Alta literatura do «nosso» pensador e ensaísta Eduardo Lourenço para analisar a resignação do Papa Bento XVI... A não perder.
- Desta vez, e literalmente, a ficção ultrapassou a realidade. Não houve profecia ou perspectiva racional que a antecipasse.
Caiu do céu mediático, fascinou-o como o raio que feriu o templo de Bramante de Miguel Ângelo. Tudo isso, porque um Papa decidiu, com surpresa universal, abandonar um trono que não tem outra realidade que a de uma fé milenária num Poder sem outro poder que o da crença num Deus sem Poder. Como se não bastasse, o último Papa canónico, por decisão própria, encenou a sua retirada de cena com uma mestria consumada. A imagem do helicóptero sobrevoando o Vaticano podia ser a versão pós-moderna da ascenção de Jesus num mundo sem transfigurações propriamente divinas.


Inesperado foi que a mais espectacular expressão desse désarroi quase palpável nos viesse do centro espiritual e histórico da mesma Europa, consciente da sua agonia política e cultural. E talvez mais do que tudo ética, e por assim dizer, metafísica. E, sobretudo, que a sua encarnação e a sua figura não fossem as de um Sansão sobre-humano capaz de abanar as colunas do templo, mas as de uma criatura de aspecto frágil e delicado, apenas mais consciente do que o comum dos mortais da espécie de noite ou da clara agonia de um velho mundo que ninguém pode salvar senão assumindo-as, descendo silenciosamente ao seu próprio túmulo e deitando-se nele esperando aí uma profética ressurreição. Em suma, unindo paradoxalmente a versão redentora do Cristianismo e a sua versão nietzschiana: “só os túmulos conhecem as ressurreições”. (Quem diria melhor do que isto senão um filósofo...).
Mais prosaicamente a sua despedida deste mundo e neste mundo é, ao mesmo tempo, uma despedida real e uma recusa de um mundo que não tem mais futuro que o seu presente sem futuro, resignado ao culto idólatra do seu poder e da sua glória. Quer dizer, uma despedida sem fim por conta de uma esperança e de um outro mundo — o nosso— em perpétua busca de si mesmo, como virtualmente eterno.
Eduardo Lourenço, com a devida vénia, in Público 5 de Março de 2013.
ensaísta
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