adultos. O pequeno estava calado.
– Onde está o Bom Deus? Onde está? – Perguntou alguém atrás de mim.
A um aceno do chefe do campo, as cadeiras foram retiradas [...]. Depois começou o desfile. Os dois adultos morreram logo. A língua pêndula, engrossada, arroxeada. Mas a terceira corda não estava imóvel, embora levemente, a criança ainda vivia... Mais de meia hora ficou assim, lutando entre a vida e a morte, agonizando sob os nossos olhos. Ainda estava vivo quando passei na sua frente. A língua ainda estava vermelha, ainda havia luz nos seus olhos. Atrás de mim ouvi o mesmo homem perguntar:
– Onde está Deus, então?
E eu sentia em mim uma voz que lhe respondia:
– Onde está? Ei-lo: está pendurado ali, naquela forca...» (Elie Wiesel: «A Noite»).
Face a esta reflexão do pensador judeu, somos levados a concluir que Deus está em cada uma das vítimas, na família desalojada, na idosa que verte lágrimas de dor porque perdeu tudo o que tinha, fruto de uma vida dura para construir a pequena riqueza que a abrigava e a fazia feliz naquele lugar que a água em abundância cerceou sem piedade. Deus está naquele herói que foi atingido por uma pedra e o «crime» que cometia era ajudar a limpar os caminhos, as casas que a intempérie abafou. Deus está na criança que pede pão e roupa. Está em todos os lugares onde o sofrimento, a solidão, a violência, a desordem, a miséria e tudo o que faz este mundo parecer um inferno, pondo em causa a vida com dignidade. Deus está…
Face a esta certeza salta-nos o pensamento de São Paulo e do profeta Isaías, «Ó Homem, quem és tu que queres discutir com Deus?» (Rm 9.20s), ou no profeta Isaías: «Pode um vaso de terra disputar com quem o fabricou?» (Is 45,9). Será por causa disto que a filosofia moderna sentencia sobre Deus o seguinte: «Deus está morto, e foi a sua compaixão pelos homens que o matou». («Assim falou Zaratustra» – Nietzsche).
Não nos submetendo a nenhuma máxima sentenciosa, somos agora levados a pensar que Deus está em todos os corações que se compadecem com a desgraça dos outros, por eles erguem a sua oração, saem de si mesmos e vão ao encontro com a sua amizade, a partilha, a ajuda. Deus está aí no amor que se dá sem condições. Deus está nas autoridades que assumem com verdade as suas responsabilidades e tudo fazem para minorarem a desgraça de quem perdeu o chão. Deus está em todo aquele que não fica indiferente à desgraça alheia. Deus está…
Pode estar no pequeno sinal, no sorriso, no abraço fraterno, no pão que mata a fome, na água que na hora H é vida que sacia a sede, no singelo pano que abriga do frio, na companhia que quebra a solidão, no aperto de mão que ajuda a levantar do chão e naquela mão que afaga os cabelos de todo o corpo que se contorce com por causa da dor… Por isso, descobrimos em Pascal a síntese daquilo que nos serve quanto à descoberta da presença de Deus em cada momento da vida. Digo em cada momento, seja bom ou seja mau, para que não nos lembremos Dele só quando nos apertam os calos. Já diz o ditado, «só nos lembramos de Santa Bárbara na hora dos trovões». O filósofo Pascal resume o que devemos crer: «Se consideramos só a perfeição de Deus, caímos no desespero, e se consideramos só o homem, caímos no orgulho. Enquanto que, somente considerando Cristo, ao mesmo tempo Deus e Homem, podemos enfrentar lealmente toda a nossa fraqueza e a nossa miséria, no horizonte de um amor misericordioso e pleno de esperança». In «Pensamentos» – Pascal.
Uma palavra pode fazer emergir o essencial de nós e podemos até perceber o que somos na desgraça e no sucesso. Na tristeza e na alegria. Na infelicidade e na felicidade, na saúde e na doença e em todos os dias da vida neste mundo… Numa palavra, em tudo e no tudo que a vida deste mundo pode ser. Vejamos então:
«Para que tivéssemos a Luz, veio-te a faltar a vista.
Para que tivéssemos a união, sentiste a separação do Pai.
Para que possuíssemos a Sabedoria, fizeste-te “ignorância”.
Para que nos revestíssemos da inocência, fizeste-te “pecado”.
Para que Deus estivesse em nós, sentiste-o longe de ti. In «Ideal e Luz» – Chiara Lubich.
Neste caminho de errâncias múltiplas somos tocados pelo desânimo, até pelo desespero, porque a vida é frágil, inconstante e cheia de limitações. A natureza, também se desequilibra fazendo da vida humana uma tristeza nalgumas ocasiões. No «Amor de todo amor» As fontes de Taizé do Irmão Roger de Taizé, podemos ler: «Nem o sofrimento, nem a angústia humana são desejados por Deus. Ele não se impõe. Deixa-nos livres para amar ou não amar, para perdoar ou rejeitar o perdão. Mas Deus nunca assiste passivamente ao sofrimento dos seres humanos. Ele sofre com o inocente, vítima da incompreensível provação; Ele sofre com cada um. Existe uma dor de Deus, um sofrimento do Cristo».
Mas, muita da dor provocada pelas tragédias resulta da irresponsabilidade, da incúria, dos desmandos, dos abusos, da violação dos espaços e das regras das forças da natureza. Então, temos a factura que a natureza nos envia carregada com valores elevados de destruição, desolação, sofrimento e morte.
Esta reflexão de Taizé vem na senda do pensamento de São Paulo quando diz: «Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundidade, nenhuma outra criatura pode separar-nos do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor». (Rom 8,38 – trecho completo Rom 8,18-39). Eis o que pode ser alguma luz que clarifica o entendimento na incompreensibilidade que a existência sempre implica.
Porém, sempre que a tragédia se faz sentir a perplexidade é sempre legítima, mas também que ao seu lado se busque a serenidade. O mistério faz parte da existência e aprender a conviver com ele será sempre o melhor argumento para encontrar algum sentido. Não digo o «guarda-chuva» que nos dá alguma segurança, porque a chuva nem sempre cai na vertical, algumas vezes cai torta de forma horizontal e na diagonal levada pelo vento. Nestes momentos não há «guarda-chuva» que nos safe.
O seguinte pensamento pode ajudar. Vejamos: «O facto de Deus deixar as vítimas morrerem é um escândalo irrecuperável, e a fé em Deus tem que passar através deste escândalo. Nesta situação, a única coisa que o crente pode fazer é aceitar que Deus está na cruz, impotente como as vítimas, e interpretar essa impotência como o máximo de solidariedade com elas. O anúncio missionário, entre a misericórdia e a cruz, revela que o nosso Deus é vulnerável, sofredor e compassivo porque morre com os crucificados da história» - disse o Pe. Giorgio Paleari – Mundo e Missão (abril/2001).
Para todos os momentos da vida e da história concreta da existência que nos mova o seguinte: «Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem», Papa João Paulo II.
Imagens Google...

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